Uma comunicação social cada vez menos plural

(José Pacheco Pereira, in Público, 21/01/2017)

Autor

                Pacheco Pereira

 

Tenho para mim que há uma maneira muito fácil de identificar nos dias de hoje o jornalismo do “não há alternativa”, o jornalismo do “ajustamento”, o jornalismo de direita e da direita, que, em bom rigor, não é jornalismo, mas sim propaganda e manipulação, e constitui um sistema de “pensamento único” que empobrece o espaço público e o torna frágil. Esse critério pode ser enunciado deste modo: trata os problemas da “geringonça” como sendo estruturais e os problemas da oposição, em particular do PSD, como sendo conjunturais. O problema do actual Governo não é Costa, mas a aliança política maldita em que se alicerça; o problema da oposição pode ser Passos Coelho e a sua rigidez, não aquilo que ele diz; o problema do actual Governo é que, faça o que fizer, desde que não execute uma qualquer variante da política do “ajustamento”, está condenado ao fracasso; o problema do PSD pode ser uma crise de protagonistas, mas está sempre do lado da “inevitabilidade”, dos juros ou dos mercados; o problema de Costa é que com as “reversões” violou a austeridade sacrossanta; o problema de Passos Coelho é que convocou o Diabo antes do tempo; um conduz uma política errada pela sua própria natureza; o outro é inábil e talvez precise de ser substituído por uma variante do mesmo. Um erra contra a natureza das coisas; outro erra na coreografia. Onde é que já se leu ou viu isto na comunicação social? Por todo o lado.

O contrário seria igualmente manipulatório e parcial, mas, mesmo que o fosse, precisava de existir para falarmos dele. Ora o contrário não tem hoje jornais, nem estações de rádio e televisão. E modelos como os blogues e páginas de Facebook anónimas como os Truques da Imprensa Portuguesa ou a “geringonça”, na tradição da Câmara Corporativa, são uma péssima resposta, muito habitual nos departamentos de “truques” do PS, porque miméticos face à dominação da direita nos órgãos de comunicação social. Eu não quero substituir uma imprensa de direita por outra do PS, ou pior ainda governamental, mas que haja, bem ou mal, uma comunicação social menos enfeudada ao poder do “pensamento único”, que não condicione pela agenda, pelo tratamento de títulos e notícias, pela duplicidade política do que entende “grave” ou venial e que, acima de tudo, actue num sentido único da vulgata que passa nos nossos dias por ser a “realidade”.

O problema do pluralismo na actual informação não está em substituir um pelo outro – está em cada vez mais os órgãos de informação alinharem pelo “pensamento único”, que nasceu no “jornalismo económico” nos anos da crise de 2008 em diante e se consolidou com força durante os anos da troika e de Passos Coelho.

Foi nessa altura que a direita portuguesa ganhou a batalha ideológica à esquerda e com uma little help from my friends, bastante grande aliás, está a consolidar e a expandir posições. Esses “amigos”, os conhecidos e os desconhecidos, envolvem interesses económicos, investimentos de dúbia origem, como acontece com os angolanos, lobbies políticos e ideológicos que se organizaram mais agressivamente para manter o legado da intervenção da troika, apontando como alvo da austeridade a classe média e os mais pobres, desequilibrando as leis do trabalho a favor do patronato, e pretendendo “limpar” o país das “oligarquias”, ou seja, dos sindicatos, dos intelectuais, dos jornalistas incómodos, de quaisquer pessoas que se lhes oponham. Aliás, a recente campanha miserável contra Silva Peneda, que ousou contestar a posição do PSD, é um exemplo de um estilo que nasceu nestes anos, de pessoalizar os ataques políticos, começando por referir sempre o nome das pessoas nos títulos dos artigos sem discutir as ideias ou as políticas.

Do mesmo modo que veria com muitas reservas se a “geringonça”, ou os Truques “passassem” com armas, bagagens e pessoas para a comunicação social generalista, que se apresenta ao público como não sendo engajada politicamente, mas apenas vinculada a uma ideia e a uma prática do jornalismo no interesse público, também veria com muita preocupação que o Observador, que é um projecto político, “passasse” para um jornal do mainstream como o Diário de Noticias ou o PÚBLICO ou para um canal de televisão como a SIC ou a TVI ou a CMTV. Até porque estes processos de “passagem” nunca são inócuos – implicam colocar na ordem a redacção original, sanear os recalcitrantes, normalmente com pretextos que não são mais do que pretextos, porque, para serem eficazes, não podem revelar a sua verdadeira natureza. E dobrar qualquer protesto ou resistência aproveitando-se da precariedade profissional dos jornalistas e do legítimo e muito realista receio de perderem o emprego. O que recentemente se passou no Sol e no i infelizmente não motivou grandes protestos, até porque há demasiado medo nas redacções, mas, na sua brutalidade e arrogância, é um bom exemplo da actual situação: ou concordam com o que vos exijo, ou vão-se embora. E o que vos exijo é o que os meus “patrões” querem que eu faça, num caminho crescente de escolha das direcções pelo critério da obediência ou pela afinidade ideológica, e não pela qualidade do trabalho jornalístico.

Como os jornalistas estão divididos, como estão na defensiva há muito tempo, como o turnover geracional se faz com a destruição da memória e do saber e como se perdeu qualquer tradição reivindicativa com a quebra da independência das redacções e dos jornalistas individualmente, como a promiscuidade com o poder político e económico é grande e se faz não apenas pela política, mas também pela mundividência cultural e pelas “ideias”, com a crise das mediações assolada pela arrogância da nova ignorância, com a falsa ideia de que as redes sociais são o “público”, e com a pauperização das classes médias, o jornalismo de referência, ou seja, o jornalismo, atravessa uma crise maior. E essa crise maior é, em toda a sua profundidade e extensão, uma crise da democracia.

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5 pensamentos sobre “Uma comunicação social cada vez menos plural

  1. Estamos perante um controle, tendencioso e camuflado, da liberdade de expressão. O vigilante é o representante do capital ou do sector politico. O descrédito vai para os jornalistas e comentaristas e a perda de direitos para a população. No geral quem perde é a imagem da democracia e o estado de direito. A grande confusão da mistura do liberalismo com a democracia começa a mostrar o seu melhor. Confusão contínua.

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    • Mas, com a devida vénia, permita-me, Senhor Júlio, que lhe questione:
      Qual, ou quais as diferenças, entre o que o Senhor aqui designa por o “estado de direito” (burguês, o Estado, e positivo, o Direito, digo eu), por a “democracia” (parlamentar burguesa, digo eu) e por o “liberalismo” (da treta, digo eu)???…
      Eu explico-me, ainda com a sua permissão, se me a admite, naturalmente:
      1. quanto ao (meu) carácter burguês do Estado e da Democracia, bem como à (também minha) “da treta”, ouso supor que V. Exa. vislumbrará, facilmente, o mérito, pelo que me vou debruçar,
      2. sobre o (também meu) “Positivo”, quanto ao Direito, da expressão (desta vez, do Senhor Júlio) “estado de direito”:
      Efectivamente, como é do conhecimento geral, em Portugal prevalece o “Direito Positivo” burguês…
      [acrescento eu, porventura por ser do Ribatejo, onde, como se sabe, todos os bois têm nome e os ribatejanos sempre os chamam pelos nomes, para que não restem dúvidas, nem aos incautos, podendo, estes, designadamente, até aprender, ou ir aprendendo, mais alguma coisa (só que, aqui, nesta “coisa” de aprender mais alguma coisa, é que está o busílis), “coisa” esta que o autor do artigo que aqui no traz a comentar (o bem instalado na vida, ‘à pala’ da situação que, “democraticamente” se vive desde há mais de 40 anos, no Portugal dito democrático), muito bem sabe que assim é, ou seja, que o dito cujo “busílis” está no dar liberdade de acesso ao conhecimento, à educação, à cultura, à ética, à moral, à politização, às teorias do valor, etc., ao Zépovinho, coisa esta sobre a qual o PP nunca se lembrou de escrever (ainda não se lembrou, diria, eu, antes, para manter uma certa aura do quase já em desuso “politicamente correcto”].
      … neste (meu) conceito de “geral” não incluo a maior parte do pobre Zépovinho votante, porque, infelizmente, o luso Zé, não faz a mais pequena ideia do que são “estas coisas”!… mas vota e, é a partir das votações que saem (mais uma vez “democraticamente”) as soluções políticas que, uma vez postas em prática, e durante 40 anos de tantas e diversas governanças dos “do arco”, chegámos, nós, os lusitanos, que por aqui vegetamos neste jardim à beira mar plantado. Permita-me, Senhor Júlio, ainda aqui e agora, que enuncie, a título de justificativa, e para que não caiam no esquecimento, algumas das tão propaladas “vitórias” alcançadas no reinado dos últimos Visigodos da Península Ibérica, essa seita ou alcateia matilhada, que girou, sob a sigla de «passos & portas & gaspares & relvas & macedos & de albuquerques & cavacos & cia», entre 2011 e 2015:
      a) – Dívida pública: + 35% do PIB. Entre 31/05/2011 e 31/05/2015, passou de 164.384 milhões para 224.155 milhões de euros, ou seja, em 4 anos, a dívida aumentou em 59,9 MM de euros, o que dá o extraordinário valor 1,7 milhões de euros por hora.
      Paulo Portas diz que deixou a “casa arrumada” com o crescimento da dívida em 1,7 milhões por hora.
      Por cada português, Sócrates deixou uma dívida de 15.650 euros e a Coligação atingiu a 31 de Maio o valor de 21.350 euros.
      Para que serviram os aumentos de impostos, os cortes de salários e pensões? e a ausência de obras?
      b) – PIB: -7%
      c) – Desemprego: Oficial:12,4% em 2011 13,7% em 2015; Real: 15,6% e 24,8%; (Real + Subemprego): 19,4% e 29,0% correspondendo estes a cerca de 1,7 Milhões de pessoas.
      d) – Emigração forçada: + 400 mil /Segundo últimos dados oficiais, mais de 2,4 Milhões de portugueses emigrados só comparáveis com os anos de 1960/70;
      e) – Impostos: Brutal aumento (à boa maneira do gasparzito que se permitiu chamar, desbocadamente, ao nosso Povo, «o melhor povo do mundo, a quem quero agora pagar o que lhe devo por a minha formação»
      f) – Salários e Pensões: cortes cegos
      g) – Saúde e Educação: cortes cegos
      h) – Pobreza: + 4 Milhões de pobres, com 2 Milhões a viverem abaixo do limiar
      i) – Desigualdades: Aumento brutal
      j) – Fome: Atingiu + de ¼ das crianças e idosos
      l) – Património: Venda, ao desbarato e ao capital estrangeiro, do melhor que existia de Nacional
      m) – Novos milionários: + 40 mil.
      n) – Etc., etc.
      Mas voltando ao Direito Positivo, como também alguns sabemos, acontece que, governos, programas de governos e leis ordinárias, no regime que vigora em Portugal …
      [e que Vocês vão designando por “democracia”, “liberalismo”, “social democracia”, “socialismo humanista” (que deus haja já há umas décadas), “socialismo em liberdade” (que foi “sol de pouca dura” também, porque, rapidamente, entrou na gaveta – e alguém o lá meteu, porque sozinho ele não seria capaz de ir, até pela tenra idade que tinha, mas, infelizmente, esse alguém já cá não estará para responder, quando chegar a hora das prestação de contas sobre os crimes cometidos a partir da manif em 19/07/1975 e até hoje; é menos um, pois só os vivos poderão responder ao Povo, ao tal pobre Zépovinho – e, até hoje, os “francisquitos assis”, assíduos amantes do leitão à e na Bairrada, não têm deixado, sequer, abrir a gaveta, sendo que, para mal dos pecados do Zé, até o actual manobrador da geringonça ainda há pouco tempo se reclamava de querer pegar no “leme da governação” para melhor continuar o legado deixado pelo agora finado “pai da democracia portuguesa”]
      …. são do foro EXCLUSIVO da AR, tendo em conta o consignado na “Lei das leis” que, na teoria kelseniana, se chama CONSTITUIÇÃO,
      [Kelsen, Hans, (1881-1973), foi um burguezote de nacionalidade austro-húngara mais tarde naturalizado americano (yankee) que, tentando fazer esquecer (quase um pouco como a maior parte dessa gajada que anda por aí a evacuar as “coisas” que, o ex-FEC/ML e ainda militante do dito partido PP/SD do Pacheco Pereira, agora tanto parece criticar nas suas tiradas de prosa bem escrita, em português do antigo (antes do acordo, entenda-se), contra a maior parte dos jornaleiros da lusa praça a quem chamam de jornalistas (mas, jornalistas, para mim, são outra coisa) o milenar “Direito baseado/inspirado nos Costumes”, tentando impor a, por ele pomposamente designada, “Teoria Pura do Direito”, pretendendo, desse modo, desenvolver uma “teoria científica do direito”, tendo definido uma tal “ciência jurídica” como o “campo de estudo cujo objecto são as normas jurídicas positivas”. Ou, dito de outro modo, Kelsen defendeu, enquanto repito, burguezote, repito, e manipulador das palavras, que os estados «…deveriam, ou tinham necessidade de, renunciar ao milenar costume de defender ideais políticos, de carácter subjectivo, …», em nome da sua “ciência pura do direito”, por ele supostamente objectiva!?!?!?!… este admirável jurista e filósofo, que dedicou quase toda a sua vida ao estudo do Direito e da Justiça, também foi capaz de admitir como natural que, a Ciência «…não tem de decidir o que é justo, isto é, prescrever como devemos tratar os seres humanos, mas descrever aquilo que de facto é valorado como justo, sem se identificar a si própria com um destes juízos de valor…»
      E é por estas, e por outras, eu acho, ó Senhor Júlio, que ainda hoje os Povos, a esta “ciência jurídica” sujeitos pelas elites burguesas e capitalistas, continuam, por todos estes “encantadores” estados de direito, a sofrer, na carne, as consequências da chamada “lentidão da justiça” !…]
      … a qual, CONSTITUIÇÃO, no Direito Positivo burguês (à ribatejano) a que estamos sujeitos, constitui o vértice da pirâmide de todo o, pomposa e burguesmente, designado “corpus normativo”. No início, os teóricos do Direito (de que se destacou o referido Hans Kelsen), enquanto disciplina, tiveram que apresentar um argumento, a partir do qual se deveria elaborar (de preferência na forma escrita) a denominada Teoria do Direito. E, como a ICAR, por exemplo, começaram pelo conceito do que então designaram por «Norma Fundamental Hipotética», para assim justificarem a existência do “primeiro legislador”, ou seja o órgão “criador” do Direito …
      [para a ICAR, que é a que conheço, porque, sem me ouvirem ou, sequer, me perguntarem se queria, lá me inscreveram quando completei 1 ano de idade, gramei com o sal na boca, a água dita benta, fria, na cabeça pela mão do padre, e, mais tarde, a bofetada do Bispo que, miseravelmente, não teve pejo de me obrigar, e a mais centenas de crianças com 6 e 7 anos de idade, a permanecer em jejum até cerca das 11h30m, hora a que, bem montado num Mercedes Benze e com motorista que o transportou de Lisboa até aos arredores do Cartaxo, se dignou chegar Sua Reverência, tal e coisa]
      … fundamentando, «lógica e democraticamente» todo o sistema jurídico estadual, onde se incluem, obviamente, os chamados Estados de Direito. Estamos aqui perante uma norma jurídica – a CONSTITUIÇÃO – mas, naturalmente, em sentido “lógico-jurídico”. E, a partir de um postulado, ou dogma (tal como na religião) – a dita cuja «Norma Fundamental Hipotética» que, muito embora se desconheça os antecedentes, ou a sua origem, foi necessário inventar (por isso, para mim, essa coisa dos deuses, ou divindades, não passam de “seres necessários” que o Homem “teve necessidade” de inventar/criar, tal como os burgueses, em defesa, e para defesa, do, agora raramente pronunciado ou escrito, “glorioso” sistema capitalista, estes, descendo, a partir do vértice da “Pirâmide Legislativa”, percorrendo os degraus das Leis Ordinárias, dos Decretos-Lei, Portarias, e por aí abaixo (para gáudio dos ilustre advogados, mandatários dos pagantes que têm que recorrer à justiça para fazer, ou tentar, valer os seus direitos), assim como aqueles, os que acreditam nas divindades, descendo, lá do “Assento Etéreo” onde está o “criador” …
      [a ICAR diz que também lá se encontra o filho deste “dito cujo”, que deu pelo nome de Jesus, mais conhecido pelo Jesus de Nazaré – nome da cidade ou lugar onde nasceu –, que era filho de um casal, cujo marido era um ilustre carpinteiro, chamado José, …]
      … descendo, escrevia eu, foram justificando (enquanto lutaram contra a Ciência para calar a verdade) ou tentando justificar, entre outras baboseiras, que: A Terra é o centro do universo, é plana e o Sol nasce todos os dias, a Nascente, percorre o céu durante o dia, e vai-se esconder a Poente (até chegar o desgraçado do Galileu, muito embora tivesse sido acusado, julgado e condenado e, vergonha das vergonhas, só mais de 400 anos depois da sentença, é que o triste de um Papa (em tudo diferente do actual Francisco) decidiu absolver aquele que, porventura, fora, no seu tempo, o expoente máximo dos cientistas; os relâmpagos e as trovoadas (até chegar o Franklin); etc., etc.
      De todo o modo, em Portugal também vigora este “direito burguês”, pelo que existe uma “Lei das leis” que se designa por Constituição da República, pelo que, goste-se ou não, teremos que aceitar todas as suas normas, desde que emanem dela, óbvia, natural e lógica e democraticamente!…
      E aqui chegados, Senhor Júlio, eu terei que concluir que, por muito que “os escribas do reino” derramem lágrimas de crocodilo (como o faz o ilustre Historiador Pacheco Pereira, ex-deputado na AR, eleito pelo partido dito popular democrata barra social democrata, ex-deputado ao Parlamento Europeu, também pela mesma agremiação, membro efectivo, desde a 1ª semana da “Quadratura do Círculo”, um programa que, semanalmente, vem moldando vontades – adormecendo, ou tentando adormecer – o Zépovinho, e não só, de que é patrão, e lhe paga 5.000 euritos por mês, o seu companheiro, amigo, fundador do dito PPD/PSD, logo, seu correligionário, o dono da – tecnicamente falida já há uns anos – SIC, etc., etc.), ou chorem (quando sentem ou pressentem que o cu lhes está a arder), como as hienas, tudo o que fizeram, fazem e continuarão a fazer, aqueles e aquelas que vão sendo alvos das suas elogiosas quão ilustres e bem escritas prosas (como mais esta que nos trouxe a este comentário), encontra cobertura legal no referido «corpus legislativo», o qual, “corpus”, em última análise, vai permitindo que se mantenha este hediondo sistema capitalista que, “democraticamente”, ainda nos impõem, não obstante, e desde há mais de 400 anos, o mesmo: invadiu, ocupou, explorou, roubou, escravizou, desrespeitou, abusou, subjugou, deportou, flagelou, matou, dizimou, dividiu países contra a vontade dos Povos, fez duas guerras mundiais e tantas outras regionais, idolatrou (mais recentemente com a globalização) o deus dinheiro, tendo também esta sua última actuação se caracterizado por descartar os idosos, os que não têm alternativa a viver senão do trabalho, os jovens e até as crianças, ao ponto de conseguir que os tais 1% já detenham tanta riqueza quanta possuem os outros 99% da população do planeta.
      Mas, ó Senhor Júlio, quer o Senhor queira, ou não, sem a alteração/substituição deste hediondo sistema económico-social, não vislumbro como o Senhor vai poder deixar de considerar mais vezes aquilo que aqui designou por «Confusão contínua»
      Um abraço, e votos de um feliz 2017.

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  2. Ler este José Pacheco Pereira pode ser interessante, não apenas porque não tem sido, enquanto “escritor do luso reino”, ‘aquela máquina’ (como, por exemplo, qualquer bom relógio suíço sempre foi ou, antes, aqui entre nós, e em tempos ainda não muito distantes, o era a Regisconta), mas também por toda uma trajectória de vida pública (que outra lhe não conheço, nem, obviamente, tinha que conhecer, pois interessa-me tão só, e apenas, o intelectual. E essa trajectória, a meu ver, mais se poderia assemelhar a um pêndulo de relógio, dados o percurso político e posturas várias quanto diversas e quantas vezes contraditórias, que se lhe conhecem. Explico-me:
    Desde dos tempos idos da FEC/ML; passando pelo partido dito PP/SD que o levou à AR de onde recebe uma reformazita (que sempre dará para a satisfação das naturais necessidades estomacais, afinal, o AVATAR determinante da vida); tendo dado também um saltito até ao Parlamento Europeu (que acumula, obviamente, pois são direitos adquiridos “democraticamente” nunca é demais lembrar, ó messa…); passando pelo apego cavaquista e manuelino (de Manuela, claro); fazendo uma pernita com os “amigos” yankees aquando da invasão do Iraque (que apoiou porque, admito eu, viu claramente visto, ou teria cheirado, as ditas cujas que constituíram a justificativa dos yankees – e seus acólitos mais dilectos que, sob a égide do nosso “cherne”, se reuniram nas Lajes –, para a invasão); até à Aula Magna, em Lisboa, sem esquecer a Quadratura e mais um programita lá na SIC do “Ti Francisco”. E chega, ouso supor.
    Mas porque é do intelectual que, ora e aqui, me preocupo em curar, enquanto sinto que estou, politicamente nas suas antípodas [eu reclamo-me de anti, e até de forma incorrigível, de uma coisa chamada capitalismo, e o nosso Ilustre Historiador não só nada tem contra tal “coisa” que até já quase ninguém fala nem escreve, como defende a perenidade do dito cujo, tal como qualquer outra pessoa que, como ele, alicerce o seu espírito de fidelidade aos outros humanos em ideias e interesses materiais (pois não são só os jornalistas, o Zé PP), ao contrário de mim, que me continuo a sentir muitíssimo bem alicerçando, o meu, em sentimentos e deveres], interrogo-me sobre a utilidade (sempre preciosa e bem vinda) ou a inutilidade (quantas vezes até perigosa) deste outro nosso intelectual (aqui este “nosso” enquanto Luso, obviamente, porque me reclamo também um cidadão do mundo).
    É evidente que eu também aprendi um ensinamento de alguém (que da lei da morte se libertou pelos seus feitos em prol do bem e da paz dos humanos – e, ouso supor, este “nosso dito cujo” não atingirá tal desiderato, como tantos outros “escribas do luso reino”, enquanto “fazedores de opinião”), que reza assim: «Aprender, aprender, aprender, SEMPRE!»…
    Vai daí, eu acho que a gente sempre pode aprender alguma coisa, lendo também este “nosso” Ilustre Historiador.
    Mas, onde situar, neste contexto da intelectualidade lusa, o referido JPP?
    É que, de entre outras coisas, eu também já tive o ensejo de aprender coisas tão diversas, quanto ricas e elucidativas, como estas que, finalmente, entendi, e tive tempo, trazer à Estatuadesal:

    {A história portuguesa moderna e contemporânea é, decididamente, terreno fértil para o estudo da violência política (onde também cabe a “violência jornalística”, aqui articulada pelo nosso Ilustre Historiador Pacheco Pereira).
    Trezentos anos de Inquisição, duzentos de maçonismos de toda a gama, intolerância ou simples incompreensão pela liberdade de pensamento e sua expressão alheias – tendo de permeio três guerras civis (1831-34, 1847, 1919), duas mudanças de regime por via da confrontação armada (1834, 1910), três mudanças de sistema ocasionadas por revoltas militares (1917, 1926, 1974), um crisol de matanças civis (1915, 1921, 1927), censura prévia e silenciamento da opinião que se devia publicar, polícias políticas formais ou informais, de Pombal a Pina Manique, de Teles Jordão aos Cabrais, de João Franco à Formiga Branca, ao trauliteirismo, à PVDE-PIDE e ao COPCON – produziram intelectuais orgânicos que pouca preocupação evidenciam pelo conhecimento das ideias dos adversários, dado o insanável gosto em vencer, sem apelo nem agravo, absolutamente, o inimigo. Esta lógica de amigo-inimigo entronca na tradição continental de entendimento da vida política – e cultural – como uma guerra sem quartel onde só há vencedores e vencidos. (Que o diga a seita onde milita, e ainda preside, o vidente de Massamá, e não só…)
    A primeira impressão que colhemos ao percorrer a galeria das notabilidades da cultura portuguesa novecentista é a de um estranho convívio entre o radicalismo político de uns – expresso por uma surpreendente inclinação para a defesa de soluções políticas extremas – e o indiferentismo de outros. Dir-se-ia, usando uma velha tipologia, que os nossos homo politicus sempre tiveram a vertigem dos modelos e soluções de força; quiçá aquelas que melhor exprimem a política entendida como arte e não como equilíbrio, fruto do compromisso. A sedução dos intelectuais pelos tiranos é tão velha como Platão! Por seu turno, os nossos homo esteticus, inocentes ou desavisados do carácter imperialista que a vida pública exerce, desenvolveram as suas obras em voluntário como trágico espírito de aquário, utilizados – e abusados, quantas vezes – por regimes e governos necessitados da exibição pública de troféus intelectuais.
    [Estou a lembrar-me aqui e agora, que, por exemplo, o nosso Ilustre Historiador e aqui articulista comentado, também “viu” ou teria “cheirado” o odor das armas químicas e de destruição maciça existentes no Iraque, cuja existência, para o PP e quejandos, “justificou” a “democrática” invasão do Iraque. Curiosamente, ou não tanto assim, digo eu, nem o Bush, nem o Aznar, nem o Blair, nem o cherne Barroso foram julgados pelos crimes contra a humanidade ou, sequer, foram acusados nem estão ainda indiciados!?!?…]
    A esquerda e a direita portuguesas possuem uma indesmentível herança autoritária. A esquerda entende a política como instrumento de aceleração da história e forçada fabricação da cidadania, enquanto a direita, elitista e anti-igualitária, encara-a como um assunto extremamente sério para poder ser exercido por todos. A esquerda aceita sem rebuço o extremismo como solução partejadora de uma nova sociedade, enquanto a direita, antropologicamente pessimista e conservadora, entende constituir a autoridade o melhor veículo para a preservação de um status quo que nenhuma engenharia social deve romper. As angústias e acidentes da chegada da modernidade a Portugal – com a sensação crescente do desajustamento do país face à dinâmica da industrialização – exprimiu-se pela primeira vez no terceiro quartel do século XIX. A Geração de 70 constitui o pan in herbis de um radicalismo crente em voluntarismos salvíficos. Um profundo desprezo pela sociedade portuguesa, pelo rotativismo liberal, com ataque cerrado aos supostos responsáveis pela “decadência” e prostração em que Portugal caíra – o “jesuitismo”, os Braganças e os barões da oligarquia dominante – encontraram nos trabalhos de Oliveira Martins e Ramalho, mas sobretudo de Eça, uma justificação literária que legitimava o reconhecimento, quase pacífico, de que o país precisava de uma nova solução saída da ponta das carabinas. As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, de Antero do Quental, texto fundador do “radicalismo indígena” a que se deu uma importância imerecida ao longo de um século, indiciara já a tendência maniqueísta, simplificadora e expedita que seria doravante uma constante nos textos da nossa inteligentzia. Os intelectuais portugueses selavam uma tradição de radical indisponibilidade para soluções políticas de timbre liberal. Falhados nos seus propósitos, os mais destacados animadores da Geração de 70 não se alhearam da vida política, mas seguiram caminhos diversos, com Oliveira Martins traduzindo um crescente gosto por soluções bismarquianas e cesaristas, aproximando-se de posições muito próximas dos “endireitas”, e Ramalho Ortigão convertendo-se à monarquia. Em registo calmo, quase tímido, manteve-se Teófilo Braga, que pouca influência exerceria sobre os seus correligionários republicanos. O movimento republicano – nacionalista, jacobino e anticlerical, dotado de um arsenal ideológico que em 1910 exibia um atraso de 50 anos em relação às ideias políticas em curso na Europa ocidental – apressou a derrocada do anémico e “europeu” liberalismo monárquico, acentuando o pendor autoritário da elite cultural. Basílio Teles, a mais convincente e sincera figura do Partido Republicano Português, exigia uma ditadura de saneamento que permitisse produzir obra legislativa de alcance revolucionário. O pensamento autoritário não se circunscrevia, porém, ao campo republicano. Dir-se-ia que impregnava transversalmente todas as expressões da cultura política portuguesa numa coligação de princípio contra o liberalismo que tinha na Carta Constitucional o seu emblema. Do anarquismo, por onde passaram Afonso Lopes Vieira e Alfredo Pimenta, à extrema direita legitimista, a inteligentzia advogava uma morte trágica para o sistema liberal. A ideia do bom tirano, presente em Renan, Thomas Carlyle e Proudhon – que foi um dos esteios da ditadura de Luís Napoleão – era moeda credível e aplaudida. Assim, quando a monarquia caiu, a oposição ao novo regime passou a ser ideologicamente animada, não pelos monárquicos de feição liberal, mas por um movimento autoritário antiparlamentar, organicista e corporativo: o Integralismo Lusitano.
    O Integralismo teve, desde a sua fundação como movimento político, uma forte componente estética, incorporando parte apreciável das tendências e temática literárias presentes desde finais de Oitocentos. Porém, o que seduzia os integralistas não era tanto a nostalgia de um tempo passado – que o saudosismo de Pascoaes ou a nostalgia do neo-garretismo exprimiam – mas a possibilidade de fabricar, através de um mito, um modelo de sociedade totalmente oposto à sociedade moderna, urbana, industrial, secularizada, individualista e atomizada.
    As pulsões radicais que perpassaram pela história contemporânea ao longo do século XX ter-se-ão ficado a dever a profundas como bruscas alterações resultantes de sucessivos abalos mas, também, ao facto de, pela primeira vez, perante o colapso da autoridade de uma hierarquia tradicional fundada no respeito pelos mais velhos, ter cabido aos “novos”, como então se dizia, a responsabilidade de governar. O fascínio dos jovens pela violência e pelas soluções expeditas é um dado. O século XX foi o século dos movimentos juvenis; logo, foi o século da juventude, da exaltação da força física e das bravatas de rua, que o fascismo, o nacional-socialismo, o comunismo e os vários contestarismos tão bem exprimiram. Entre nós, os “novos” chamaram-se, na Belle Époque, carbonários, integralistas na década de 1910, cruzados de Nun’Álvares, legionários vermelhos e anarquistas na década de 20, nacional-sindicalistas e fascistas na década de 30, comunistas nas décadas de 40 e 50; maoistas nas décadas de 60 e 70.
    A república, positivista e burguesa, foi desprezada pela nata intelectual do país avançado. O desprezo pelo regime foi manifesto na colaboração entusiástica que as novas revelações do panorama literário e artístico concederam a uma mole infinda de revistas culturais de signo anti-republicano: Almada, Fernando Pessoa, António Botto, Mário Saa, Mário Sá Carneiro, Afonso Lopes Vieira. Mas esta repulsa pela república foi também secundada pelos “antigos”: Carolina Michaelis de Vasconcelos dirigiu uma revista que apelava à intervenção das casernas (Revista Lusitânia, 1924), enquanto a campeã dos direitos femininos, Ana de Castro Osório, exaltava o golpismo militar de 1923 e 25, pedindo um Estado forte e o “fim da balbúrdia”. Uma leitura, mesmo que desatenta, dos textos literários produzidos em meados da década de 20 – passados poucos anos da morte pública de Sidónio Paes, que fora entusiasticamente recebido por Pessoa, Fidelino de Figueiredo, Rocha Martins, Alfredo Pimenta, Egas Moniz e Augusto de Castro como messias redentor – permite-nos localizar os ideologemas autoritários da moderna cultura portuguesa no grande texto da sociedade e da história. A grande renovação e, eventualmente, o último fôlego da república parecia ser, por alturas de 1921, o grupo da Seara Nova.
    Mas também os seareiros cedo demonstraram que não queriam meios-termos ao apelarem a “um movimento de salvação nacional pela renovação das elites, contra a oligarquia e o egoísmo de grupos e partidos”. Em 1923 demonstraram quão longe se encontravam do regime ao aceitarem um compromisso com os integralistas. O semanário Homens Livres, de curta duração mas expressiva convergência – que contou com a colaboração de Hipólito Raposo, Aquilino Ribeiro, Raúl Brandão, António Sérgio e Câmara Reis – afirmava-se como anti-conservador, anti-parlamentarista, anti-plutocrático, elitista e radical. António Sérgio, que depois de morto alguns quiseram transformar em pai espiritual da democracia portuguesa pós-25 de Abril, escreveu então páginas explosivas que lembram a tentação de alguns destacados intelectuais europeus da época pelos fascismos nascentes. Ou não foi o liberalíssimo Benedetto Croce senador do fascismo italiano até meados dos anos trinta?
    Ao aproximar-nos de 1930, podemos afirmar sem vacilações que a quase totalidade da elite cultural portuguesa subscrevia soluções autoritárias. No plano político, advogavam a realização de uma revolução ou de uma contra-revolução; no plano estético, aceitam o primado da arte comprometida. Os adeptos da independência do espírito criador, da arte pura, da arte intemporal e do génio individual, barricados na revista Presença (1927), esses, com Régio como expressão da fuga ao cerco, perante a Trahison des Clercs (profetas laicos), que Benda tão bem diagnosticou, continuaram indiferentes ao apelo da vida pública e da intervenção.
    Os anos 30 e 40 constituíram, entre nós, o preiamar das soluções radicais para a crise portuguesa. A adesão a soluções holísticas exprimia a crença, quase fatalista, da inevitabilidade do totalitarismo, tido como expressão da modernidade e da complexificação crescente das sociedades e das responsabilidades do Estado.
    Dogmatismo, maniqueismo, messianismo e voluntarismo geraram a erosão dos frágeis resíduos de uma certa ideia de poder entendida como resultante da harmonização de contrastes. A aspiração ao totalmente outro, a obsessão pelo nascimento de uma Nova Era, de uma Nova Sociedade e de um Homem Novo – ideia comum a fascistas e comunistas – ofereceram, à esquerda e à direita, um receituário de soluções ideocráticas que Arendt chamou de poder nu e Aron de religiões seculares. Os anos 30 assistiram ao fim do sistema de crenças do liberalismo oitocentista. Os movimentos que em Portugal melhor exprimiram esse salto na aventura totalitária foram o Nacional-Sindicalismo e o Neo-Realismo/PCP.
    Debateram-se, ambos, com a perseguição de Oliveira Salazar e com a concorrência de António Ferro, que para o Secretariado Nacional da Propaganda/SNI, conseguiu trazer para uma colaboração mais ou menos estreita com o regime um contingente apreciável de intelectuais. Muitos foram os que concorreram aos prémios de Ferro, muitos mais aqueles que escreveram sob o patrocínio do governo ou dele receberam encomendas, pois o tempo não era ainda – antes do surgimento da Gulbenkian – de inocentes mecenatos. Entre os artistas plásticos, pintores, escultores, decoradores e arquitectos, Mário Eloy, Lino António, Jorge Barradas, Jorge Segurado, Abel Manta, Carlos Botelho, Guilherme Camarinha, Fred Kradolfer, Maria Keil, Francisco Franco, Leoplodo de Almeida, Martins Correia, Canto da Maya, Jacobetty Rosa, Almada Negreiros, Pardal Monteiro, Cassiano Branco, Veloso Reis Camelo; entre poetas, dramaturgos, romancistas e ensaístas, José Sebastião da Silva Dias, Pedro Homem de Melo, António Manuel Couto Viana, Alfredo Cortês, Carlos Selvagem, Agustina Bessa Luís, Adolfo Simões Muller, Maria Archer; entre actores, realizadores de cinema e artistas populares, Eunice Muñoz, Laura Alves, Manuel de Oliveira e Amália Rodrigues. Num tempo em que os artistas viviam em quartos alugados e de trabalhos à peça, o chamamento de António Ferro, da estética de poder e da domesticação do modernismo não criou grandes abalos de consciência. Esses surgiriam mais tarde, da lenda ou do processo acidentado da história subsequente. Não há dúvidas que o Estado Novo, nos anos 30 e 40, até ao final do conflito mundial, se constituía, aos olhos da generalidade dos criadores, como mal menor entre a tradicional penúria e as soluções alternativas que se lhe opunham: o fascismo de Roma e Berlim e o comunismo. A sedução que os fascismos exerceram foi minorado pela acção do SPN, mas tal não impediu que nomes grandes das letras e das artes permanecessem, até finais da II Grande Guerra, incondicionais do Eixo: João Couto, crítico e historiador de arte, João Villaret (declamador), Luís e Pedro Freitas Branco (músicos), Alfredo Pimenta (historiador), António Lino (arquitecto), João Ameal (jornalista/historiador), Cabral de Moncada (catedrático de Coimbra), Luís Forjaz Trigueiros e outros que voluntariamente omitimos, por razões óbvias. Por seu turno, entre os comunistas e seus simpatizantes, uma expressiva galeria de nomes das artes e do pensamento tornou clara a estreita relação, que perduraria até finais da década de 80, entre ser-se “intelectual” e ser-se “de esquerda”. O triunfo militar da URSS no fim do conflito deu ainda mais brilho à filiação comunista, e a partir do fim do consulado de António Ferro no SNI, em inícios da década de 50, a esquerda comunista passou a dominar sem oposição e concorrência. À distância, no desterro a que foram compelidos, Jorge de Sena e Rodrigues Miguéis – entre tantas centenas de outros – debatiam-se entre uma oposição moral ao salazarismo e o apoio a um conjunto de dogmas que, decididamente, repeliam depois de anos em atmosferas mais arejadas. O peso que comunistas ou marxistas “metodológicos” mantiveram até à revolução de Abril ficou-se a dever a uma censura estúpida que, ao invés de limitar, permitiu a velhas receitas a juventude e a sedução que aquelas haviam perdido em sociedades abertas. Raymond Aron, na sua denúncia do ópio dos intelectuais, não encontrava, decididamente, eco em Portugal.
    Depois, veio a longa década de 50, um tempo de fugas, intimismos e subtis criações de universos particulares, que foi, a todos os títulos, uma negação clara do “papel social dos intelectuais”, mas, também, o do começo do fim de uma direita intelectual ao serviço do regime de Salazar. O regime estava cansado e esterilizava, não obstante poder contar com algumas revelações não negligenciáveis: Adriano Moreira, Joaquim Veríssimo Serrão, Jorge Borges de Macedo.
    A poesia reinou nos anos 50, sob a verdejante e frondosa, como acolhedora, sombra da Távola Redonda (1950), da Árvore (1951), das Folhas de Poesia (1957) e da Pirâmide (1959). Os novos sobressaltos da luta política, em fim de regime, trouxeram de novo os criadores à liça política e ao envolvimento cívico. A direita-extrema intelectual, agora representada por António José de Brito, Goulart Nogueira, Fernando Guedes e Couto Viana, animadores do Tempo Presente (1959) – revista em que Agostinho da Silva colaborou – encontrava-se em quarto minguante. O peso do marxismo nas letras e nas academias era crescente, não obstante a desafectação de nomes cimeiros da cultura marxista portuguesa aos preceitos e modas que por essa Europa ocidental iam encontrando cada vez maior número de cépticos. O XX Congresso do PCUS, o esmagamento da revolta húngara e a Primavera de Praga (1968) parece só terem comovido António José Saraiva. Quando, finalmente, a censura marcelista permitiu a edição dos clássicos de Marx, Engels, Rosa Luxemburgo, Trostky e Lenine – em sucessivas edições entre 1971 e 1973 – essas novidades geraram uma enorme vaga de conversões entre a juventude estudantil. Não deixa hoje de constituir uma surpreendente revisitação a leitura de textos assinados por nomes autorizados da vida cultural portuguesa em meados de 70. Ali pontificava um marxismo duro, esquemático, inflexível. A graça, o arrojo, a novidade e a perturbação que perpassam nas obras dos grandes contestatários e dos filósofos da contra-cultura (Escola de Frankfurt) parece ausente. A única expressão, exótica como surpreendente, parece ter sido a do maoísmo, com a sua poesia finca-pé num novo sol ascendendo no firmamento da humanidade.
    Veio Abril e a cultura tornou-se panfleto, proclamação, estribilho. Após décadas de bronca censura, chegavam às rotativas textos que em Paris, Londres ou Nova Iorque já só se vendiam em alfarrabistas!
    Depois do thermidor revolucionário veio o enfado, o apaziguamento ideológico e a procura de um novo figurino de intelectual. Como dizia Ortega y Gasset, todas as revoluções são pós-revolucionárias. Em Portugal, a esquerda cultural, que se preparara durante décadas, dormia o sono do triunfo. Mas a história não pára e novos desafios depressa se perfilaram. A direita anti-sistema – agora fora de cena política, num país onde a direita era rigorosamente ao centro – voltou a recarregar argumentos através da revista Futuro Presente, que aportou para o domínio académico, pela mão de Jaime Nogueira Pinto e de António Marques Bessa, textos, figuras e correntes de pensamento marginalizados: Junger, Evola, Schmitt, Konrad Lorenz, a Geopolítica, a Sociobiologia, a desigualdade, o mito político.
    Importantes debates sobre as novas formulações de uma cultura em mudança tiveram então lugar, mas de forma tão discreta que o grande público leitor deles não se apercebeu. Estava em curso uma revolução silenciosa. O carácter transdisciplinar da nova cultura, exigindo forte travejamento científico, manifestava-se nesses embates sem derramamento de sangue. Germano Sacarrão tentava rebater, em textos de grande fôlego, aquilo que considerava ser um abuso que as ideologias fazem das aquisições científicas. Em sucessivas obras procurou desconstruir as teses da nova direita, fazendo valer o seu grande prestígio como homem de ciência. Mas a generalidade da esquerda, demasiado academizada, não se terá apercebido que uma certa visão do mundo se encontrava em desagregação. O esvaziamento do marxismo clássico dava lugar à descoberta dos grandes textos e autores do liberalismo ético, e por alturas da derrocada do Muro de Berlim, já Hayek, Nozik, Eric Voegelin e John Rawls haviam convencido um sector importante da inteligentzia portuguesa.
    A extrema-esquerda, por seu turno, refazia o seu sistema ofensivo, lendo, interpretando e adaptando Horkheimer, Adorno, Marcuse, Habermas, mas também Reich, a anti-psiquiatria e os velhos textos da Internacional Situacionista. Como adereço desta postura, trouxe para o debate político um questionamento sobre as políticas do sexo, as marginalidades e as minorias, matérias que a velha escola marxista refugara para a montra das provas conclusivas da alienação e decadência capitalistas.
    Neste início de milénio, o país culto parece não sentir a necessidade de, a cada passo, confirmar o rigor doutrinário das suas atitudes, mas a verdade é que continua a sentir-se o peso de velhos hábitos herdados de uma tradição, longa de séculos, em que predominou o seguidismo, o pensar pequeno, a denúncia das heterodoxias e a invocação da correcção para, em placidez, se interditarem ideias tidas por subversivas. A censura foi erradicada por lei, mas hábitos censórios persistem. O sociólogo Paquete de Oliveira aludia, em finais dos anos 80, às novas formas de “censura oculta”. A circulação da informação, a tradução incessante de novidades editoriais estrangeiras, a deslocação ao exterior de milhares de estudantes e investigadores portugueses, a participação em grupos de investigação estão a atenuar o peso dos velhos fantasmas. Contudo, está em aberto a capacidade dos intelectuais portugueses em serem homens de pensamento ou súbditos de superstições ideológicas.}
    (grato e imensamente penhorado, meu caro Mestre MC-B, pela preciosa ajuda e colaboração)
    Onde se poderá “meter”, então, o “nosso” Ilustre Historiador, depois de termos percorrido este diamante de narrativa histórica aqui sintetizada (se bem que, um pouco extensa, é certo, mas, ouso supor, compreensiva e justificadamente, não obstante o “jeito luso” relevar mais as sínteses, em que somos muito pródigos, infelizmente, eu acho)???
    Dão-se alvíssaras aos melhores palpites, desde que, obviamente, devidamente justificados.
    aci

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    • Caro anticapitalista. Como diziam os tipógrafos antigos, deixou aqui uma excelente profusão de “linguados”. Vou publicar isto como artigo, referindo-o como sendo um comentário ao texto do JPP. Sobre o comentário que fez a um artigo do Francisco Louçã eneviei-o ao próprio e ele respondeu-me que se abstinha de lhe dar resposta porque nunca o faz quando os comentários são anónimos. Um abraço da Estátua de Sal.

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