Atirar a Matar?

(Raquel Varela, in raquelcardeiravarela.wordpress.com, 26/04/2024)


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Penso sempre num dono de um supermercado, de uma grande empresa de construção civil, que paga o ordenado mínimo e está na TV a ver trabalhadores negros com o salário mínimo de um lado, seus trabalhadores, polícias, com pouco mais do mínimo, do outro. E manda vir um whisky, para acabar de ver a cena. O sofá de couro, e uma luz suave, indirecta. Na TV grita-se, e as imagens movem-se como peças de xadrez.

Ando há uns anos a defender três ideias. São conhecidas dos historiadores, agora são a realidade dia a dia. O fascismo não é um Partido, é uma milícia. Não são, como dizem os media, “partidos de extrema direita”, são, segundo a ciência política, associações políticas eleitas, com ligações a milícias, é isso que distingue um Partido de direita conservadora de um partido de extrema-direita, a defesa da violência organizada e à margem da lei. Temos um século de estudos do fascismo na história sobre isto, dezenas de teses. Segunda ideia, não crescem como cogumelos, com propaganda, crescem no Estado. Terceira, derrota-se não no Estado, mas cívica e socialmente. Quarta, é uma pergunta, sincera, o que é hoje a polícia portuguesa?

A segunda ideia. No sul da Europa estes partidos-milícias não têm base social como nos países ricos, na pequena burguesia. Nascem do Estado e dos media, nascem e crescem nas forças armadas e polícias, e são apoiados pelos media, onde se constroem como estruturas eleitorais que manipulam os sentimentos mais desesperados de camadas das populações fartas de retrocesso de vida e trabalho. O objectivo não é só meter medo às populações mais empobrecidas, mas a todos os trabalhadores e às suas greves.

O fascismo é uma forma de governo das classes dominantes para o fim do pacto social. É a força contra todos os que vivem do trabalho, é a guerra social. E sobretudo contra os trabalhadores organizados. O seu maior temor não são “desacatos” na periferia, as classes dirigentes não andam de autocarro nem sabem onde fica a Amadora. O seu medo são as greves na cidade, que param o lucro das suas empresas.

A sua maior força, destas milícias-partidos, é “atirar a matar”, negros, e depois, grevistas. Temos 100 anos de conhecimento histórico de como estas milícias se organizam. Foi assim na Itália nos anos 20, e em dezenas de países nos anos 30 e 60.

Pela primeira vez o Chega perdeu a compostura e disse ao que vinha, “atirar a matar”, entre muitas outras declarações análogas dos seus dirigentes. A terceira ideia. Não se derrota esta hidra com petições e queixas-crime. Parabéns aos que, no PS e outros partidos, apresentaram a queixa-crime, denunciando o apelo do Chega, na TV, ao assassinato. Queixa que eu assinei. Mas o fascismo derrota-se com movimentos cívicos de massas, a partir de greves e manifestações de rua. Nunca, em momento algum da história, o fascismo foi derrotado sem movimentos sociais. O PS, se quer derrotar o fascismo, chame, como Partido, apoio à manifestação de hoje pela justiça e contra a repressão.

Quarta e última ideia. Que é mais uma pergunta. Não sei o que é hoje a polícia portuguesa, conheci gente muito decente na polícia, mas em 2021 conheci um polícia que estava a estudar para ser professor porque o “clima de medo interno” era “insuportável”, referindo-se ao Movimento Zero, segundo jornais de direita, como o Expresso,” movimento ligado ao Chega que tomou conta dos protestos nas forças armadas”.

Troquei, não uma, mas várias conversas com polícias sobre as suas deploráveis condições de trabalho, com quem me solidarizei, até 2019, quando surgiu o Movimento Zero e André Ventura, com um deputado, era levado ao colo pelos jornalistas “isentos”. Nunca vi um comunicado dos jornalistas condenando a legalização do Chega e denunciando a náusea que é serem obrigados a entrevistar tal organização. O Estado legalizou o Chega, mas os jornalistas não são o Estado. Só há jornalismo, assim nasceu essa profissão, se é do público, contra as decisões do Estado e do Mercado.

Vi polícias anti-racistas serem publicamente arrasados nas páginas dos jornais por outros polícias. Numa manifestação de professores um polícia chamou-me para me dizer que não podia pronunciar-se mas concordava com tudo o que defendíamos. Outro, numa esquadra, apertou-me a mão e disse-me que se sentia representado pela defesa que fiz dos direitos de quem trabalha. Sorri-lhe, com sinceridade, feliz, pensando que há esperança nesse sector.

Ainda é assim? Ainda existem? Quando são os relatórios oficiais a dizer que a extrema-direita está dentro da polícia, estamos em perigo, porque defendem “atirar a matar”, têm armas. Nós não temos nem as sabemos usar, eu pessoalmente não quero ter nem saber usar. Nem vou aprender artes marciais. Por isso, quando eu ou qualquer cidadão vamos a uma esquadra pedir ajuda, ficamos a pensar: a pessoa que nos atende subscreve declarações análogas a uma milícia partidária fascista? Esta pessoa vai “atirar a matar”? Quando um bêbado lhe chamar nomes, um carro não parar, um jovem lhe atirar uma pedra, e outro agarrar nele e bater-lhe, vai “atirar a matar”? Quem são estas pessoas que hoje estão na polícia e têm armas na mão?

Gostava de ter visto movimentos de polícias, sindicatos, a responder às declarações do Chega que lhes pediram para eles atirarem a matar, fazendo dos polícias carne para canhão, também. Não vi.

Oxalá veja-os hoje na manifestação cívica contra “atirar a matar”. E se tiverem medo, que o percam, anda toda a gente a escudar-se no “medo” para não agir, professores, médicos, policias, a coragem desapareceu como valor? O medo não se combate com ioga ou psicólogo, nem pode ser uma desculpa para a resignação. Que se organizem, que defendam uma polícia justa, decente, desculpem se estou a ser naife. Os polícias estão entre as profissões com mais problemas de saúde mental, e más condições de trabalho, “atirar a matar” não só não vai resolver estes problemas como vai agigantá-los.

O Sr. do whisky, que nunca se mete em política, levanta-se, tem um jantar. Vai estar lá o Presidente da Câmara, dois deputados e um chefe de gabinete, e o assessor de comunicação do CEO. A mulher chama-o, “Querido, vamos chegar atrasados”.

A empregada “preta, mas honesta e asseada” espera que eles saiam, e levanta o copo, com o gelo ainda a boiar.

Um dia só me restará a dramaturgia, que ela possa iluminar o caminho para sair desta loucura, em que a realidade e o medo nos colocaram.

Ele, como não quer cá ver mais gente de turbante, votou no Chega

(Whale project, in Estátua de Sal, 14/03/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, do Daniel Oliveira, sobre os resultados das eleições para a Assembleia da República de 2024, (ver aqui). Pela sua atualidade resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 14/03/2024)


Uma pessoa que vive na Alemanha também se espantava pelos motivos que muita gente invocava para votar no Chega. Por exemplo, um artista dizia: – Vou a Portugal e vejo lá aqueles indianos, aquela gente de turbante. Vou votar no Chega porque aquilo tem que acabar.

A criatura ainda argumentou: – Estás na Alemanha há 20 anos, vais a Portugal três vezes por ano, achas mesmo que vale a pena votar na extrema-direita e lixar a vida a quem lá está, imigrante ou não?

E teve como resposta: – Só lá vou três semanas e tenho de ver aquela canalha. É por isso que vou votar no Chega. Foi o motivo invocado por muitos.

Os motivos pelos quais se votou no Chega foram diversos, mas uma coisa já sabemos: ninguém o fez por bem. Foi sempre a pensar em lixar a vida a alguém. A não ser um pobre, ou um velho ou outro que acreditaram mesmo ser possível que as suas reformas miseráveis poderiam passar de 300 para 1000 euros.

Mas, aquela malta que nunca votou, porque dizia que “são todos iguais” – não interessando nada haver quem nunca tenha estado no Governo -, votou, basicamente, por querer virar do avesso a vida de alguém.

Eu sei que é complicado acreditar que, um em cada cinco portugueses – em algumas regiões mais de um em cada quatro -, está tão ressabiado com a vida que quer dar cabo da vida de alguém. Mas é com isto que vamos ter de viver.

E, claro, também a obsessão do PS com o excedente orçamental – que o levou a fazer tudo para deitar borda fora os parceiros de esquerda e a aproveitar a inflação, durante os últimos dois anos, para encher os cofres, em vez de tomar medidas para a mitigar -, e que criou o caldo de cultura que o fez perder meio milhão de votos, dando assim quase 30 por cento da votação a quem nos virou a vida do avesso, indo além da troika.

O PS foi hábil em chamar a si todo o mérito pelas medidas que, nos anos de 2015 a 2020, aliviaram o garrote imposto às nossas vidas nos anos anteriores. Na verdade muitas delas saíram de propostas – alguns dirão imposições -, dos partidos à esquerda.

Assim, conseguiu alcançar uma maioria absoluta, esquecendo-se de que – estando livre dos parceiros de esquerda que pediam o impossível, como disseram muitos comentadores da nossa praça -, também sofreria pressões várias, até dos poderes europeus para ter as contas certas.

Christine Lagarde

E o PS prosseguiu a sua obsessão com as contas certas enquanto o povo enfrentava a inflação e a subida assassina dos juros imposta por aquela senhora de cabelo lambido que um dia disse ter pena, era das crianças do Níger e não das crianças gregas que desmaiavam de fome na escola.

Talvez pensassem em usar os próximos dois anos para aliviar o garrote, esquecendo-se de dois fatores cruciais. Não tinham um presidente da mesma cor política mas sim um que, mais polido e com aquela conversa mole dos afetos, estava disposto a tudo para fazer a direita voltar ao poder, rapidamente e em força. Depois,  nunca lhes deve ter passado pela cabeça que o lawfare – a guerra judicial já aplicada, noutras paragens como no Brasil -, poderia, com a mesma eficácia, também ser aplicada deste lado do mar.

O irónico disto tudo é que o senhor, que assegurou que a nossa vida não estava melhor mas o país estava melhor, vai poder fazer alguns bonitos graças ao pecúlio acumulado pelo PS. Como a mais que justa recuperação do tempo de serviço dos desgraçados dos professores, que ainda têm, muitos deles, de levar com a barbaridade de serem colocados no Norte, sendo do Sul, e no Sul sendo do Norte.

E assim se repete o velho ditado: o dinheiro do usurário vai dar a mão ao extravagante.

Fica, para os homens e mulheres que estudam estas coisas, tentar explicar a razão pela qual políticos batidos caíram numa armadilha destas.

No meio disto tudo quem se lixa é o mexilhão. Ou seja, nós. Tenhamos ou não votado no Chega.


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Será que não há mesmo um milhão de portugueses xenófobos e racistas?

(Whale project, in Estátua de Sal, 12/03/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos sobre os resultados das eleições para a Assembleia da República de 2024, (ver aqui). Pela sua atualidade e por alguns pontos de vista, que julgo merecerem debate sério e reflexão desapaixonada – tanto quanto possível -, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 12/03/2024)


Será que não há mesmo um milhão de portugueses xenófobos e racistas? Gostava de ter toda essa confiança na Humanidade. Mas quem vive na rua – não quer dizer que eu seja um sem-abrigo -, não pode ter desses lirismos e ilusões.

Os grunhos têm-se ouvido todos os dias. Falam contra os ciganos, falam contra esses malandros que andam aí a passear-se de turbante, os brasileiros que são todos pastores da IURD e as brasileiras que são todas umas putas. Ouvimos as atoardas contra quem recebe o rendimento mínimo ou o subsídio de desemprego. As asneiras ouvidas nos últimos tempos permitiram-me ir fazendo a minha própria sondagem e, na verdade, a votação no Chega só me surpreendeu por defeito.

Claro que, quem é político, quem tem ainda ambições políticas, tem de pôr paninhos quentes. Não pode admitir que temos mesmo um milhão de portugueses xenófobos, racistas e invejosos. Invejosos sim, invejosos de quem recebe a miséria do rendimento mínimo, invejosos do cigano que bebe uma cerveja na esplanada de um café.

Mas, a verdade é que essa gente sempre cá esteve: nos bandos de skinheads que nos anos 90 espancavam negros; nas histórias dos desgraçados estudantes universitários dos Palop que, muitas vezes, só conseguiam alugar uma parte de casa a senhorios estrangeiros radicados em Portugal, muitos deles vindos de países considerados muito mais racistas do que nós, como é o caso da Alemanha.

Os votantes no Chega estavam nos construtores civis que garantiam que, com eles, poderíamos estar descansados: naquele prédio nunca se venderia uma casa a negros e/ou a indianos. Os votantes no Chega estavam num povo que sempre normalizou o racismo desde o tempo das Descobertas. Por isso fomos, durante séculos, líderes do tráfico negreiro. Os votantes no Chega estavam em todos os que esqueceram a miséria passada e decidiram culpar os imigrantes pelas dificuldades que têm hoje, mas que em nada se compara com a miséria que tinham quando isto era uma miséria tão grande, que nem o Diabo queria emigrar para cá.

Se falhámos em tirar da cabeça das pessoas essa mentalidade podre? Claro que falhámos. Mas essa mentalidade podre sempre lá esteve. Só estava à espera de uma oportunidade para se manifestar. E ela surgiu no discurso histriónico e meio tresloucado do Ventura. Que se limitou a repetir, com mais ou menos nuances, todas as atoardas que se dizem nas tascas, especialmente após a quarta cerveja média.

Não é a pôr panos quentes que vamos lá. Era mesmo ter ilegalizado essa força das trevas enquanto foi possível, porque a nossa Constituição assim o permite. Ventura apelou ao racismo, à discriminação e à violência com todas as letras. Ou acham que os ciganos seriam levados pacificamente, qual rebanho de ovelhas para o “confinamento especial” – onde o Ventura os queria meter, a pretexto que não cumpriam as restrições sociais, no período da pandemia? E mais: militantes do partido fizeram saudações nazis e muitos definiram-se como fascistas.

Foi a falta de coragem que nos levou até aqui. A falta de coragem e o cálculo, porque partidos como o PSD, viram que com essa força das trevas teriam a única maneira de voltarem ao poder em tempos próximos. Porque, efetivamente, não há maneira de pôr muita gente a acreditar no milagre da multiplicação dos pães e dos peixes prometido pela Iniciativa Liberal. E ninguém se esqueceu ainda do que se passou nos anos do ir além da troika.

Restava mesmo apelar aos mais baixos instintos e isso foi conseguido. Eu sempre disse que um voto no Chega era um voto no PSD porque, passadas as eleições, rapidamente dariam o dito por não dito, pois que o objetivo da criação do Chega sempre foi esse. Quem votou Chega vai ter o que não queria: a troika de volta, em toda a sua inteireza.

Quanto aos quatro políticos citados, lamento discordar mas Soares era um catavento e o Carneiro tinha qualquer coisinha de Ventura. Os outros eram gente de “tomates” e, o Freitas subiu muito na minha consideração pela coragem de ver, quase no fim da vida, que muito do que defendera era latrocínio puro. Como quando o seu partido embarcou na nefasta Guerra do Iraque. Quando também teve a coragem de comparar Bush com Hitler e dizer que o único conflito que havia na Palestina era “um povo a destruir outro porque acredita, porque criminosamente acredita, que aquela terra lhes foi dada por Deus”.

Não sei o que Freitas teria a dizer sobre isto se ainda fosse vivo e “com o tino todo” mas não o estou a ver a pôr paninhos quentes nos cheganos. E, não tendo eu ambições políticas, não ponho nenhuns panos quentes. Temos mesmo um milhão de portugueses xenófobos e racistas e, provavelmente, até temos mais. É lidar.


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