Ludíbrio e a política europeia

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 23/05/2024)


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Olhamos e vemos, escutamos e concluímos: fomos ludibriados. Associamos a palavra ludíbrio a engano. E é acertado, mas não explica o modo como fomos enganados. Conhecer a origem da palavra ludibrio ajuda a perceber o que é o engano. A que conheço, encontrei-a num livro que deveria ser de leitura obrigatória para nos defendermos das manobras de encantamento a que somos sujeitos, no livro A Servidão Voluntária, do pensador do século XVI Etienne de La Boétie (1530 -1566).

La Boétie relata que, além da violência direta, uma das estratégias dos tiranos é humilhar os súbditos, fazendo-os crer fracos e assim os corromper. O exemplo que utiliza é o da cidade de Sarde, capital da Lídia, uma região na zona ocidental da antiga Ásia Menor (Anatólia), onde estão hoje as províncias da Turquia ocidental de Uşak e Manisa.

Os seus moradores, cercados pelos exércitos do imperador persa Ciro II, fizeram saber que se insurgiam, que iriam resistir. Sem querer destruir a bela cidade, onde segundo a tradição foi cunhada a primeira moeda, Ciro mandou suspender o saque que os seus soldados estavam a realizar e optou por uma estratégia de aliciamento dos lídios, fez do rei Cresos seu conselheiro, mas proibiu aos lídios utilizar armas e determinou que se dedicassem ao canto e a dança. Incentivou a instalação na cidade de bordéis, tabernas e jogos públicos e, tendo comprado a dignidade dos lídios, proclamou uma ordenação de sujeição que os habitantes tiveram que acatar. Ciro terá ficado tão satisfeito com as suas medidas que desde então nunca mais foi preciso puxar da espada contra os lídios. Estes passaram a usufruir das distrações, do exercício lúdico, (os romanos chamaram ‘lidi’ e depois ‘ludi’ ao que chamamos passatempo) a troco de cederem os segredos de cunhar moeda e de entregarem o ouro. Foram ‘ludibriados’.

O que tem um texto do século XVI de tão atual que possa continuar a iluminar reflexões sobre a obediência na sociedade contemporânea, na Europa, no caso da aceitação das proclamações dos Estados Unidos sobre a cedência da sua soberania a troco da abdicação dos seus valores e princípios, da liberdade de os defender? A sua atualidade vem exatamente da aceitação mais ou menos consentida como nada há a fazer, do TINA (There is no alternative), da resignação ao servilismo, da subserviência que são o programa político da maioria dos candidatos a deputados em Bruxelas. Todos aceitam a versão americana sobre a Ucrânia e Gaza, sobre a necessidade de gastar milhões em armas americanas e até, na versão mais radical, de enviar europeus fardados para combater numa guerra que teve por madrinha uma funcionária dos serviços secretos americanos — Vitoria Nulland — que subiu a subsecretária de Estado do governo Biden e que, questionada sobre a posição da União Europeia quanto ao golpe que preparava com as desestabilizações tendo como ponto visível a Praça Maidan, em Kiev, afirmou: Quero que a União Europeia se foda!

É esta a política real da União Europeia. Apoiamos quem nos mandou ir àquela parte e somos ludibriados quando os candidatos nos dizem que querem ir para Bruxelas defender a nossa Liberdade e o nosso bem-estar. Somos ludibriados por queles que nos prometem casas e vão tentar sacar dinheiro para obras faraónicas, como o aeroporto!

Somos ludibriados quando nos prometem uma Europa aberta ao mundo e a sua política é de confronto com a Rússia, a China, a África, a Índia, a América Latina. É assim com a política financeira do Banco Central Europeu, em que as taxas de juro servem os lucros dos bancos privados à custa dos cidadãos e em que o euro é uma submoeda do dólar e o BCE é uma sucursal da Reserva Federal dos EUA (FED). É assim com as vagas migratórias provocadas pela desestabilização no Médio Oriente na África subsariana. É assim com a desindustrialização europeia. Estamos como os Lídios, a ser ludibriados, ou, mais do que isso: vigarizados!

Big Brother Bugalho — a sociedade espetáculo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 25/05/2024)

EuroTachos I Prato do dia : sopa de Bugalho

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Sebastião e os frangos do KFC

O BBB é um fenómeno diretamente relacionado com a sociedade do espetáculo, que tem como referência a obra “1984”, de George Orwell. A sociedade do espetáculo foi e é a fórmula encontrada pelos detentores do poder para que os povos, as massas, aceitem a sociedade totalitária em que todos são vigiados e manipulados pelo Grande Irmão, mas em que parecem divertir-se muito dizendo umas banalidades, vivendo num faz de conta e consumindo os produtos da moda. A sociedade do espetáculo que o PSD promove através de um concorrente do Big Brother de nome Sebastião Bugalho é uma sociedade em que as imagens funcionam como meio de dominação através dos meios de manipulação da opinião, os mass media. Nas casas do BB todos os produtos, a começar pelas criaturas, são ali colocados para serem vendidos. A casa do BB é um mercado de escravos, o ecrã de televisão é um balcão de drogaria.

A sociedade do espetáculo é o veículo de uma ideologia que utiliza o poder das imagens para obter a passividade dos indivíduos, dos consumidores, nós. As imagens são um produto de alienação, uma mercadoria que tem por finalidade bloquear o pensamento crítico dos membros da sociedade. Os concorrentes do BB são uma mercadoria que corresponde às mulheres das montras do Bairro Vermelho de Amesterdão. Eles são a atualização (o upgrade) tecnológica e neoliberal do processo de aproveitamento político da prostituição. O BB é o herdeiro da história do mais antigo negócio do mundo. Na Holanda, já na Idade Média, os bordéis de Amesterdão eram administrados pelo Xerife e pelos seus homens de confiança. A relação entre o mercado e o poder mantem-se.

“Se quer uma imagem do futuro, imagine uma bota a esmagar um rosto humano para sempre.” É uma frase é do livro ‘1984’, de George Orwell. Podemos pensar o Big Brother como um exercício de associação de uma bota, de preferência uns ténis de marca de Sebastião Bugalho sobre o nosso rosto. Os especialistas em marquetingue do PSD conhecem os impulsos que levam seres comuns a disporem-se a tudo para sair do anonimato e sabem que criar uma imagem é mais fácil sobre uma tábua lisa do que sobre uma superfície rugosa e com inscrições anteriores. Hoje todos os candidatos ao BB procuram seguidores e likes e os fabricantes de candidatos sabem como promover um frango de aviário num ícone da modernidade, num Kentucky Fried Chiken (KFC), do coronel Sanders.

BBB é um produto do seu tempo. O tempo do vazio. Apenas não é um templo vazio porque não passa de uma pequena tenda que será levada logo que passe a época. O PSD entendeu que a sua política era também a do BB, criar o vazio e a alienação que são o campo onde assenta o poder. O BBB é ideologia política elevada ao mais alto nível de perversidade: obter a servidão voluntária dos povos.

O Bugalho do Big Brother do PSD faz o seu papel na Casa onde o PSD nos quer meter para que o Grande Irmão nos domine. Estamos, com este concorrente, a ser atraídos pelo espetáculo de um jovem armado de certezas, disposto a tudo, a iniciar-se numa montra do Bairro das Luzes Vermelhas, não em Amesterdão, mas em Bruxelas, que é perto e mais moderno.

Prevê-se um sucesso de likes ao artista e de audiências para o promotor do espetáculo, que, sinal dos tempos, é um partido político.

Europa: visitas não se queixam do jantar

(Daniel Oliveira, in Expresso, 23/05/2024)

Daniel Oliveira

Apesar de confiarem mais na Comissão Europeia do que no governo, só 44% sabem o nome da suapresidente; apesar de confiarem mais no Parlamento Europeu do que na Assembleia da República, só 47,5% identificam um eurodeputado português. A confiança baseia-se na pouca exposição ao escrutínio popular. A Europa muda quando mudam os governos, sobretudo da Alemanha e França. Ao contrário dos povos que se sentem no direito de discordar e exigir, nós somos os “bons alunos”. Visitas não se queixam do jantar.


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Logo no primeiro debate ouvimos candidatos usarem termos como “defense bounds” ou “critérios de Copenhaga”, tornando o discurso aparentemente menos eficaz, porque incompreensível para a quase totalidade de quem os ouvia num canal generalista. Digo “aparentemente” porque o objetivo, quando se discute um tema relevante para o nosso futuro mas distante das pessoas, era um: mostrar o domínio dos dossiers. Sensação que os comentadores, mesmo quando eles próprios não dominam os ditos dossiers, valorizam.

A forma como se debate a Europa resume bem o principal problema do projeto europeu: determinando a vida de todos, falta-lhe o “demos”. Não é por serem preguiçosos que os políticos escolhem temas nacionais para se confrontarem, nestascampanhas. É porque a “democracia europeia” (ponho aspas, porque o termo é francamente abusivo) não tem povo, não tem comunidade. Quando a comunicação social quer que os candidatos falem mesmo dos “temas europeus”, eles tentammostrar a quem nada sabe do tema que estão tecnicamente bem entregues se votarem neles. Se são estreantes neste tipo de eleições, os debates transformam-se num teste de “cultura europeia”, em que brilha mais quem menos se fizer entender.

Com candidatos sem grande passado nesta frente política, o debate facilmente se transforma numa espécie de entrevistasde emprego para administrador não executivo. Não vai mandar grande coisa num parlamento muito limitado no seu poder de iniciativa, mas será bem pago. Sim, é na Europa que se decide quase tudo. Mas, e talvez não seja boa ideia dizer isto aos eleitores, não é no Parlamento Europeu. A Europa muda quando mudam os governos nacionais, sobretudo os da Alemanha e de França. Até o presidente da Comissão Europeia é, de facto, escolhido assim. No nosso caso, resta-noscumprir o papel de “bom aluno”, que assumimos com um complexado prazer.

Os debates são fracos porque, quando não há um eurocético na sala, tudo se resume a medir a intensidade do europeísmo não fica grande coisa para discutir. Como vimos, o PSD tem um discurso ambiental para dentro, mas alinha com o PPE lá fora; o PS é contra o Pacto das Migrações, mas votou a favor, como os socialistas europeus. Quem se apresenta como “bom aluno” da Europa não dispensa apenas a soberania política, dispensa a convicção política. Porque, apesar do seu suposto europeísmo, se comporta como uma visita em Bruxelas.

barómetro da Fundação Francisco Manuel dos Santos sobre a Europa concluiu que os portugueses acham que as instituições europeias são mas confiáveis do que as nacionais: 37% confiam no Governo português e 65,5% na Comissão Europeia; 38,3% confiam na Assembleia da República, 66% no Parlamento Europeu. Estranhamente, 85% acham que o seu voto nas eleições europeias conta para o destino da UE (apesar de elegerem 3,3% dos seus deputados), mas só 31% foram votar em 2019; e apenas 49% acreditam que votar tem impacto nas eleições nacionais (elegendo 100% dos deputados com muito mais poderes legislativos), mas foram, há uns meses, 60% às urnas. Nem os portugueses parecem levar muito a sério em atos o que dizem sobre a Europa.

Esta confiança não resulta de um aprimoramento da democracia europeia, mas do oposto. Menos exposta ao escrutínio, é raro ser as instituições europeias serem responsabilizadas pelos problemas concretos das pessoas, como a inflação ou o preço das prestações das casas determinado por um aumento cego das taxas de juro que não tem em conta as especificidades de cada país (como o peso das taxas variáveis). As responsabilidades da catastrófica reação europeia à crise financeira de 2008 foram atribuídas a Sócrates, as da austeridade estupidamente imposta foram atribuídas a Passos e as da recuperação a Passos ou a Costa, conforme a simpatia política de cada um. Barroso e Draghi não estão, para o mal ou para o bem, nas contas de ninguém.

A prova de que a ignorância dos eleitores é uma bênção para os poderes europeus – e por isso Bruxelas é tão apetitosapara todos os lóbis – é o conhecimento que os mesmos que confiam nos poderes europeus têm deles: apesar de confiarem mais na Comissão Europeia, só 44% sabem o nome da sua presidente, apesar de confiarem mais no Parlamento Europeu,só 47,5% conseguem identificar um único eurodeputado português

Os portugueses também acham que Portugal beneficiou com a adesão ao euro, facto que praticamente todos os números da nossa economia nos últimos 25 anos desmentem. Mas as más notícias destas duas décadas perdidas foram nacionalizadas e atribuídas a “governos socialistas”, “falta de ambição” e outras coisas mais ou menos vagas, não a uma moeda que mudou radicalmente o nosso contexto económico e que nunca foi pensada para nós.

A confiança nas instituições europeias baseia-se na sua pouca exposição ao escrutínio popular (não falo de escrutínio interno). Se os olhos não vêem, o coração não sente. Quanto mais intensa é a democracia, maior o desgaste do poder. E não existe propriamente uma democracia europeia. Por isso, quem defendende os dogmas neoliberais olha para o projeto nascido em Maastricht com tanta simpatia. Sem povo fica tudo mais fácil.

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Voltando aos debates, mesmo temas sensíveis, como o inumano Pacto das Migrações, que aceita separar menores dos seus pais, ou o alargamento Leste e à Ucrânia (já nem falo das novas regras orçamentais, que foram aprovadas sem serem tema em Portugal) são debatidos do ponto de vista moral ou administrativo, nunca político. Entre a aceitação do alargamento, com base numa ideia de dever para com os ucranianos e não do efeito que isso terá na Europa, e o fatalismo da desgraça que o contínuo descentramento da União para Leste significa para nós (atribuirmos essa desgraça ao governo de turno), ninguém perde tempo a debater as compensações poderíamos exigir. Os franceses, com a sua agricultura, não deixarão de o fazer. Porque se sentem membros plenos desta UE, com o direito a discordar e a exigir.

Já nós, continuaremos a avaliar os “bons alunos” que mandamos para a Europa, esse lugar distante a que agradecemos pertencer sem fazer perguntas ou exigências. Para quem faça perguntas ou mostre resistência está guardado o degredo do pior dos insultos políticos: “eurocético”. Quase um sinónimo de ser inimigo da democracia, nacionalista, xenófobo. Porque não é esse o nosso lugar na Europa. Visitas não se queixam do jantar.