NOVO DISCURSO

(In Blog O Jumento, 14/11/2017)
Plano A & B

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Sem saber muito bem como reagir à perda do poder, fortemente condicionada pela pantominice do primeiro-ministro no exílio que se recusava a fazer propostas, com dois candidatos à liderança do PSD que fundidos não dariam um candidato de jeito, os partidos da direita continuam desorientados. Em vez de apresentarem um programa alternativo, ainda não deixaram de ser PAF e de estar em campanha, como se o programa da coligação para as últimas legislativas fosse válido para duas legislaturas.
A primeira consequência deste vazio de ideias está na incoerência do discurso, muito óbvia em temas, como, a título de exemplo, a reposição dos rendimentos. Prometida no programa do PAF e mais do que decidida pelo Tribunal Constitucional, a reposição da legalidade em matéria de vencimentos e de pensões começou por ser tratada como a reversão de uma grande reforma, quando dá jeito lembra-se que o PAF iria repor tudo, mas de forma mais gradual.
Rui Rio andou anos a zurzir contra Passos, agora diz que o ainda líder do PSD é um herói nacional e presta vassalagem a Maria Luís Albuquerque, criticando o governo por falta de capacidade reformista. Isto é, acusa-se o seu partido ter deixado de ser social-democrata, mas para conseguir os votos dos militantes do PSD próximos de Passos defendem-se as supostas reformas que levaram o partido para a extrema-direita. Santana é mais claro, defende Passos e todas as suas políticas.
Primeiro era o plano B e a vinda do diabo, como as coisas correram bem o diabo vinha no ano seguinte e se não veio em 2016 foi porque o plano B foi adotado. Alguém reparou nas cativações, o oportunismo circunstancial do BE validou a tese e a partir daí todos os males resultaram da ausência do Estado, tudo culpa das cativações.
Até no caso da legionela a primeira reação da direita foi invocar a ausência do Estado em consequência das cativações, mas como alguém recordou que o governo de Passos tinha alterado as regras de controlo da qualidade para fazer poupanças, depressa se esqueceram das cativações e desta vez ninguém foi dar abraços e beijinho aos familiares das vítimas, o CDS não exigiu que fossem atribuídas indemnizações. Em Portugal tem direito a indemnizações quem dá mais votos.
A jantarada da Santa Engrácia veio dar a uma direita um novo discurso, um dos mais apagadinhos governantes do governo anterior, uma segunda escolha no cargo, atacou Costa dizendo que este governo culpa o anterior de tudo. Isto dias depois da direita se calar com a legionela, veio mesmo a calhar. Agora desde o mastodonte do Amorim ao Bernardo Serrão da SIC não param de matraquear, este governo culpa o antecessor de tudo.
Este é um argumento que vem mesmo a calhar, daria muito jeito esquecer o que fizeram e continuar a culpar o antecessor de Passos de tudo o que de mal sucede.

DEUS NEM SEMPRE É AMIGO

(In Blog O Jumento, 25/10/2017)

O Jumento divulga aqui a primeira entrevista dada por António Costa quando se deslocou ao local dos incêndios, que não foi transmitida pelas televisões porque estas tinham todos os recursos disponíveis a acompanhar os zigue-zagues de Marcelo rebelo de Sousa.Por isso ninguém soube da forma corajosa e disponível com que enfrentou os acontecimentos e acorreu às vítimas. Fica aqui a entrevista de que os portugueses não tiveram conhecimento por estarem a ver os abraços e beijinhos do Marcelo….


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As greves “más” e as greves “boas”

(Por Estátua de Sal, 09/09/2017)

A cavaca

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O país anda confrontado com greves, as que se fazem ou já se fizeram, mais aquelas que estão anunciadas, e parece que há, para a comunicação social dominada pela direita, umas que são “boas” ou neutras e outras que são “más”. Passo a explicar.

No caso da Auto Europa a greve era muito “má”. Era o PCP, através da CGTP, que andaria a manipular os trabalhadores para ter ganhos de causa na discussão do orçamento (o espírito conspirador dos comentadores da direita chega a ser ridículo). E era uma greve “má” porque os alemães ainda fazem as malas e vão-se embora, as exportações caem, o PIB desmaia, o Estado fica sem dinheiro e lá vem a troika outra vez. Enfim, uma desgraça. Como se os trabalhadores fossem todos uma cambada de anormais que não conseguissem ver o que é melhor para eles, podendo votar livremente as deliberações colectivas, como o fizeram, e viesse o PCP obrigá-los a votar mal e, pior ainda, a votar contra os seus próprios interesses. E quando as greves são das “más”, os comentadores de serviço começam sempre por dizer que “a greve é um direito legítimo dos trabalhadores e está inscrito na constituição”, mas acrescentam logo que não pode ser usado de qualquer maneira, bla, bla, bla. Quer dizer, existe o direito à greve mas não se deve usar o direito à greve, porque é mau para o país e para os próprios trabalhadores exercerem esse direito. Ora, se o exercício de tal direito traz resultados perniciosos para todos, a que título é constitucional, pergunto eu? A resposta é simples, a direita aceita o direito à greve, em termos do texto constitucional, desde que tal direito não seja exercido nunca, na prática. Quando é exercido, no caso das greves “más”, é um coro de assobios que se ouvem das bancadas dos opinantes comentadores. Isto no caso das greves “más”, porque no caso das  “boas”, é o malandro do empregador (leia-se o Estado) que se porta mal.

Uma greve “boa” é a greve dos enfermeiros que está anunciada. Curiosamente, neste caso, como a greve nada tem a ver com a CGTP, antes pelo contrário, ela já é “boa” ou neutra. E a comunicação social não diz que os enfermeiros estão a ser manipulados pela bastonária, Ana Rita Cavaco, dilecta prosélita de Passos Coelho e pertencente à Comissão Nacional do PSD, o que é estranho. E mesmo se estiverem a ser manipulados pela bastonária, com o objectivo de causar dificuldades ao governo na gestão do déficit e da dívida pública, e de criar ao mesmo tempo um clima de intranquilidade social no sector da saúde que ensombre os bons resultados que estão a acontecer na frente económica, tudo isso não é suficiente para que seja considerada uma greve “má”. Se acrescentarmos a tudo isso que, contrariamente ao ocorrido na Auto Europa em que a greve foi causada pelo facto de o empregador se propor reduzir direitos dos trabalhadores, esta greve dos enfermeiros resultar de reivindicações irrealistas dos próprios enfermeiros que pretendem aumentos na casa dos 100% que qualquer mortal – a começar pelos próprios enfermeiros -, sabe que não podem ser atendidos, mesmo assim ainda não é tida como uma greve “má”.

Ora, como diz o blog 77 Colinas onde obtive a ilustração deste texto, e passo a citar: “Ana Rita Cavaco, Bastonária da Ordem dos enfermeiros e dirigente do PSD, durante o reinado pafioso, não apareceu a contestar quando os enfermeiros tinham que emigrar para ganhar mais que os 3 ou 4 euros/hora que lhes eram oferecidos. Agora, como convém à sua cor política, aparece a reivindicar aumentos de 800 euros. Ao Cavaco, sucedeu uma Cavaca. “

Mas estas greves “boas” promovidas pelo Coelho e seus sequazes tem ainda um outro objectivo: tentar provar que a austeridade não acabou com o governo da Geringonça, contrariamente ao que António Costa afirma, pelo que a direita tenta passar a ideia que aquilo que a fez tombar – o excesso de austeridade -, não deve ser um critério para o eleitorado decidir as suas escolhas porque, no fim da linha, todos tem que fazer austeridade.

O que a direita ainda não interiorizou é que os portugueses já conseguem distinguir entre aqueles que praticam a austeridade com todo o gosto e um sorriso sádico nos lábios e aqueles que, praticando-a, o fazem contrariados e tentando reduzir ao mínimo a carga que cai sobre os que menos podem. E é esse pequeno detalhe que os irá afastar do poder, felizmente, por muitos anos.