Que Herr Zelensky venha e desapareça daqui depressa que trastes já temos cá muitos

(Whale project, in Estátua de Sal, 28/05/2024, revisão da Estátua)


(Este artigo resulta de um comentário a um texto que publicámos, de Resistir, sobre a vinda de Zelensky a Portugal, (ver aqui). Pela sua atualidade e assertividade de pontos de vista, resolvi dar-lhe destaque.

Estátua de Sal, 28/05/2024)


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A visita começou em Espanha, o que tem lógica. Espanha precisa de mostrar desesperadamente, a quem manda, que continua bem comportada.

Sánchez mantém-se no poder, devido a uma geringonça mal-amanhada incluindo os independentistas catalães, que deitam Espanha pelos olhos. Logo, a última coisa de que precisa é que alguém se lembre de ensaiar, por lá, ondas de protesto e uma espécie de “revolução colorida”.

Depois do reconhecimento do estado da Palestina – uma medida meramente simbólica que não impede Israel de continuar a matar os palestinianos, como quem mata cães -, ter desatado, contra Sánchez, todos os cães sionistas, o beija-mão a Herr Zelensky tornava-se ainda mais necessário. É preciso mostrar que, no essencial, no que toca à guerra por procuração para sacar os recursos da Rússia, a Espanha continua do lado dos bons. Afinal de contas, Sánchez não quer ser destronado, ou pior, acabar numa cama de hospital a lutar pela vida, ou ter ainda menos sorte que a que teve Robert Fico.

Já Portugal manteve-se igual a si próprio. Quem é que ainda se lembra de Portugal ter votado, na Assembleia Geral da ONU contra um voto de condenação do apartheid e pela libertação de Nelson Mandela, ao lado dos Estados Unidos e da Inglaterra? Nem os sionistas votaram contra mas, Portugal, tratou de sujar a cara bem suja. Nessa altura, talvez pudéssemos explicar cinicamente a coisa, com a necessidade de impedir que a grande comunidade portuguesa sofresse represálias. Mas, isso dificilmente aconteceria, pois o regime do apartheid tinha nessa comunidade os seus meninos mais bem comportados.

Já o apoio a uma personagem sinistra, como Herr Zelensky, só Freud o pode explicar. Não temos nenhuma comunidade portuguesa na miserável Ucrânia, e mesmo se tivéssemos. Por isso, o apoio a Herr Zelensky, só se explica por uma necessidade desesperada de provar que continuamos a ser bons alunos. Ainda assim, Costa não se livrou de um lawfare à brasileira, lá por ter ido ao beija-mão a Herr Zelensky e lhe ter dado 250 milhões de euros, que muita falta nos fazem.

Depois, tivemos a infâmia que foi pôr o traste a discursar por videoconferência na sessão solene do 25 de Abril. Um liberticida, cujo país tem prisões tão letais que é preciso queimar os corpos dos mortos, podia até discursar em qualquer outra data, mas nunca numa data que assinalou a nossa liberdade. Nunca o poderia ter feito, quando, antes dessa data, centenas de pessoas também desapareceram em masmorras, durante 48 longos anos.

Herr Zelensky é uma personagem sinistra. Não só por ser corrupto. É por ser um aldrabão e um sanguinário. Zelensky fez-se eleger prometendo levar a paz às províncias de Leste. Acabar com coisas, tais como os “safaris” onde estrangeiros e membros do Azov iam caçar “ruskies”. Dar-lhes autonomia, deixar que falassem a sua língua e que vivessem em paz. Acabou a fechar os olhos a todas as depredações. Promulgou a infame Lei dos Povos Autóctones e, dias antes da invasão russa, tinha uns 200 mil soldados às portas de Donetsk e Lugansk dando, a quem lá vivia, as mesmas hipóteses que Israel dá aos palestinianos: a morte ou a expulsão.

Na Conferência de Segurança de Munique, no domingo antes da invasão russa, Zelensky prometeu recuperar militarmente a Crimeia e todos esses territórios e ter armas nucleares quando chegasse o Verão. O fogo-de-artifício estava, por essa altura, a cair bem rijo das alturas, em Donetsk e Lugansk. Todos os trastes sabiam disso mas a vontade de pilhar os recursos da Rússia foi mais forte que qualquer sentido de humanidade e bom senso. Subestimámos as capacidades da Rússia e achámos boa ideia apoiar uma gente fanática e sedenta de sangue. Zelensky aceitou liderá-los, pensando ganhar alguma coisa com isso. E, até ao momento, tem ganho.

Agora pede armas de longo alcance e letalidade para atacar no interior da Rússia. A NATO, que não pode pensar na ideia de mais uma derrota, já disse que lhas vai dar. Sabendo nós que, a soldadesca ucraniana privilegia tentar matar todos os civis que pode, porque de lutar percebem pouco, é provável que seja desta que a Rússia não tenha outro remédio senão despejar umas quantas armas nucleares táticas. Porque um novo Yeltsin, ou a desintegração da Rússia em cinco ou vinte, é a única alternativa que lhe damos, e isso a Rússia já disse que não vai aceitar. Toda a gente sabe quanto lhes custou o Yeltsin.

Nesse contexto, pode ser que não tenhamos de sustentar o traste durante 10 anos. O traste vai retirar-se para um dos palácios que comprou e a Ucrânia também não terá mais miséria que a que já tinha antes da guerra. Já agora, o traste não convocou eleições para provar que nós iremos sempre atrás dele nem que dê um peido. Alguém acredita que havia alguma possibilidade de o traste perder as eleições? O Leste não vota e o Ocidente está dividido entre os nazis fanáticos e os desgraçados que até ja acreditam que se votarem contra os nazis terão maneira de saber.

Mas, não fazer novas eleições, foi mesmo a forma de Herr Zelensky provar que terá o apoio do Ocidente, seja qual for a aleivosia que faça. Que, ao dia de hoje, se traduz no facto de o sujeito ser o ditador, de facto, da Ucrânia, pois o seu mandato como Presidente da Ucrânia terminou a 20 do corrente mês.

Nada que tire o sono a quem pôs no poder ditadores como Pinochet, Videla ou a Junta militar grega. Nessa altura era em nome do combate ao comunismo. Hoje é só em nome da pilhagem.

Enfim, que Herr Zelensky venha e desapareça daqui depressa, que trastes como ele já cá temos muitos.


O prémio Nobel da infamia vem a Portugal

(In Resistir, 28/05/2024)

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O sr. Zelensky chega 3ª feira a Lisboa (hoje) – vem mendigar mais dinheiro para os seus bolsos fundos. O supracitado indivíduo é um dos corruptos mais asquerosos da história universal. Já é um multimilionário e a sua riqueza é feita às custas do sangue do seu próprio povo.

Na Ucrânia morrem mais de 1000 soldados por dia, mas ele não tem pejo em prolongar uma guerra que sabe perdida nem de entregar o seu país à pilhagem de transnacionais como a Blackwater e muitas outras. Tudo para aumentar a sua fortuna pessoal e a da sua entourage. 

Zelenski acaba de comprar um palácio em Londres que pertencia ao rei Charles, que se acrescenta ao património imobiliário já possuído em Israel, na Itália e na Florida. É claro que sempre sobram uns trocos para Mme. Zelenska, quando vai a Nova York, comprar joias de centenas de milhares de dólares no Cartier. Tudo isso é cuidadosamente omitido pelos media corporativos que nos desinformam.

É com tal indivíduo que o governo português quer assinar um acordo de assistência militar e financeira. Será para um período de 10 (dez) anos diz o seu deslumbrado ministro dos Negócios Estrangeiros – mas o governo não informou os portugueses qual será o valor das prestações anuais.

Fica por esclarecer se nesta nova punção ao Orçamento do Estado português já estão incluídos os 250 milhões de euros que o ex-primeiro-ministro António Costa prometera quando foi ao beija-mão de Zelenski em Kiev.

Como é que para falar do 25 de Abril eu vou para 24?

(Pacheco Pereira, in Público, 25/05/2024)

Presos Políticos, gravura de José Dias Coelho

Uso um artifício, mais ou menos cénico, mas tão verdadeiro que se percebe pelo silêncio que resulta.


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Eu tenho andado de escola em escola em escola, por todo o país, a falar do 25 de Abril, por iniciativa do Arquivo Ephemera. Nas escolas secundárias encontra-se talvez o público mais difícil que se pode ter nestes dias de 2024, adolescentes muito mais interessados no telemóvel ou em troca de gracinhas com o outro/a adolescente ao lado. Uns são de turmas mais novas, dos primeiros anos, outros são do 11.º e 12 .º ano, mais velhos, mas ainda completa e absolutamente adolescentes, estado em que, tudo indica, hoje se fica muitos anos.

Nestes públicos a grande diferença vem dos locais e das escolas, e é a óbvia diferença social. Não é a mesma coisa falar numa escola da Moita ou num colégio católico de Lisboa, basta olhar ou fazer uma pergunta qualquer. A que costumo fazer é quem leu a Alice no País das Maravilhas. Nos subúrbios de Lisboa, a norte ou a sul do Tejo, um ou dois ou leram ou sabem o que é, num colégio “fino”, dez ou 12. Estamos a falar de assistências entre 80 e 300 alunos, mas a percentagem de respostas não tem a ver com o número de presentes, mas com as condições sociais e já testei esta questão a milhares. Pode não ser a melhor pergunta, mas resulta. A pergunta é, aliás, desnecessária, porque basta olhar para as salas cheias e ver a sua composição, roupa, postura e compostura, fala ou silêncio, maneira de sentar, os que estão à frente e os que querem ir para trás e o estado geral de sonolência ou de interesse à partida.

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Salvo raras excepções, os alunos estão lá por obrigação, não têm outro remédio senão ir como se fossem para uma aula. As escolas estão cheias de desenhos, instalações, frases, cartazes sobre o 25 de Abril e percebe-se o esforço dos professores para dar sentido a uma data em que muitos deles ainda não eram nascidos, mas apanharam o “vento” da revolução nos seus primeiros anos. Os alunos nem “vento” nem brisa, para eles cabe bem a frase “o passado é um país estrangeiro”. A minha função é completar a frase de L. P. Hartley, explicando-lhes que “lá as coisas faziam-se de forma diferente”.

O “lá” é o 24 de Abril de 1974 e não o 25, porque falar da força e valor da liberdade a quem sempre a teve não é fácil. Para eles, a liberdade é como o ar que se respira e, como não têm falta de ar, não dão por ela.

Uso então um artifício, mais ou menos cénico, mas tão verdadeiro que se percebe pelo silêncio que resulta. Peço um voluntário “para ser torturado” e, passado o espanto inicial e ultrapassada a diferença entre estar com gracinhas e levantar-se e dizer “vou eu”, lá aparece um mais afoito empurrado pelos colegas do lado, aquele a que a riqueza vocabular do português, em risco nos dias de hoje, chama “reguila”.

Coloco-o ao meu lado e mando-o encostar os pés, como se fosse uma “estátua”, o nome técnico da tortura a que o vou sujeitar. Explico-lhe que à frente tem uma secretária e um inspector que o interroga e atrás dois agentes da PIDE um de cada lado. Nem sempre era esta a configuração, mas não se afasta do essencial. As faces à minha frente perguntam em silêncio, mas como é que isso é tortura? E eu respondo: “Aqui o Rafael (o meu último torturado de há dois dias) vai ficar assim uma hora, duas horas, seis, um dia, dois dias, quatro dias, até ‘falar’ ou a PIDE desistir.”

Não é preciso explicar muito mais, nem ir aos detalhes, nem falar de grandes espancamentos, eles percebem muito bem o que acontece, nem querem saber se o homem ou a mulher estava algemado. Percebem também muito bem o que faziam os agentes atrás, sabem que eles se revezam e que o preso que estava ao lado seria espancado se se tentasse sentar. Sabem também que esses “pides” vão voltar para suas casas, comer a comida que as mulheres lhes fizeram, brincar com os filhos, ver o jogo na televisão e, se regressarem ao serviço na manhã seguinte, podem perguntar: “Então o tipo já falou ou vou ter que ir lá para cima pô-lo na ordem?…”

Não é preciso dizer mais nada, o 24 de Abril está explicado e o 25 de Abril também.

Quando mando voltar ao seu lugar, o Rafael (o meu último torturado) e todos os outros param de ser “reguilas”, há uma certa gravidade que se instala e tenho a presunção de que o grau de adolescência natural diminui para incluir um maior respeito pela coragem, uma maior atenção à liberdade, um repúdio pela violência da ditadura, um asco ao inspector e aos agentes na sala que só faz bem ter. Ontem e hoje.

O autor é colunista do PÚBLICO