Montenegro e a cordilheira – ou a ascensão do lúmpen

(Fernando Campos, in blog O Sítio dos Desenhos, 08/10/2024)

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Todo o homem tem uma porção de inépcia que há de sair em prosa ou verso, em palavras ou obras, como o carnejão de um furúnculo. Quer queira quer não, um dia a válvula salta e o pus repuxa.

Camilo Castelo Branco


Cavaco Silva é o caso exemplar de que em Portugal é perfeitamente possível desempenhar os mais altos cargos remunerados – na academia, na política e na finança – enfim, ter sucesso, sendo-se estruturalmente analfabeto – isto é, desconhecendo, de todo ou em partes grandes, a mais elementar forma de se exprimir publicamente dentro das normas convencionadas da sua própria língua materna. 

Cavaco diz “não façarei”. Na caváquia (a pátria do Cavaco) todos fazem como ele.Marques Mendes, seu ex-ministro e candidato auto-proclamado a presidente da república, um hominídeo católico com mais de sessenta anos, manifestou-se esfuziantemente orgulhoso de si mesmo por ter descoberto recentemente uma palavra portuguesa de que ele nunca tinha ouvido falar: “genuflexório”. Nuno Melo, o ministro da defesa, fala como quem sabe do “tratado do atlético-norte”. Bugalho, o jovem serafim candidato da AD ao Parlamento Europeu, foi para Bruxelas cantando e rindo, muito ufano das “sete quinas da nossa bandeira”. A ministra do Interior confunde “urologia” com “orografia”. Estas coisas não se inventam.

Luis Montenegro, por exemplo, fez a instrução primária, a preparatória, o secundário inteirinho, licenciou-se em Direito na Universidade Católica (e pós-graduou-se em Direito da Proteção – assim mesmo, em acordês – de dados pessoais, na mesma universidade), exerceu advocacia, casou com uma senhora, foi pai de dois meninos, entrou para a maçonaria, ou talvez não, presidiu à assembleia geral de duas das maiores empresas portuguesas, entrou na política, foi deputado municipal, vereador, deputado à assembleia da República, líder da sua bancada e agora é primeiro-ministro – sempre a dizer “será-lhe”. 

Em 2012 debrucei-me pela primeira vez sobre este vulto da Caváquia. Foi quando ele era o líder parlamentar do PSD e referiu, a propósito de qualquer coisa, que a redução dessa coisa no orçamento não seria uma “Min-nun-dência”(!!!) no que concerne à redução do défice. 

O que então me pôs a pensar não foi a substância de tão pertinente convicção mas sim a ênfase substantiva, o à-vontade sorridente e orgulhoso-de-si-mesmo, o ar inflamado e descomplexado, do tribuno. Na época concluí que a literacia, ou melhor, a falta dela em Portugal não era apenas uma min-nun-dência, mas um verdadeiro Monte Negro. E deduzi que, com os outros deputados do seu grupo parlamentar, ele conformaria uma autêntica, incontornável, cordilheira.

Mas receio que agora seja bem maior – e pior – pois se, além destes, somarmos o remanescente dos cristãos-velhos do CDS; uma terça parte da bancada cor-de-rosa, a do sucialismo empresarial; mais o Branca-de-Neve e os quarenta e nove rolões pretos do integralismo chegano e aindaos quéques azul-bébé do liberalismo luzitano – será fácil de verificar que todos juntos, todos muito ardentemente sionistas-novos, conformam um acidente sociológico de uma densidade tão impenetrável a qualquer conceito de justiça elementar como inacessível a qualquer ideia generosa ou noção de bom-senso e de decência.

Não creio, como sugere a imprensa dominante, que isto configure qualquer emergência súbita de um certo povo-baixo, mas sim a ascensão lenta do lúmpen; de um lúmpen velhaco e vingativo, dotado daquele género de sensibilidadesinha medíocre que exulta, alarve, com a assunção da sua própria desfaçatez e se compraz, condescendente e cúmplice, com a expressão pública da ignorância rasa e da grosseria refinada na mais espessa estupidez.

Tudo isto no ano em que, paralelamente, o país oficial comemora impávido e mui solene os cinquenta anos do Vinte e Cinco d’Abril. Um fenómeno bizarro, de padrão talvez esquizotípico, bastante complexo. Fiz um desenho, como sempre sucinto e simplificado, para o tentar entender. O futuro decerto explicará-lho.

Fonte aqui

Este país é um colosso…

(Carlos Esperança e José Gabriel in Facebook, 29/09/2024, montagem da Estátua)

(Hoje acordei virado para a política interna, apesar dos nossos busílis não contarem em nada para a resolução das graves encruzilhadas que se colocam atualmente à Humanidade, no complexo xadrez mundial. Haverá orçamento, ou não haverá orçamento? Haverá eleições, ou não haverá eleições? Assim, publico dois textos de fno recorte analítico sobre a situação política, destacando-se em ambos a atuação de Marcelo, não enquanto criador de “factos políticos”, mas enquanto criador de “impasses políticos” e pai da instabilidade que agora diz querer evitar.

Sim, um país que tendo um Governo de maioria absoluta – independentemente dos seus méritos ou deméritos -, o troca por um outro, muito mais pernicioso para a maioria dos cidadãos, a navegar dentro de um saco de gatos, é um colosso!

Sim, parafraseando a saudosa Ivone Silva no vídeo que no final vos deixo: “Este país é um colosso, está tudo grosso, está tudo grosso!”

Estátua de Sal, 30/09/2024)


O homem não para

(Carlos Esperança, in Facebook, 29/09/2024)

O homem não para. O político videirinho que provocou a instabilidade é agora o arauto da estabilidade. Ontem dizia que não se devia ter medo do voto do povo, hoje, receoso do povo, só quer que se pronuncie quando já não estiver em cena.

O homem treme de medo, não de vergonha, e descobriu agora nova guerra na Ucrânia e a necessidade de executar o PRR ambas transitadas da maioria absoluta que dissolveu.

O homem, liberto de perguntas incómodas, voltou a aparecer em todos os telejornais e a abri-los com o seu estado de alma transformado em comunicação ao País. Começou por chantagear o PS e acabou a chantagear o PSD.

Ontem ia para eleições se o Orçamento fosse recusado, agora é preciso que o Governo abdique dele porque não tem maioria. «Fazer-se um esforçozinho não é pedir muito», é o esforçozinho que pedia aos Bancos para pagarem juros maiores a depositantes. Agora até «o interesse nacional é mais importante do que programa do Governo».

O homem não tem um pensamento diferente do Chega. Não é o poder do Chega, que ele se esforçou a alimentar, que o preocupa, é que sejam desmascarados o plano que urdiu e a estratégia que usou.

O homem ainda sonha dividir o PS para se salvar, desejo que Cavaco teve para impedir que António Costa governasse, contando com os ajustes de contas internos e ambições pessoais.

O homem é mau, mas não é burro. E, farto de rezar e de beijar as mãos aos bispos do seu Deus, depois de ter renegado o pai, o filho Nuno e o Espírito Santo Banqueiro, há de acabar a implorar ao Diabo que o salve.

Comigo não contará.


Memória próxima

(José Gabriel, in Facebook, 29/09/2024)

Quando, há uns meses – parecem anos, mas foram meses – António Costa apresentou o seu pedido de demissão, rápida e gulosamente aceite por Marcelo, ninguém ouviu o presidente falar em “interesse nacional”, “estabilidade” e outras expressões com as quais nos martiriza, agora, quotidianamente, o juízo. O PS tinha, então, em recentes eleições, maioria absoluta. Tinha sido um dos partidos que o apoiou na reeleição – convém não esquecer. Logo, era óbvia – como tinha feito, com o PSD, o seu antecessor Jorge Sampaio – a solução de convidar o PS a apresentar um outro primeiro-ministro.

Mas não. Então não tinham sido inventados o interesse nacional, a estabilidade, a governabilidade e cousas que tais. Então, só contou a erecção política do de Belém. Vontade de poder sem medir consequências que não a possível anémica vitória do seu partido a curto prazo e, depois, Deus – através dos seus agentes na Terra, a quem Marcelo tão entusiástica e anti-higienicamente beija as mãos – providenciaria. Mas, como canta o poeta Chico: 

“Diz que deu, diz que dá

Diz que Deus dará

Não vou duvidar, ó nêga

E se Deus não dá

Como é que vai ficar, ó nega?

Deus dará, Deus dará…”

E Deus não ‘tá dando, não. Notem que não faço considerações sobre as políticas do PS de então, da qualidade do seu governo, dos seus resultados. Não é isso que está aqui em questão.

O que agora releva são as consequências de um ego desmedido e sem inteligência e bom senso que lhe acompanhe o manobrismo, bem como a evidência de que o lugar de presidente da República, tratado com bonomia e optimismo pela Constituição no que diz respeito aos riscos de abuso de poder e possível falta de integridade de um qualquer ocupante, pode ser devastador.


Os assassínios no PREC

(Nuno Ramos de Almeida, in Diário de Notícias, 11/02/2024)

Sede do PCP, no norte do país, destruída em 1975

Nélson Teixeira foi o único dos quatro filhos de Rosinda Teixeira que dormiu em casa na madrugada de sexta-feira, 21 de maio de 1976. A família morava no lugar de Arnozela, São Martinho do Campo, localidade no meio do coração das populações dos operários da indústria têxtil.

A bomba explodiu às três horas da manhã e foi tão potente que se ouviu a 50 quilómetros de distância.

Os pais de Nélson foram projetados para fora da cama. O soalho deu de si, a casa ficou toda em chamas. O filho tentou entrar no quarto dos pais. Tentou forçar a porta sem sucesso. “Só me lembro de escutar a minha mãe a dizer ‘ai, Jesus’. Foram as últimas palavras que lhe ouvi.”

Em São Martinho do Campo (Santo Tirso), a 21 de Maio de 1976, Rosinda Teixeira morreu na sequência de uma bomba colocada na sua casa por Ramiro Moreira. O marido tinha simpatias de esquerda.

O fogo envolvia tudo. Ainda teve forças para abrir a janela e cair desamparado. O corpo do pai tombou também do parapeito da janela, parecendo um homem-tocha. Ficaram ambos a arder entre a erva e as couves. António Teixeira , 49 anos na altura, ficou com queimaduras de terceiro grau. A mãe, Rosinda Teixeira, morreu nas chamas.

Os explosivos plásticos tinham sido postos por baixo do quarto do casal. Um engenho idêntico ao que tinha deflagrado, uma semana antes, na Embaixada de Cuba em Lisboa, matando duas pessoas.

O homem que tinha perpetrado o atentado em São Martinho do Campo, um dos muitos que cometeu, era Ramiro Moreira, antigo segurança do PPD (atual PSD), e em algumas dessas ações acompanhara-o Manuel Macedo, dirigente do MDLP. Moreira foi militante n.º 7 do PPD e responsável da segurança; foi expulso por Sá Carneiro, em novembro de 1975, por pertencer ao MDLP.

O atentado de São Martinho do Campo fora “encomendado”  a essa organização por um industrial da zona. O alvo era o operário têxtil e pai de Nélson.

“António Teixeira, marido de Rosinda, a vítima mortal na noite fatídica de maio de 1976, começara a trabalhar para ele [esse empresário] em 1949 e notara a grosseria dos modos, os maus-tratos aos empregados, o assédio sexual às operárias. ‘Ele chamava ao gabinete as que lhe interessavam, mas muitas não lhe davam hipótese. Chegava a agredi-las à chapada na frente de toda a gente’, ilustra Nélson Teixeira [filho da mulher assassinada], a partir de histórias escutadas ao pai e a outros empregados. O descaro incluía mulheres grávidas e casadas, ouvir-se-ia mais tarde em tribunal”, relata Miguel Carvalho no seu livro Quando o Portugal Ardeu, em que se investigam os crimes da rede bombista de extrema-direita responsável por muitos assassínios durante o PREC.

Ataque a uma sede do PCP no norte do país em 1975. Fonte: Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira

“Os vários ‘exércitos’ da contrarrevolução, alguns avulsos, foram responsáveis por 566 ações violentas no país entre maio de 1975 e abril de 1977, uma média de 24 atos de terrorismo por mês, quase um por dia, causando mais de 10 mortes e prejuízos incalculáveis no património de vítimas e instituições. Os partidos de esquerda, como o PS, com o PCP à cabeça, foram os alvos preferenciais de quase 80% das bombas incendiárias, espancamentos, apedrejamentos e atentados a tiro”, contabiliza Miguel Carvalho no seu livro.

Uma das estruturas responsável por esta dezena de assassínios e quase 600 ações terroristas nos anos depois da revolução foi o MDLP, a que pertenceu o antigo deputado do Chega Diogo Pacheco de Amorim. A organização foi condenada em tribunal pelo assassínio do padre Max e da estudante  Maria de Lurdes.

Quando, no debate entre os líderes do PCP e do Chega, André Ventura resolve acusar o PCP de inúmeros assassínios no PREC, está visivelmente a tentar desviar a atenção das acusações de Paulo Raimundo, bastante mais verdadeiras, do seu apoio às medidas contra reformados e trabalhadores durante os governos de Passos Coelho.

Ventura não ficou por aqui, finalizando a sua intervenção a dizer que todas as situações em que o PCP esteve no poder “acabaram em morte, em roubo e destruição”.

A verdade é que, no caso dos anos posteriores à Revolução de Abril de 1974, pode André Ventura procurar os cúmplices destes atos dentro do seu próprio partido. 
O MDLP estava ao serviço de certos empresários para castigar operários e até pôr bombas, como em São Martinho do Campo. O Chega é mais prosaico, recebe dinheiro de um conjunto largo de  grandes patrões, mas é mais para confundir as coisas e fazer uma muralha de fumo, em que a pequena corrupção permita escapar a grande corrupção não criminalizada dos interesses instalados em Portugal.

Durante os governos da troika que André Ventura apoiou, um conjunto de empresas estratégicas foi alienado por meia dúzia de patacos. Em poucos anos, a REN, EDP e ANA deram dividendos milionários, que permitiram pagar o dinheiro que custaram aos grupos empresariais que as compraram. Várias inspeções do Tribunal de Contas concluíram que o Estado e os contribuintes foram privados de uma enorme riqueza. Tudo isto foi feito com o silêncio, na altura, do atual líder do Chega.

Como é também verdade que ficou mudo perante os cortes às remunerações dos reformados, polícias, professores e trabalhadores nos anos do governo de Passos Coelho.

É isso que ele não soube explicar durante o debate com Paulo Raimundo e que o levou a reescrever a história dos anos que se seguiram à revolução, inventando coisas.

Ventura sabe que a mentira, por mais que seja mentira, é mais difícil de corrigir do que de propagar. Aprendeu isso com Bolsonaro e com a extrema-direita de outros países.


Sobre este tema pode seguir ainda os seguintes links:

https://media.rtp.pt/memoriasdarevolucao/acontecimento/a-violencia-e-uma-arma

https://setentaequatro.pt/wiki/plano-maria-da-fonte

https://www.jornaldenegocios.pt/weekend/detalhe/portugal-a-lei-da-bomba


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