Nobel Prémio Paz – a quanto me obrigas

(Celestino Borges, in Facebook, 11/10/2025, Revisão da Estátua)


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Adivinhem quem é que pediu uma invasão dos Estados Unidos contra a Venezuela? A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem quem é que apoiou as sanções e o bloqueio que asfixia e empobrece os venezuelanos? A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem que é que nunca reconheceu a existência do genocídio em Gaza e o direito a autodeterminação do povo da Palestina? A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem quem apoiou Israel na recente guerra com o Irão, dizendo, inclusive, que tinha sido Israel a ser atacado primeiro e que por isso ripostou? A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem quem é que já recebeu – e continua a receber – milhares de milhões de dólares em ajudas para a sua campanha por parte de Israel e isto, apesar dela e sua família serem multimilionárias?  A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem quem é que mantém contactos frequentes e assíduos com a CIA e com a Mossad (são a mesma coisa para os mais distraídos), facto reconhecido e nunca desmentido? A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem quem é que tem e mantém relações estreitas com os EUA e Israel e os seus mais altos representantes e dignitários, Trump, Netanyahu e Herzog? A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem de quem se fala e se diz nos bastidores ser uma agente infiltrada da CIA/Mossad na América Latina?

 A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem quem é que será a próxima presidente da Venezuela se tudo correr conforme o planeado? A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Adivinhem quem é que discursou através de um vídeo gravado na conferência internacional de extrema-direita em Madrid onde também participou o Chega e o seu líder, André Ventura? A Nobel da Paz, María Corina Machado.

Premiar uma apoiante de Israel e da guerra genocida levada a cabo por Netanyahu contra o povo palestino, que bela maneira que o Comité Nobel escolheu para assinalar o início do cessar-fogo em Gaza…

A única questão aqui é: qual é o teu espanto e a tua dúvida?! Ah, espera. Não ter sido o Trump o premiado?! Esquece lá isso. Dava muito nas vistas ser agora. Será, seguramente, o próximo contemplado, mesmo que a título póstumo.

Parabéns María Corina Machado! Parabéns CIA/Mossad! Parabéns EUA/Israel!

Juntos, fizeram um excelente trabalho de cosmética e marketing!

Quanto ao Comité Nobel não me pronuncio. Faz tempo que sei o que são e ao que vêm.


Aproveitando a reunião na capital espanhola, a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, enviou uma mensagem na qual agradeceu aos dirigentes o apoio e a firme rejeição do presidente Nicolás Maduro, cuja reeleição em julho último é questionada pelos seus detratores.

“Vamos tirar este regime do poder”, mas “precisamos de vós (…) É imperativo que as nações democráticas do mundo nos acompanhem com todos os vossos esforços, com todas as vossas ideias, com todas as vossas ações para conseguir uma transição ordenada na Venezuela”, disse María Corina Machado.


NOTAS

1. Os únicos factos que eventualmente questionarás – e é mesmo muito provável que tal aconteça -, serão a presença do André Ventura e da María Corina Machado (com um vídeo gravado) nessa cimeira dos patriotas em Madrid e a designação de “extrema-direita”. Mas não sou eu que os estou a qualificar. Foram os próprios. Como se pode constatar pelos links que seguem aqui e aqui.

2. O que escrevi nada tem que ver com esquerda ou direita. É apenas o meu humilde contributo para saberes quem é quem e o porquê das coisas. Mormente, quem é a María Corina Machado e porque razão terá ganho o Nobel da Paz. Tão só isto.

Os pecados dos escritores

(António Guerreiro, in Público, 18/10/2019)

António Guerreiro

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A decisão do júri da Academia Sueca que atribui o Prémio Nobel da Literatura está contaminada por um critério que dá origem a grandes equívocos: o critério da biografia política dos autores e do respectivo curriculum cívico. Levado às últimas consequências (felizmente, tal não é fácil, porque a literatura não é domesticável e rebela-se até contra si própria), este critério faria do prémio um julgamento dos pecados e das virtudes da pessoa dos escritores e não da sua obra. Na história da literatura universal, terá assim cabido à Academia Sueca escrever um capítulo edificante que pode ser intitulado A Literatura e o Bem, sem sequer se aproximar das catacumbas sombrias — um horror! — dessa história, onde prosperaram, em todos os tempos, uns energúmenos geniais que um celerado chamado Georges Bataille reuniu sob o signo do mal, em A Literatura e o Mal (1957).

A contestação de que está a ser alvo o último premiado pelo Nobel da Literatura, o escritor austríaco Peter Handke, deriva da representação que o prémio criou, muitas vezes pelas suas escolhas e quase sempre pelas razões moralistas e até doutrinárias que ressaltam dos anúncios oficiais dos vencedores. O seu pecado, aquilo que o torna um premiado infame, é o ter defendido, apoiado e até homenageado o presidente sérvio Milosevic (sobre a história da relação de Peter Handke com a Eslovénia e a sua defesa da manutenção da federação jugoslava, ler as crónicas de João Barrento, que o PÚBLICO reeditou online).

Os escritores, diz Hannah Arendt num ensaio sobre Brecht (encontramo-lo, em português, num livro intitulado Homens em Tempos Sombrios, Relógio D’Água), são para ser citados e não para falarmos deles. Falar deles significa confrontarmo-nos com o seu mau comportamento crónico; e não devemos deixar que isso perturbe a leitura da obra. Curiosamente, Hannah Arendt discorre sobre os “pecados” dos escritores num ensaio em que expõe e condena o engagement de Brecht, em especial aquele que ganhou a forma de uma “Ode a Estaline”, um “elogio dos crimes de Estaline, escrito e publicado em Berlim-Leste, mas pudicamente excluído da edição das obras completas”. Embora reconhecendo que Brecht é um dos grandes poetas alemães do século XX, Hannah Arendt não o desculpa: mostra que ele traiu os seus próprios princípios estéticos quando escreveu poemas como essa ode, quando escreveu “versos indescritivelmente maus, piores do que os de qualquer versejador de quinta categoria”; e mostra que ao “erro político” de Brecht corresponde um “erro literário”, uma vez que “os pecados reais do poeta são castigados pelos deuses da poesia”.

Os poetas, diz Hannah Arendt, “podem permitir-se mais coisas do que o comum dos mortais”, mas essa prerrogativa acaba quando eles atraiçoam a sua própria obra. Os equívocos da Academia sueca começam precisamente nesta dificuldade em separar os “pecados” de ordem política e moral, que só comprometem o cidadão (e esse podemos muito bem ignorá-lo) daqueles que têm implicações nefastas no plano literário.

E Arendt termina o seu ensaio, citando um adágio latino: “Quod licet Iovi non licet bovi”, o que é permitido a Júpiter não é permitido a um boi. Parece a concessão aos poetas de uma enorme vantagem, injustificada. Mas implica uma cruel contrapartida, é — diz Arendt — “uma faca de dois gumes”: esse direito que pode ser reclamado para o poeta faz, por outro lado, com que ele não possa fazer certas coisas sem deixar de ser quem era. Dito de outra maneira: Brecht pôde muito bem cometer o pecado de tecer louvores a Estaline, mas esse louvor plasmado numa ode digna de “um versejador de quinta categoria” é como que uma passagem de Júpiter a boi.

Peter Handke não escreveu nenhuma ode a Milosevic, não fez dele a sua matéria literária: defendeu-o publicamente, pôs-lhe flores na campa, escreveu um livro apologético sobre “uma viagem de Inverno” pela Sérvia. Foi das poucas vezes em que saiu do seu exílio de escritor misantropo, entregue ao insuportável “peso do mundo”. Porque há-de o escritor ser julgado, no momento em que é atribuído um prémio à sua obra (assim deveria ser), por aquilo que o cidadão austríaco, filho de mãe eslovena, cometeu por determinações mítico-edipianas?


Livro de recitações

“O que chegou ontem foi a relevância do jornalismo tablóide na construção da consciência colectiva”
Daniel Oliveira, in Expresso, 14/10/2019

Atribuir ao jornalismo tablóide o poder de “construção da consciência colectiva” é uma concessão ao tabloidismo ou, pelo menos, uma incapacidade de pensar fora dos pressupostos mediáticos: porque a “consciência colectiva” (ainda por cima num texto em que se está a falar também de consciência de classe) não pode ser construída precisamente por aquilo que a aliena e expropria. É sempre de uma falsa consciência que se trata. Para perceber isso, talvez seja útil recorrer à palavra “ideologia”, a tudo o que ela é capaz de significar, e não deitar Marx pela sanita abaixo como quem deita fora o bebé com a água do banho. Esta afirmação de Daniel Oliveira é, em si mesma, um pequeno triunfo da falsa consciência.


O Nobel para uma pobre economia do desenvolvimento

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 17/10/2019)

Alexandre Abreu

Todos os anos por esta altura são anunciados os vencedores do Prémio do Banco da Suécia para as Ciências Económicas em Memória de Alfred Nobel e todos os anos alguns comentadores assinalam que não se trata de um verdadeiro Prémio Nobel, pois não estava previsto no testamento original de Alfred Nobel e só foi atribuído pela primeira vez em 1969. Esta chamada de atenção tem principalmente um propósito de humildade: recordar que a Economia é uma ciência social e não uma ciência natural como a Física, a Química e a Medicina, o que tem consequências ao nível das abordagens e da validade das inferências – algo que este ano vem a propósito recordar.

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Este ano os galardoados foram Abhijit Banerjee e Esther Duflo (ambos do MIT) e Michael Kremer (de Harvard) por, segundo afirma o press release, terem desenvolvido ‘uma nova abordagem para obter respostas fiáveis sobre as melhores formas de combater a pobreza’. Sendo a economia do desenvolvimento a minha própria área, fico naturalmente satisfeito com esta chamada de atenção para os problemas da pobreza e do desenvolvimento, 21 anos depois de Amartya Sen e quatro anos depois de Angus Deaton. Seguramente, este galardão premeia este ano trabalhos socialmente mais relevantes e menos nocivos do que, por exemplo, as teorias sobre a capacidade autoregulatória dos mercados financeiros de um Eugene Fama, premiado em 2013.

Em todo o caso, a comparação com Amartya Sen e Angus Deaton, autores de trabalhos de enorme fôlego em termos teóricos e empíricos, é ela própria ilustrativa do estreitamento que a economia do desenvolvimento dominante tem vindo a sofrer, muito por culpa da crescente dominação dos Randomised Controlled Trials (RCTs), que poderemos traduzir por algo como ‘ensaios clínicos randomizados’ e que são precisamente a abordagem que valeu a Benerjee, Duflo e Kremer o prémio agora atribuído. Em boa parte das instituições de investigação em economia do desenvolvimento, os RCTs são uma enorme porção do que se faz hoje em dia, em detrimento da atenção às muito mais importantes questões estruturais, como a industrialização, as políticas macroeconómicas, a estrutura e dinâmicas dos mercados ou as relações de propriedade, que anteriormente dominavam este campo e que, como argumento mais à frente, são as que realmente importam para as questões do desenvolvimento e da redução da pobreza.

Entretanto, claro que os RCTs não são uma abordagem nova, nem foram introduzidos por estes investigadores; os ensaios clínicos randomizados, com o estabelecimento aleatório de um grupo de tratamento e um grupo de controlo para testar a eficácia de um tratamento, são há muito a abordagem consagrada para os ensaios clínicos em medicina. O que é novo e muito deve a estes três economistas é a sua generalização na microeconomia do desenvolvimento, isto é, a sua aplicação ao estudo das escolhas individuais e à análise da eficácia de diferentes intervenções em contextos caracterizados pela pobreza em países em desenvolvimento.

Será preferível distribuir redes mosquiteiras de graça ou mediante um preço reduzido? Quais as melhores formas de incentivar a assiduidade e prestação dos professores primários? É melhor que certos apoios sociais sejam condicionais à adoção de determinados comportamentos ou incondicionais? Este é o tipo de perguntas a que procuram responder os RCTs no domínio do desenvolvimento, estabelecendo aldeias ou grupos de pessoas a quem o ‘tratamento’ é aplicado e os seus resultados comparados com os do grupo de controlo. Se a amostra for suficientemente grande e (condição crítica mas muitas vezes ignorada) se a resposta ao tratamento por parte da população for relativamente estável e determinística, então o próprio processo aleatório seguido no estabelecimento da amostra permite inferências estatísticas bastante poderosas e rigorosas quanto à eficácia da intervenção. É precisamente por isso, aliás, que em geral confiamos nos medicamentos que foram sujeitos a ensaios clínicos.

O problema, porém, é que ao contrário das respostas biológicas humanas, que são relativamente invariantes de organismo para organismo, os comportamentos e respostas sociais são muito mais complexos e dependentes do contexto. A ‘melhor’ intervenção num determinado contexto (questão que aliás nunca é apenas técnica mas tem sempre uma dimensão politica) pode produzir resultados muito distintos noutro contexto por uma infinidade de razões.

Por isso mesmo, a presunção de retirar conclusões gerais sobre as ‘melhores’ intervenções num qualquer domínio a partir de uma amostra particular numa região particular do Quénia ou da Bolívia (ou de Portugal…) assenta numa visão mecanicista e sofre de enormes problemas em termos daquilo a que chamamos ‘validade externa’: a aplicabilidade das conclusões a outros contextos. E é precisamente por causa disso que mesmo ao nível do estudo dos microcomportamentos individuais a economia da pobreza não pode limitar-se a uma análise estatística mecanicista de quais as intervenções que ‘funcionam’ e deve procurar compreendero porquê dessas intervenções funcionarem (ou não funcionarem), nomeadamente com recurso a uma bateria muito mais ampla de métodos, incluindo métodos qualitativos.

Em todo o caso, o maior problema da dominação da economia do desenvolvimento por parte desta abordagem é mesmo o facto de, em última instância, ela ter muito pouca relevância para dar respostas ‘sobre as melhores formas de combater a pobreza’ nos países em desenvolvimento. O exemplo da China, onde 850 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema entre 1981 e 2015, é esclarecedor, já que esta redução da pobreza sem precedentes na história da humanidade não aconteceu por via de micro-intervenções em torno das escolhas dos indivíduos mas da transformação estrutural da sociedade e de políticas de grande amplitude. Para quem queira realmente responder aos problemas da pobreza e do desenvolvimento, é por isso indispensável estudar as transformações estruturais e as políticas que com elas estão relacionadas (bem como, no caso da China e outros, os problemas e consequências sociais, ambientais e políticos que lhe estão associados), recusando o estreitamento da disciplina de que os RCTs são uma causa e um símbolo maior.

É claro que a aplicação dos RCTs nestes contextos, e o trabalho destes três investigadores em particular, têm muitos méritos. O problema está no facto de terem sido alcandorados à condição de metodologia-rainha para o estudo da pobreza e do desenvolvimento, ignorando que a validade externa é fundamental, que as sociedades humanas são complexas e não determinísticas, que a compreensão é muitas vezes mais importante do que a avaliação da eficácia e que as questões mais importantes da pobreza e do desenvolvimento são estruturais e não individuais.