Tanto mar… mas a maré inverteu-se

(Por José Goulão, in AbrilAbril, 04/05/2023)

Num mundo a preto e branco, partilhado entre um paradisíaco “jardim” ameaçado e uma tenebrosa “selva” sem escrúpulos, quem não está connosco está contra nós. E Lula, não haja dúvidas, está contra nós.

Uma primeira nota antes de entrar na matéria substantiva.

A primeira visita de Estado do presidente brasileiro Luiz Inácio da Silva (Lula) foi aos Estados Unidos para se encontrar com o decrépito homólogo Joseph Biden, sinalizando assim uma política de continuidade em relação à tradição de Brasília. Ou, pelo menos, a intenção de não agitar imediatamente as águas no relacionamento com o sempre ameaçador vizinho do Norte.

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O estranho desaparecimento da OSCE

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 03/12/2022)

O que aconteceu à OSCE? Finou-se em segredo! Raptaram-na? O desaparecimento da OSCE tem um significado: a tentativa dos EUA de impedir o multilateralismo nas relações internacionais.

A guerra na Ucrânia, é um dos resultados do desaparecimento da OSCE e da reposição da ordem bipolar — bons e maus; nós e os outros — da guerra fria. O desaparecimento sem dor nem deixar rasto da OSCE é a vitória da política de confronto, de alinhamentos, da ideia de quem não é por mim é conta mim, da visão do mundo a preto e branco. Os atuais dirigentes europeus enfiaram a Europa nesse beco sem nada terem perguntado aos europeus. Antes pelo contrário, ludibriando-os, iludindo-os, metendo questões inconvenientes debaixo do tapete. Onde está OSCE?

A OSCE — a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa — desapareceu. Segundo as notícias antigas, incluindo do governo português no seu site, a dita criatura havia nascido na sequência de um processo político, iniciado em 1973, intitulado “Conferência para a Segurança e Cooperação na Europa” (CSCE), que visava melhorar o clima entre o bloco soviético e o bloco NATO, e reforçado em 1990, com a “Carta de Paris para uma nova Europa”, adotada na sequência do fim da União Soviética.

A OSCE tornou-se numa organização com sede e instituições permanentes a 1 de janeiro de 1995. A OSCE, segundo os arquivos, era um fórum político e de segurança que procurava, “de forma cooperativa e através do consenso, promover a paz, a democracia e os direitos humanos.” A organização, segundo os seus pais fundadores, destacar-se-ia pela sua abordagem abrangente, recorrendo a instrumentos como a diplomacia preventiva, a gestão de crises, medidas de criação de confiança e reabilitação pós-conflito. Segundo as últimas notícias trabalhavam nesta organização de que se desconhece o paradeiro cerca de 2500 funcionários, entre eles um Secretário-geral. Todos desaparecidos!

Lembrei-me da OSCE a propósito do papel dela na Conferência de Helsínquia onde, entre vários assuntos relativos ao conflito Leste-Oeste e à Guerra Fria, ao controlo de armamentos e à divisão do mundo em zonas de influência foi decidido o futuro regime de Portugal que seria implantado a 25 de Novembro de 1975.

A atual guerra na Ucrânia seria uma oportunidade para a intervenção da OSCE — afinal trata-se de um conflito na Europa. Mas nada. Já no ataque da NATO à Sérvia e ao desmantelamento da Jugoslávia a OSCE não fora vista.

A “Ata Final de Helsínquia”, assinada em 1975, foi considerada a maior conquista da diplomacia da época, prenúncio de uma nova era nas relações Leste-Oeste. No entanto, desde então, os problemas aumentaram na Europa com o final do período soviético e a OSCE foi sendo substituída pelos Estados Unidos na condução do processo da Guerra Fria.

Em1990 ainda decorreu uma cimeira da estrutura, que passou designar-se “Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa” (CSCE), que incluía os países da NATO e os do Pacto de Varsóvia. A cimeira adotou em Paris a “Carta para uma Nova Europa” (Carta de Paris) que deveria marcar o fim da “era de confronto e divisão do continente’, e proclamou a eliminação de obstáculos à construção de uma verdadeira “casa europeia comum” sem linhas divisórias.

O facto é que o “Ocidente” não tomaria nenhuma atitude para transformar esses compromissos em ações concretas. A opinião pública ocidental fora iludida na crença “do fim da História” com a vitória da democracia liberal, mas os líderes sabiam a verdade: a História é um continuo de ações de força. Ainda em Paris e em 1990, o então Secretário de Estado dos EUA, John Baker, advertiu o presidente dos EUA de que “é precisamente a Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa que pode representar uma ameaça real para a NATO” (e a NATO era a máscara dos EUA).

De facto, no final da Guerra Fria, muitos políticos e cientistas políticos sensatos e previdentes consideravam ser melhor abandonar agora não só o Pacto de Varsóvia, que já havia desaparecido naquela época, mas também a Aliança do Atlântico, e fazer todo o possível para garantir que a OSCE se tornasse uma verdadeira ponte entre o Oriente e o Ocidente, uma plataforma para a alcançar objetivos comuns baseados no equilíbrio dos interesses de cada um dos participantes.

O problema é que esse objetivo da OSCE ia contra os interesses de domínio dos EUA sobre o Ocidente, o que explica o rumo seguido que foi o do alargamento da NATO, retirando a importância do significado principal da OSCE como instrumento coletivo para garantir uma segurança igual e indivisível entre as duas antigas europas.

Era importante para os Estados Unidos provar quem era o dono da casa europeia comum, que todos se comprometeram coletivamente a construir. O papel do Reino Unido foi o de dificultar a afirmação europeia e de agir como o perturbador ao serviço dos EUA: foi assim nas questões do alargamento da União Europeia sem cuidar dos princípios (o que conduziu aos atuais conflitos com a Polónia, a Hungria e os estados bálticos), do alargamento da NATO, da agressão contra a Jugoslávia (violando os princípios da OSCE estabelecidos em Helsínquia) até que, cumprido o seu papel de cavalo de Troia, o Reino Unido sai pela porta pequena do Brexit.

É interessante verificar o resultado dos compromissos obtidos pela OSCE: Em 1999 foi a adotada, em Istambul, a Carta de Segurança Europeia e o Tratado sobre Forças Armadas Convencionais (CFE), que fora renegociado depois do desaparecimento do Pacto de Varsóvia. Após negociações difíceis, o Tratado CFE foi assinado em 1999 em Istambul. Em seguida, foi aprovada a Carta para a Segurança Europeia, reconhecida como “a pedra angular da segurança europeia”. Os Estados Unidos proibiram os seus aliados de ratificar o Tratado CFE e retiraram-se do Tratado de Limitação de Sistemas de Mísseis Antibalísticos, Eliminação de Mísseis de Alcance Intermediário e de Curto Alcance, e também recusaram o “Tratado de Céus Abertos”. A OSCE assistiu a tudo como se nada lhe dissesse respeito. Os europeus obedeceram.

A OSCE foi o fórum onde se estabeleceram e acordaram os princípios de que a segurança dos Estados deve ser igual e indivisível, de que cada Estado tinha o direito de escolher alianças, mas ao mesmo tempo não tinha o direito de garantir a sua própria segurança em detrimento da segurança dos outros. Uma declaração importante foi a de que nenhum país ou grupo de países tem o direito de reivindicar um papel exclusivo no campo da segurança na área euro-atlântica. Mas a OSCE desapareceu enquanto os Estados Unidos conduziam a expansão da sua zona de ação para Leste com a adesão à NATO de novos Estados, de 16 para 30 e o avanço das suas fronteiras de cerca de mil quilómetros para Leste, com a integração da Polónia, da Hungria, da Roménia e dos países Bálticos, aos quais se acrescentariam mais mil quilómetros com a integração da Ucrânia, que os Estados Unidos estavam a promover com clareza e determinação desde 2014, dos acontecimentos da praça Maidan e que levaram ao poder Zelensiki como seu homem e dos oligarcas aliados de Washington. Para a história ficaria a frase “Fuck the Europeen Union” proferida em Fevereiro de 2014 por Vitoria Nuland, ao tempo diplomata do departamento de Estado e atual subsecretária de Estado, numa conversa telefónica com o embaixador americano em Kiev sobre o futuro do país.

Utilizando uma blague que infelizmente não será tão desajustada à realidade como devia ser, os cidadãos das democracias liberais distinguem-se dos cidadãos das democracias iliberais por terem os mesmos direitos dos monarcas britânicos: serem informados. Utilizando esse direito, os cidadãos europeus têm o direito de perguntar aos políticos europeus o que fizeram da OSCE. É que, além de terem enclausurado em parte incerta a OSCE, os políticos europeus têm aberto outros clubes e tertúlias de acesso privado, deque se sabe pouco mais do que o nome na porta.

O que é a “Comunidade Política Europeia” que teve uma reunião inaugural em Praga? O que é a “Cimeira da Democracia” convocada pelos Estados Unidos? Se a Europa dispõe de uma estrutura inclusiva, a OSCE, e no formato global existe a ONU, para que multiplicar organizações, capelas e capelinhas, a não ser para dividir e para inviabilizar soluções consensuais, multilaterais, democráticas e não sujeitas a uma lógica de bipolarismo, que apenas interessa aos EUA?

Ao menos anunciem o funeral da OSCE e o local da sepultura. Aqui Jaz mais uma utopia de uma Europa! Quanto à Europa Ocidental, esta resume-se hoje a ser uma parcela da NATO, a um “espaço” e um “teatro de operações”, a “uma acompanhante de luxo” dos EUA, uma empresa que durante a sua existência dificilmente se consegue registrar pelo menos uma “história de sucesso” real para si mesma, da agressão contra a Sérvia e a Líbia à invasão do Iraque, dos vinte anos de ocupação do Afeganistão aos continuados problemas no Kosovo.

A opção da Europa pela NATO, uma aliança militar, com uma inegável sujeição ao domínio político, económico e estratégico de uma potência hegemónica, os EUA, em detrimento do reforço da pertença à OSCE, a uma organização multilateral inclusiva, para segurança e cooperação, os atuais líderes europeus optaram pela sujeição, pelo bipolarismo americano contra o resto do mundo, em que são figurantes, em vez do multilateralismo em que podiam ser atores.

Os cidadãos europeus ficaram, democraticamente, arredados da decisão e nem sequer tiveram direito a informação, mas sim a bombardeamento informativo e manipulação em doses cavalares. Somos, os europeus, os bagageiros dos que mandam!


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Covid-19 e o desvario do poder

(Vicente Jorge Silva, in Público, 31/05/2020)

Já escrevi neste espaço que a pandemia da covid-19, apesar dos seus efeitos apocalípticos (ou até por causa deles), pode funcionar como um ponto de partida para a necessidade imperiosa de mudar a lógica predadora do mundo em que vivemos e, sendo assim, lançar as bases de outro mundo mais equilibrado, menos consumista, mais respeitador do ambiente e da natureza.

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Mas este propósito construtivo, embora se mantenha vivo no seu apelo à sobrevivência da(s) espécie(s), parece crescentemente ameaçado por várias formas de exercício desvairado do poder, cuja expressão limite é cada vez mais representada pelo Presidente americano Donald Trump.

Em poucos dias, Trump envolveu-se numa guerrilha com as redes sociais – ameaçando controlá-las ou até fechá-las – depois de a direcção do Twitter ter deliberado submeter a “fact-checking” algumas das suas mensagens, incluindo os “tweets” chamando “cães raivosos” aos manifestantes que protestavam contra o assassinato a sangue frio – e registado por telemóvel – de George Floyd, um militante negro, por um polícia. Note-se que, anteriormente, Trump se limitara a lamentar a morte do manifestante negro, sem adjectivar de forma idêntica o responsável pela sua morte. Além disso, nos seus últimos “tweets”, o chefe da Casa Branca multiplicara os ajustes de contas e as teorias de conspiração envolvendo personagens que se tinham tornado detestáveis aos seus olhos, incluindo um antigo representante republicano que Trump insiste em considerar culpado da morte de uma assistente há cerca de 20 anos, apesar de todas as evidências e conclusões da investigação e dos protestos do próprio viúvo da vítima.

Como se tudo isto não fosse suficiente como revelação do carácter e da saúde mental do Presidente norte-americano, Trump decidiu cortar os últimos laços da relação dos EUA com a China – e abandonando de passagem as ligações com Hong Kong, no preciso momento em que a região rebelde mais precisava delas –, agravando o clima de Guerra Fria que favorece os propósitos autocráticos do “imperador” Xi Jinping e os delírios do poder cultivados por ele próprio. Isto sem falar do corte de relações definitivas com a Organização Mundial da Saúde, independentemente das razões que possam assistir aos EUA na denúncia das dependências pró-chinesas da OMS.

Se o “America first” trumpista já pressupunha uma viragem do avesso do legado multilateralista americano, talvez nunca se tivesse imaginado que essa viragem fosse tão radical e ameaçadora para os equilíbrios mundiais edificados ao longo das últimas décadas. A covid-19 não só pôs a nu como exacerbou a revelação da natureza inquietante do trumpismo, mas essa natureza ainda não suscitou a perplexidade e a rejeição previsíveis numa democracia aparentemente consolidada (mau grado todas as suas imperfeições) como é a americana. Ora, num mundo onde as autocracias tendem a expandir-se, a ruína da democracia americana é um dos maiores perigos que espreitam o mundo nestes tempos de covid-19 (cuja gestão pela administração Trump é, de resto, das mais caóticas e catastróficas que se poderiam imaginar).

Tendo tudo isto em conta, pouco mais resta do que a Europa para inspirar um sopro de verdadeira mudança num mundo progressivamente bloqueado. Daí o desafio sem precedentes que os europeus enfrentam hoje: ou assumem solidariamente os objectivos definidos por Macron, Merkel e Von der Leyen sobre a resposta às consequências da covid-19 ou voltam a ser derrotados – uma derrota irrecuperável e de repercussões trágicas – pelas tradicionais divisões e egoísmos suicidários. Infelizmente, há motivos para temer que essas divisões e egoísmos acabem por sepultar a esperança de que a Europa é, hoje, um farol quase único no mundo. A obrigatoriedade de um voto unânime de todos os países numa matéria tão sensível e decisiva é manifestamente anti-democrática, já que a democracia é o governo da maioria – simples ou qualificada – e não de uma artificial e até impossível totalidade. 

Jornalista