A memória pafiosa

(Por Estátua de Sal, 21/02/2017)

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Tinha um amigo, já falecido, que costumava dizer quando pretendia justificar-se da sua índole de grande pecador, fazendo referência ao Evangelho segundo S. Mateus,  que: “Se a carne é fraca, a minha é fraquíssima”. Por similitude, a nossa memória também é fraca, mas a memória dos trombeteiros pafiosos da direita é mais que fraquíssima.

Vem isto a propósito do rasgar de vestes com que o PSD/CDS querem surgir como grandes arautos da defesa da democracia, que dizem estar ameaçada porque a maioria à esquerda votou contra serem pedidos os SMS trocados entre Mário Centeno e António Domingues, na comissão de inquérito à CGD. O Presidente da dita Comissão, Matos Correia demitiu-se em protesto. Montenegro vocifera. A direita diz que a Assembleia da República é um alfobre de ditadores de esquerda e invoca os direitos das minorias que diz estarem a ser atropelados. E argumenta que sempre foram grandes democratas. E que, quando estavam em maioria, sempre permitiram que a minoria ouvisse quem quisesse, pedisse os documentos que quisesse, debatesse o que quisesse.

É espantoso como a direita pafiosa tem tanta falta de memória. Feitas algumas simples pesquisas, a imagem que ilustra este texto é elucidativa dessa enorme mentira. A direita impediu por variadas vezes, quando era governo e tinha a maioria na Assembleia da República, que depoimentos fossem prestados e que ministros e eminências pafiosas fossem ouvidas e questionadas no parlamento. A direita invoca agora direitos que negou às oposições quando era poder. A falta de vergonha é lancinante.

Mas o mais grave é que, ainda assim, as situações são diferentes. O que se nega agora à direita é a possibilidade de exercer o direito de aceder a conteúdos do foro privado, direito que iria colidir com o direito à privacidade, constitucionalmente consagrado, e que só pode ser postergado em casos de criminal gravidade que a lei prevê, e nos moldes que a mesma lei prevê.

E por falar em democracia, acresce ainda outro facto, esse sim, de especial gravidade. Não vi nenhum jornal, nenhuma televisão, nenhum orgão de comunicação social, elencar os casos do passado em que a anterior maioria cerceou à época as pretensões investigatórias parlamentares da oposição, destruindo assim o seu discurso de vestais puras e campeões da democracia.

O que diz tudo sobre a comunicação social que temos. Vergada, vendida, subterraneamente capturada pela agenda pafiosa que vai empolando e amplificando,cumprindo desse modo o seu objetivo de desgastar continuamente um governo que ainda não desistiu de querer apear antes do fim da legislatura.

Perante tal cenário de enviesamento informativo e de opinião parcial no espaço público, as lamúrias da direita pafiosa são de um espantoso ridículo e mais parecem o choro irritado do bebé a quem recusam o brinquedo preferido. E o brinquedo preferido deles, no momento, não é um cavalo de pau nem uma pista de carrinhos. São os SMS do Domingues.

É a política? Não, a cultura

(António Guerreiro, in Público, 27/01/2017)

Autor

   António Guerreiro

Se eu quisesse prosseguir a análise dos media e da crítica do jornalismo — e acho que vou querer —, encontraria abundante matéria de reflexão num certo tumulto e rumor hostil provocados pelo facto de a direcção deste jornal ter dispensado os serviços de três colaboradores prestigiados. Pondo de lado a questão mais importante, a financeira (mas recusando aceitar que ela explica tudo), essa dispensa faz parte de um processo de reforma, renovação e racionalização que todos os jornais têm prosseguido desde há vinte anos. A receita não tem dado bons resultados, mas já alguém foi capaz de pensar de maneira diferente? Já alguém foi encorajado ou teve sequer a permissão para o fazer? E para não se dizer que sou um puro diletante, retiro as consequências do que acabei de afirmar: uma transformação interessante deste jornal seria aquela em que, a par de muitas outras coisas porque uma só não basta, esta coluna chegaria ao seu fim — porque bem medíocre seria se me quisesse reformar com ela — e eu poderia fazer outras coisas mais úteis para o jornal e em que me sinto menos em contradição com os ataques que aqui tenho feito à oligarquia editorialista (analistas, colunistas, comentadores), essa elite consensual que intoxica o espaço público com a sua doxa crítica composta de clichés e de ideias mortas.

Ao contrário do coro vindo do lado esquerdo do campo político, não acho que o problema da comunicação social seja o do monolitismo de direita da indústria da consciência e da informação. O problema é muito mais cultural do que político. Tanto à esquerda como à direita, a cultura é uma velha relíquia que foi lançada às urtigas. E a última coisa de que é capaz esta nova classe dominante, constituída pela tripla aliança — económica, política e mediática —, que passeia o seu filisteísmo e a sua vacuidade pelos jornais e pelos painéis televisivos, é o de criar a sua própria cultura. Ao contrário do que por vezes se pensa, esta gente não é da mesma estirpe daquela que, antes da Segunda Guerra, deu caução filosófica e cultural a uma “revolução conservadora”. Se descontarmos uns restos que nos vão entretendo, o pensamento, a literatura, a arte e a cultura em geral desertaram do espaço público. E a dimensão cultural do jornalismo foi completamente abandonada. Um filósofo francês fazia esta pergunta retórica, há algum tempo: “O pensamento é público, hoje, em França? Neste mundo do acesso generalizado, podemos ainda ter acesso ao que se pensa hoje em França e para além dela?”.

Grande parte do coro que se ergue hoje contra os media e o jornalismo herdou a cultura da esquerda dos anos 70, que reduziu o poder dos meios de comunicação de massa a um único conceito: o de manipulação. Trata-se da ideia de que os media dissimulam a sua motivação mais profunda, escondem os seus cálculos estratégicos e mascaram as suas verdadeiras intenções.

Que há muitas vezes truques e mentiras, sabemo-lo muito bem. Mas os que se presumem especialistas em desmistificação jornalística, com a missão de conduzir à verdade e à razão os leitores leigos e ignorantes, têm uma pretensão ridícula e uma consciência obsoleta dos media. Hoje, um jornal que julga que está a enganar os seus leitores está a enganar-se a si próprio de maneira patética.

Jornais que têm um projecto político e ideológico não querem nem conseguiriam dissimulá-lo. É por ter fetichizado o conceito de manipulação, persistindo nele como categoria interpretativa, que a esquerda é incapaz de lidar com a paisagem mediática e, demonizando o adversário pelo lado errado, só reforça o seu poder.

 

Uma comunicação social cada vez menos plural

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/01/2017)

Autor

                Pacheco Pereira

 

Tenho para mim que há uma maneira muito fácil de identificar nos dias de hoje o jornalismo do “não há alternativa”, o jornalismo do “ajustamento”, o jornalismo de direita e da direita, que, em bom rigor, não é jornalismo, mas sim propaganda e manipulação, e constitui um sistema de “pensamento único” que empobrece o espaço público e o torna frágil. Esse critério pode ser enunciado deste modo: trata os problemas da “geringonça” como sendo estruturais e os problemas da oposição, em particular do PSD, como sendo conjunturais. O problema do actual Governo não é Costa, mas a aliança política maldita em que se alicerça; o problema da oposição pode ser Passos Coelho e a sua rigidez, não aquilo que ele diz; o problema do actual Governo é que, faça o que fizer, desde que não execute uma qualquer variante da política do “ajustamento”, está condenado ao fracasso; o problema do PSD pode ser uma crise de protagonistas, mas está sempre do lado da “inevitabilidade”, dos juros ou dos mercados; o problema de Costa é que com as “reversões” violou a austeridade sacrossanta; o problema de Passos Coelho é que convocou o Diabo antes do tempo; um conduz uma política errada pela sua própria natureza; o outro é inábil e talvez precise de ser substituído por uma variante do mesmo. Um erra contra a natureza das coisas; outro erra na coreografia. Onde é que já se leu ou viu isto na comunicação social? Por todo o lado.

O contrário seria igualmente manipulatório e parcial, mas, mesmo que o fosse, precisava de existir para falarmos dele. Ora o contrário não tem hoje jornais, nem estações de rádio e televisão. E modelos como os blogues e páginas de Facebook anónimas como os Truques da Imprensa Portuguesa ou a “geringonça”, na tradição da Câmara Corporativa, são uma péssima resposta, muito habitual nos departamentos de “truques” do PS, porque miméticos face à dominação da direita nos órgãos de comunicação social. Eu não quero substituir uma imprensa de direita por outra do PS, ou pior ainda governamental, mas que haja, bem ou mal, uma comunicação social menos enfeudada ao poder do “pensamento único”, que não condicione pela agenda, pelo tratamento de títulos e notícias, pela duplicidade política do que entende “grave” ou venial e que, acima de tudo, actue num sentido único da vulgata que passa nos nossos dias por ser a “realidade”.

O problema do pluralismo na actual informação não está em substituir um pelo outro – está em cada vez mais os órgãos de informação alinharem pelo “pensamento único”, que nasceu no “jornalismo económico” nos anos da crise de 2008 em diante e se consolidou com força durante os anos da troika e de Passos Coelho.

Foi nessa altura que a direita portuguesa ganhou a batalha ideológica à esquerda e com uma little help from my friends, bastante grande aliás, está a consolidar e a expandir posições. Esses “amigos”, os conhecidos e os desconhecidos, envolvem interesses económicos, investimentos de dúbia origem, como acontece com os angolanos, lobbies políticos e ideológicos que se organizaram mais agressivamente para manter o legado da intervenção da troika, apontando como alvo da austeridade a classe média e os mais pobres, desequilibrando as leis do trabalho a favor do patronato, e pretendendo “limpar” o país das “oligarquias”, ou seja, dos sindicatos, dos intelectuais, dos jornalistas incómodos, de quaisquer pessoas que se lhes oponham. Aliás, a recente campanha miserável contra Silva Peneda, que ousou contestar a posição do PSD, é um exemplo de um estilo que nasceu nestes anos, de pessoalizar os ataques políticos, começando por referir sempre o nome das pessoas nos títulos dos artigos sem discutir as ideias ou as políticas.

Do mesmo modo que veria com muitas reservas se a “geringonça”, ou os Truques “passassem” com armas, bagagens e pessoas para a comunicação social generalista, que se apresenta ao público como não sendo engajada politicamente, mas apenas vinculada a uma ideia e a uma prática do jornalismo no interesse público, também veria com muita preocupação que o Observador, que é um projecto político, “passasse” para um jornal do mainstream como o Diário de Noticias ou o PÚBLICO ou para um canal de televisão como a SIC ou a TVI ou a CMTV. Até porque estes processos de “passagem” nunca são inócuos – implicam colocar na ordem a redacção original, sanear os recalcitrantes, normalmente com pretextos que não são mais do que pretextos, porque, para serem eficazes, não podem revelar a sua verdadeira natureza. E dobrar qualquer protesto ou resistência aproveitando-se da precariedade profissional dos jornalistas e do legítimo e muito realista receio de perderem o emprego. O que recentemente se passou no Sol e no i infelizmente não motivou grandes protestos, até porque há demasiado medo nas redacções, mas, na sua brutalidade e arrogância, é um bom exemplo da actual situação: ou concordam com o que vos exijo, ou vão-se embora. E o que vos exijo é o que os meus “patrões” querem que eu faça, num caminho crescente de escolha das direcções pelo critério da obediência ou pela afinidade ideológica, e não pela qualidade do trabalho jornalístico.

Como os jornalistas estão divididos, como estão na defensiva há muito tempo, como o turnover geracional se faz com a destruição da memória e do saber e como se perdeu qualquer tradição reivindicativa com a quebra da independência das redacções e dos jornalistas individualmente, como a promiscuidade com o poder político e económico é grande e se faz não apenas pela política, mas também pela mundividência cultural e pelas “ideias”, com a crise das mediações assolada pela arrogância da nova ignorância, com a falsa ideia de que as redes sociais são o “público”, e com a pauperização das classes médias, o jornalismo de referência, ou seja, o jornalismo, atravessa uma crise maior. E essa crise maior é, em toda a sua profundidade e extensão, uma crise da democracia.