O COELHO SAIU DA TOCA

(Estátua de Sal, 16/01/2016)
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Marcelo não quer contágios. Passos, Coelho de seu nome, deve ter como muitos láparos infelizes, moléstia. Por isso Marcelo, hipocondríaco por militância,  nunca lhe deu luz verde para que se aproximasse da comitiva do “catavento” Presidencial. Por prudência higiénica. Não fosse Coelho pegar-lhe a doença da austeridade  que infligiu ao país durante a governação pafiosa.
Marcelo, inclusive, tirou da algibeira de ilusionista a desculpa anedótica que havia umas eleições autárquicas em S. João da Madeira e por isso Passos devia mantar-se afastado para não misturar as campanhas eleitorais!
Pois bem, acabo de ver há minutos Passos Coelho a discursar, precisamente num comício em S. João da Madeira inserido na campanha para as referidas eleições autárquicas. E que disse Passos? Para meu espanto, no meio de algumas banalidades de circunstância, o tema central da peroração foram exatamente as eleições presidenciais. Eis algumas das pérolas:
1) Que nada de deixar para a segunda volta o que se pode ganhar na primeira;
2) Que a presidência de Cavaco foi um exercício de independência e de magistratura imparcial dos poderes presidenciais;
3) Que temos que eleger um presidente que mantenha a postura e compromisso que caracterizaram a presidência de Cavaco;
4) Que só há um candidato que pode garantir essa continuidade de postura e de compromisso;
5) E que esse candidato tem um nome: MARCELO REBELO DE SOUSA.
A sala de pafiosos e afins explodiu numa saraivada de aplausos.
A minha análise deste ressuscitar de Passos é a seguinte:
1) O gangue de pafiosos que Coelho comanda está em pânico, e preocupado com Marcelo.
2) Se ganhar à primeira volta, só com sorrisos, jogos de matraquilhos e de dominó, peregrinações pelos cafés e pelas funerárias, Marcelo fica livre e com autoridade democrática para ser ele a liderar o programa político do centro-direita, recentrando o PSD no lugar ideológico onde se encontrava antes de ter sido tomado de assalto pela seita Coelho/Relvas.
3) Se não ganhar à primeira volta, arrisca-se a uma derrota humilhante, já que a esquerda fará certamente o pleno, caso seja Nóvoa a defrontá-lo.
4) A última sondagem (54%) para Marcelo, é desconfortável para alguém que há poucos meses tinha sondagens na casa dos 70%. 4% é uma diferença ténue para a maioria, podendo ser facilmente corroída na última semana de campanha, a que se pode acrescer ainda o imprevisível comportamento da abstenção do eleitorado conservador.
Passos saiu da toca e acabou a farsa do professor faquir. Marcelo bem pode dizer que é independente, que aprova o orçamento do Governo de Costa, que sempre lutou pela igualdade, que sempre foi contra a austeridade e que o Governo de Passos Coelho nunca teve a sua bênção e o seu beneplácito.
Mas o que ficou claro e oficial, para a posteridade, é que Marcelo é o candidato dos pafiosos e que Passos espera que Marcelo repita a magistratura de Cavaco sendo um presidente de fação, ao serviço das políticas de saque, contra o povo, contra o País e contra a Constituição.
Que os candidatos de esquerda interiorizem isto e que o propalem aos quatro ventos na última semana da campanha em vez de andarem a distribuir caneladas uns aos outros.
Nas legislativas os portugueses votaram maioritariamente contra a PAF e as suas políticas. Não podem agora eleger um Presidente da República que não passa de uma evolução na continuidade de tais políticas, ainda que mais ou menos maquilhadas.
Estátua de Sal, 16/01/2016.
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Queda de um mito

(Baptista Bastos, in Correio da Manhã, 13/01/2016)

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Baptista Bastos

A dimensão política e cultural do professor ficou a nu: afinal, não vale tanto quanto se pensa e se diz.


Marcelo Rebelo de Sousa tem confiado, excessivamente, em si próprio. Não fosse ele um excessivo gesticulante e um ilusionista no tratamento das palavras, enfim: um atabalhoado nas ideias.

Aliás, destas, pouco se lhe conhece, a não ser as do habitual receituário. Converge-se-lhe a simpatia inapagável e essa espécie de campeão da convivência que o faz querido dos que gostam do género, em especial as senhoras de meia-idade. Toda essa estudada empatia foi estilhaçada nos debates com Sampaio da Nóvoa, que o reduziu a um desajeitado defensor de coisa alguma; e com Maria de Belém, que disse do oponente coisas terríveis. A delicadeza da senhora, o sorriso cortês e levemente zombeteiro, transformaram o que parecia um diálogo gentil numa penosa cena de enxovalho.

Maria de Belém não perdeu uma para reduzir Marcelo a subnitrato, colocando-o como triste defensor de nada a defender. A dimensão política e cultural do professor ficou a nu: o homem, afinal, não vale tanto quanto se pensa e se diz. Afirmar-se que ele é o anti-Cavaco, só por paródia. Ele é um produto do ‘sistema’, e não há borracha que apague as cartas denunciatórias a Salazar, e as esquivas a questões bem graves da democracia.

Sampaio da Nóvoa, cuja compleição intelectual, cívica e humana supera, de longe, o que por aí há, desmontou a fragilidade do antagonista, com a paciente perseverança de um mestre, ante um traquinas incipiente. Nada de pessoal. Simplesmente a grandeza de quem sabe não ter necessidade de fazer disso soberba. A diferença entre o prof. Sampaio da Nóvoa e o dr. Cavaco, por exemplo, é galáctica. E a que decorre entre ele e o Marcelo, abissal.

Ao contrário do que, cá e lá, tem debitado um preopinante de maus fígados e frase manhosa, quando não infame, os debates têm suscitado interesse, pelo menos como reveladores dos caracteres dos intervenientes.

Entre a irrelevância e a palhaçada

(António José Teixeira, in Expresso Diário, 14/01/2016)

António José Teixeira

1. A campanha presidencial arrasta-se sem novidade. Demasiadas vezes não vai além do fait divers quotidiano. Uma ida de Marcelo Rebelo de Sousa à farmácia, com um batalhão de jornalistas atrás, para comprar toalhetes de álcool, é um dos pontos altos desta paródia. É assim em muitas campanhas. É assim para televisão mostrar. É assim porque se querem esconder arestas. É assim porque se quer matar a política. A campanha tornou-se uma espécie de Big Brother em que dez vaidosos (uns mais do que outros) cumprem diariamente um enredo que suscite um sorriso, mesmo que amarelo.

A campanha tornou-se uma espécie de Big Brother em que dez vaidosos (uns mais do que outros) cumprem diariamente um enredo que suscite um sorriso, mesmo que amarelo

Goste-se, ou não, uns mais pobres do que outros, os debates e entrevistas (nunca foram tantos e tantas) constituíram a única montra aceitável para os 10 candidatos dizerem ao que vêm. De resto, esta campanha ficará para a história como uma das mais confrangedoras e apalhaçadas de sempre. Marcelo deu um grande contributo para que assim seja. Apostou numa corrida de popularidade e em cativar o eleitorado de esquerda. Tornou-se, imaginem, o maior aliado do Governo de António Costa. Distribui simpatia “à esquerda da direita”, metida no bolso que julga estar a sua direita. Não se sabe, e essa é a grande incógnita, se a direita quererá ficar no bolso de Marcelo, se não se sente desprezada, ela que se viu apeada pelos que agora Marcelo tenta seduzir. Com tanto cheque em branco ao Governo, com tanta palhaçada diária, muitos poderão ficar em casa. Se Marcelo não quis saber deles porque é que eles quererão apoiar Marcelo?

A possibilidade de uma segunda volta depende da tolerância da direita e do empenho do eleitorado de esquerda. Apesar das sondagens, talvez a notícia prematura da vitória de Marcelo à primeira volta tenha sido exagerada. Marcelo precisa de fazer mais por isso. Se ficar pela poncha e pelas artes marciais enquanto se afirma árbitro com enfado porá em causa a corrida de popularidade.

Os debates com Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém correram-lhe mal. Foi sobranceiro e irritadiço. Deu alento a um e a outro, sobretudo a Nóvoa, que ainda o pode surpreender. Consigam os candidatos do PCP e do BE fixar eleitorado e Marcelo ainda pode ter uma grande surpresa.

Já agora, quando é que as administrações dos hospitais e dos centros de saúde acabam com as visitas eleitorais? Há muitos anos, vemos doentes expostos à propaganda e às câmaras de televisão. Não faz nenhum sentido. É um desrespeito absoluto pelos que se encontram diminuídos nas suas capacidades. Os doentes não deveriam ser cenário eleitoral.

2. “A Queda de Wall Street” é um filme de Adam Mckay, que regressa à crise financeira de 2008. Depois de “Inside Job”, voltamos à história de uma derrocada gigantesca a que quase todos fecharam os olhos. Estupidez, ganância e fraude minaram o capitalismo financeiro, como nunca tinha acontecido. Nem por isso se curou. Mesmo depois de terem sido os contribuintes chamados a pagar a fatura. Por cá, não faltam exemplos de desvario e impunidade. Um filme que ajuda a abrir os olhos.