Esfaimar a Venezuela para levá-la à submissão

(Por Israel Shamir, In Resistir, 13/02/2019)

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Vocês são tão bondosos! Derramei uma lágrima ao pensar na generosidade americana.

“Tantas iguarias deliciosas: sacos de arroz, atum em lata e biscoitos ricos em proteínas, flocos de milho, lentilha e macarrão, chegaram à fronteira da conturbada Venezuela – o suficiente para uma refeição leve para cada cinco mil pessoas”, – relatavam os noticiários numa sublime referência a cinco mil pessoas alimentadas pelos peixes e pães de Cristo.

É verdade que Cristo não apresou as contas bancárias e não apreendeu o ouro daqueles que ele alimentava. Mas a Venezuela do século XXI é bem mais próspera que a Galileia do século I. Nos dias de hoje, é preciso organizar um bloqueio se quiser que as pessoas fiquem gratas pela sua ajuda humanitária.

Isso não é um problema. A dupla EUA-Reino Unido fez isso no Iraque, como escreveu a maravilhosa Arundhati Royem Abril de 2003 (no Guardian de antigamente, antes de se tornar uma ferramenta imperial): Depois de o Iraque ter sido posto de joelhos, seu povo morreu de fome, meio milhão dos seus filhos foram mortos, sua infra-estrutura seriamente danificada… o bloqueio e a guerra foram seguidos por… adivinhou! Ajuda humanitária. A princípio, eles bloquearam o fornecimento de alimentos no valor de milhares de milhões de dólares, e a seguir entregaram 450 toneladas de ajuda humanitária e celebraram sua generosidade com alguns dias de transmissões de TV ao vivo. O Iraque tinha dinheiro suficiente para comprar toda a comida de que precisava, mas estava bloqueado e o seu povo recebia apenas alguns amendoins.

E isso era bastante humano pelos padrões americanos. No século XVIII, os colonos britânicos na América do Norte usaram métodos mais drásticos enquanto distribuíam ajuda a nativos desobedientes. Os índios peles vermelhas foram expulsos de seus lugares de origem e então receberam ajuda humanitária: whiskey e cobertores. Os cobertores haviam sido anteriormente usados por pacientes com varíola . A população nativa da América do Norte foi dizimada pelas epidemias decorrentes desta medida e de semelhantes. Provavelmente você não ouviu falar deste capítulo da sua história: os EUA têm muitos museus do Holocausto, mas nenhum memorial ao genocídio feito em casa. É muito mais divertido discutir as faltas de alemães e turcos do que dos seus próprios antepassados.

Primeiro, você passa esfaima o povo; a seguir traz-lhe ajuda humanitária. Isso foi proposto por John McNaughton no Pentágono: o bombardeamento de diques e barragens, ao inundar campos de arroz, provoca fome generalizada (mais de um milhão de mortos?) “E então entregaremos ajuda humanitária aos famintos vietnamitas”. Ou antes, “poderíamos oferecer-lhes isso na mesa de conferência”. Planear um milhão de mortes por inanição, por escrito: se um escrito assim fosse encontrado nas ruínas do Terceiro Reich isso selaria a história de genocídio, seria citado diariamente. Mas a história do genocídio dos vietnamitas raramente é mencionada hoje em dia.

Eles também fizeram isso na Síria. No início, entregaram armas para todo extremista muçulmano, a seguir bloquearam Damasco e então enviaram alguma ajuda humanitária, mas só para as áreas sob o controle rebelde.

Esse método cruel, mas eficiente, de quebrar o espírito das nações foi desenvolvido por domadores de leão durante anos, talvez durante séculos. Você tem de esfaimar a fera até que ela venha tomar a comida das suas mãos e lamber seus dedos. ‘Desnutrição-domesticação’, chamam a isto. Os israelitas praticam o mesmo método em Gaza. Eles bloqueiam toda a exportação ou importação da Faixa, proíbem a pesca no Mediterrâneo e alimentam a conta-gotas os palestinos em cativeiro através de “ajuda humanitária”.

Judeus, sendo judeus, fazem isto melhor: fizeram com que a UE pagasse a ajuda humanitária para Gaza E comprasse a ajuda a Israel. Isso fez de Gaza uma importante fonte de lucro para o Estado judeu.

Assim, na Venezuela, eles seguem um roteiro antigo. Os EUA e seu caniche londrino apreenderam mais de 20 mil milhões de dólares da Venezuela e de empresas nacionais venezuelanas. Eles roubaram mais de mil milhões de lingotes de ouro que de modo confiante a Venezuela depositou nos cofres do Banco da Inglaterra.

Bem, eles disseram que darão esse dinheiro para um venezuelano qualquer, de preferência. Para o sujeito que já prometeu dar a riqueza da Venezuela para as empresas americanas. E após este roubo à luz do dia, eles trouxeram alguns contentores de ajuda humanitária até à fronteira e esperam pela correria por comida de venezuelanos destituídos.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, twittou :

“O povo venezuelano precisa desesperadamente de ajuda humanitária. Os EUA e outros países estão a tentar ajudar, mas os militares da Venezuela sob as ordens de Maduro estão bloqueiam a ajuda com camiões e navios-tanque. O regime de Maduro deve PERMITIR QUE A AJUDA ALCANCE O POVO FAMÉLICO”.

Os venezuelanos não estão a morrer de fome, apesar de atravessarem dificuldades. O maior barulho é feito pelos ricos, como sempre. Se Pompeo quiser ajudar os venezuelanos, ele pode suspender as sanções, devolver os fundos e levantar o bloqueio. Os biscoitos que ele quer fornecer são de pouca valia.

O presidente Maduro está certo quando se recusa a deixar essa hipocrisia subornar os estômagos e os corações de seu povo. Não é só ele que se lembra de seu Virgílio e sabe, Timeo danaos e dona ferentes , “cuidado com gregos que dão presentes”. Há demasiados soldados americanos e colombianos em torno do local da entrega pendente, e este lugar é suspeitamente próximo a um aeroporto com uma pista extra-longa adequada para uma ponte aérea.

Os EUA são conhecidos pela sua propensão para invadir seus vizinhos: o Panamá foi invadido em 1989 a fim de manter o Canal do Panamá em mãos americanas e reverter o acordo assinado pelo bem-intencionado presidente Jimmy Carter. O presidente George W. Bush enviou suas tropas aerotransportadas depois de chamar o presidente do Panamá de “ditador e contrabandista de cocaína”. É exactamente o mesmo que diz o presidente Trump acerca do presidente da Venezuela.

Eles provavelmente usarão essa ajuda para invadir e subornar a Venezuela. Sabiamente, Maduro começou grandes exercícios militares a fim de preparar as forças armadas para o caso de invasão. A situação da Venezuela é bastante terrível o suficiente, mesmo sem invasão. Seu dinheiro foi apresado, sua principal companhia de petróleo é torna-se inútil quando confiscada; e há uma forte quinta coluna à espera dos ianques em Caracas.

Esta quinta coluna é composta principalmente por compradores, jovens ricos com conhecimento e educação ocidental, que vêem seu futuro no âmbito do Império Americano. Eles estão prontos para trair as massas destituídas e para convidar as tropas dos EUA a entrarem. Eles são apoiados pelos super-ricos, por representantes de empresas estrangeiras, pelos serviços secretos ocidentais. Essas pessoas existem por toda parte; elas tentaram organizar a Revolução Gucci no Líbano, a Revolução Verde no Irão, o Maidan na Ucrânia. Na Rússia, eles tiveram sua oportunidade no Inverno de 2011/2012, quando a sua Revolução da Capa de Vison foi jogada no Bolotnaya Heath, em Moscovo.

Em Moscovo, eles perderam quando seus oponentes, o partidários do Russia First, efectuaram uma manifestaçãomuito maior em Poklonnaya Hill. As agências de notícias ocidentais tentaram encobrir a derrota divulgando fotos da manifestação dos apoiantes de Putin e dizendo que ela favorável ao Ocidente. Outras agências ocidentais publicaram fotos de comícios de 1991 dizendo que haviam sido tiradas em 2012. Em Moscovo, ninguém se deixou enganar: a multidão do vison sabia que estavam derrotados.

Na Ucrânia, eles venceram, pois o presidente Yanukovich, um homem hesitante, pusilânime e dividido, não conseguiu reunir apoio maciço. É uma grande questão se Maduro será capaz de mobilizar as massas. Se o fizer, irá também vencer a confrontação com os EUA.

Maduro é um tanto reservado; ele não disciplinou os oligarcas indisciplinados; ele não controla os media; ele tenta jogar um jogo social-democrata num país que está longe de ser a Suécia. Seus subsídios permitiram que as pessoas comuns escapassem da extrema pobreza, mas agora são usados pelos aproveitadores do mercado negro para sugar a riqueza da nação. Longe de ser uma zona de desastre, a Venezuela é uma verdadeira Bonança, um verdadeiro Klondike: você pode encher um camião-cisterna com gasolina por centavos, contrabandeá-la para a vizinha Colômbia e vendê-la a preço de mercado. Muitos adeptos dos sujeitinhos fizeram pequenas fortunas dessa maneira, e esperam fazer grandes se e quando os americanos vierem.

Um problema maior é que a Venezuela se tornou uma economia de monocultura: exporta petróleo e importa todo o resto. Nem sequer produz comida para alimentar seus 35 milhões de habitantes. A Venezuela é uma vítima da doutrina neoliberal, a qual afirma que se pode comprar o que não puder produzir. Agora eles não podem comprar e não produzem. Imagine uma Arábia Saudita democrática atingida pelo bloqueio.

A fim de salvar a economia, Maduro deveria drenar o pântano, acabar com o mercado negro e especulativo, incentivar a agricultura, tributar os ricos, desenvolver alguma indústria para o consumo local. Isto pode ser feito. A Venezuela não é um estado socialista como Cuba bem ordenada, nem uma social-democracia como a Suécia e a Inglaterra nos anos 70, mas mesmo seu muito modesto modelo para permitir que as massas se levantem da miséria, pobreza e ignorância parecem demasiado para o Ocidente.

Diz-se muitas que existem dois antagonistas no Ocidente, os populistas e os globalistas, e que o presidente Trump é o líder populista. A crise na Venezuela provou que estas duas forças estão unidas se houver uma oportunidade de atacar e roubar um país estrangeiro. Trump é condenado internamente quando chama suas tropas de volta do Afeganistão ou da Síria, mas ganha apoio quando ameaça a Venezuela ou a Coreia do Norte. Ele pode estar certo de que será aplaudido por Macron e Merkel e até mesmo pelo The Washington Post e pelo The New York Times. 

Ele tem as armas de destruição em massa reais, as armas de engano em massa, para atacar a Venezuela, e essas armas de destruição em massa foram activadas com o arranque do golpe arrepiante. Quando um jovem político desconhecido, o líder de uma pequena fracção neoliberal raivosamente pró-americana no Parlamento, Random Dude, reivindicou o título de presidente, ele foi imediatamente reconhecido por Trump e os media ocidentais informaram que o povo da Venezuela saiu em manifestações em massa para saudar o novo presidente e exigir a remoção de Maduro.

Eles transmitiram vídeos de enormes manifestações a ocorrerem outra vez em Caracas. Não muitos espectadores no exterior perceberam que o vídeo era antigo, filmado em manifestações de 2016, mas os venezuelanos viram isso imediatamente. Eles não foram enganados. Eles sabiam que não há possibilidade de uma grande manifestação de protesto naquele dia, o dia de um jogo de beisebol particularmente importante na liga profissional entre os Leones de Caracas e os Cardenales de Lara de Barquisimeto.

Mas as armas de destruição em massa continuavam a mentir. Aqui está uma notícia do Moon of Alabama : os relatos de grandes comícios contra o governo são notícias falsas ou profecias com a pretensão de se tornarem auto-realizáveis:

Isso foi às 7h10, hora local, em Caracas, várias horas antes da manifestação. Tal “reportagem previsional” é agora supostamente passa a ser “notícia”. Um pouco mais tarde, a Agência France Presse postou um vídeo:

Agência de notícias AFP @AFP – 15:50 utc – 2 fev 2019 ?>

VÍDEO: Milhares de manifestantes da oposição afluem às ruas de Caracas para apoiar o líder da oposição na Venezuela, Juan #Guaido, o qual está a apelar a eleições antecipadas, à medida que aumenta a pressão internacional sobre o presidente Nicolas Maduro para se demitir.

Isso foi às 11h50, hora local. O vídeo em anexo não mostra “milhares”, mas cerca de 200 pessoas a circularem.

Eles mentem quando dizem que há desertores do exército à procura de um combate com as forças armadas. Os jovens que a CNN apresentou não eram desertores e não moravam na Venezuela. Até mesmo suas insígnias militares eram de i, tipo descartado anos atrás, como notou nosso amigo The Saker.

No entanto, essas mentiras não vão ajudar – meus correspondentes em Caracas informam que há manifestações a favor e contra o governo (para Maduro multidões um pouco maiores), mas os sentimentos não são fortes. A crise é fabricada em Washington e os venezuelanos não querem ser envolvidos.

É por isso que podemos esperar uma tentativa americana de usar a força, precedida por alguma provocação. Provavelmente não será uma guerra total: os EUA nunca combateram um inimigo que não estivesse exausto antes do confronto. Se o governo Maduro sobreviver ao golpe, a crise será discreta, até que as sanções façam seu trabalho e minem ainda mais a economia.

Nesta luta, o presidente Trump é o seu próprio grande inimigo. Ele busca a aprovação do Partido da Guerra e a sua própria base ficará decepcionada com suas acções. Suas sanções enviarão mais refugiados para os EUA, com muro ou sem muro. Ele debilita o status único do dólar americano ao utilizá-lo como arma. Em 2020 colherá o que semeou.


Fonte aqui

Os sociopatas e os seus seguidores

(Por José Goulão, in Abril, Abril, 08/02/2019)

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Para os países alinhados com Washington já não se trata apenas de violar grosseiramente a democracia. Os governos que seguem de braço dado com a administração Trump enveredaram pela carreira do crime.


Houve ocasiões – raras – em que os principais governos da União Europeia se distanciaram do comportamento boçal, truculento e neofascista da administração norte-americana gerida por Donald Trump. É certo que as razões nem eram louváveis, uma espécie de escrever direito por linhas tortas porque contrapor à política de fortaleza comercial de Washington o neoliberalíssimo «comércio livre» global, que serve meia dúzia de grandes conglomerados económico-financeiros, não é propriamente um comportamento honroso.

Ainda assim, essa situação foi suficiente para os que fazem política e comunicação navegando à vista nas vagas do oportunismo situacionista tentarem fazer crer que entre Washington e alguns dos principais aliados existiam saudáveis divergências, recomendáveis pelo facto de «parecer mal» estarem associados aos desmandos trumpistas.

Porém, o que tem de ser tem muita força, a realidade impôs os factos, as máscaras caíram, o globalismo ditou as suas leis, embora já periclitantes, e deixou de haver lugar para disfarces.

A harmonia entre Washington e os aliados restabeleceu-se quando foi preciso por mãos à obra e cuidar do que interessa a quem manda: o domínio sobre as matérias-primas e a vantagem militar planetária para, em última instância, assegurá-lo.

Bastou o aparecimento de provas de que a superioridade militar da NATO e respectivas ramificações pode estar em causa; eis que entra na ordem da actualidade uma disputa mais cerrada pelas riquezas naturais do mundo – e logo a boçalidade e o desprezo militante de Trump por qualquer coisa que tenha a ver com democracia e direitos humanos deixaram de ser problema.

A harmonia chegou com os psicopatas

Esbateram-se os limites, desapareceu a vergonha. Se o caminho mais eficaz para garantir a sobrevivência do «nosso civilizado modo de vida» é o recurso à autocracia, então que seja, desde que o discurso oficial assegure as melhores intenções democráticas e humanistas.

«A harmonia entre Washington e os aliados restabeleceu-se quando foi preciso por mãos à obra e cuidar do que interessa a quem manda: o domínio sobre as matérias-primas e a vantagem militar planetária para, em última instância, assegurá-lo»

Mesmo que a harmonia entre a NATO e a gestão do Pentágono, a comunhão de ideais entre quem manda na União Europeia e a administração de Washington se tenham restabelecido no momento em que, depois de muitos tumultos e convulsões, a equipa que traça a doutrina Trump seja agora um sólido núcleo de psicopatas.

John Bolton, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente; Michael Pompeo, o secretário de Estado, por inerência o tutelar dos Negócios Estrangeiros; Michael Pence, o vice-presidente, formam um triunvirato de fascistas com provas dadas em carreiras onde o recurso ao terrorismo político, declarado ou clandestino, nunca foi um problema.

Se lhes associarmos as figuras de um comprovado assassino e fora-da-lei como Elliott Abrams, agora escolhido como enviado especial para gerir o golpe na Venezuela; e de um expoente da «supremacia branca» como Steve Bannon, que corre mundo unindo as hordas fascistas, xenófobas, populistas e nacionalistas para manter a pressão, de modo a que o neofascismo seja a solução e nunca um problema, teremos um quinteto de psicopatas à altura de Trump, de tal modo que torna o próprio presidente descartável.

União Europeia ao lado de Trump contra a Venezuela

Pois foi precisamente na hora da estabilização do fascismo e da sociopatia como doutrina norte-americana que a NATO e a União Europeia – com o governo de Portugal fazendo questão de destacar-se – decidiram prestar-lhe vassalagem. Certamente não foi para que o governo português encarreirasse na esteira do terrorismo político e da guerra nuclear que os portugueses votaram.

Para os devidos efeitos e para memória futura registemos o desprezo assumido pela equipa de António Costa em relação à democracia, aos direitos humanos, à paz e ao direito internacional. Não existe outra interpretação possível do apoio ao golpe contra a Venezuela; não há hipótese de concluir outra coisa do alinhamento pleno com a NATO nos caminhos da guerra nuclear que estão a ser abertos por Washington.

É terrorismo, não é democracia

Aquilo que está a acontecer na Venezuela, e que tem proactivamente a mão do governo de Portugal, é terrorismo, é tentação fascista, é jogar com a vida de milhões de pessoas.

Não se trata apenas da entronização como «presidente interino» de um arruaceiro que os Estados Unidos treinam e pagam há 15 anos para servir como instrumento numa operação de golpe de Estado. Juan Guaidó é um entre vários que se formaram numa escola de terrorismo na Sérvia financiada pelos Estados Unidos, conhecida como Otpor/CANVAS1, para organizar «revoluções coloridas» e mudanças de regime em geral, de que são exemplos casos como o da Ucrânia, Geórgia, Egipto, Líbia, Síria, Honduras, Paraguai, Brasil.

E não se trata igualmente do recurso ao pretexto das supostas «irregularidade» e «ilegitimidade» das eleições presidenciais de Maio do ano passado, que decorreram segundo normas democráticas comprovadas por entidades independentes e de reconhecida idoneidade que acompanharam todo o processo. Ao contrário do que fizeram, por exemplo, o secretário-geral da ONU, António Guterres, e a alta comissária europeia, Federica Mogherini, que recusaram os convites para serem ou enviarem observadores, partindo do princípio de que as eleições seriam fraudulentas muito antes de se realizarem.

«não foi para que o governo português encarreirasse na esteira do terrorismo político e da guerra nuclear que os portugueses votaram. Para os devidos efeitos e para memória futura registemos o desprezo assumido pela equipa de António Costa em relação à democracia, aos direitos humanos, à paz e ao direito internacional»

O que está verdadeiramente em causa como consequência do comportamento das personalidades, entidades e organizações que apoiam a estratégia de mudança de regime montada pela equipa de psicopatas de Trump é a tragédia que paira sobre todo o povo venezuelano – comunidade portuguesa obviamente incluída.

Uma tragédia anunciada, uma vez que os promotores da operação tiveram o cuidado de não deixar margem de recuo. A parada é alta e todo o processo foi montado de modo a que não haja outra saída que não seja a destruição da Revolução Bolivariana, sufragada em mais de uma vintena de consultas populares legítimas realizadas durante os últimos 20 anos.

Solução: banho de sangue

Ora a capitulação do governo de Nicolás Maduro – que não tem de se demitir ou de convocar eleições porque a Constituição, a única lei pela qual responde, não o obriga – só pode ser alcançada por estas vias: golpe militar interno, agressão estrangeira directamente pelos Estados Unidos ou por procuração (Brasil, Colômbia e Argentina estão prontos), ou colapso absoluto do Estado devido às sanções, extorsão e roubo de que os bens do povo venezuelano são vítimas – a começar pelas 31 toneladas de ouro de que entidades bancárias estrangeiras se apropriaram abusivamente, também com responsabilidade do Banco Central Europeu, para que conste.

«O que, através do golpe, os Estados Unidos, a União Europeia e aliados puseram em andamento foi a compra que um valiosíssimo lote de riquezas naturais e estratégicas pago com sangue humano, na quantidade que for precisa»

Sejam quais forem os caminhos seguidos pelos responsáveis do golpe, o resultado será um banho de sangue com extensão imprevisível. Esse é o preço que Estados Unidos e aliados estão dispostos a pagar para deitarem as mãos aos 300 mil milhões de barris de petróleo venezuelano – as maiores reservas mundiais conhecidas – às poderosas reservas de ouro, nióbio, tântalo e outros elementos e metais preciosos.

Não há pretextos e máscaras que sirvam para a ocasião. O que, através do golpe, os Estados Unidos, a União Europeia e aliados puseram em andamento foi a compra que um valiosíssimo lote de riquezas naturais e estratégicas pago com sangue humano, na quantidade que for precisa. Afinal, tal como no Iraque, na Líbia, na Síria ou Afeganistão.

O caminho para a guerra nuclear

A fuga para a frente com o objectivo de garantir a sobrevivência do neoliberalismo, conduzida pelo gang de tiranos sociopatas de Washington, não hesita, como se vê, perante a repugnante e desumana traficância em curso na Venezuela.

Fuga essa que começa a adquirir velocidade própria numa outra direcção até aqui vedada pelos mais compreensíveis instintos de sobrevivência colectiva: a da guerra nuclear.

Não há outra leitura para a decisão norte-americana de abandonar o Tratado de Armas de Médio Alcance (INF2), assinado há 30 anos pelos Estados Unidos e a União Soviética.

Não há outra leitura do apoio a essa posição manifestado pela NATO e pelo sempre «bom aluno», o governo de Portugal.

Os pretextos invocados para o abandono do Tratado são falsos ou, no mínimo, desconhecidos. Nem os Estados Unidos nem a NATO apresentaram, até ao momento, qualquer prova de que a Rússia estaria a violar esse acordo. Em paralelo, também não se regista qualquer interesse, tanto dos dirigentes norte-americanos como da NATO – e da comunicação social com eles sintonizada – em aceitarem os convites de Moscovo para visitarem os locais onde supostamente estariam a ser construídas as armas que violam o Tratado.

Ao invés, a parte russa já divulgou provas de que os Estados Unidos estão a produzir armas proibidas pelo Tratado há pelo menos dois anos.

É objectivo dos Estados Unidos instalar os novos mísseis em países europeus como a Itália, a Alemanha e a Holanda, onde também está prevista a disponibilização de bombas nucleares de nova geração 3.

«John Bolton, Michael Pompeo e Michael Pence formam um triunvirato de fascistas com provas dadas em carreiras onde o recurso ao terrorismo político, declarado ou clandestino, nunca foi um problema. [Com] um comprovado assassino e fora-da-lei como Elliott Abrams e um expoente da «supremacia branca» como Steve Bannon teremos um quinteto de psicopatas à altura de Trump, de tal modo que torna o próprio presidente descartável»

Trata-se de engenhos ditos de potência reduzida, isto é, com uma capacidade de destruição calculada em metade ou mesmo menos dos largados sobre Hiroxima e Nagasaki. Este facto tem ajudado a consolidar a tese perigosíssima segundo a qual as novas bombas poderão ser utilizadas em conflitos limitados e sem provocarem respostas equivalentes, o que as torna uma vantagem decisiva.

Torna-se evidente que o recurso a essas bombas implica a existência de mísseis vocacionados para transportá-las – e daí a quebra do Tratado INF.

Deduz-se, pois, que pelas cabeças doentes e sanguinárias de figuras como Bolton – que pretende enviar Maduro para Guantánamo – Pence e Pompeo passa, de facto, a ideia de vir a utilizar essa nova combinação de mísseis de médio alcance com armas nucleares de «potência reduzida» e tendo a Europa como um dos cenários de operações. Pelo que os países europeus sintonizados com os tiranos sociopatas de Washington não desprezam apenas a vida dos venezuelanos, mas também a dos seus próprios povos 4.

Já não se trata apenas de violar grosseiramente a democracia. Os governos que seguem de braço dado com a administração Trump enveredaram pela carreira do crime.

NOTAS

  • 1. Estas e outras revelações podem ser lidas no esclarecedor artigo «Para saber tudo sobre o golpista Juan Gaidó», publicado numa tradução exclusiva para Portugal pelo jornal digital O Lado Oculto, que se apresenta como um «antídoto para a propaganda global» e é dirigido pelo nosso colaborador José Goulão.
  • 2. A sigla INF provém do nome do tratado em inglês, habitualmente designado, nessa língua, por INF Treaty (de Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty). Esta entrada da Wikipédia refere 20 de Outubro de 2018 como o ponto de partida para a derrogação do tratado INF, quando Donald Trump acusou a Rússia de «violá-lo há muitos anos». Na verdade, desde o início de Fevereiro de 2018 que os EUA tinham revisto a sua postura estratégica sobre a utilização de armas nucleares (Nuclear Posture Review). Nesse documento os EUA não descartam um ataque nuclear inicial por sua iniciativa e designam a Rússia e a China como inimigo principal. Na altura, o nosso colaborador André Levy alertou para os riscos desta agressiva evolução, que recolocou o perigo de holocausto nuclear na ordem do dia («A dois minutos da meia-noite», 16 de Fevereiro de 2018). Recentemente, também o nosso colaborador António Abreu se pronunciou sobre o tema («A guerra nuclear limitada, de novo», 4 de Fevereiro de 2019).
  • 3. Um relatório do grupo de analistas militares Southfront, «INF Is Dead. Europe Is One Step Closer To Nuclear War», coloca como verdadeira razão para o abandono do INF não uma eventual ameaça russa ou chinesa mas a necessidade de a administração estado-unidense voltar a financiar massivamente o complexo militar-industrial americano, afim de este produzir avançados sistemas de mísseis e anti-mísseis que poderão vir a ser vendidos a alto preço no cenário europeu afectado pela «febre da ameaça russa». Pode ler e ouvir o relatório aqui.
  • 4. A prestigiada ONG International Campaign to Abolish Nuclear Weapons (ICAN), que recebeu em 2017 o Prémio Nobel da Paz, considerou que a retirada dos EUA do tratado põe, antes do mais, a Europa em grave risco, dada a natureza da aliança militar entre aquele país e a União Europeia, consubstanciada na NATO. Se a Rússia for atacada nuclearmente os seus sistemas de Mútua Destruição Assegurada (Mutual Assured Destruction, ou MAD, acrónimo que tem a particularidade de significar «louco», em inglês) dispararão em segundos. Os sistemas MAD prevêm o disparo automático de todos os mísseis e armas nucleares disponíveis contra os potenciais atacantes (previamente definidos) mesmo que os sistemas de comando e a direcção político-militar do país tenham sido completamente destruídos. Tanto os EUA como a Rússia dispõem de um arsenal nuclear para destruir várias vezes o planeta.

Fonte aqui

Dez mentiras sobre a Venezuela que, de tanto se repetirem, se tornaram base para opinião

(Katu Arkonada, in Crónicas do Sul, 12/02/2019)

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2019, a Venezuela entrou em uma nova fase de um golpe que se iniciou em 11 de abril de 2002, se intensificou em 2013 depois da morte do Comandante Chávez, e se recrudesceu com a violência opositora das “guarimbas” (manifestações terroristas da direita) em 2014 e 2017. A guerra híbrida que a Venezuela vive tem a desinformação e a manipulação midiática como uma de suas principais armas de combate. Lemos e escutamos mentiras que analistas que nunca estiveram na Venezuela repetem tantas vezes que se convertem em realidade para a opinião pública.

1. A Venezuela tem 2 presidentes. Nada mais longe da realidade. A constituição Venezuelana estabelece em seu artigo 233 como falta absoluta de Presidente os casos de morte, renúncia, destituição pelo Supremo Tribunal Federal, incapacidade física ou mental decretada por uma junta médica, o abandono do cargo ou a revogação popular de seu mandato. Guaidó não tem nenhum argumento Constitucional para se autoproclamar Presidente pois não há falta absoluta do Presidente, que prestou juramento, conforme estabelecido pela Constituição, no artigo 231 no dia 10 de janeiro e perante o Supremo Tribunal Federal. Além disso, de acordo com a mesma Constituição, se houver absoluta falta do Presidente é o Vice-Presidente que deve assumir a presidência e convocar eleições.

2. Guaidó tem o apoio da comunidade internacional. Além da hipocrisia de chamar de comunidade internacional somente o Ocidente, no dia 10 de janeiro, na inauguração de Maduro, houve representações diplomáticas de mais de 80 países, da Rússia à China, passando pelo Vaticano, a Liga Árabe e a União Africana. Esses países continuam mantendo relações diplomáticas com o governo liderado por Nicolás Maduro. Guaidó tem o reconhecimento dos mesmos países que em 10 de janeiro não reconheciam Maduro: os Estados Unidos e o Grupo Lima (exceto o México). Apenas a Geórgia (devido à sua disputa territorial com a Rússia), Austrália e Israel aderiram.

3. Guaidó é diferente da oposição violenta. Guaidó é deputado do Voluntad Popular, partido político que ignorou as eleições presidenciais de 2013 e cujo líder, Leopoldo López, é condenado por ser o autor intelectual de “La salida”, que promoveu as “guarimbas” de 2014, com saldo de 43 mortos e centenas de pessoas feridas.

4. A Assembleia Nacional é o único órgão legítimo. Não é verdade. O artigo 348 da Constituição venezuelana autoriza o Presidente, no Conselho de Ministros, a convocar uma Assembleia Constituinte, e o Artigo 349 define que os poderes constituídos (Assembleia Nacional) não podem de modo algum impedir as decisões da Assembleia Constituinte. A decisão de convocar a Assembleia Constituinte foi um ato de astúcia do chavismo para superar o bloqueio da Assembleia Nacional, que pode ou não gostar, mas foi realizado com estrita adesão à Constituição.

5. Maduro foi reeleito de forma fraudulenta, em eleições sem oposição. Outra mentira que se repete como mantra. As eleições de 20 de maio de 2018 foram convocadas pela mesma Justiça Eleitoral e usando o mesmo sistema eleitoral com o qual Guaidó se tornou deputado. Havia 3 candidatos da oposição que reuniram 33% dos votos e seguiram as regras acordadas na mesa de diálogo realizada na República Dominicana entre o governo venezuelano e a oposição, com o ex-presidente espanhol Zapatero como mediador, que também, subsequentemente, participou como observador nas eleições presidenciais.

Saiba mais

Venezuela define o futuro de toda a região

6. Na Venezuela não há democracia. Desde 1998, foram realizadas 5 eleições presidenciais, 4 eleições parlamentares, 6 eleições regionais, 4 eleições municipais, 4 referendos constitucionais e uma consulta nacional. 23 eleições em 20 anos. Todos com o mesmo sistema eleitoral, considerado o mais seguro do mundo pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter.

7. Na Venezuela há uma crise humanitária. Sem dúvida alguma que na Venezuela há uma crise econômica no momento, resultado de uma guerra econômica que começa após a morte de Chávez e é agravada pelas sanções do Congresso dos Estados Unidos (dezembro de 2014), a ordem executiva de Obama declarando a Venezuela um perigo para a segurança nacional dos Estados Unidos (março de 2015), prorrogada e ampliada (agosto de 2017) por Trump com sanções que impediram a compra de alimentos e medicamentos. Esta crise levou a uma migração econômica que se destinava a dissimular o exílio político, algo que os dados negam (entre janeiro e agosto de 2018, a Comissão Mexicana de Assistência aos Refugiados recebeu 3.500 solicitações de refúgio de venezuelanos, para um total de 6.523 pedidos. Em refúgio para os cidadãos hondurenhos, quase o dobro).

8. Na Venezuela, os direitos humanos são violados. Vamos analisar os números das repressões de 2017: 131 pessoas mortas, 13 das quais foram baleadas pelas forças de segurança (compostas por 40 membros presos e processados); 9 membros da polícia e da Guarda Nacional Bolivariana mortos; 5 pessoas queimadas vivas ou linchadas pela oposição. O restante dos mortos o foram principalmente enquanto manipulavam explosivos ou tentavam contornar as barricadas da oposição.

9. Na Venezuela não há liberdade de expressão. Basta ver as imagens de Guaidó falando com dezenas de microfones no meio das ruas públicas, ou dando entrevistas à mídia internacional todos os dias para saber que isso não é verdade. Na Venezuela, além disso, diferentemente do México, os jornalistas não são assassinados ou desaparecem por fazer seu trabalho.

10. A comunidade internacional está preocupada com o estado da democracia na Venezuela. A “comunidade internacional”, representada pelos Estados Unidos e pelo Grupo Lima, não está preocupada com os prisioneiros torturados em Guantánamo; ela não está preocupada com os líderes sociais e defensores dos direitos humanos que são mortos todos os dias na Colômbia; ela não está preocupada com as caravanas de migrantes que fogem da doutrina de choque neoliberal em Honduras; ela não se importa com as relações dos filhos de Bolsonaro com as milícias que assassinaram Marielle Franco. Não, ninguém julga as graves violações dos direitos humanos nos países do Grupo Lima e seu aliado, os Estados Unidos. O que está escondido por trás dessa preocupação não é chamado de democracia, é chamado de petróleo, é chamado de ouro, é chamado de coltan.


*Katu Arkonada é cientista político, autor de livros relacionados à política latino-americana e membro da Rede de Intelectuais na Defensa da Humanidade.


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