Bela adormecida

(Joana Amaral Dias, in Sapo, 12/03/2025)


Tu já aceitas que muitos estabelecimentos recusem pagamentos em dinheiro, não é? Então estás pronto para o euro digital e para rastrearem cada cêntimo que gastas. É já para outubro.


Quem dorme em democracia, acorda em ditadura. Tu já aceitas que muitos estabelecimentos recusem pagamentos em dinheiro, não é? Então estás pronto para a introdução final do euro digital! É já para outubro, segundo anunciou agora Lagarde.

Eis o fim das liberdades públicas tal como as conhecemos, a morte da privacidade e do anonimato. Cada pagamento que fizeres será rastreado e podes ter a tua conta bloqueada a qualquer momento. Todas as taxas e taxinhas serão cobradas na hora, automaticamente. Podem colocar um prazo de validade no teu dinheiro para te obrigarem a gastar e a consumir, obrigarem-te a comprar apenas aos vendedores autorizados, ou congelar o teu capital em nome de qualquer política monetária. O fim do numerário elimina também única forma de pagamento gratuita, deixando todo o espaço para a gestão discricionária de preços nas transações eletrónicas. Além de excluir milhares de pessoas.

Uma moeda central ligada à identificação digital aniquilará direitos, liberdades e garantias e levará a castigos/multas automáticas se incumprires alguma norma (por mais abusiva ou arbitrária que seja) e independentemente do desvalor da conduta. Tipo sistema de créditos chinês.

Enfim, o teu dinheiro dependerá 100% do Banco Central Europeu e da sua líder, já condenada em tribunal. Lembra-te que a justiça considerou provado que Lagarde, enquanto ministra das Finanças francesa, foi responsável por um pagamento milionário ao empresário Bernard Tapie. No entanto, os juízes abstiveram-se de aplicar uma pena, considerando a sua “personalidade” e a sua “reputação internacional”.

Essa mesma Lagarde foi apanhada há dois anos a lamentar que o BCE com o euro digital tenha controlo limitado. Um sátiro fez-se passar por Zelensky e manteve uma chamada telefónica na qual esta Dona Branca garantiu que apenas controlar quantias como 300 ou 400 euros “seria muito perigoso”, isto é, o ideal seria rastrear ao cêntimo.

Tens dúvidas de que estamos perante o fim da democracia?

Esta autêntica revolução está a ser conduzida sem qualquer debate público, sem qualquer discussão na comunicação social, por elites não eleitas. Porque será?! Vamos oferecer a nossa liberdade a este controlo distópico sem dar qualquer luta, sem um simples consentimento informado?!

Reparem que a Florida, o Indiana e o Texas aprovaram a proibição do uso de qualquer moeda digital de banco central (CBDC) como moeda com curso legal. Pretende-se evitar que estas CBDC estabeleçam uma ligação direta entre os consumidores e o Sistema de Reserva Federal (banco central), ou seja, pretende-se rejeitar uma monitorização inaudita das transações privadas e da posse de dinheiro. Outros países estão a consagrar nas suas Constituições o direito à utilização de notas e moedas, como acontece com a Eslováquia e a Áustria.

Em Portugal, é obrigatória a aceitação de dinheiro físico, não existindo, contudo, sanções legais para quem viole esta obrigação. Quando é que algum partido propõe sanções e contra-ordenações às empresas que se recusem a aceitar notas e moedas, salvaguardando um direito fundamental? Em novembro? Acorda, minha linda e bela adormecida.

Ativista Política 

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Roménia, Georgescu e a intolerância ao dissenso no Ocidente

(João-MC Gomes, In VK, 10-03-2025)


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A ascensão de Georgescu à cena política romena representa mais do que uma simples candidatura presidencial; ela expõe as contradições do discurso ocidental sobre democracia e liberdade política. Um outsider no espectro político convencional, ele mobilizou uma parcela significativa da população romena com propostas nacionalistas e de autossuficiência, desafiando o alinhamento incondicional do país com a NATO e a União Europeia. O seu sucesso, no entanto, foi rapidamente confrontado com investigações, acusações e, por fim, sua exclusão do processo eleitoral, o que irá levar a uma ação popular intensa e grave na Roménia, caso não se reponham os direitos eleitorais deste candidato.

A democracia liberal, que se apresenta como um modelo político de inclusão e pluralismo, parece ter limites bem definidos quando confrontada com figuras que não seguem o alinhamento esperado. O Ocidente, que constantemente prega a autodeterminação e a soberania dos povos, é o mesmo que não hesita em marginalizar candidatos ou governos que questionam a sua agenda geopolítica. Georgescu, ao propor um caminho de soberania económica e política, sem envolvimento em conflitos regionais, tornou-se rapidamente um alvo.

A sua ligação com figuras como Alexander Dugin e as suas críticas à relação da Roménia com a NATO foram exploradas para associá-lo a uma suposta influência russa, transformando o seu discurso nacionalista num pretexto para a sua exclusão. Esse padrão repete-se constantemente: qualquer político que questione a ortodoxia ocidental em relação à Rússia, à China ou a outros centros de poder alternativos é imediatamente rotulado como uma ameaça. A democracia, neste caso, não se mede pelo apoio popular, mas pela conformidade com a agenda estabelecida pelas elites transatlânticas.

Se Georgescu era, de facto, um populista sem bases sólidas para governar, caberia ao povo romeno decidir isso nas urnas, e não a um processo nebuloso de desqualificação política. A sua exclusão levanta uma questão central: até que ponto as nações da Europa Oriental, supostamente soberanas, podem realmente escolher seus próprios caminhos sem interferência externa? O caso de Georgescu não é único, mas sim parte de um padrão maior de neutralização de lideranças que desafiam a ordem unipolar ocidental.

O discurso sobre democracia e liberdade perde credibilidade quando se torna evidente que ela só é permitida dentro dos limites da narrativa dominante. A Roménia, como outros países da região, enfrenta agora o dilema entre seguir um caminho imposto ou insistir na sua autonomia. A exclusão de Georgescu não foi apenas um episódio eleitoral; foi um sinal de que a margem de manobra para visões alternativas na política europeia está cada vez menor.

Arendt, Sócrates e a filosofia como caminho para a liberdade

(Carlos Russo Jr., in Diálogos do Sul, 13/01/2025)


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O Amor à sabedoria é a própria definição da filosofia. Sócrates tinha a vontade de conciliar as opiniões e isto não seria possível se cada um quisesse impor a sua como verdade aos demais; por isso ele colocava-se ao mesmo nível de todos.

Para Arendt deve-se distinguir a solidão do isolamento do “estar-se só”. Trata-se de afirmar o espaço da vontade diante do mecanismo do mundo. Este é o amor da vontade que emerge do amor à liberdade como condição. “A liberdade não pode ser desejada como um prêmio a ser alcançado somente no final de um processo histórico inevitável. ”

liberdade é como uma instituição permanente para um novo começo de vida, assim como o amor ao próximo é intrínseco ao se pronunciar sobre a política. Arendt diz que estar só é fundamental para que a atividade do pensamento se realize; “aquele que pensa encontra-se em sua própria companhia e vive a dualidade do diálogo do “eu consigo mesmo”, o diálogo socrático do dois em um”.

Estar só é um intervalo no estar junto da existência. A existência já é uma pluralidade, pois cada um de nós somos plurais.

De tal forma que o pensar não é algo posterior ao agir, nem na forma da crítica, e nem anterior a ela, pois são os momentos de um mesmo gesto. E a ação guiada pelo amor ao mundo encontra seu fim em si mesma, de tal forma que a crítica não lhe tira o encantamento. Diz Arendt que, para Kant: “é belo o que agrada ao mero ato de julgar”.

O ato de julgar realiza-se como expressão do pensar e do querer, do conhecer criticamente e do encantar-se.

Todo o mundo precisa se reconciliar com um mundo em que nasceu como um estranho e no qual permanecerá para sempre um estranho, em sua distinta singularidade. É muito difícil se reconciliar com o horror.

Sócrates

A busca de um modelo, que pudesse ser representativo de todo o mundo, de um homem que não se conte nem entre os muitos nem entre os poucos;  que não tenha ambicionado o governo e nem reivindicado aprender como melhorar a alma dos cidadãos; que tão pouco tenha acreditado que os homens pudessem ser sábios e que não tenha invejado a sabedoria dos deuses (se é que eles a possuem), e que, portanto jamais formulou uma doutrina  que pudesse ser ensinada e apreendida: para Arendt, esse homem é Sócrates.

Ela o coloca como a origem do pensamento crítico, modesto, não dogmático ou doutrinário, que coloca em questão o próprio pensar. “Sócrates apostava na phylia entre indivíduos diferentes, a qual instauria a parceria de iguais ao nível da comunidade”. “Ele desejava criar um espaço em que as diferentes maneiras de compreender o mundo aflorassem; quando dizia “sei que nada sei”, estava dizendo que sabia não possuir uma verdade comum para todos, e por isso estimulava cada cidadão a expressar a sua doxa(opinião).

Sócrates era contra aquela que acreditava ser a pior forma de governo, a do demos, pois a democracia foi assim cunhada pelos que se negavam a reconhecer a isocracia, de tal forma que a organização política não diferenciasse governados de governantes.

Os gregos socráticos apreenderam a compreender- não um ao outro como pessoas individuais- mas a olhar o mundo da perspectiva do outro, a ver o mesmo em aspectos muito diferentes e frequentemente opostos. “Para o cidadão grego a palavra polis guarda o segredo da política como aprendizado espontâneo do espaço público-político. ”

Logo, a política, no senso de Arendt,  nada tem a ver com a forma pervertida de ação comum por influência e pressão de pequenos grupos; depende, sim, da convivência humana, do acordo incerto  e apenas temporário de grande número de vontades e intenções, onde a palavra e o ato não se divorciam, onde as palavras não são vazias e os atos brutais, onde aquelas não são usadas para ocultar intenções mas para revelar realidades e os atos não para violar e destruir, mas para estabelecer relações e criar novas realidades.

As experiências da atualidade apontam para o divórcio entre liberdade e política, soando com um velho truísmo a afirmação de que a liberdade é a razão de ser da política.  As experiências de hoje revelam a falta de elos entre ética e política.

“Como, da noite para o dia, os indivíduos podem trocar um código de ética por outro? ” Interroga-se Arendt.

O ser livre, a tirania e Platão

O homem não nasceu livre, como acreditava Rousseau, mas nasceu para a liberdade.

Ser livre na Antiguidade era possuir a capacidade da novidade. Na polis, os chefes de família que haviam conquistado o domínio sobre suas necessidades, podiam realizar a travessia entre o obscuro espaço privado e o luminoso espaço público. Começar algo e ser livre é o mesmo.

Para Arendt, Platão buscou ordenar o mundo no sentido de eliminar a imprevisibilidade humana, separando o ato de começar do de realizar. O início seria do governante e a realização dos governados, inspirado na figura do tirano, um rei- filósofo. Tanto ele quanto Aristóteles admitiam a coerção como forma de governo e o despotismo dos dias de hoje bebem deles e não do autoritarismo romano.

Platão usa a autoridade para substituir a persuasão, que na polis era a base do convencimento político. Ele usa a sabedoria como base da coerção, uma cisão do saber- do governante- e do fazer- do governado. Foi Platão que ao introduzir este conceito para eliminar a desordem na polis, racionalizou o comando da maioria pela minoria, numa evidência de que o espaço público- político somente pode ser ordenado às custas da liberdade.

Ao contrário de Platão, Sócrates buscava através da atividade de pensar o significado e não a verdade.

Para o filósofo que ama o saber, as interrogações são mais importantes que as respostas. Para Arendt, o pensar representa um perigo se nasce do desejo de se encontrar resultados que tornem desnecessário qualquer pensamento, e crítica, posteriores.

Fonte aqui