Os Jogos dos diplomas não foram assim tão maus

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 22/08/2016)

nicolau

Terminaram os Jogos Olímpicos e a rapaziada que detesta atletismo, hipismo, natação, judo ou qualquer coisa que não seja futebol resolveu amuar e dizer que o Rio 2016 foi um fracasso para as cores nacionais. O Correio da Manhã, sempre atento ao Portugal cavernícola que existe em cada um de nós, vá de pespegar na primeira página que “Portugal pagou 17 milhões pela medalha de bronze”, “ Desilusão no Rio”, “Representação abaixo das expectativas” e por aí fora.

É sempre interessante reduzir o esforço de dezenas de atletas portuguesas (entre os 10.500 de todas as modalidades que estiveram presentes) à conquista de medalhas. Mas num país onde quase toda a gente só pratica desporto de bancada ou de sofá; onde o desporto escolar praticamente não existe; onde as condições de trabalho para os atletas de alta competição também sofreram severamente durante o programa de ajustamento (2011-2014, mas com sequelas que se continuam a verificar dois anos depois); onde os centros de alto rendimento são poucos; onde a capacidade de atrair treinadores internacionais de topo é reduzida e onde também os melhores técnicos nacionais são tentados por boas propostas vindas do estrangeiro – num país com este envolvimento desportivo a única conclusão que se pode tirar é que, apesar de tudo, os resultados foram muito satisfatórios.

É verdade que pódio só houve um, o bronze de Telma Monteiro (e mesmo assim o juiz que a puniu por falta de combatividade no combate que a podia levar a disputar a medalha de ouro pareceu claramente ter tomado uma decisão excessiva). Mas na canoagem (onde não éramos nada há dez anos) ficámos entre os seis primeiros em K2 (4º), K1 (5º) e K4 (6º). No trialto, João Pereira fez uma recuperação espetacular na última prova (atletismo) vindo do 37º lugar até ao 5º. No futebol, Sub-23, uma equipa montada à pressa e boicotada por todos (é ver, por exemplo, que Neymar pressionou o Barcelona para o deixar participar nos Jogos e o Brasil ganhou a medalha de ouro), acabou mesmo assim no quinto lugar. No ténis de mesa, Marcos Freitas também ficou entre os cinco melhores. Na marcha feminina, Ana Cabecinha esteve também muito bem e ficou num muito honroso 6º lugar. Nélson Évora, no triplo salto, foi o melhor europeu, conquistando a sexta posição. Também no triplo, mas feminino, Patrícia Mamona, ficou na mesma posição. No ciclismo Nélson Oliveira ficou em 7º. E mesmo Luciana Diniz alcançou um magnífico 9º lugar na prova de saltos de obstáculos individual, tendo feito um percurso limpo na segunda passagem.

Ok, é verdade que vivemos com saudades das vitórias de Carlos Lopes e de Rosa Mota na maratona ou de Fernanda Ribeiro nos 10 mil metros. Mas o nosso fundo e meio fundo tem vindo a afundar-se, desde que Moniz Pereira se afastou (e faleceu) e os seus mais diletos alunos foram treinar para outras paragens. Em contrapartida, passámos a ter esperanças em modalidades técnicas, coisa para o que não parecia termos aptidões especiais.

Digamos, pois, que estes foram os nossos Jogos dos diplomas olímpicos. Mas para a nossa tradicional desorganização, o reduzido apoio ao desporto de alta competição e os milhões de praticantes de desporto de sofá e de bancada que temos, o que é que queríamos mais?

Dois anos após a implosão do BES

(Nicolau Santos, in Expresso, 05/08/2016)

nicolau

Fez esta semana dois anos que o Banco Espírito Santo implodiu, por decisão do Banco de Portugal. Sabe-se o que levou ao dramático fim do terceiro maior banco português, com uma história centenária, mas há muito por contar sobre o que se passou nos últimos dias.

A decisão do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, de decidir pela resolução do BES (resolução: uma palavra simpática para dizer a morte do BES), está envolta em muitas interrogações. Oficialmente, o que levou à decisão do banco central foi o facto do Banco Central Europeu ter exigido o reembolso de uma linha de crédito de 3000 milhões de euros em escassos dias, além de ameaçar com a proibição da instituição de aceder ao eurosistema.

Dando por adquirido que estes factos aconteceram há que notar várias coisas. 1) foi a primeira vez que este modelo de resolução de um grande banco (à escala nacional) foi aplicado na zona euro pelo BCE, o que permite concluir que o BES serviu de teste ao supervisor europeu; 2) é espantoso que o Banco de Portugal não tenha tido nenhuma capacidade para impedir essa decisão do supervisor europeu, tanto mais que já tinha afastado os responsáveis pela difícil situação em que o banco se encontrava e tendo nomeado para o cargo uma pessoa, Vítor Bento, que merecia a sua confiança e do Governo, e que tinha deixado claro de que precisava de três a cinco anos para recuperar o banco antes de ele ser colocado à venda; 3) sabe-se igualmente que o Governo de Pedro Passos Coelho não levantou um dedo para evitar a resolução do BES.

Ora não é normal que um Governo, por mais liberal que seja, não se importe com o desaparecimento do terceiro banco do sistema por imposição externa. É ver, por exemplo, o que se passou em Inglaterra, com o Governo de David Cameron a nacionalizar o Lloyds para impedir que fechasse portas. A explicação reside no facto de Passos Coelho e Ricardo Salgado se darem pessimamente e do ex-primeiro-ministro ter aproveitado a ocasião para erradicar de vez o poder que o ex-banqueiro detinha na economia portuguesa (à semelhança do que o Marquês de Pombal fez com os Távoras). Mas convenhamos que os estados de alma de Passos Coelho deviam ter sido obrigados a vergar-se ao interesse nacional – e o interesse nacional era que o banco continuasse a funcionar, agora sob a liderança de uma administração que nada tinha a ver com as malfeitorias anteriores.

É que fundar um banco e conseguir que ele ganhe nome no mercado, que seja reconhecido nacional e internacionalmente, demora muitos e muitos anos. Por isso, o BES poderia ter continuado a funcionar com o seu nome, embora com uma composição acionista completamente diferente e sem qualquer capacidade de intervenção das famílias Salgado e Espírito Santo.

Estamos muito longe de conhecer a totalidade das devastadoras consequências do desaparecimento do BES, que era um banco essencialmente de pequenas e médias empresas e um forte apoiante de jovens empresas inovadoras. Sabemos apenas que, com ele, arrastou a PT, a maior multinacional portuguesa, uma equipa que investia pesadamente a economia portuguesa e que contratava o melhor da engenharia e da gestão nacional, além de à sua volta gravitarem uma miríade de pequenas empresas inovadoras.

Pelo contrário, desconhecemos porque é que Carlos Costa convidou Vítor Bento para dirigir o BES e apenas três meses depois se decidiu pela resolução do banco. Não sabemos também porque insistiu para que ele continuasse depois à frente do Novo Banco, garantindo-lhe que teria tempo para preparar a instituição para uma futura venda, e mês e meio depois lhe comunicou que o banco teria de ser vendido em seis meses, o que levou Bento a demitir-se.

Que a estratégia do Governador estava completamente errada provou-o o falhanço da primeira tentativa de venda, em que supostamente havia 17 interessados, depois ficaram quatro e no final nenhuma das propostas foi aceite. Prova-o igualmente o facto do banco ter já acumulado prejuízos de quase 1500 milhões de euros no seu curto período de existência. Prova-o ainda o facto de Eduardo Stock da Cunha ter decidido deixar o cargo de presidente sem cumprir o seu objetivo, que era a venda do Novo Banco.

Ou seja, por consciente inação do poder político da altura e por evidente incapacidade e estratégia falhada do Banco de Portugal, a resolução do BES foi um enorme erro, com consequências devastadoras para a economia portuguesa, cujos cálculos estão muito longe de estar feitos.

O futuro está a ser criado em Coimbra

(Nicolau Santos, in Expresso, 16/07/2016)

.

nicolau

Nicolau Santos começa com Coimbra para mostrar o que de bom se está a fazer ao nível da criação de novas empresas de base tecnológica em Portugal. Como residente em Coimbra e com conhecimento particular do papel que a Universidade tem tido nesse processo, só posso congratular-me. Mas depois volta ao tema das sanções a Portugal e ao novo job de Durão Barroso de quem diz ser o “homem a evitar por higiene” ( Estátua de Sal).


Imagine um iPhone do tamanho de uma mesa. No ecrã tem o corpo de um homem, que está deitado numa maca de um hospital. O peito sobe e desce com a respiração. Na testa tem pingos de suor. Os dedos estão a ficar roxos. Ataque cardíaco, AVC? Tem painéis a dar as hipóteses de resposta às diferentes situações clínicas. Análises, injeções, desfribilador, entubamento. Os sinais vitais vão indicando a reação à terapia. Trata-se de um simulador digital interativo, que treina a capacidade de tomar decisões médicas rápidas em situações críticas ou crónicas. Para médicos, enfermeiros e estudantes de medicina é uma plataforma de treino espantosa. Chama-se Body Interact e é produzida pela Take the Wind, uma empresa portuguesa situada na zona de acelerador de unidades do IPN-Instituto Pedro Nunes, em Coimbra. O IPN, que cumpre agora 25 anos, nasceu da Universidade de Coimbra e ajuda a fazer a ligação entre a investigação, a universidade e o tecido empresarial. Vive dos seus próprios recursos que vêm dos seis laboratórios de investigação tecnológica (que desenvolveram 150 projetos nos últimos três anos e apoiaram 300 empresas), de uma incubadora (que apoia a criação de empresas e as acompanha até aos quatro anos), de uma aceleradora (para empresas com mais de cinco anos e que já se afirmaram no mercado mas precisam de captar capital para crescer) e da área de formação.

Algo está a mudar no tecido produtivo português a partir de Coimbra. O Instituto Pedro Nunes merece todo o apoio. Porque está a fazer acontecer

Na incubadora encontram-se, entre muitas outras empresas, a Active Aerogels (que produz aerogéis para isolamento térmico, usado na indústria do espaço, aeronáutica, petrolífera ou habitacional), a LaserLeap Technologies (que desenvolveu, através de ultrassons, uma solução fácil e eficiente para a entrega de produtos cosméticos e de medicamentos através da pele, isto é, sem utilizar agulhas), a iClio (dedicada à criação e publicação de conteúdos relacionados com história, património e cultura, ou seja, guias turísticos que levam em conta o tempo disponível do turista para visitar as cidades) ou a Perceive 3D (que desenvolve software de imagem de alta precisão para melhorar a perceção e auxiliar os cirurgiões em intervenções pouco invasivas). Na aceleradora há já empresas com nome nos mercados internacionais como a Feedzai (que desenvolveu uma plataforma de machine learning para gestão de risco e proteção contra a fraude para a banca, retalhistas, operadores de telecomunicações, etc.) ou a Widzee (que está a criar o Google para executivos e decisores). O IPN acolhe ainda o ESA BIC Portugal, um dos 15 centros de incubação da Agência Espacial Europeia para apoiar startups que empregam tecnologias espaciais em utilizações industriais e comerciais não espaciais.

Algo está a mudar no tecido produtivo português a partir de Coimbra. O Instituto Pedro Nunes merece toda a atenção — e todo o apoio. Porque não espera. Está a fazer acontecer.


1,1 MIL MILHÕES, A DÍVIDA DA ONGOING QUE FOI À FALÊNCIA

Nuno Vasconcellos e Rafael Mora eram a encarnação do novo tempo que ia mudar Portugal, o tempo dos jovens lobos, saídos das mais laureadas universidades internacionais e trabalhando em prestigiados bancos, escritórios de advogados ou consultoras. Através deles, queriam exercer a sua influência sobre as grandes empresas nacionais. Pois bem: esta semana foi decretada a falência da Ongoing Investment Strategies, o que levará à insolvência da holding, que os dois dirigiram. Deixam um rasto de €1,1 mil milhões de dívidas, das quais €493 milhões no Novo Banco e €282 milhões no BCP. Incompetência é o termo mais caridoso que se lhes pode aplicar.


O homem a evitar por higiene

Se tivesse um pingo de vergonha na cara, Durão Barroso nunca teria aceite ser presidente não-executivo da Goldman Sachs. Mas Barroso é a imagem desta União: sem sonhos, sem ideais, sem valores, de mão estendida perante o poder financeiro. A Goldman Sachs foi uma das responsáveis pela crise do subprime, que provocou o tsunami de 2008, lançou milhões de pessoas no desemprego e afetou dramaticamente a vida de muitos povos. A Goldman aconselhou a Grécia a ocultar parte do seu défice — para depois especular contra a dívida grega, ganhando milhões e despoletando a crise das dívidas soberanas. Barroso era presidente da Comissão Europeia mas só teve uma estratégia: não desagradar a Berlim para ser reeleito. A sua presidência deixou a Comissão profundamente enfraquecida. Barroso é, como político, uma nota de rodapé, e como pessoa, alguém higienicamente a evitar.


Um caminho perigoso

A aplicação de sanções a Portugal não faz qualquer sentido. Elas só são explicáveis por razões políticas: a linha dura na Europa não tolera o caminho que está a ser seguido pelo Governo português. O problema é que a evolução económica não está a jogar a favor de António Costa. A última previsão conhecida, da Universidade Católica, reduz o crescimento da economia a 0,9% este ano (metade do que o Governo prevê) e admite que o défice possa ficar acima dos 3%. O FMI também já aponta para 1%. Ora perante este enquadramento, fazer um braço-de-ferro com a Comissão, recusando definir medidas adicionais para controlar o défice ou apresentar primeiro o esboço do OE em Bruxelas antes de o submeter à Assembleia da República surge como um desafio que pode acarretar mesmo sanções ao país. Nesse caso, uma das saídas políticas será a convocação de eleições. É isso que António Costa quer?


Não é incrível como a palavra Acapulco se enrola pela língua e acaba com um estalido que ecoa ecoa ecoa até ao céu da boca e quase ficamos felizes de dizer Acapulco Acapulco Acapulco? Não é incrível conhecermos o número exato de vezes que temos de repetir uma palavra para ela deixar de fazer sentido? Moça, o único incrível era como a tua melena emaranhada os bucles dourados o teu riso tolo o teu andar pueril nos convidavam a fazer mais e mais estrada. A carrinha estourava os cigarros acabavam a água era pouca mas ganhávamos todos os dias ao sol e àquela maldita águia de rapina que nos tentou enganar quando lhe perguntámos como chegar a Veracruz. Escreveste com batom vermelho no retrovisor “Que nunca sobre estrada” e vruum vruum tentei fazer por isso, sabendo que se sobrasse estrada faltaria muito caminho. Já com cáries e breu afagámos os cães pulguentos de uma aldeia do deserto e um vendaval curioso ofereceu-nos um ramo de rosmaninho e alecrim. Um milhão de memórias cor de polaroid e tacinhas de barro com bebidas padronizaram a melancolia do balcão do bar, e foi mais fácil ignorar a leveza da salvação. Remexeste na mala até encontrar o teu batom vermelho — eu que naquele então desconhecia a tua aversão às canetas — e com esse batom vermelho escreveste num guardanapo usado “Mescal é substantivo de coração” e depois limpaste a boca. Voltámos à carrinha e arrancámos para fora dali, ainda faltavam duas semanas para o Carnaval.

(Mariano Alejandro Ribeiro, ‘Acapulco’, in “Antes da Iluminação”, Mariposa Azual, abril de 2016)