Os pecados dos escritores

(António Guerreiro, in Público, 18/10/2019)

António Guerreiro

A decisão do júri da Academia Sueca que atribui o Prémio Nobel da Literatura está contaminada por um critério que dá origem a grandes equívocos: o critério da biografia política dos autores e do respectivo curriculum cívico. Levado às últimas consequências (felizmente, tal não é fácil, porque a literatura não é domesticável e rebela-se até contra si própria), este critério faria do prémio um julgamento dos pecados e das virtudes da pessoa dos escritores e não da sua obra. Na história da literatura universal, terá assim cabido à Academia Sueca escrever um capítulo edificante que pode ser intitulado A Literatura e o Bem, sem sequer se aproximar das catacumbas sombrias — um horror! — dessa história, onde prosperaram, em todos os tempos, uns energúmenos geniais que um celerado chamado Georges Bataille reuniu sob o signo do mal, em A Literatura e o Mal (1957).

A contestação de que está a ser alvo o último premiado pelo Nobel da Literatura, o escritor austríaco Peter Handke, deriva da representação que o prémio criou, muitas vezes pelas suas escolhas e quase sempre pelas razões moralistas e até doutrinárias que ressaltam dos anúncios oficiais dos vencedores. O seu pecado, aquilo que o torna um premiado infame, é o ter defendido, apoiado e até homenageado o presidente sérvio Milosevic (sobre a história da relação de Peter Handke com a Eslovénia e a sua defesa da manutenção da federação jugoslava, ler as crónicas de João Barrento, que o PÚBLICO reeditou online).

Os escritores, diz Hannah Arendt num ensaio sobre Brecht (encontramo-lo, em português, num livro intitulado Homens em Tempos Sombrios, Relógio D’Água), são para ser citados e não para falarmos deles. Falar deles significa confrontarmo-nos com o seu mau comportamento crónico; e não devemos deixar que isso perturbe a leitura da obra. Curiosamente, Hannah Arendt discorre sobre os “pecados” dos escritores num ensaio em que expõe e condena o engagement de Brecht, em especial aquele que ganhou a forma de uma “Ode a Estaline”, um “elogio dos crimes de Estaline, escrito e publicado em Berlim-Leste, mas pudicamente excluído da edição das obras completas”. Embora reconhecendo que Brecht é um dos grandes poetas alemães do século XX, Hannah Arendt não o desculpa: mostra que ele traiu os seus próprios princípios estéticos quando escreveu poemas como essa ode, quando escreveu “versos indescritivelmente maus, piores do que os de qualquer versejador de quinta categoria”; e mostra que ao “erro político” de Brecht corresponde um “erro literário”, uma vez que “os pecados reais do poeta são castigados pelos deuses da poesia”.

Os poetas, diz Hannah Arendt, “podem permitir-se mais coisas do que o comum dos mortais”, mas essa prerrogativa acaba quando eles atraiçoam a sua própria obra. Os equívocos da Academia sueca começam precisamente nesta dificuldade em separar os “pecados” de ordem política e moral, que só comprometem o cidadão (e esse podemos muito bem ignorá-lo) daqueles que têm implicações nefastas no plano literário.

E Arendt termina o seu ensaio, citando um adágio latino: “Quod licet Iovi non licet bovi”, o que é permitido a Júpiter não é permitido a um boi. Parece a concessão aos poetas de uma enorme vantagem, injustificada. Mas implica uma cruel contrapartida, é — diz Arendt — “uma faca de dois gumes”: esse direito que pode ser reclamado para o poeta faz, por outro lado, com que ele não possa fazer certas coisas sem deixar de ser quem era. Dito de outra maneira: Brecht pôde muito bem cometer o pecado de tecer louvores a Estaline, mas esse louvor plasmado numa ode digna de “um versejador de quinta categoria” é como que uma passagem de Júpiter a boi.

Peter Handke não escreveu nenhuma ode a Milosevic, não fez dele a sua matéria literária: defendeu-o publicamente, pôs-lhe flores na campa, escreveu um livro apologético sobre “uma viagem de Inverno” pela Sérvia. Foi das poucas vezes em que saiu do seu exílio de escritor misantropo, entregue ao insuportável “peso do mundo”. Porque há-de o escritor ser julgado, no momento em que é atribuído um prémio à sua obra (assim deveria ser), por aquilo que o cidadão austríaco, filho de mãe eslovena, cometeu por determinações mítico-edipianas?


Livro de recitações

“O que chegou ontem foi a relevância do jornalismo tablóide na construção da consciência colectiva”
Daniel Oliveira, in Expresso, 14/10/2019

Atribuir ao jornalismo tablóide o poder de “construção da consciência colectiva” é uma concessão ao tabloidismo ou, pelo menos, uma incapacidade de pensar fora dos pressupostos mediáticos: porque a “consciência colectiva” (ainda por cima num texto em que se está a falar também de consciência de classe) não pode ser construída precisamente por aquilo que a aliena e expropria. É sempre de uma falsa consciência que se trata. Para perceber isso, talvez seja útil recorrer à palavra “ideologia”, a tudo o que ela é capaz de significar, e não deitar Marx pela sanita abaixo como quem deita fora o bebé com a água do banho. Esta afirmação de Daniel Oliveira é, em si mesma, um pequeno triunfo da falsa consciência.


Advertisements

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.