Uma FITCH nada “FIXE”!

(Joaquim Vassalo Abreu, 06/02/2017)

 

fitch

Eu sei que o Galamba já escreveu acerca da FITCH, mas como o Galamba é o Galamba e eu sou apenas um simples Vassalo, enquanto ele lhe pegou à forcado (digo assim porque temos que ter cuidado com as palavras…), eu decidi pegar-lhe de cernelha!

E então a Fitch não foi nada “fixe” porque, mesmo indo de encontro ao optimismo do Presidente Marcelo que, embora considerasse ser Portugal merecedor de melhor “lixo”, já se contentava com o que tem, manteve o nosso “rating” nesse tal “lixo”, o que fez exasperar e decepcionar a nossa Marilu, que considerou essa atribuição “uma má notícia”.

De modo que me assaltou a inevitável pergunta: O que seria para esta nossa notável produtora do mais variado “garbage” uma boa notícia? Um melhor lixo, assim um de qualidade superior, exportável mesmo, ou um sublixo, inclassificável e de reputação duvidosa e de pouco valor?

Um lixo exportável, sim, pois me lembro de ter ouvido há uns tempos uma notícia que dava conta de um montão de lixo, ali para os lados do sul, meio que abandonado e com origem de Nápoles! De Nápoles? Eu nem queria acreditar e logo pensei com os meus botões: querem ver que…mas fiquei logo por aí, não fosse a minha mente levar-me para tortuosos e perigosos pensamentos e até pensei que deve por aí haver um adágio qualquer que diga que: “quem se mete com lixo, lixa-se”, de modo que encerrei assim a coisa.

Mas, pelos vistos, há quem não se lixe, antes pelo contrário, e não sei se não será o caso da Marilu.

Pois vejamos: Se a Marilu achou a manutenção da classificação uma má notícia, quererá ela dizer que Portugal era merecedor de uma categoria superior de lixo? Um lixo catado e escolhido, separado de excrementos, de plásticos e objectos cortantes, um lixo utilizável e reutilizável, resultado de um aturado trabalho de tratamento e coisas assim? Não o creio, pois uma conclusão assim sofreria de uma insanável contradição e seria, para ela, uma capitulação. Não seria a aceitação do sucesso das políticas deste governo, políticas que tanto ela como o seu aluno tanto abjuram? Nem pensar! Eles ainda nem acreditam sequer que o défice ficou abaixo dos 3%, quanto mais nos 2,2 ou 2,3! Impossível, dizia ela, como impossível será eu lhe conceder essa leitura.

Donde concluo o óbvio: Ela ficou para lá de “fula” com a manutenção da qualidade do nosso lixo. Ela queria é que fosse considerado um lixo mais lixo ainda, um lixo inclassificável e apropriado à imagem desde também inqualificável, para ela, governo. Mas a Fitch não foi “fixe” a manteve inalterável o nosso lixo.

De modo que assim num repente (estas coisas surgem assim e não há nada a fazer), eu atingi a luz do lixo e um clarão, um trovão mesmo que me ia pondo os neurónios em curto circuito, iluminou a minha mente e a inevitável pergunta: Mas a Marilu não compra e vende “lixo”?  Na ARROW, sim na ARROW, na Flecha, essa mesma? A ARROW compra lixos vários (a que alguns chamam de “créditos malparados” e coisas assim, mas que não passam de lixos…) e vende esses mesmos lixos, mas já devidamente separados e reclassificados, não é?

Ora sigam lá o meu raciocínio: A FITCH, portanto, ao manter imutável a qualidade (ou preço) do nosso lixo, não o desvalorizando, não aportará mais valias para a Marilu e para a sua “Flecha”, um acréscimo de margem, em suma, que era o que ela sonhava, matando assim dois coelhos (salvo seja) com um tiro só. Saiu-lhe o tiro pela culatra, está visto!

Eu já sei que, à semelhança de outras vezes, uns vão dizer que eu devo andar a tomar coisas pois venho para aqui com teorias delirantes, outros que tenho uma fixação na dama, mas também dizem que também tenho no “damo”, mas eu digo-vos: nada disso! O único vício que tenho é fumar e cigarros de marca conhecida! Ah, e também bebo maduro tinto, e só!

Para a Marilu, está então mais que óbvio, quanto pior for o lixo melhor ele será e, também para ela, quem se mete com o lixo, sai sempre rico. Como os sucateiros com as sucatas: é igual!

E tanto é verdade que o DN ou o JN, dá no mesmo, trazia ontem uma notícia que dizia: Catorze (14) banqueiros portugueses, em Portugal, ganharam o ano passado mais de um milhão cada um. Eu sei que há todas as semanas um sorteio de um milhão, mas não, eles ganharam-no a produzir “lixo”. Esse mesmo que a Marilu e a Arrow compram…

E eu é que deliro, não é?


Fonte aqui

A Fitch e o rating

(João Galamba, in Expresso Diário, 06/02/2017)

galamba

Vale a pena consultar o que a Fitch foi dizendo ao longo dos últimos dois anos sobre Portugal e os bancos portugueses para perceber a razão pela qual o rating da dívida pública portuguesa não seguiu a trajectória que, durante o ano de 2015, se esperava que viesse a ocorrer em 2016 e 2017. Não é porque este Governo existe, como Maria Luís Albuquerque afirmou num evento da JSD, é porque a verdadeira dimensão dos problemas e desafios no sector financeiro só se tornou conhecida após as eleições. A 25 de Setembro de 2015, a poucos dias das eleições, a Fitch dava um rating BB+ com outlook positivo à dívida pública portuguesa. Portugal, dizia a Fitch em comunicado, tinha a economia a crescer em linha com a média da zona euro, ia ter um défice abaixo dos 3%, o que permitiria sair do procedimento por défices excessivos, e apresentava um sector financeiro estável. O único risco era o adiamento da operação de venda do Novo Banco que criava “um risco elevado do Novo Banco ser vendido por menos do que o valor da sua capitalização (4,9 mil milhões de euros)”. Até na Caixa Geral de Depósitos o discurso do então Primeiro-Ministro era sobre o reembolso do dinheiro injectado pelo Estado, e não de qualquer necessidade adicional de capital. Ou seja, até às eleições, o que se discutia era quanto é que o Estado ia reaver do dinheiro injectado no sector financeiro, não quão mais é que teria de injectar no futuro. Desde então, tudo mudou.

O Banif, que a Fitch considerava estável, foi resolvido a 20 de Dezembro, menos de um mês após a tomada de posse do actual Governo.
Também em Dezembro, no dia 29, por determinação do Fundo de Resolução, o Novo Banco foi recapitalizado em mais 2 mil milhões de euros. Em menos de uma semana um banco tido como estável desapareceu e um banco tido como sólido e uma resolução tida como irrepreensível resultaram em algo que a Fitch classifica de “restricted default”. 6900 milhões de euros de capital depois, a melhor oferta pelo Novo Banco implica que o Estado tenha de pagar para vender. A estabilidade de Setembro de 2015 revelava-se, assim, uma ilusão. Isto teve impacto na credibilidade do país, levou a um ajustamento (em alta) da trajectória da dívida pública e, em março, a uma degradação do outlook do rating, que passou de positivo a estável. Desde então, e até ao presente, a Fitch diz que a situação melhorou. Sim, melhorou. É certo que a realidade é pior do que se esperava, mas, depois de desfeita a ilusão da saída limpa alimentada até às eleicões, os problemas têm sido enfrentados e estão resolvidos ou em via de resolução: o problema da recapitalização da Caixa foi resolvido, o BCP foi recapitalizado e as dúvidas em torno da estrutura accionista do BPI desapareceram. O maior problema, que vem de trás, e que a oposição não parece considerar ser um problema, muito menos uma prioridade, é a questão do crédito mal-parado, que a Fitch reconhece ser uma prioridade política do actual Governo. Uma solução sistémica para este problema parece ser, para a Fitch, um evento que melhoraria as perspectivas para a evolução do rating Português. Se tal vier a acontecer, será seguramente por causa de medidas do actual Governo, medidas que deviam ter sido tomadas no passado e cujo adiamento prejudicou o financiamento da economia portuguesa.

Ao contrário do que afirmou Maria Luís Albuquerque, a situação não se deteriorou face a 2015, deteriorou-se face previsto (e anunciado) até às eleições, mas está agora melhor face ao que a Fitch previa quando, em Março, já sem a ilusão da saída limpa, baixou o outlook da dívida portuguesa de positivo para estável. O sector financeiro está estabilizado ou em vias de estabilização. O défice, com ou sem medidas extraordinárias, vai ficar bastante abaixo do que a Fitch previa em Março, permitindo – finalmente – a saída do procedimento por défices excessivos.

O emprego e as contribuições sociais crescem acima do que cresceram em 2015 e bastante acima do que a Fitch achava possível. A economia está melhor do que estava quando o actual Governo assumiu funções: estava a desacelerar, baixando para 1.4% no segundo semestre de 2015, e agora está (em termos homólogos) a crescer acima do que cresceu em 2015 e a acelerar, terminando o ano a crescer mais do que os 1,6% do terceiro trimestre. A Fitch prevê que a economia cresça 1,5% em 2017, exactamente o mesmo que previa para este ano, em 2015, quando o outlook era positivo.

O poder excessivo das agências de rating

(Paul de Grawe, in Expresso, 21/10/2016)

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                    Paul de Grawe

O BCE delega em quatro agências de rating o seu poder de decidir que dívida deve comprar. Dá um tremendo poder a indivíduos obscuros

Os mercados financeiros portugueses estão nas mãos de uma obscura agência de rating canadiana, a Dominion Bond Rating Service (DBRS). À data em que publicamos esta coluna, a DBRS já deve ter atualizado o rating da dívida soberana portuguesa. Um downgrade significaria que as taxas de juro da dívida subiriam ainda mais, prejudicando gravemente a economia lusa. Recentes declarações do economista-chefe da DBRS já levaram a aumentos significativos nas obrigações a 10 anos.

Como é que uma agência tão pequena tem tanta influência? Decerto que não é pela força da sua análise. Verifiquei alguns dos relatórios da DBRS relativos a outros países da zona euro. São exercícios de corta e cola de relatórios oficiais existentes, do FMI, da Comissão Europeia e da OCDE. Os meus alunos da Escola de Economia de Londres poderiam facilmente produzir relatórios semelhantes, com a mesma qualidade, ou falta dela, mesmo sem visitar Portugal.

A DBRS e outras agências de rating têm tanto poder porque esse mesmo poder lhes é dado pelo Banco Central Europeu. O BCE decidiu que no contexto do seu programa de quantitative easing só compraria dívida de países com um rating mínimo. Estes ratings, porém, são elaborados por agências privadas de notação financeira como a DBRS (e outras como a Standard & Poor’s, a Moody’s e a Fitch). Por outras palavras, o BCE delega nestas agências de rating o poder de decidir que dívida deve comprar. Ao fazê-lo, o BCE dá um tremendo poder a indivíduos obscuros nestas agências privadas.

A decisão de parar de comprar dívida soberana de um determinado país é de grande importância. Afeta a credibilidade do Governo e o custo das obrigações emitidas. Pode levar a uma crise autoalimentada, na qual a perda de confiança leva os investidores a vender a dívida que detêm aumentando os juros e precipitando uma crise de liquidez. É completamente inaceitável que o BCE coloque nas mãos de agências de rating esta decisão, abdicando, assim, da sua responsabilidade de manter a estabilidade financeira.

Será que as agências de notação financeira merecem este enorme poder que o BCE lhes entrega? A resposta é um rotundo não. As agências de rating falharam miseravelmente no passado; fizeram-no quando não viram aproximar-se a crise de 2007-08. São, ainda, objeto de grandes conflitos de interesses — ninguém as responsabiliza pelas suas ações —, se erram no rating, o que acontece demasiadas vezes, não sofrem as consequências. Outros as sofrem.

Será que as agências de notação financeira merecem este enorme poder que o BCE lhes entrega? A resposta é um rotundo não

Depois da crise financeira, houve consenso generalizado de que as agências de rating tinjam demasiado poder e que era, uma fonte de instabilidade nos mercados financeiros mundiais. Tornou-se consensual que o poder destas agências de notação devia ser reduzido. Ora, o BCE faz exatamente o contrário. Ao seguir cegamente as decisões de rating das agências, o BCE aumenta o seu poder.

A solução consiste em recuperar o poder para si mesmo. Isto pode ser feito facilmente. O BCE devia proceder à sua própria análise de risco das obrigações dos países-membros, pois, tem um grande número de economistas altamente qualificados com melhor conhecimento dos países da zona euro do que os economistas de corta e cola empregados pelas agências de rating.

Precisa, porém, de alguma coragem para o fazer. A razão pela qual o BCE entregou a terceiros a decisão crucial de decidir quais o países a quem pode comprar obrigações é meramente política. O BCE tem medo de que qualquer decisão, baseada nas suas próprias análises, de não adquirir dívida de um determinado país conduza a críticas abertas dos políticos da zona euro. Esta não é uma boa razão para deixar que indivíduos não escrutinados, empregados de agências de notação canadianas ou americanas, tomem uma decisão que pode desestabilizar países.


(Professor da Universidade Católica de Lovaina, Bélgica)