Défice no discurso de Passos Coelho

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/04/2017)

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                           Daniel Oliveira

O Partido Socialista mandou espalhar pelo país um cartaz onde se lê: “2,1% – o défice mais baixo da nossa democracia.” O cartaz é eficaz para o marketing, mas um erro político. Eficaz para o marketing porque desmente a ideia feita de que a esquerda em geral e o PS em particular são incapazes de manter as contas públicas equilibradas. Politicamente errado porque apresenta o défice como um objetivo, e não como um instrumento. Há momentos em que os governos, para fazerem o seu trabalho, podem ser obrigados a aumentar o défice, há outros em que o podem descer. O objetivo é o emprego, a prosperidade e o bem estar das populações. Ou seja, este cartaz, sendo bom para o PS, está a dar um excelente argumento ao próximo governo que apresentar a austeridade como solução para uma crise.

Mas a verdade é esta: o défice ficou nos 2,1% e mesmo que lhe retirassem as medidas extraordinárias que todos os governos usaram ficaria, segundo a Unidade Técnica de Apoio ao Orçamento (UTAO) da Assembleia da República, pelos 2,4%. E isto fez-se sem aumentar a carga fiscal (até houve uma queda ligeira). As coisas parecem suficientemente sólidas para até Teodora Cardoso ser obrigada a uma previsão de 1,75% de défice para 2017.

A questão é saber se este défice é resultado da receita prometida pelo PS ou do seu não cumprimento. Se a redução do défice resulta de uma economia que começa finalmente a respirar ou se resulta de uma austeridade crescente. Se é o primeiro caso, Costa provou que a devolução de rendimentos mais rápida não só não implica aumento do défice como até é, como sempre disse a esquerda, um instrumento para recuperação económica compatível e facilitadora da recuperação das contas públicas. O facto de a economia ter disparado a partir de abril ajuda a este argumento. O segundo semestre de 2016 corresponde ao maior crescimento económico dos últimos sete anos e o Banco de Portugal reviu em forte alta as previsões de crescimento para este ano.

Ou o PS não cumpriu o seu programa e por isso saiu-se bem no controlo do défice ou o seu programa revelou-se um sucesso e, graças à recuperação económica, teve efeitos positivos no défice. Os dois discursos não são conciliáveis. Fora o reconhecimento do erro, sobra ao PSD um discurso totalmente contraditório com a ideia de que o diabo vem a caminho e contrário à perceção geral das pessoas. Resta a Passos dizer que António Costa é igual a ele, com a diferença que conseguiu controlar o défice devolvendo rendimentos mais depressa do que ele se propunha, com paz social e devolvendo confiança à economia.

Ou seja, ou Costa tinha razão ou Costa é um Passos muitíssimo mais competente. Nenhuma das duas hipóteses permite grande discurso à oposição.

E não é fácil vender a tese da continuação da austeridade quando o desemprego continua em queda, o indicador de confiança dos consumidores subiu para valores históricos (para valores que não se conheciam desde 2000) e o relatório do Eurobarómetro diz que a confiança dos portugueses no governo e no Parlamento duplicou em relação a 2016 e é agora superior à média europeia.

Sabendo que o BCE vai reduzir a compra de dívida portuguesa e que a nossa dívida continua e continuará insustentável, resta a Passos esperar pelo momento em que essa frente corra mal. É uma possibilidade que nada tem a ver com este ou com o anterior governo, e para a qual ninguém tem uma solução. Mas não funciona como discurso político porque não permite a Passos mais do que ser uma ave agoirenta, esperando que um desastre aconteça no terreno que nenhum governo pode, para além de manter um défice baixo e melhorar os números da economia, controlar.


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LEVAR PASSOS “À SÉRIA”?

(Joaquim Vassalo Abreu, in 03/04/2017)

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Eu já há uns tempos atrás publiquei aqui um texto, a que chamei “LEVAR PORTUGAL A SÉRIO “,   (Ver aqui), mais propriamente no dia 13 de Dezembro de 2016, de modo que voltar ao mesmo tema, só por razão muito substantiva ou então para fazer assim uma espécie de actualização, o que é o caso.

Mas porque volto? É que eu pensava que ele, o nosso Senhor dos Passos (ouvi dizer que estamos na Quaresma) já tivesse feito um “upgrade” ao slogan e o tivesse mudado para, no mínimo “Levar o PSD a sério” pois, desde os seus muito seus aos seus pouco seus, uns fingem que o levam a sério e outros já nem sequer o fingem…

Mas, tenho observado que, sempre que fala, principalmente na sede, que deveria ser local sagrado e de culto, lá aparece por trás dele a fatal frase. Mais propriamente um pregão ou um slogan que, da sua eficácia, deve ter sido objecto dos mais aturados estudos, de marketing e até de sociologia, pois foi levado a sério. E até testado, pois o deve ter sido, por exemplo numa daquelas universidades de verão, por aqueles jovens todos de atestado na mão, a gritarem, virados para o seu chefe: “Levar Portugal a Sério!”, “Levar Portugal a Sério!”…muitas vezes, claro, e com os dois dedos virados em frente, para o seu “Herr”. Mas que quer aquilo dizer, afinal? Para quem será o recado?

A sério: eu até acredito que “Levar algo a sério”, “Levar alguém a sério” ou mesmo “Um tipo levar-se a sério” ou, finalmente, “Que o levem a sério ou seja levado a sério”, seja um desejo, uma vontade, um anseio de futuro, uma realização até e até aí tudo bem. Mas, hoje por hoje, continuar a colocar lá no meio “PORTUGAL”, sendo absurdo, ridículo e totalmente desfasado da realidade, a menos que seja mesmo uma autocrítica introspecção, podendo ser aquele desejo o de “Levar o PSD a sério”, seja simplesmente um apelo, pungente mesmo, a que “Levem Passos a sério” ou “séria”, tanto faz!

Porque só assim poderá ser! Pois pensem comigo: se tivessem escrito uma frase mais afirmativa, tipo “Nós Levamos Portugal a Sério”, a gente até se poderia rir a bandeiras despregadas, fazer piadas, glosar com a coisa, fazer ainda mais trocadilhos do que os que eu faço até, mas quando colocam o vago, incerto e evasivo “Levar”, eles querem dizer o quê? “Levar” o quê ou quem? E já agora: “Para onde?”. É que “Levar Portugal”, só se for Atlântico adentro, como na “Jangada de Pedra” do Saramago, agora “A Sério?”. É que se temos que o levar a sério, ou mais a sério, é porque ele é um pouco estouvado e brincalhão, pouco atento e fixo, mais outras coisas mais e tem que ser posto na ordem…para ser levado a sério, não será?

De modo que, ultrapassado este patético jogo de palavras, que de tão parvo nem posso sequer afirmar ser um jogo, a pergunta final, aquela que estará no cerne da manutenção do referido slogan, de o facto de Passos, julgando-se no seu bandado “pin” ele mesmo Portugal, se queixar de o Governo não o “levar a sério” e não responder às suas pertinentes e acutilantes perguntas.

Assim como que dizendo ao Governo: “O Sr. (o Sr. Costa bem entendido), não perde uma oportunidade de me achincalhar (a ele, Portugal, claro também), e isso é ignóbil, vergonhoso e só mostra que não “levam Portugal” (o seu “pin”, bem entendido) a sério”.

Só lhe faltou dizer: nós fomos os únicos que levamos Portugal a sério, os únicos que poderão fazer voltar a seriedade a Portugal e expurgar dele todos os que não são sérios… “Levem-me, portanto, a sério”.

Só que, por muito que se leve a sério, e pese a sua seriedade, que não ponho aqui nem em lado nenhum em causa, isso não basta para que seja levado a sério. E é-o cada vez menos, dizem as sondagens e cada vez mais.

E ontem diverti-me ao ouvi-lo “exigir” do Governo saber todos os pormenores da venda do Novo Banco e o porquê de o Estado ter ficado com 25% e ter sido “vendado”, como alguém dizia, ele que, ele sim, o venderia pelo preço que custou e não faltavam compradores…Eram dezassete, dizia ele a 27/08/2015 e a ANGBANG oferecia 2.000 milhões, lembram-se? E havia a APPOLO, depois a FOSUN até que, até que não restou nenhum! Até que o seu Tedx, o Monteiro, lá arranjou um…uma STAR!

O Costa vai-lhe dizer: Ó Sr. Deputado Passos Coelho, a sério, quer que lhe faça um desenho?

Nota Final : Eu, como sei que o Costa não tem grande queda pró desenho, mandei-lhe um SMS e disse-lhe: António, deixa isso pra lá, eu faço-te o desenho, ok? Ah! E mando um prá “Catrineta” também, tá? A sério, António!

Semanada – De Marcelo a Gama passando por Passos, qual deles o pior

(In Blog O Jumento, 26/03/2017)

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Marcelo Rebelo de Sousa descobriu que qualquer governo consegue um défice de 2,1%, pelos que se deduz que as políticas governamentais pouco importam. Marcelo não ouviu falar do famoso desvio colossal, dos cortes de vencimentos e de pensões, da recessão, dos sucessivos orçamentos rectificativos, do reembolso da sobretaxa e de outras situações. Para ele tanto faz que o défice seja controlado com medidas inconstitucionais ou por rigor orçamental. Também não explicou muito bem qual foi o outro governo que conseguiu fazer baixar o défice até 2,1%.
Quem andou a precisar de um frasquinho de Alka-Seltzer foi Passos Coelho; depois de ter prometido votar no PS se este respeitasse as metas do défice, de ter apelado à direita europeia que boicotasse o governo, de ter esperado a rejeição do OE pelo Eurogrupo, de ter exigido um plano B, de ter anunciado a vinda do diabo, não consegue aceitar os resultados. Agora parece um presidente de um clube desportivo mau perdedor, a dizer que houve um penalti por assinalar.
Jaime Gama que Ricardo Salgado promoveu a presidente do BES Açores quando deixou o parlamento, reapareceu agora na política para dar a sua primeira entrevista, agora já na qualidade de presidente da fundação do merceeiro holandês, que tem desempenhado o papel de Tea Party tuga.
Veio falar da dívida e fê-lo de tal forma que até Assunção Cristas sugeriu ao governo que o ouvisse.
Antes de Jaime Gama ter refletido sobre a dívida já tinha vindo o ministro das Finanças holandês explicar a sua origem, ao que parece a culpa dos nossos males é da famosa dupla das putas e do vinho verde. Nada de novo, sem especificar os consumos há muito que Passos Coelho defende a mesma tese, só não se entende o porquê de tanta indignação por parte dos admiradores portugueses do presidente do Eurogrupo.