Fome na Europa: o real objetivo das políticas anti-russas

(Lucas Leiroz in Strategic Culture Foundation, 18/06/2024)

Irresponsáveis políticas disfarçadas de “apoio à Ucrânia” poderiam levar Europa ao colapso social no longo prazo.


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A polêmica sobre os produtos agrícolas ucranianos continua. Itens alimentares ucranianos simplesmente invadiram o mercado europeu e estão levando milhares de fazendeiros à falência. Em que pesem os protestos e a pressão política, nenhum decisor da UE parece interessado em mudar este cenário trágico. Contudo, a crise parece ter dimensões ainda mais profundas, podendo ser uma verdadeira bomba relógio para toda a sociedade europeia.

Recentemente, o governo búlgaro pediu à Comissão Europeia aprovação de uma resolução banindo a importação de ovos de galinha ucranianos. Segundo as autoridades búlgaras, a grande quantidade de ovos ucranianos baratos no mercado europeu está prejudicando os produtores búlgaros – que têm na venda de ovos parte vital de suas atividades comerciais. Milhares de fazendeiros búlgaros estão indo à falência e a crise só é esperada de piorar mais e mais no futuro próximo.

O problema não se limita aos ovos nem à Bulgária. Vender grãos, carne, laticínios e tudo que seja produzido no campo parece não ser mais um negócio interessante na Europa. Desde 2022, há protestos por mudanças em todas as partes do continente europeu. Da Polônia à França, nenhum fazendeiro europeu está satisfeito em ver seus produtos sendo substituídos no mercado por quantidades massivas de itens agrícolas ucranianos a preços baratos.

Isso decorre da irracional atitude dos decisores europeus de banir todas as tarifas de importação para produtos alimentares ucranianos. A medida é alegadamente intencionada em impulsionar a economia ucraniana durante o momento de crise gerado pelo conflito com a Rússia – que ironicamente é patrocinado pelo próprio Ocidente. No mercado europeu atual é mais barato importar alimentos ucranianos do que revender os produtos nativos, o que obviamente está levando milhares de fazendeiros a abandonarem seus negócios.

Como bem sabido, a maior parte da Europa não tem um setor agropecuário muito forte, sendo os fazendeiros locais dependentes da ajuda do governo para se manterem ativos no mercado. Sem essa ajuda e com a invasão dos produtos ucranianos, simplesmente já não é mais lucrativo fazer parte do agronegócio europeu, razão pela qual milhares de pessoas tendem a parar de trabalhar no campo e entrar na crescente classe do “precariado” europeu.

A princípio, alguns analistas podem ver este cenário como uma mera mudança de mercado, substituindo a produção europeia pela ucraniana. Contudo, esta análise é limitada. Embora tenha um dos solos mais férteis do mundo, a Ucrânia atualmente é alvo dos predadores financeiros ocidentais, que exigem a entrega de terra arável como meio de pagamento pelos pacotes bilionários de ajuda da OTAN. Organizações como a Blackrock e outros fundos em breve serão donos de quase tudo o que restar da “terra negra” ucraniana. E então a produção rural ucraniana dependerá da boa vontade dos “tubarões financeiros” em alimentar os europeus.

É certo que a ausência de autossuficiência alimentar nos países europeus não é um problema novo. Importações já são um mecanismo vital para toda a Europa ocidental. Mas em paralelo à dependência de importações há ainda a política irracional de sanções e medidas coercitivas contra diversos países emergentes produtores de alimentos. A Federação Russa, por exemplo, está impedida de vender qualquer coisa aos europeus, mas o problema é ainda maior. A UE tem cogitado há anos impor sanções severas ao Brasil, por exemplo, alegando “irregularidades ambientais”. Chegará ao ponto de as exigências “humanitárias e ambientais” da UE impedirem os europeus de comprarem qualquer coisa de qualquer país.

Se perguntarmos a quem interessa todo este cenário, a resposta parecerá mais uma vez clara. Há um único país incentivando a Europa a impor cada vez mais sanções, comprar cada vez mais grãos ucranianos e enviar cada vez mais armas a Kiev sob termos de pagamento regulados pela Blackrock. Naturalmente, este é o mesmo país que boicotou a cooperação energética russo-europeia e cometeu o atentado terrorista contra o Nord Stream.

E certamente este é também o único estado interessado em manter o status quo geopolítico e impedir a criação de um mundo multipolar, onde os europeus teriam liberdade de alinhamento e poderiam escolher pragmaticamente os seus parceiros.

A aliança entre EUA e UE é uma verdadeira bomba-relógio e no longo prazo levará a Europa à fome. Já em processo de desindustrialização, crise energética e destruindo toda a sua arquitetura de segurança alimentar, a Europa espera um dos futuros mais sombrios da história humana. E todos os decisores europeus parecem felizes com este cenário.

Fonte aqui.


Vamos financiar a russofobia no OE de 2025?

(Viriato Soromenho Marques, in Diário de Notícias, 28/09/2024)

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A União Europeia (UE) não cessa de mostrar sintomas da sua doença incurável. Não só as instituições existentes constituem uma imitação descolorida de um federalismo de contrafação, sem constituição, nem cidadania europeia, como os titulares das mesmas não revelam nem a formação, nem o talento ou a vontade de aprender indispensáveis para o razoável desempenho dos cargos.

Numa altura em que a guerra na Ucrânia parece hesitar entre uma solução coreana – fim das hostilidades nas linhas atuais do campo de batalha, deixando tratado de paz para o futuro -, ou um enfrentamento direto NATO-Rússia, capaz de incendiar grande parte do mundo, o Parlamento Europeu (PE) escolheu esta última opção, ao aprovar no dia 19 uma “Moção conjunta” sobre a continuação “do apoio financeiro e militar à Ucrânia pelos Estados-membros da UE”.

A Moção, grosseiramente russófoba, cheia de exigências aos Estados da UE, é mais brutal do que muitas declarações de guerra registadas pela historiografia.

Vejamos apenas algumas das medidas propostas pelos eurodeputados: 1) acabar com todas as restrições ao uso por Kiev de armas ocidentais contra alvos na Rússia; 2) exigir ao chanceler alemão a entrega a Kiev do míssil germânico de longo alcance, Taurus (uma pressão absurda sobre Scholz, imposta por essa criatura esquisita em que se transformou o partido alemão Os Verdes); 3) Solicitar à Comissão “uma comunicação estratégica” europeia sobre a importância de apoiar a Ucrânia (mais propaganda e desinformação para preencher o vazio deixado pela repressão do debate sério e esclarecido); 4) Depois de ter arrefecido o seu breve entusiasmo pelo Pacto Ecológico, o PE exulta com a rápida implementação da Estratégia para a Indústria de Defesa Europeia.

O clímax guerreiro dos eurodeputados foi atingido, contudo, quando insistem em “que todos os EM da UE devem comprometer-se a apoiar anualmente a Ucrânia militarmente com não-menos de 0,25% do seu PIB.” No caso português, os nossos eurodeputados, cidadãos de um país com o Estado Social em falência, querem investir 628.450.000 euros (referência ao PIB de 2023) do OE 2025 no prolongar sangrento de uma guerra absurda.

A Moção passou com 425 votos a favor, 131 contra, e 63 abstenções. Os eurodeputados portugueses que querem mísseis a destruir Moscovo, nem que para isso seja preciso empobrecer ainda mais os portugueses, são todos os da AD, PS (exceção da abstenção de Bruno Gonçalves) e IL. O Chega absteve-se.

Os dois sensatos e residuais votos contra, respetivamente, do PCP e do BE, comprovam que Descartes errou (ou seria ironia fina?) quando escreveu que: “O bom senso é a coisa mais bem distribuída no mundo.”

O último suspiro?

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 26/09/2024)

O apoio dos EUA tem limites. Os pacotes da ajuda têm vindo a reduzir e as sondagens na Ucrânia mostram uma sociedade cada vez mais cansada da guerra, e o aumento dos que estão dispostos a considerar a paz sem uma vitória total.


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mainstream mediático tem passado a ideia, ao longo dos últimos dois anos e meio da guerra na Ucrânia, de que a Rússia é chefiada por um indigente louco, é fraca e incapaz no campo de batalha. Sem capacidade industrial sofrerá facilmente uma derrota estratégica. Essa apresentação simplista, deliberadamente falsa e enganadora das capacidades da maior potência nuclear do globo é perigosa. Criou nos analistas do ar condicionado perceções enviesadas da realidade. Não obstante a falsidade óbvia, a tese foi profusamente difundida e convenientemente subscrita.

Mas nada do propalado se concretizou. A economia russa não só não descambou como se reforçou ultrapassando a alemã (com base no PPP), e Putin reforçou a sua posição. Ao invés, a Ucrânia está feita num farrapo. A lista dos problemas que atormentam Kiev é longa. A ajuda militar insistentemente implorada não chega na quantidade nem com a qualidade desejada; Kiev não consegue mobilizar e treinar capazmente novos recrutas, nem produzir energia suficiente para o inverno que se aproxima; Zelensky tem uma taxa de aprovação abaixo dos 20%, etc. Quem questionou a infantil subvalorização do potencial estratégico russo foi malevolamente apresentado como um membro da longa manus desinformativa de Moscovo.

O caso ucraniano traz-nos à colação a incapacidade de se aprender com os repetidos erros de cálculo estratégico de Washington. Esquecemos as armas de destruição massiva de Saddam Hussein, para não falar do Vietnam, Afeganistão e Líbia, entre outros, para os quais fomos de uma ou de outra forma arrastados, sem sermos ouvidos e sem participarmos na decisão. O fim da intervenção internacional no Afeganistão é o exemplo mais recente do que se acaba de afirmar. Tal, justificará, porventura, avaliações mais sensatas antes de se comprar o bilhete e se embarcar no comboio.

Tardiamente, começa-se agora a perceber aquilo para que poucos têm vindo a alertar. O recente relatório elaborado por Mario Draghi enumera os desafios com que a Europa se confronta sem, no entanto, explicar as suas causas diretas e imediatas. Recentemente, o “Washington Post” (WP) alertava para o erro de se subestimar Moscovo, ao afirmar que “os EUA e a UE já não acreditam que a Rússia vá perder no campo de batalha, ou que a sua economia vai ser destruída pelas sanções.” “A Rússia continua a ser um poder formidável. O Ocidente não deve presumir que é uma força militar esgotada. E, é por isso, que os parceiros da Ucrânia estão agora mais inclinados para negociar e estão a dar à Ucrânia várias pistas nesse sentido.”

Um outro artigo de opinião publicado também pelo WP, afirmava que a Ucrânia está a sangrar e não consegue lutar indefinidamente. Apoiar a Ucrânia “as long as it takes” não corresponde à realidade deste conflito. O chanceler alemão Olaf Sholz veio juntar-se aos que defendem “a necessidade de “explorar possibilidades” que “abram uma saída pacífica” para guerra da Rússia contra a Ucrânia”, falando abertamente em ser tempo para se pensar seriamente em conversações.

Alguns dos patrocinadores de Kiev começaram a questionar o realismo dos objetivos estratégicos da aventura ucraniana e a perceber que Kiev não tem capacidade para expulsar as forças russas do seu território, mesmo com ajuda internacional.

Numa entrevista ao The New York Times, o antigo chairman do Comité Militar da NATO e presidente da Chéquia Petr Pavel, apoiante indefetível da Ucrânia, apelava ao realismo de Kiev e à necessidade de reconhecer que terá de fazer cedências territoriais, indo ao ponto de considerar idealista o sonho da Crimeia retornar ao controlo ucraniano.

O desespero de Kiev aumenta quando percebe que não vai recuperar os territórios perdidos, e que a ajuda internacional vai reduzir-se, qualquer que seja o presidente que ganhe as eleições nos EUA. Como se vê o apoio dos EUA tem limites. Não pode continuar indefinidamente a alimentar o buraco negro ucraniano, sem ter boas notícias. Os pacotes da ajuda têm vindo a reduzir. Aumenta a preocupação com a diminuição das reservas norte-americanas e o que isso pode vir a representar para a sua segurança nacional. As sondagens na Ucrânia mostram uma sociedade cada vez mais cansada da guerra, e o aumento dos que estão dispostos a considerar a paz sem uma vitória total.

Zelensky e os seus próximos sabem que não conseguirão vencer o confronto com Moscovo. Com o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés, ensaiam uma fuga para a frente, que passa por escalar a guerra tentando, entre outras ações, desencadear um conflito entre a NATO e a Rússia. A crença e a acrisolada fé de que as deep strikes e a utilização sem restrições de armas ocidentais de longo alcance vão alterar o curso da guerra está novamente na ordem do dia.

Nesta ilusão são acompanhados, por exemplo, pela “esclarecida” primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen: “acabemos com a discussão sobre as linhas vermelhas. Não, não, as linhas vermelhas são um dos melhores filmes de comédia” Amedrontado, Putin continuará a fazer bluff e não vai reagir. Fazendo escárnio da paciência estratégica do Kremlin, alguns conselheiros de Kiev empurram-na para o precipício.

Aproveitando a ida à Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, Zelensky vai apresentar o seu “Plano para a Vitória”, ao atual ocupante da Casa Branca e à candidata Kamala Harris para os convencer da bondade das suas ideias. Donald Trump declinou o encontro com o Presidente ucraniano. Embora se desconheçam os detalhes do plano, as ideias principais são públicas.

O “Plano para a Vitória” considera a adesão acelerada de Kiev à NATO e beneficiar, entretanto, de um estatuto análogo ao proporcionado pelo artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte; ter garantias de segurança por parte dos países ocidentais, semelhantes às de um pacto de defesa mútua aquando da adesão à NATO; assistência financeira para a recuperação económica do país. O plano incluirá ainda a utilização do equipamento ocidental com menos restrições, e a possibilidade de forças da NATO serem colocadas em território ucraniano libertando os contingentes de Kiev para combaterem no leste do país.

Com a informação de que se dispõe quando este texto foi redigido, o “Plano para a Vitória” de Zelensky não passa de um ato de desespero, de alguém desfasado da realidade. É completamente inverosímil admitir que Paris e Berlim aceitem neste momento a adesão da Ucrânia à NATO, ou as garantias de segurança exigidas. O Plano não passa de uma lista de desejos, sem surpresas e sem propostas que alterem o curso da guerra a seu favor.

A recente entrevista de Zelensky ao “The New Yorker” foi confrangedora pela falta de clarividência e pelo assustador desencontro com a realidade. Alguém terá de lhe explicar que quem está na mó de baixo não dita ao adversário os termos da paz. O seu plano de vitória esbarra com a realidade do campo de batalha onde as forças ucranianas perdem terreno todos os dias. Quando questionado sobre o objetivo do seu plano, Zelensky respondeu “que não sendo apenas isso, seria enfraquecer consideravelmente a Rússia, o que ameaçaria a própria posição de Putin”.

Ao mesmo tempo que diz que se o seu programa não for aprovado por Washington irá para negociações, coloca a possibilidade de continuar a negar a possibilidade de perdas territoriais, e tornar a situação numa espécie de guerra eterna, defendendo uma solução diplomática, mas sem negociações.

As suas contradições são cada vez mais notórias e estendem-se a alguns comentadores. O “The Times” dava conta disso quando entrevistou alguns observadores atentos sobre o “plano de vitória” de Zelensky. Se, por um lado, estão convencidos de que a Ucrânia não será capaz de recuperar os seus territórios a curto ou médio prazo – as negociações para Kiev serão “muito, muito, muito difíceis e dolorosas” – por outro, afirmam que congelar a guerra na linha da frente e negar à Ucrânia a adesão à NATO, “seria um resultado catastrófico” e “definitivamente não pode ser a base para negociações”. Como Zelensky, não sabem o que querem.

Um artigo no “Politico” interrogava se estamos a fazer as perguntas suficientemente difíceis sobre a Ucrânia. Como dizia o autor, “quando a poeira assentar, será que a cobertura mediática do Ocidente terá uma nota de aprovação, ou será que, por vezes, permitimos que a nossa simpatia pela causa ucraniana ignore assuntos que não devíamos?” Quanto tempo mais demorará a perceber a dura realidade de se ter entrado no comboio errado?