E o único sacana é o só o Jeroen Dijsselbloem?

(In Blog O Jumento, 22/03/2017)
Que o gajo holandês não é grande espingarda já todos sabemos, aliás há muitos holandeses como aquele, herdeiros da pirataria, que aprenderam a comer à mesa e a tomar banho com os povos do sul e que agora se comportam como novos ricos. O senhor que recorre a esquemas para desviar uma ou parte do comércio para o porto de Roterdão e que andam a a atrair muitas empresas do sul a troco de esquemas fiscais, decidiu lamber o rabo ao ministro das finanças da Alemanha à nossa custa.
Só que não percebo o porquê de tanta irritação e indignação por aquele gajo que tem um penteado a lembrar os chulos do Intendente nos anos 70, ele disse com menos palavras e de uma forma que todos entendem aquilo que durante anos foi a tese de Passos Coelho. Senão vejamos o que dizia Passos Coelho no dia 6 de Abril de 2014:
«Tive ocasião esta semana no parlamento de demonstrar que esta visão é, pelo menos, uma visão ingénua. Não há nenhuma parte do mundo em que uns poupem para os outros gastarem. Não há em nenhuma parte do mundo gente que faça sacrifícios para pôr as suas contas em ordem para que outros possam ter défices e dívidas. Isso não existe. E isso não se chama solidariedade. Isso não é solidariedade. Solidariedade é valer a quem não pode. Solidariedade não é caridade.»
Aliás, o famoso turista finlandês que disse a Passos Coelho que se calhar iria de ter pagar o seu jantar na Madeira quando regressasse à Finlândia foi o grande ideólogo da austeridade em Portugal. Não admira que dois defensores da austeridade, o ministro das finanças holandês e o líder do PSD, usassem o mesmo tipo de argumentos.
Desde João Duque a Vítor Bento, não faltaram por cá os que aconselhavam o povo a comer e calar, porque a austeridade era o castigo merecido por termos andado a comer acima das nossas possibilidades. Da mesma forma que os holandeses são tão tementes a Deus que na gaveta das mesas de cabeceiras dos hotéis há sempre uma bíblia, também por cá a abordagem bem ideológica da austeridade tem muito de puritanismo. Foi sempre apresentada como um castigo quase divino por termos cometido o pecado da gula. O ministro holandês apenas foi mais preciso e brejeiro, disse-nos que o problema foi termos andado nos copos e nas putas.
Se o ministro holandês nos meteu todos a passear no conhecido bairro das prostitutas de Amesterdão, já Passos Coelho foi mais sacana e para justificar as suas políticas diferenciava os portugueses. Por cá os empresários eram exemplares e quem andava nos copos e nas gajas eram mais os funcionários públicos e, numa segunda fase, os pensionistas. Uns ganhavam mais e trabalhavam menos, os outros viviam à custa dos mais jovens.
Em 2011 uma mulher escreveu a Passos Coelho dando-lhe conta do seu desespero por causa das medidas de austeridade. Passos aproveitou o desespero e reproduziu a mensagem na sua página no Facebook:
« Tomo banho só uma vez por semana, só acendo uma lâmpada, dispensei a mulher a dias, só saio no carro em casos extremos. Não sei mais onde cortar e o dinheiro não chega. Por favor diga-me o que hei-de fazer para poder continuar a pagar as obrigações ao Estado. Estou desesperada. Agradeço que me ajude e dê sugestões de como equilibrar as minhas finanças. »
O comentário de Passos diz tudo:
«Como a Ana Isabel, muitos de vocês estão assustados com o desafio que temos de enfrentar. Mas acredito também que, por mais que estes sacrifícios nos custem, sabemos hoje que não podemos mais fechar os olhos aos erros do passado.»
Por outras palavras, a senhora que lhe escreveu também tinha andado nos copos e nas putas. E o sacana é o só o Jeroen Dijsselbloem?

Como se chama um conjunto de Coelhos?

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 18/03/2017)

coelhos

A escolha de Teresa Leal Coelho para Lisboa é uma excelente notícia. Para o PS e para o CDS. Passos Coelho pode começar a escrever dois discursos: um de derrota, outro de saída

Pedro Passos Coelho está de parabéns, escolheu a melhor das suas alternativas: ele não tinha mais alternativas. Foi à praça dos fiéis disponíveis e só lá estava Teresa Leal Coelho. A abnegação pelo seu amigo é bonita mas o sacrifício dela será o dele. É um nome tão fraco para a Câmara de Lisboa que não concorre contra Medina, concorre contra Cristas. Passos já corre não por gosto, corre por desgosto. Pode correr tão mal que as eleições podem matar dois Coelhos de uma cajadada. Então, Passos perde primeiro o partido, depois o partido perde-o a ele. Vai dar dó. Já dá.

Teresa é leal a Coelho mas, como vereadora da Câmara, não se lhe conhece uma ideia sobre a cidade, não se lhe reconhece um ato de oposição, não se lhe conta a presença em mais do que um quinto das reuniões. Na relação com o partido, é uma formiga política, no formigueiro descontrolado em que se transformou o PSD. Vai receber um programa para a cidade escrito por um velho crítico, José Eduardo Martins, que deve acreditar tanto nela como numa pedra que flutue; vai ter uma concelhia liderada por novo adversário, Mauro Xavier, que só não lhe atira a pedra porque… bom, talvez atire.

Com esta (quinta ou sexta ou décima sétima, nem se sabe bem) escolha, o PSD dá a bandeja a Assunção Cristas e a Fernando Medina. Assunção até foi inteligente, criticando Passos a propósito da banca porque já está em pré-campanha; Medina nem precisou de ser inteligente, bastou-lhe a burrice alheia. Os dois, que nunca antes foram a eleições, têm estrada livre para ganhar: ele, a Câmara; ela, a emancipação no partido. Bastará ter mais do que os 7,5% que Portas teve no passado em Lisboa. Se acontece o delírio de ultrapassar Leal Coelho, será a vergonha acabada.

É por isso que na capital não se joga apenas a probabilidade de derrota de Teresa, mas também a possibilidade de derrota de Pedro. O PSD já recuou nos objetivos, já não quer ter mais câmaras do que o PS, apenas mais votos do que nas autárquicas anteriores. Agora condói-se neste não ir a jogo nas grandes cidades, essenciais para as legislativas seguintes.

As autárquicas são em outubro, o congresso do PSD em janeiro. Da janela da sede, Passos já vê os amoladores de facas entrarem. Enquanto isto, António Costa ri-se às gargalhadas debaixo de uma almofada, para não estragar o desarranjinho.

Teresa e Paulo resistirão até ao fim, mas já não têm muitas cartas na mão. Jogam ao solitário, enquanto nas salas ao lado se joga à lerpa. Como se chama um conjunto de Coelhos? Pouca gente sabe que a resposta rima com banhada mas toda a gente sabe agora que a resposta não é PSD.

Manual de uma derrota eleitoral

(In Blog O Jumento, 17/03/2017)
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Em queda nas sondagens e sem estar no Governo, o líder do PSD provou o sabor amargo de ver todos fugirem dele, não tendo encontrado ninguém à altura de disputar a autarquia da capital, os generais deixaram-no abandonado à sua sorte. Uns andam por aí, outros fazem de mortos, alguns estão confortavelmente a viver de tachos proporcionados pela economia social, a maioria está no conforto dos gabinetes da advocacia dada aos offshores ou aos negócios de influências.
O CDS não lhe deu margem para uma coligação, Assunção Cristas optou por avançar com a sua candidatura, sabendo que não só inviabilizaria uma coligação da direita, como aumentaria a probabilidade de o PSD desistir de Lisboa. Desta forma mata três coelhos com uma cajadada, leva a que o PSD concorra a Lisboa só para fazer o frete, afirma-se como líder do CDS e da direita e contra um PSD com os braços caídos pode ultrapassar o score eleitoral alcançado por Paulo Portas, quando se candidatou a Lisboa, afastando o fantasma do golpe sofrido por Manuel Monteiro. Com alguma sorte até poderá matar um quarto coelho, se o PSD perder e sofrer uma derrota pesada nas autárquicas e, em especial, em Lisboa, a líder do CD pode acabar com Passos Coelho.
Resta a Passos lutar pela sobrevivência em Lisboa, uma sobrevivência que passa por fazer frente aos opositores internos no PSD e por evitar uma derrota humilhante na capital. A escolha de um candidato entre os que no PSD criticam Passos Coelho, depois de ser um deles a redigir o programa autárquico da capital, significaria que as eleições para a  CM de Lisboa poder-se-iam virar contra Passos Coelho; um bom resultado  na capital teria para Passos o mesmo sabor que teve a vitória presidencial de Marcelo. Antes uma derrota do que mais um a querer o seu enterro político.
Não é fácil encontrar candidatos a derrotas eleitorais anunciadas, associando o seu destino ao de um líder político sem grande futuro e com a imagem de Passos Coelho, ninguém quer juntar-se a um político abandonado por Marcelo. São muito poucos os que aceitariam dar a cara por Passos Coelho nesta altura. A maioria dos independentes e senadores do PSD que o bajularam durante quatro anos, fazem agora de mortos, alguns até devem andar com o telemóvel desligado, não vá o Passos Coelho ligar-lhes.
Passos escolheu alguém que não só é da sua confiança, mas que também lhe deve a ascensão política e cujo destino político lhe está associado. Teresa Leal Coelho foi uma estrela candente e é agora uma estrela em decadência no PSD, quando Passos abandonar a liderança é bem provável que lhe siga o caminho. É a melhor candidatura possível para uma derrota, aceitará a derrota em nome pessoal, nunca pondo em causa o líder. Passos escolheu a melhor derrotada possível e parte para as autárquicas na esperança que uma vitória nalguns pequenos concelhos disfarcem a sua derrota em Lisboa.