Quando a fome se junta à vontade de comer

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 14/08/2026)


A “invasão” de Ceuta de 30 de julho foi uma punição por Sanchez ter tido a coragem de se opor a Trump.


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No dia 30 de julho, em poucas horas, entraram de rompante em Ceuta cerca de 70 mil pessoas. Passada mais de uma semana sobre esse sinistro acontecimento encontramo-nos em condições de efetuar uma análise mais qualificada do mesmo. São várias as perspetivas de análise possíveis, que se complementam: migratória, redes sociais, histórica. Este texto aborda apenas a perspetiva geopolítica. Curiosamente, nesse mesmo dia, a cerca de 40 km de Ceuta, o Rei Mohammed VI de Marrocos celebrava o 27.º aniversário da sua entronização.

Por ter sido tão óbvia, é inegável a colaboração dos serviços fronteiriços – que franquearam a fronteira aos «migrantes» -, assim como das autoridades policiais de Marrocos. A Guardia Civil espanhola identificou a presença de agentes dos serviços de informações marroquinos entre os «migrantes». É indesmentível a inação e a cumplicidade descarada da polícia marroquina, só possível por ter recebido ordens superiores.

Esta possibilidade foi corroborada pelo “The Telegraph” e por outros órgãos da comunicação social europeia. Não se tratou de um movimento organizado pelas máfias de tráfico humano, como argumentou o primeiro-ministro Pedro Sanchez que, por curiosidade, em nenhuma ocasião acusou Marrocos de instigar a iniciativa. A esmagadora maioria dos migrantes eram marroquinos oriundos de zonas próximas de Ceuta (Tétouan, Castillejos), embora alguns tivessem vindo de zonas mais afastadas como Rabat. Havia também alguns subsarianos, em número reduzido, esses sim migrantes vítimas das máfias. Inesperadamente, já depois do efeito político produzido, a esmagadora maioria dos “migrantes” regressou voluntariamente a Marrocos.

Convém lembrar que Marrocos reivindica Ceuta e Melilla como partes do seu território, não reconhecendo a soberania espanhola sobre os dois exclaves. O Rei e o Governo marroquino referem-se periodicamente a estas duas cidades como território a recuperar. Esta entrada de “migrantes” em território espanhol foi claramente e acima de tudo um ato com motivações políticas. Mas será que Marrocos atuou sozinho, por sua própria conta e risco, sem apoio político de ninguém? A resposta a esta interrogação deve levar em conta uma série de acontecimentos, que não podem, nem devem ser descartados.

A 15 de julho de 2026, a Câmara dos Representantes do Congresso norte-americano aprovou o H.R. 8595 (National Security, Department of State, and Related Programs Appropriations Act, 2027). No relatório do Comité de Apropriações da Câmara que acompanha o projeto de lei é dito que o comité «nota que as cidades de Ceuta e Melilla administradas por Espanha estão localizadas em território marroquino e continuam a ser objeto da reivindicação de longa data de Marrocos», acrescentando que apoia os esforços do Secretário de Estado para incentivar o diálogo diplomático entre Marrocos e Espanha sobre o «futuro estatuto» de Ceuta e Melilla. Embora não autorize nem dê luz verde a qualquer transferência de território, o texto sugere clara e inequivocamente o alinhamento de Washington com a posição de Rabat sobre Ceuta e Melilla.

Já em plena crise, o Secretário de Estado Marco Rubio reiterou publicamente ser Marrocos o mais antigo aliado dos EUA, e poucos minutos após as primeiras imagens do acontecimento na internet, Ted Cruz postava no “X” sobre o tema chamando-lhe “loucura total” e “suicídio civilizacional”. “A Esquerda odeia o Ocidente e está a trabalhar ativamente para o destruir para sempre” e outras niceties.

Também no “X”, o conhecido neocon Michael Rubin e fervoroso adepto da invasão do Iraque veio dizer, que os “EUA e Israel deviam impor sanções a Espanha se utilizar qualquer equipamento de defesa policial americano ou israelita contra os marroquinos inocentes na Ceuta ocupada”. Rubin instigou Marrocos a marchar sobre Ceuta e Melilla e replicar a Marcha Verde de 1975, quando o Rei Hassan II mobilizou civis desarmados para o Saara Ocidental. Segundo ele, Espanha tem de ser pressionada para descolonizar e entregar as cidades de Ceuta e Melilla a Marrocos.

As declarações de Rubin estão prenhes de atrevimento, sobretudo para quem se arvora de especialista em assuntos do Médio Oriente. Não encontrei nenhuma tomada de posição de Rubin sobre a brutalidade com que o ICE tratou os migrantes que assolaram a fronteira norte-americana; ou sobre a devolução de terras ocupadas/roubadas aos povos autóctones. Rubin podia começar pelo seu país e terminar em Israel. E claro está, Ceuta não é um território ocupado.

Por sua vez, Trump tem sido tremendamente hostil a Sanchez devido à recusa deste em aumentar os gastos com a defesa. Trump chamou à Espanha, repetidas vezes, «sócio terrível» e «causa perdida». Na Cimeira da NATO, em Ancara (julho de 2026), Trump vociferou chamando à Espanha «um péssimo parceiro na NATO. Não participam. Não pagam. Não quero ter nada a ver com Espanha.» e ordenou ao Secretário do Tesouro que cortasse todo o comércio com Espanha, incluindo visitas.

As acrimónias eram e são frequentes. Quando o Governo espanhol proibiu o uso das bases de Rota e de Morón e o sobrevoo do espaço aéreo espanhol por aeronaves norte-americanas que participassem nos ataques ao Irão, Trump respondeu: «A Espanha tem-se portado de uma forma terrível… Vamos cortar todas as relações comerciais com Espanha», afirmando ainda que «Podemos [EUA] utilizar a base se quisermos… Ninguém nos vai dizer para não o fazermos».

Em sinal contrário, as relações de Marrocos com os EUA e Israel têm-se aprofundado. Marrocos é um país parceiro da NATO através do Diálogo para o Mediterrâneo e participou em várias missões lideradas pela NATO, nos Balcãs e na Líbia, para além de ser um dos principais aliados dos EUA, desde 2004. Marrocos disponibilizou-se para um enviar um contingente militar e policial para Gaza, de modo a que Trump pudesse cumprir a promessa de manter Gaza sob tutela árabe, o que na prática se traduz em ajudar Israel a manter e a reforçar o controlo sobre Gaza.

Marrocos é o aliado árabe mais próximo de Israel. No dia 10 de dezembro 2020, foi anunciada a normalização das relações entre Rabat e Telavive, no âmbito dos Acordos de Abraão, como contrapartida pelo reconhecimento norte-americano do Saara Ocidental como parte integrante de Marrocos. Uns meses mais tarde, em 24 de novembro de 2021, Marrocos e Israel assinaram um Memorando de Entendimento de cooperação no âmbito da defesa, o qual incluía a partilha de informações, tendo sido o primeiro acordo formal desse tipo entre Israel e um país árabe.

Em linha com estes comentários, o jornal israelita Ynet veio dizer que Israel se devia colocar ao lado de Marrocos. Telavive só teria a beneficiar se Ceuta e Melilla estiverem sob a soberania de Marrocos, sugerindo que Israel devia usar a sua influência sobre Trump para apoiar as pretensões territoriais marroquinas. No mesmo jornal, o analista marroquino Amine Ayoub afirmou que o agravamento das relações entre a Espanha e os EUA tinha aberto «uma verdadeira brecha na armadura estratégica da Espanha no que diz respeito a Ceuta e Melilla». Como tal, «o parceiro mais importante de Marrocos» encontrava-se «numa posição única para avançar… por essa brecha». Também o embaixador de Israel na ONU Danny Danon criticou Espanha pela forma como geriu a crise e apoiou a posição de Marrocos relativamente aos dois enclaves.

O “assalto” a Ceuta não foi um movimento inorgânico, existem provas mais do que suficientes que indicam ter-se tratado de um movimento organizado. Seria ingénuo atribuir a culpa às redes sociais, que não atuam sozinhas. Apesar de existir um catalisador específico da crise – o acordo assinado pela Espanha e a Argélia sobre o novo contrato de gás natural que conecta a Argélia diretamente a Espanha, dispensando a passagem pelo território marroquino e o pagamento da respetiva tarifa de transporte – será difícil não ver neste movimento uma jogada política do Governo marroquino para “entalar” o Governo espanhol, sancionada por Trump e com o apoio de Israel.

Parece evidente que os interesses de Marrocos se cruzaram com os dos EUA e de Israel disponibilizando-se Rabat para funcionar como um proxy. Washington não perdoa a quem se cruza no seu caminho. A história está cheia de casos, que acabam sempre da mesma maneira: com o afastamento dos dirigentes incómodos através do recurso a golpes de Estado (em desuso), operações de mudança de regime (revoluções coloridas), ou mais recentemente ao higiénico lawfare.

A “invasão” de Ceuta de 30 de julho foi uma punição por Sanchez ter tido a coragem de se opor a Trump: na condenação do genocídio dos palestinianos em Gaza, em não se mostrar disponível para gastar 5% do PIB em defesa, e em condenar a intervenção israelo-americana no Irão. Os dirigentes que se “atravessam” na política externa norte-americana e que não estejam alinhados com os seus propósitos estratégicos têm sido, mais tarde ou mais cedo, alvo de tentativas para os depor.

A história está cheia de casos. José Sócrates está a pagar amargamente a aleivosia de ter acreditado que podia ter uma política externa autónoma quando decidiu estreitar relações com Chávez, um inimigo visceral dos EUA, que Washington queria desalojar do poder, indo contra as tentativas de isolamento internacional da Venezuela e de a tornar num Estado pária. Isto, apesar de em matéria de corrupção, haver nessa altura e ainda existir, em Portugal, muito por onde começar. Situações intocáveis imensamente mais graves daquelas de que o antigo primeiro-ministro é acusado. O objetivo de comprometer irremediavelmente o seu futuro político foi conseguido.

Embora Marrocos tenha um interesse particular em causar embaraço a Sanchez tudo indica que Rabat foi devidamente industriada. Se não o podemos afirmar por falta de provas concludentes, também não podemos excluir a possibilidade de se tratar de uma ação com o conhecimento prévio e apoio de Israel e dos EUA, com dois objetivos distintos: (1) no curto prazo, causar embaraço e desgastar o Governo de Sanchez, criando condições para a sua queda, fazendo-o pagar pelas críticas feitas a Israel e aos EUA; (2) no longo prazo, criar condições para que Ceuta passe para a soberania de Marrocos.

Com Ceuta sob controlo do bem-comportado e obediente Marrocos, Washington podia garantir o controlo do acesso ao Mar Mediterrâneo evitando a repetição de sobressaltos como aconteceu nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb, controlados por atores (percebidos como) hostis aos seus interesses. É necessário para Washington e Telavive inviabilizarem qualquer possibilidade de uma das margens do estreito de Gibraltar ser controlada por alguém que já negou o sobrevoo do seu espaço aéreo a aeronaves militares norte-americanas que se dirigiam para ações de combate.

Falamos da razão pela qual Israel e Estados Unidos ambicionam o controlo de ambas as margens do estreito de Gibraltar, privando a Espanha da soberania de Ceuta. Com os problemas nos estreitos de Ormuz e de Bab El Mandeb aumenta a importância do estreito de Gibraltar, tornando-se crucial ter a garantia de que nunca se perderá o seu controlo e que não venha a colocar-se a possibilidade do pagamento de uma portagem a quem o cruzar.

Há um terceiro objetivo atingido, talvez não intencional e provavelmente não incluído no cálculo estratégico dos promotores da iniciativa: evidenciar a fragilidade da UE causada pela ausência de solidariedade entre os seus Estados-membros, chegando mesmo 22 deles a assinar uma carta (iniciativa promovida pela Itália e Dinamarca) culpando a Espanha pela invasão dos “migrantes” e não Marrocos, mostrando a sua prontidão para introduzirem o controlo das suas fronteira com Espanha.

A situação assume contornos sórdidos, uma vez que Ceuta, apesar de fazer parte do espaço Schengen, está sujeita a um regime especial. Viajar de Ceuta para a Espanha continental requer um apertado controlo documental da identidade. Consequentemente, quem entrar irregularmente em Ceuta tem vedado o acesso ilimitado ao território da União Europeia e à liberdade de circulação no espaço Schengen. Falamos da mesma União que paga a Ancara para conter no seu território milhões de pessoas deslocadas.

Alguns países como a Itália e Dinamarca, aproveitaram a oportunidade para mostrar serviço e serem readmitidos no “regaço acolhedor” de Trump. O presidente norte-americano não perdeu tempo e fez um post no seu Truth Social com uma imagem sua sorridente a olhar a Gronelândia de cima para baixo e a dizer “Olá Gronelândia”. Trump estará radiante com a reação de Copenhaga e da sua diligente e oportunista primeira-ministra aos acontecimentos em Ceuta. Perante um ataque oriundo do exterior dirigido a um país da União, várias chancelarias optaram por se alinharem com o atacante. Palavras para quê?

Frontalidade espanhola perturba o pensamento único

(José Goulão, in AbrilAbril, 03/08/2026)


O actual ataque a Espanha usando seres humanos pobres e sujeitos a terríveis sofrimentos como carne para canhão é mais um exemplo do indigno arsenal de combate desenvolvido pelo imperialismo, e o Ocidente em geral, para impôr os seus interesses autocráticos.


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Passa pela cabeça de alguém que através de um mágico clique, accionado algures no reino de Marrocos, quiçá em Telavive ou Washington, dezenas de milhares de marroquinos e outros africanos se tenham posto simultaneamente em movimento ao assalto da cidade autónoma espanhola de Ceuta, para daí tentarem espalhar-se por todo o território espanhol?

Onde estarão os congeminadores, os agitadores e os cúmplices desta operação? Não é possível, ou pelo menos seguro, apontá-los a dedo. Mas sabe-se como funcionam, percebem-se as suas estratégias, identificam-se os seus objectivos.

O objectivo, não tenho disso qualquer dúvida, é o de derrubar o governo de Pedro Sánchez em Madrid. Um executivo montado com base no Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e que, quando já ninguém esperava que tal coisa acontecesse, descarrilou do trajecto neoliberal e suicida adoptado pelos seus «irmãos» em todo o mundo.

Por esta razão, e devido às consequências que se vão desenvolvendo com uma coerência assustadora para as estruturas do poder globalista em Bruxelas e Washington, a autocracia que se esconde atrás da «democracia liberal» decidiu agir. Coleccionou motivos, pretextos e conspirações convergentes para pôr fim à vida do governo de Sánchez.

Nem nos piores pesadelos de Von der Leyens, Costas e Trumps poderá haver lugar para enfants terribles, soberanistas e pensamentos discordantes no interior da União Europeia e da NATO. Os polícias da «democracia liberal», dos nossos «valores compartilhados» e da «nossa civilização» não admitem opiniões dissonantes no interior de um pluralismo que se manifesta com voz única.

Governo de Sánchez é para abater

Não tenham dúvidas, nem ilusões: em Washington e Bruxelas já foi definido o futuro de Sánchez: chefe de governo a abater. O problema é que não lhes será fácil atingir esse objectivo golpista com um estalar de dedos: não menosprezem Espanha como um país corajoso, senhor de si e da sua diversidade. Espanha nunca foi, nem é, um reles «bom aluno»; conhece o seu poder, não se acobarda e, pelos caminhos que trilha, nunca aceitará dissolver-se e desaparecer num magma em que as nações e os cidadãos sejam reduzidos à ínfima espécie. Espanha, não tenham dúvidas, é um calhau nos sapatos das máfias de Bruxelas e Washington. Não será fácil removê-lo.

A carga contra Ceuta através do desumano aproveitamento de toda a espécie de carências e indignidades coloniais a que estão submetidos os marroquinos e outros povos do Norte de África é  a última versão dos instrumentos usados para desestabilizar Espanha. O senhor de Washington e os súbditos de Bruxelas acarinham essa ideia fixa desde que Pedro Sánchez provou, sem deixar dúvidas, de que não está em sintonia total com o regime de capitalismo selvagem cultivado pelos Estados Unidos e a União Europeia, com objectivos militares e globalistas.

Pedro Sánchez não é um revolucionário social, não questiona o sistema capitalista; porém, aparenta ser um social-democrata que mantém referências a uma social-democracia que já não se usa. Para ser hoje um autêntico ocidental é preciso venerar o fundamentalismo neoliberal. Sánchez não o faz, logo é um erro de casting, um bug no sistema. Basta alguém seguir uma linha em alguma medida desrespeitadora da receita política única para cair em desgraça nos bastidores sombrios, conspirativos e vingativos de Bruxelas e Washington. 

Ora, Sánchez não irá permitir que a juventude espanhola pague o preço dos delírios belicistas e expansionistas em que a União Europeia mergulha cada vez mais para tentar garantir a sobrevivência do nazismo banderista de Kiev. Delírios esses associados, por sua vez, ao mito das supostas ambições russas em toda a Europa – a tal falsificação que garante lucros brutais, de volumes inimagináveis, às mega corporações do armamento, da energia e dos media.

Sánchez também usa a sua voz firme e confiante para defender a Palestina, o povo palestiniano e para confrontar – sem medo – o regime fascista sionista de Israel, as suas práticas genocidas e anexionistas e o desrespeito pelo direito internacional. Eis o insólito a que chegámos: o governo espanhol é o único do mundo ocidental, que tanto diz guiar-se pelo direito internacional, a respeitar, de facto, o direito internacional. E para os autocratas de Bruxelas isso é inadmissível.

Ter vontade e personalidade é fatal

O cerco a Pedro Sánchez iniciou-se ao nível mais elementar – o plano interno. E logo com um admirável peso de legitimidade: os franquistas do Vox e do Partido Popular, marchando em ordem unida com o poderoso aparelho patronal, rastejando todos eles no pântano da corrupção institucional, montaram uma campanha contra a suposta corrupção do governo de Sánchez. Apesar de uma boa parte da comunicação social ser muito dócil quando se trata das ordens dos sectores passadistas, a campanha ainda não atingiu os objectivos; mas não morreu, apenas parece patinar.

A seguir somaram-se à campanha de descrédito contra o governo as posições patrióticas assumidas por Sánchez perante as ordens da NATO e de Trump para aumentar os gastos militares de cada aliado até 5% do PIB. O não de Sánchez foi rotundo desde logo – colocando-o na mira de Trump, que o adoptou como inimigo de estimação.

O peso da cada vez mais forte voz do governo espanhol em defesa da Palestina e dos palestinianos reforça o desespero dos aliados da NATO e da União Europeia. Sánchez foi o único chefe de governo destas alianças a passar das palavras aos actos, dando o exemplo de medidas que podem, de facto, embaraçar o totalitarismo sionista. Além disso, a firmeza do governo espanhol ultrapassou as fronteiras do país, encorajou populações de nações europeias e dos Estados Unidos a não temerem colocar-se ao lado dos palestinianos e ostentarem simbologia e bandeiras que fizeram crescer a visibilidade da questão palestiniana no mundo.

Para infelicidade de muitos, sobretudo os que tudo fizeram, a começar por Trump, para que a indomável Espanha não vencesse o campeonato do mundo de futebol, o tiro saiu-lhes pela culatra. Apesar das manobras de viciação da competição, uma executadas, outras preparadas, a verdade desportiva acabou por prevalecer dentro das quatro linhas.

O exemplo espanhol alastrou e observaram-se acções de solidariedade com a Palestina em quase todos os jogos da competição. As selecções do Egipto e do Irão tomaram também como suas as bandeiras palestinianas e por essa razão, ninguém duvide disso, foram vítimas de miseráveis e fatais erros de arbitragem.

A campanha de matriz espanhola, contudo, deu grande alento à causa palestiniana. A imagem do genial jovem jogador Lamine Yamal exibindo uma enorme bandeira da Palestina nos festejos da vitória espanhola, e solidarizando-se com o seu povo em muitas entrevistas, deixou uma marca que não irá apagar-se e, certamente, frutificará.

Não restam dúvidas, portanto, de que o ataque a Espanha conduzido por Marrocos e os seus protectores visíveis e invisíveis, sacrificando dezenas de milhares de pobres e marginalizados do Norte de África numa enorme vaga de desestabilização, é uma operação de grau superior contra o governo de Sánchez. Não é por acaso que surgiram dos quadrantes fascistas as primeiras sugestões para que a Espanha seja suspensa do Acordo de Schengen, por não saber lidar com os problemas da imigração. A inimitável Meloni, o reaccionaríssimo governo finlandês, os dirigentes xenófobos da Suécia e da Dinamarca e o imprescindível Ventura cavalgam na crista da onda para que o governo espanhol seja castigado.

Marrocos, por seu lado, ficou ainda com as costas mais quentes depois de Donald Trump, como dono do mundo, ter garantido a construção de uma auto-estrada de 120 quilómetros ligando o território marroquino ao território ocupado da República Saarauí Democrática, como via para a anexação da antiga colónia espanhola do Saara Ocidental. 

Circunstância que representa também um ataque directo contra os direitos internacionais espanhóis. Isto é, os Estados Unidos, a União Europeia e Marrocos, que durante décadas prorrogaram a organização de um referendo tutelado pela ONU para que o povo saarauí pudesse decidir o seu futuro, aceitam agora que uma autoestrada resolva o problema e Marrocos possa finalmente engolir o Saara Ocidental. Para gáudio do Ocidente e de Israel, de modo a que assim se cumpram, à sua maneira, os direitos humanos e o direito internacional.

Um resort de luxo em Gaza e uma auto-estrada turística, que também possibilitará a rapina de outras importantes riquezas do Saara Ocidental, consumarão as limpezas étnicas na Palestina e neste país do Norte de África. Assim sendo, engordarão ainda mais os bolsos de quem de direito e, no fim da linha, instalará paraísos turísticos sobre os restos mortais de milhões de seres humanos supliciados. Desta maneira humanista, o Ocidente tenta dar-nos a ilusão de que implantou as bandeiras da paz e da civilização em territórios há muito amaldiçoados por impuros, bárbaros, hereges. Mais uma cruzada bem sucedida.

No entanto, do fundo das catacumbas de conspiração onde se cozinham as receitas dos novos e falsos pacifismos emergiu a Espanha, com o seu quê de inesperado, sabendo nós como o totalitarismo é absorvente e alérgico aos desvios de linha. Apesar do cerco e de tantas manobras multifacetadas, o governo de Pedro Sánchez renova-se em coragem e não se deixa abalar pelas ameaças.

O ataque a Ceuta é grave, e uma aposta forte dos inimigos da Espanha. Aqueles que o conduzem não têm qualquer respeito pelos seres humanos que sacrificam, quanto mais não seja porque os fins justificam os meios. E montaram a operação, como é próprio de mentes perversas e doentes, de maneira a coincidir com a tragédia dos pavorosos incêndios que assolam o território espanhol e mobilizam a maior parte dos seus efectivos de segurança e protecção civil.

Entretanto, muitas das vítimas da gigantesca arruaça reconheceram o engodo, o logro, e estão a regressar a Marrocos, evitando, in extremis, a armadilha que lhes foi montada por quem não os considera gente.

Os cidadãos dos países da União Europeia e da NATO têm muito a agradecer a Espanha e devem pôr os olhos no seu exemplo. Afinal, e ainda que não seja fácil, é possível pôr em xeque o totalitarismo do chamado «mundo ocidental» e desmascarar essa fraude ardilosa conhecida como «democracia liberal».

Fonte aqui

Como explicar a demissão de Fedorov?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 07/08/2026)


As forças armadas ucranianas não só não conseguiram recuperar terreno como todos os dias recuam, assim o dizem as agências ucranianas Deep State e AMK Mapping. Quem está a ganhar não muda simultaneamente o ministro da Defesa nem o responsável máximo pela campanha militar.


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A crise política causada pelas sucessivas demissões de cargos governativos e de posições chave no sistema político ucraniano, culminando com a do ministro da Defesa Mikhail Fedorov, ilustra bem a presente divisão nas elites políticas do país, resultado, acima de tudo, do insucesso da campanha militar contra a Rússia e da necessidade de encontrar estratégias alternativas ganhadoras.

As forças armadas ucranianas não só não conseguiram recuperar terreno como todos os dias recuam, assim o dizem as agências ucranianas Deep State e AMK Mapping. Quem está a ganhar não muda simultaneamente o ministro da Defesa nem o responsável máximo pela campanha militar.

Entretanto, sucedem-se as manifestações em apoio de Fedorov por várias cidades do país, exigindo o seu regresso ao cargo de ministro da Defesa e criticando Zelensky por o ter demitido. Para aliviar a pressão, Zelensky ofereceu a Fedorov outros cargos que ele não aceitou. Um dos pontos de discórdia prendia-se com a tensão permanente entre Fedorov e o general Syrsky, Chefe de Estado-Maior General, homem de confiança de Zelensky, sobre como conduzir as operações militares.

Fedorov queria intrometer-se nas questões táticas. A intromissão de políticos nas operações tem dado, normalmente, mau resultado. Fedorov e os seus apoiantes ocidentais perceberam que podiam atingir a profundidade da Rússia com drones em vez de mísseis de longo alcance, por serem mais baratos e evitar os imbróglios políticos intrincados causados pelos mísseis, o que faz todo o sentido do ponto de vista estratégico. Fedorov devia ter ficado por aí. Esqueceu-se do que se ensina nas escolas militares, que ele não frequentou. A vitória materializa-se com a ocupação do terreno e para ocupar o terreno são precisos soldados que a Ucrânia não tem.

Após muitas pressões, procurando uma solução de compromisso com o grupo desafiador apoiante de Fedorov, Zelensky demitiu Syrsky nomeando em sua substituição o general Drapaty, próximo de Fedorov. Estes desenvolvimentos mostram que a margem de manobra de Zelensky se tem vindo a estreitar, tendo sido obrigado a afastar pessoas da sua confiança. A maior baixa terá sido a do seu fiel chefe de gabinete Andriy Yermark, afastado na sequência do escândalo de corrupção. A proximidade com o seu substituto, o general Kirill Budanov, está longe de ser a mesma. Zelensky mantém ainda um leque considerável de pessoas da sua confiança em posições chave, nomeadamente, David Arakhamia líder da bancada parlamentar do partido Servo do Povo.

Na função de ministro da transformação digital, que exerceu de agosto de 2019 a janeiro de 2026, antes de ser nomeado ministro da Defesa, Fedorov esteve sempre muito ligado à modernização das Forças Armadas. Em 2022, conjuntamente com o Estado-Maior e a “UNITED24 Platform” lançou o programa “Drones do Exército”, uma iniciativa para financiar a aquisição, reparação e substituição de drones. O programa incluía ainda um curso de formação de pilotos de drones.

Em 2023, Fedorov anunciou a criação das primeiras companhias do mundo, de ataque com UAV, a serem equipadas com drones e terminais Starlink. Conjuntamente com outras entidades ucranianas criou uma plataforma (Brave1) para angariar fundos para adquirir armamento. Em meados desse ano, já tinham sido, segundo ele, criadas mais de 20 escolas para operadores de UAV e formados mais de 10 mil operadores. Outros programas se seguiram para ensinar as pessoas a montar drones em casa, substituindo/complementando o fabrico industrial.

Quem está a promover Fedorov?

Em julho de 2025, conjuntamente com Andrius Kubilius, o Comissário Europeu para a Defesa e Espaço, Fedorov anunciou a criação do “BraveTech EU”, um projeto da Comissão Europeia para financiar startups tecnológicas europeias de defesa, dando-lhes a oportunidade de testarem os seus produtos no Teatro de Operações da Ucrânia.

Fedorov negociou pessoalmente o financiamento de vários projetos com Rachel Reeves, a ex-ministra do Tesouro britânica, e criou mecanismos de fornecimento de drones à Ucrânia recorrendo às estruturas da UE. O seu envolvimento ativo na indústria de defesa permitiu-lhe criar uma enorme rede de contactos. Fedorov não só não passou despercebido como ganhou uma notável visibilidade no seio do complexo industrial-militar norte-americano e europeu. O protagonismo que granjeou através destes contactos e projetos alavancou a sua imagem e chamou a atenção para a possibilidade de poder vir a ser mais útil.

Conscientemente ou não, Fedorov adquiriu imensas vantagens competitivas sobre os seus adversários políticos. A possibilidade de ser uma alternativa a Zelensky começou a ganhar forma. O Rating Group, uma companhia de sondagens ucraniana financiada por várias organizações internacionais, tornou-se um elemento crucial da engrenagem que já está em marcha. Fedorov com 13,4% das intenções de votos passou a incluir a lista dos três candidatos mais votados (Volodymyr Zelensky, 22,3% e Valerii Zaluzhnyi, 14,9%) numa sondagem recente. Alguns apontam ter sido o seu protagonismo e a possibilidade de vir a tornar-se num rival de Zelensky o verdadeiro leitmotiv da sua demissão.

Não só passou a ser claro para os patrocinadores internacionais que Zelensky já não era indispensável, como tinham encontrado um putativo sucessor “à maneira” disponível para entrar na corrida à sua sucessão. Era mais fácil falar e fazer negócios com Fedorov que, entretanto, se tornou o “favorito” do ocidente. Alguns analistas afirmam que Fedorov representa os interesses de Washington ou de Londres. Não é difícil estabelecer uma ligação entre drones, dinheiro e Londres. Só em 2026, a UE desembolsará 28,3 mil milhões de euros para apoiar a capacidade industrial de defesa da Ucrânia combinando-a com o complexo industrial-militar europeu.

Torná-lo o próximo presidente seria a cereja no bolo. Vários órgãos da comunicação social ocidental têm avançado com essa possibilidade. O plano parece estar já em marcha, apesar de Fedorov não ter anunciado publicamente essa intenção. O “The Times” foi mais longe, dizendo que Fedorov “ foi encorajado a fundar um partido político anticorrupção… a sua crescente popularidade, aliada ao historial de Zelensky afastar aliados influentes, alimentou especulações de que esta medida poderá ter fortalecido um potencial rival, em vez de o ter enfraquecido.”

Alguns afirmam que o comportamento de Fedorov após a sua demissão assemelha-se bastante ao de uma campanha eleitoral. Por isso, seria ingénuo pensar que as manifestações em seu apoio são espontâneas e inorgânicas. Não é por acaso que ocorrem simultaneamente em 11 ou 12 regiões. São coordenadas e organizadas com envolvimento externo. Não são espontâneas nem uma expressão da revolta popular. Começam a assumir os contornos de uma revolução colorida.

Os russos ainda não conseguiram causar na Ucrânia os danos e o sofrimento necessários para que os seus dirigentes sintam que foi atingido um impasse doloroso. Enquanto isso não acontecer, a Ucrânia não sentirá a necessidade de ir para negociações. Kiev e os seus patrocinadores continuarão a alimentar a ilusão de que podem vergar a Rússia.

Não se espere uma solução política para o conflito, se a fação e os interesses com que Fedorov está alinhado vier a tomar o poder. O conflito não só continuará como aumentará de intensidade. A sua proximidade a Londres assim o faz antever, uma vez que Londres não pretende uma resolução pacífica do conflito. Fedorov é o homem certo no lugar certo.