Quo Vadis ética e deontologia jornalística?

(Major-General Carlos Branco, in Blog Cortar a Direito, 28/07/2025)


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A “entrevista” do dia 10 de julho, na CNN, com Pedro Bello Moraes (PBM), que se tornou viral nas redes sociais, trouxe à liça três temas incontornáveis relacionados com o comportamento profissional do jornalista em causa: a falta de ética, a duvidosa deontologia jornalística e a desonestidade intelectual.

Iniciarei este artigo respondendo às perguntas que me foram feitas na dita “entrevista”, uma vez que não o consegui fazer na devida altura, para de seguida elaborar sobre os três temas atrás mencionados. Devo referir, logo à partida, que não me revejo no tipo de “jornalismo” abraçado por PBM, que recorre ao escândalo e à gritaria para atrair audiência. Há cadeias de televisão que professam esse “jornalismo,” mas não é bem nisso que estará interessado o segmento de mercado que a CNN pretende atingir.

A “entrevista”

PBM revelou uma imensa impreparação, como aliás tem acontecido, demasiadas vezes, noutras ocasiões. É difícil a um entrevistado responder às perguntas, quando PBM se sobrepõe sistematicamente, de modo grosseiro, com uma enorme necessidade de mostrar que sabe e que tem opinião sobre o assunto.

Quando suspeita que a resposta não é do seu agrado, interrompe, fala por cima e escarnece do que os entrevistados dizem. PBM tem dificuldade em lidar com alguns princípios básicos do jornalismo, como adiante veremos; não é suposto que um pivô impeça/sabote e comente negativamente o discurso de quem pensa aquilo de que ele não gosta. Na prática, comporta-se como um censor. Apreendeu pouco do que lhe ensinaram nos bancos da extinta Universidade Independente.

Porque é que digo que PBM é impreparado e não sabe do que falava? Tomando como referência quatro dos assuntos da famigerada “entrevista”: 1. A alteração da posição de Zelensky sobre a posição do Vaticano relativamente ao papel do Papa na mediação do conflito ucraniano; 2. A quarta conferência para a reconstrução da Ucrânia; 3. As considerações sobre a minha alegada posição relativamente à Ucrânia; 4. O isolamento internacional da Rússia.

Muito haveria a dizer sobre o papel das igrejas e das elites religiosas na mediação de conflitos, que PBM mostrou desconhecer. A situação está profundamente estudada pela Academia. Não deixa de ser importante analisar a alteração da posição de Zelensky relativamente à mediação do conflito ucraniano pelo Papa, inicialmente de repúdio, para posteriormente pedir a sua intervenção. A explicação exigiria algum tempo (farei um artigo sobre esse assunto), mas a verdade é que não foi possível elaborar sobre o tema, porque PBM não gostou da primeira fase da minha resposta e boicotou a continuação da mesma. De uma forma geral, podemos dizer com elevada certeza, goste ou não PDM, que a alteração da posição de Zelensky sobre a matéria se deveu à crescente fraqueza e ao progressivo isolamento político em que se encontra.

PBM desconhece as premissas básicas dos processos de reconstrução pós-conflito. Como é sobejamente conhecido, recorrendo mais uma vez à Academia, não há reconstrução e desenvolvimento sem segurança, e vice-versa. As conferências de doadores ocorrem normalmente após o processo de paz ou no seu decurso, quando já são claros os termos/contornos da solução política, não quando se está longe de se saber o que vai acontecer.

Como é sabido, estamos muito distantes de uma solução política para o conflito ucraniano e, consequentemente, dos seus contornos. Por todas as razões, estas conferências, com o fito da reconstrução, são irrelevantes e extemporâneas, como se pode concluir das conclusões a que se chegou. Os participantes acabaram a falar de sanções… à Rússia. Não deixa de ser fantástico, paralelamente a essa conferência, a BlackRock liderar, não uma conferência de doadores, mas o sindicato dos investidores. O manifesto recuo desses investidores e a ausência de resultados tangíveis é a prova provada da inutilidade dessas conferências, como fiz questão de sublinhar, onde os amigos se encontram e dão muitos beijos e abraços. PBM impediu que isto fosse explicado, talvez pela dificuldade em perceber a nuance entre investidores e doadores.

PBM atingiu o clímax da rudeza quando teve a aleivosia, sem disfarçar a camisola que veste e de modo completamente despropositado, de criticar e fazer um julgamento sobre aquilo que ele pensa ser a minha posição sobre a causa ucraniana:

“… sempre que o oiço, isto é factual, qualquer iniciativa pró ucraniana o sr. general esvazia-a, como ausente de sentido, inconsequente, precipitada, sempre, é a sua linha de raciocínio e de abordagem”.

Não vale a pena perder tempo a comentar a infelicidade destas observações. Talvez PBM quisesse que eu dissesse que a Ucrânia vai vencer a guerra, reconquistar o Donbass e que graças aos financiadores da BlackRock e ao acordo dos minerais vai ser um país independente e soberano, que não perdeu 40% da sua população ativa, que não há mobilização forçada nas ruas (busification), etc. Mas isso eu não vou dizer, porque pauto a minha conduta por critérios éticos diferentes dos de PBM. Não minto às pessoas, certifico as fontes, coisa que ele não faz. Por outro lado, PBM tem de fazer uma atualização da sua base de dados de “clichés”. O da Rússia estar isolada é chão que já deu uvas. Nenhum propagandista com “dois dedos de testa” o continua a usar para não cair no ridículo.

Os equívocos éticos e deontológicos de PBM

Ao longo destes dois últimos anos, PBM tem vindo, nos seus programas, a sonegar ao público informação relevante para a compreensão do conflito na Ucrânia, apenas por não ser abonatória da causa que ele abraça. Entre muitos outros temas…

Foi tabu nos programas da sua responsabilidade abordar temas como o da corrupção na Ucrânia e da investigação jornalística que indiciou Zelensky (Pandora papers) e o seu círculo próximo; veja-se agora a decisão de Zelensky de assinar uma lei que retira poderes ao principal órgão anticorrupção da Ucrânia; a importância política dos grupos neonazis; as baixas ucranianas em combate; a mobilização forçada (busification) em que os mobilizadores agridem e torturam as pessoas que apanham na rua; os passos de Zelensky em direção a um autoritarismo corrupto (parece não ser algo exclusivo da Rússia); as lutas intestinas entre a elite política ucraniana; a notória e pública perda de fé dos ucranianos em Zelensky. etc. Tudo isto já presente na comunicação social ocidental, em particular na norte-americana e britânica. Porque será?

Progressivamente, aquilo que, por conveniência e/ou cumplicidade com os poderes instalados, foi sonegado à opinião pública, vai sendo tornado público confirmando quase na íntegra o que tenho vindo a dizer e a escrever há muito tempo. O tapete começa a fugir debaixo dos pés de quem, como PBM, omite a discussão de factos decisivos. Beneficiando da posição privilegiada de pivô, PBM bloqueou sistematicamente a possibilidade de serem discutidos assuntos importantes, como os atrás referidos. Não lhe era conveniente.

Só aqueles que se preocupam com os factos e com a descoberta da verdade – e não com dogmas e propaganda – serão capazes de desmistificar os sinais mais do que evidentes de que a Ucrânia está a sofrer perdas ímpias e insustentáveis. O que irá dizer PBM quando se tornar impossível escamotear, por exemplo, a forma desonesta como foi escondida do público a verdadeira dimensão das baixas ucranianas?

PBM tem uma cosmovisão provinciana. E eu já estou farto das “tretas” do fantasma de Kiev, das peúgas dos soldados russos e dos cancros do Putin, da falta de munições dos russos, dos ataques russos à central de Energodar e às suas próprias tropas, quando era mais do que óbvio de onde vinham as granadas; os crematórios móveis russos para esconderem as baixas, a economia russa a soçobrar na próxima semana, os ataques russos com trotinetas porque já não têm carros de combate, o envio de soldados com muletas para a frente de combate, etc. Todo este tipo de patranhas fantasiosas de que se alimenta PBM e com que nos brinda, como fossem verdades absolutas e inquestionáveis.

Para ele, tudo o que vem do Governo ucraniano, do Instituto do Estudo da Guerra, a instituição governada pela família dos neoconservadores Kagan, ou dos serviços secretos ingleses, é inquestionável. Para ele é herético e condenável suscitar interrogações, questionar a mentira óbvia, perturbar os seus dogmas e as suas verdades. Para PBM análise é quando o analista corrobora as suas perguntas, antecedidas de longas introduções, com a resposta já incluída. Mas PBM não é o Inquisidor-mor nem os seus programas são sessões do tribunal do Santo Ofício.

Dá-se o caso de PBM andar com o passo trocado. A comunicação social ocidental de referência — antes ferozmente leal a Zelensky — começou a publicar abertamente histórias sobre corrupção, autoritarismo e incompetência dentro do regime ucraniano. Essas mesmas acusações eram antes descartadas como “propaganda russa”. Agora, são notícias de primeira página. O que vem reforçar a justeza das dúvidas que tenho vindo a levantar. Pelo contrário, PBM tem alinhado descaradamente nos seus programas na propagação da mentira, tratando a sua audiência como débeis mentais.

Como disse um antigo alto funcionário da Administração de Zelensky, “se a guerra continuar, em breve não haverá mais Ucrânia pela qual lutar… Zelensky está a prolongar a guerra para se manter no poder.” “Todos os que participaram na propagação desta ilusão partilham essa responsabilidade”. É o caso de PBM e da sua adesão patológica à mentira.

Agora, com três anos de atraso, começa a haver na Ucrânia quem venha corroborar o que tenho vindo a dizer. “A Ucrânia é um peão dispensável num jogo americano… Trump, Putin, Xi [que vão] gastar-nos [à Ucrânia] como trocos, se precisarem.” Sempre tive a noção disto e expressei-o em múltiplas ocasiões, contrariando a tese da luta entre as democracias e as autocracias, que PBM tanto adora.

Como disse um antigo ministro ucraniano, outrora um forte apoiante de Zelensky, “A Ucrânia tem dois inimigos, dois “Vladimir”: Zelensky e Putin, Putin está a destruir a Ucrânia a partir do exterior, mas Zelensky está a destruí-la a partir do interior, destruindo a sua vontade de lutar e o seu moral.” Afinal, o apoio a Zelensky está longe de ser aquele que a propaganda nos quer convencer, contrariando a inquebrantável e acrisolada fé de PBM no decrépito regime instalado em Kiev.

Mais tarde ou mais cedo, PBM terá de se confrontar com a realidade. E nessa altura cá estaremos para verificar quem tem faltado à verdade, quem tem revelado falta de ética e desonestidade intelectual. Pensar não é sacrilégio nem heresia, nem PBM decide quem vai para a fogueira. Questionar os dislates de PBM não é ser pró-russo nem pró-Putin (o que quiserem, tanto faz), mas ser intelectualmente honesto, aquilo que PBM não é, e contestar o atestado de debilidade mental, que ele nos seus programas nos quer passar. Continuo convicto de que não pode valer tudo por causa das audiências.

Fonte aqui

O projecto político do Observador

(Pacheco Pereira, in Público, 26/07/2025)

Pacheco Pereira

Não me passa pela cabeça desejar qualquer mal ou censura sobre a Rádio Observador, mas tudo isto estaria bem se houvesse transparência política.


A Rádio Observador é um projecto profissional, bem conduzido, de qualidade muito acima das outras rádios existentes. Mas não é um projecto jornalístico, é um projecto político representando fortes interesses económicos no palco mediático e da ala mais à direita do espectro político. Isso significa duas coisas: tem recursos que nenhuma outra rádio tem ao seu dispor, e está no centro político e ideológico da influência crescente da direita mais à direita, da direita identitária cada vez mais forte do PSD, com o abandono do programa social-democrata de Sá Carneiro.

O Observador estende a sua influência fornecendo temas ao Chega e alargando o argumentário da Iniciativa Liberal como da ala direita do PS e o apoio aos candidatos oriundos dessa área. O Chega é muitas vezes atacado, não pelos seus temas, mas quando dificulta a actuação do PSD, que eles sabem muito bem ser quem pode aceder à governação. Mas isso não significa que não haja transporte dos temas e das prioridades do Chega para o Governo PSD-CDS, que, depois de “lavados” da sua origem malsã, são defendidos com unhas e dentes. O modo como o Chega trata a imigração é um exemplo perfeito, que, com todas as suas mentiras e sugestões de falsidade, está na origem da colocação da imigração e a sua suposta correlação com a criminalidade na centralidade da acção política desde a célebre declaração de Montenegro em horário nobre, seguida dias depois pelo espectáculo da rusga da Rua do Benformoso. A crítica da Provedoria da Justiça à rusga não é tema. A imigração era um problema, mas, a partir daí, tornou-se um outro problema, de natureza diferente.

O mesmo acontece, aí com mais proximidade política, com a Iniciativa Liberal, com a mesma lógica de proteger o Governo e o PSD dos excessos inconvenientes, como a motosserra de Milei, mas defender e ampliar a voz dos interesses económicos. E também o mesmo acontece com a sistemática promoção de tudo que surja na e da ala direita do PS, em particular do candidato presidencial António José Seguro, tratado com a máxima gentileza no Observador, em contraste com a violência com que Sampaio da Nóvoa, ou Santos Silva, ou Alexandra Leitão, ou Pedro Nuno Santos, são tratados.

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A acção política do Observador é uma poderosa combinação que não se limita aos momentos mais directamente políticos no prime time, principalmente de manhã, mas estende-se pelo dia todo, pela forte presença de elementos da Rádio Observador nas estações de televisão noticiosas, amplificando os temas e o argumentário definido nas manhãs. Beneficia, aliás, de muita complacência nos outros órgãos de comunicação, que habitualmente colocam frente a frente um falcão do Observador com uma pombinha do PS.

Acresce que o Observador tem fontes privilegiadas, em particular no Ministério Público, nos partidos do Governo e no Governo, bem como nas confederações patronais, e conta com publicidade de grandes empresas. Se fosse apenas para apoiar um órgão de comunicação seria excelente, mas fontes e apoios estão directamente ligados com o programa político do Observador.

Seguem-se dois exemplos recentes do que disse e que mostram muito bem como funciona a Rádio Observador. Quando pareceu que o Governo poderia reconduzir Mário Centeno como governador do Banco de Portugal — uma manobra de spin, mas que poderia dificultar passar do elogio de Centeno à sua demonização —, apareceu o “caso” da nova sede, com a habitual sugestão de vários crimes e o apelo ao Ministério Público. Nunca ouvi o Observador fazer o mesmo com o caso Spinumviva.

Outro exemplo é o tratamento da decisão do Presidente da República de enviar a lei da nacionalidade para o Tribunal Constitucional, imediatamente atacada como sendo um frete à “esquerda”, como Marcelo traindo a sua base eleitoral — um curioso argumento para analisar a acção presidencial — e como uma gratuita demonstração de um poder cada vez mais póstumo.

Estes exemplos são do quotidiano da rádio, mas não custa ver o que aí vem com as alterações na legislação laboral, que toca com o núcleo duro da política do Observador, a defesa do lóbi mais agressivo do empresariado português. Esperem e vão ver, os comícios tipo orgasmo matinal do Observador.

Não me passa pela cabeça desejar qualquer mal ou censura sobre a Rádio Observador. Desejo-lhe muitos anos de vida, mas tudo isto estaria bem se houvesse transparência política e o Observador, em vez de se apresentar como um órgão de comunicação seguindo as regras deontológicas do jornalismo, fizesse uma declaração de interesses política. Não é o que estão sempre a pedir aos “outros”?

O autor é colunista do PÚBLICO

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O avençado Fancelli

(Major-General Carlos Branco, in Blog Cortar a Direito, 15/07/2025)


(A credibilidade jornalística da CNN já não era muita mas, depois deste caso, estatelou-se ao comprido e bateu no chão. Nomear para comentador residente um tipo que trabalha para Ucrânia e por ela é pago para difundir a sua propaganda sob a capa de comentário político, supostamente independente, é o grau zero da isenção informativa. Uma vergonha.

Estátua de Sal, 15/07/2025)


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Não me pronuncio publicamente sobre pessoas com quem trabalho e/ou partilho o espaço televisivo, mesmo quando não lhes reconheço conhecimento nem idoneidade intelectual para se pronunciarem sobre o que falam. O que penso sobre elas fica comigo. É uma prática que vigora no meio militar (pelo menos vigorava) e noutras organizações com um elevado sentimento corporativo. Não fica bem trazer divergências para a praça pública. São questões de decoro e normas de boa convivência. Há regras e linhas vermelhas que não estão escritas, mas que as boas práticas aconselham a adotar.

Mas, volta não volta, tenho de abrir exceções, fazendo-o sempre contrariado. O que tem de ser tem muita força. O jovem Uriã Fancelli teve no domingo passado (ver aqui), mais uma diatribe. Na primeira vez que interagimos, acusou-me de desonestidade intelectual, apenas por eu ter uma opinião diferente da sua. Nessa altura, esbocei um sorriso e fingi que não percebi. Mas desta vez, quando Fancelli disse “omite [eu] as baixas russas não sei se intencionalmente ou por uma simpatia russa. Todo o mundo sabe que o Major General tem… mas ele [eu] omite intencionalmente os ataques contra as estruturas civis na Ucrânia”, não podia fingir que não tinha percebido.

Depois de ter levado dois tareões no ringue de boxe, Fancelli foi refugiar-se nas redes sociais, queixando-se aos amigos do mau que fui para ele. Fancelli engrossa a lista daquela malta que não consegue debater sem ataques ad hominem e sem lhes fugir o pé para a chinela. Lá tive de consumir o meu rico tempo e ir ver quem é o Dr. Fancelli e o que faz na vida. Chamei-lhe propagandista e não é que acertei em cheio?! Tem de ficar claro que Fancelli não é uma pessoa independente. É um avençado dos ucranianos. Não é uma virgem imaculada. E porquê?

Não é grave nem condenável ser avençado e/ou propagandista. Tem é de se saber exatamente quem são as pessoas que proliferam no espaço público, o que fazem e o que se pode esperar delas. Fancelli não é isento, tem uma agenda e é pago. Anda a fazer pela vida. Tem de mostrar serviço ao patrão.

Veio sociabilizar-se à Europa, onde frequentou dois mestrados. Trabalha para o Kyiv Independent, um jornal que não é bem o jornal oficial do governo ucraniano, mas anda lá próximo, que de independente só tem o nome, para além de ter sido subsidiado pela USAID. Utiliza esse fórum para apelidar a visita do presidente do seu país Lula da Silva à Rússia de hipócrita. Não é, pois, difícil de perceber para quem trabalha. Diz-me com quem andas dir-te-ei quem és.

No final de 2022, quando já tinham passado alguns meses sobre o início da guerra na Ucrânia, o Dr. Fancelli tentava a sua sorte na carreira política, candidatando-se a deputado estadual, no Brasil, pelo partido PODE, um partido conservador de direita/extrema-direita (criado pelo juíz Sérgio Mouro para se candidatar à presidência). Gorada a entrada na vida política mudou a agulha para outra coisa que estivesse a dar e lhe proporcionasse sustento. Afinal tem de pagar a conta da água e da luz. E que tal tornar-se, num ápice, especialista na guerra da Ucrânia?! Era capaz de ser um emprego interessante.

Como qualquer propagandista que se preze tem presença em várias redes sociais (Instagram, “X”, etc.). A sua grande razão de estar na vida é tentar contrariar quaisquer versões dos acontecimentos, que ele suspeite integrarem uma campanha de “desinformação russa”. Para isso, pagaram-lhe a participação na segunda conferência Internacional Crimeia Global, em Kiev, organizada pela anedótica “Missão do Presidente da Ucrânia na República Autónoma da Crimeia”, apadrinhada e com o apoio da Embaixada da Ucrânia no Brasil, com a qual mantém excelentes relações, e onde parece não faltar dinheiro para pagar a viagem de 28 “especialistas” brasileiros a Kyiv, numa operação de diplomacia pública, ou se quisermos para uma operação de lavagem ao cérebro.

Nessa ida ao “teatro de operações”, não perdeu a oportunidade de tirar uma selfie com um ar guerreiro e profundamente agastado com a situação em que vive o povo ucraniano.

Por falar em desinformação russa. O paladino da informação honesta e verdadeira, de nome Fancelli, regurgitou os números fantasiosos de soldados russos mortos no campo de batalha por metro quadrado (nunca tinha ouvido falar desta métrica), sem nunca referir quantos ucranianos morreram. Se calhar não morrem. Combate-se a desinformação russa dizendo quantos soldados russos morrem, mas omitindo os mortos ucranianos. Isso é que informação verdadeira, honesta e rigorosa.

Chateia-me ser confundido com a causa russa apenas por desmontar as falsidades e as mentiras da propaganda ucraniana, com que somos bombardeados permanentemente. Os russos fazem operações de desinformação? Claro que fazem. E os ucranianos também. Parece-me normal. Seria anormal se isso não acontecesse. Era sinal de incompetência. Afinal a verdade é, e sempre foi, a primeria vítima da guerra.

Mas poupe-nos Dr. Fancelli e não venha dar uma de “impoluto”, de virgem ofendida e defensor de uma superioridade bacoca. Deixe de nos mandar areia para os olhos e dizer que só os maus é que fazem desinformação. Dá-se a casualidade de eu estar mais sujeito à desinformação ucraniana, de que Fancelli é um promotor e um veículo, por viver em Portugal. Talvez por isso, o meu desconforto. É chato andar a ser enganado, não gosto. Fancelli devia ganhar juízo e deixar de se armar aos cágados. Fancelli é pago para fazer propaganda da causa ucraniana. Como atrás referi, não faço juízos de valor sobre as suas opções, mas tem de o assumir. Assuma-se, porra, não tenha medo! Poupava-me trabalho. Ainda Fancelli não sabia apontar no mapa onde ficava a Rússia (tem trinta e quatro aninhos), já eu tinha reuniões de trabalho com o general Gerasimov, o atual CEMGFA russo.

Fonte aqui