A Europa e o abismo

(Marco Capitão Ferreira, in Expresso Diário, 30/05/2018)

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(Esta é a discussão que, por cá, ninguém quer fazer, pelo menos os partidos maioritários, PS e PSD. Mas, como chega sempre o dia da nossa morte – não se sabe é quando -, assim também lá chegará o dia em que teremos que enfrentar a realidade. Por enquanto, como bem diz o povo, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”. No caso de Portugal, em vez de “pau”, talvez seja melhor dizer turismo, juros baixos, etc.

Comentário da Estátua, 30/05/2018)


Itália é apenas o último episódio na degradação contínua de um aspeto central da construção Europeia e da moeda única: a sua compatibilidade com o funcionamento das Democracias.

Diz muito do monumental falhanço que é a arquitetura do Euro que, por estes dias, entre a proteção da ortodoxia financeira inerente às regras e a garantia do direito dos povos a decidirem o seu futuro, faz com que prevaleça em muitas cabeças a segunda.

Como se já não bastasse que, pela segunda vez desde 2011, em Itália se vá nomear um Governo “tecnocrático”, que é uma palavra simpática para dizer que se vai nomear alguém sem legitimidade democrática, Bruxelas decidiu piorar as coisas com o habitual tom paternalista e ameaçador e as subsequentes retratações mais ou menos tíbias.

O guião é já bem conhecido, os (ir)responsáveis europeus de um lado, e os mercados do outro, num ciclo mutuamente alimentado, com tal grau de sincronia que nos podemos interrogar se ainda sabemos onde começa o poder económico e acabam as instituições europeias, ou se a sua fusão é já completa, criam a própria realidade para a qual avisam: Instabilidade nos mercados. Juros mais altos. Bolsas em queda.

A solução política não agrada ao binómio Bruxelas/mercados e, mesmo sem um único ato real de governação, a mera possibilidade da sua existência, lança a instabilidade nos mercados, como se alguma coisa de substantivo tivesse mudado.

Os mercados são instrumento de Bruxelas, ou Bruxelas é o instrumento dos mercados. Nenhuma das duas é uma coisa boa. E, infelizmente, parecem cada vez mais verdadeiras.

Hoje é Itália, ontem foi a Grécia. Até nós tivemos direito a uma pressão elevadíssima aquando da formação do atual Governo. Eu ainda me lembro dos avisos de que teríamos um segundo resgate, sanções, orçamentos “chumbados” em Bruxelas. Porque a nossa solução de Governo não agradava. Também me lembro de o Presidente da República à data ter “ameaçado” com o fim do Mundo e/ou um Governo de gestão de Passos Coelho, mesmo se chumbado (como foi) por uma maioria no Parlamento, que duraria meses ou mesmo um ano. Há sempre colaboracionistas oportunos nestas coisas.

É assim que se têm plantado e regado as sementes dos populismos e dos autoritarismos que vão despontando por aí: o mais provável resultado desta última incursão pelo disparate europeu é que Itália venha a ser governada por uma maioria agora reforçada de uma mescla de extrema-direita e populistas. Quem desconhece a história pode não se lembrar, mas quando Hitler chegou ao poder já Mussolini governava desde 1922, e Itália já era uma ditadura desde 1925. Vai fazer um século. Já tínhamos tido tempo de o aprender.

Vamos cortar a conversa a direito: se a União Europeia e o Euro não são compatíveis com a Democracia, o projeto europeu matou-se a si próprio. Porque a Europa nasce das Democracias. Nasce da vontade de partilhar valores, de afirmar a liberdade, de garantir a paz. Se não serve para isso, não serve para nada.

Para onde vai a Itália?

(Dieter Dellinger, 18/05/2018)

italia

As eleições na Itália decorreram a 4 de Março e até hoje os partidos ainda não conseguiram formar governo. O sistema de voto proporcional e uninominal não funcionou na Itália. Muitos socialistas devem estudá-lo para verificar se pode alguma vez ser melhor que o português.

Itália entrou numa longa crise de ingovernabilidade. Na Câmara dos Deputados, venceu a coligação de “Legga, Força Itália, etc., de Pier Luigi Bersani e Berlusconi com uma diferença muito pequena: 29,5% dos votos e 29,1% para o partido de Beppe Grilo “Movimento Cinco Estrelas”.
No Senado, a situação é dramática: a coligação de Legga, FI obteve 31,6% dos votos. O “M5S” 30,7%. Sem maioria no Senado, é impossível governar.

A coligação de esquerda que governava a Itália com Mateo Renzi teve um resultado péssimo por causa das exigências europeias e do tremendo afluxo de refugiados africanos e sírios que a Europa não quer receber, mas que chegam diariamente ao Sul da Itália.

A maior novidade destas eleições foi o comediante Beppe Grillo. O seu Movimento 5 Estrelas tornou-se o primeiro partido da Itália, com mais de 25% dos votos, um resultado extraordinário. O comediante usou apenas as praças do país e nenhum canal de TV.

Berlusconi com a sua “Força Itália” mais vários pequenos partidos permitiu depois de muitas hesitações as negociações entre a Liga e o M5E, que ainda se devem entender sobre quem vai chefiar o governo, bem como sobre o programa deste, mas o afastamento do político multimilionário Sílvio Berlusconi, que dirigiu a direita italiana durante 25 anos, fez desaparecer o principal obstáculo.

Os eleitos do partido Forza Italia (FI) não darão a confiança ao M5E do ex-palhaço Bebe Grillo, que “não tem maturidade política para assumir esta responsabilidade”, mas um acordo entre a Liga e o M5E “não marcará o fim da aliança entre a FI e a Liga, em particular nas regiões que dirigem em conjunto”, garantiu.

Ao fim de mais de dois meses de discussões infrutíferas entre as diversas forças políticas, a situação parece tender a desbloquear-se entre a coligação de direita, que tem 37% dos votos, com a Liga à cabeça, e o M5S, que é o partido mais votado, com mais de 32%, e o Partido Democrata, que caiu para os 19%.

Luigi Di Maio, líder do M5S, e Matteo Salvini, dirigente da Liga, declararam-se prontos a governar em conjunto, mas as discussões bloquearam quando se tratou de discutir o lugar de Berlusconi, símbolo de todos os males da Itália, aos olhos de Di Maio, mas um precioso aliado para Salvini.

Todos são mais ou menos antieuropeístas, mas no programa de governo parece que o referendo sobre a permanência da Itália na União Europeia fica, para já, congelado.

O que não fica é o desconto exigido pela Itália ao BCE de 250 mil milhões de euros para evitar a saída da Itália do Euro, o que tornaria a gigantesca dívida italiana mais acessível a uma regularização dos seus défices e contas públicas em geral.

Os italianos não se entendem desde que os magistrados destruíram os partidos tradicionais, nomeadamente o líder Andreotti da democracia-cristã que fez vários governos de coligação com os comunistas que passaram depois a serem sociais-democratas.

Andreotti foi acusado de ser financiado pela Máfia que na Itália é apenas sinónimo de muitas organizações de crime organizado de extorsão e outras coisas mais, tendo existido mais no sul e na Calábria que no norte. O líder Andreotti foi condenado, absolvido e novamente condenado por reabertura quase ilegal do processo e perto do fim da sua vida absolvido.

Os juízes politiqueiros com os longos anos que levaram a tentar matar politicamente a democracia-cristã e o partido socialista acabaram por dar origem ao ridículo de um partido fundado por um palhaço ser o mais votado na Itália. A Itália tornou-se uma palhaçada e já tinha sido com Berlusconi. Tudo o que veio depois foi pior e as máfias chegaram ao norte ao mesmo tempo que a “Legga Norte” muda para “Legga”, abandonando a ideia de separar o Norte da Itália do Sul, passando a partido nacional de centro quase esquerda.

Hoje, organizam-se já diversas máfias no norte da Itália, podendo citar-se como um exemplo curioso a vila de Brescello de 5.600 habitantes, que não tem Presidente da Câmara há dois anos, porque a máfia local não deixa e prefere ou não pode impedir que a autarquia esteja sob o controle do Ministério do Interior. Também quase não tem votantes, pois quase todos os habitantes são estrangeiros. Os chineses nas lojas e restaurantes, os do Bangla-Desh e da África nos campos de arroz e no cultivo de pastagens e criação de gado. Sem os estrangeiros não haveria mais o queijo de Parma, cidade para a qual uma parte da população emigrou para serem professores, médicos, funcionários públicos e gerentes de empresas. Na Itália, onde imperam as Máfias, que os juízes nunca foram capazes de combater eficazmente, a população educada foge para as grandes cidades e vêm os africanos. Os partidos esperam unirem-se todos e fazer eleger uma candidata à presidência da autarquia.

Brescello situa-se nas margens pantanosas do rio Pó e para as pessoas com uma certa idade tem um significado especial. A vila com um presidente comunista e um pároco cristão-democrata inspirou a obra do escritor Giovanni Guareschi e alguns filmes feitos há, talvez, uns 60 anos atrás. Foram os célebres “Don Camillo e Peppone”. Também aí perto foi rodado em 1949 o célebre filme “Arroz Amargo” de Guiseppe de Santis com a célebre Silvana Mangano.

Isto nos bons tempos da cinematografia realista italiana que tanto gostei até ser destruída pelas fantasias de Fellini que deram cabo do cinema italiano em conjunto com a conquista monopolista em toda a Europa da distribuição dos filmes americanos que hoje já ninguém quer ver. Capitalismo sem concorrência é suicídio dos próprios.

Aí está o perigo italiano 

(Francisco Louçã, in Expresso, 03/03/2018)

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As eleições deste domingo vão colocar um ponto final no ciclo das forças políticas do centro e podem levar a uma aliança entre Renzi e Macron que vai ameaçar o grupo socialista no Parlamento Europeu

É já domingo que as urnas italianas vão espalhar mais um susto por toda a Europa (e ainda poderia haver um improvável sismo no referendo do SPD alemão sobre a nova coligação com Merkel). É a lei de Murphy da União: cada eleição consegue ser sempre pior do que a anterior. Ganhará o partido de Beppe Grillo ou o de Berlusconi, resistirá Renzi, crescerá o novo condottiere fascista, como se combinarão entre si? Só as perguntas dizem tudo. Mas vale a pena olhar também além do susto para a saúde do centro e para as consequências da sua doença para a União Europeia.

Fim do ciclo do centro 

Será uma primeira prova do novo sistema eleitoral, estranho como sempre são estas engenharias eleitorais: 36% dos deputados e senadores são eleitos em círculos uninominais e os restantes em listas regionais ou nacionais. Quem tem 18 anos já vota para o Parlamento (para o Senado tem de ter 25), só podendo ser eleito quem tiver mais de 25 anos (no caso do Senado, 40). Ora, fossem estes mecanismos o único problema e a Itália teria uma eleição típica do seu oscilante regime, como desde o desvanecimento dos seus pilares históricos, a Democracia-Cristã e o Partido Comunista Italiano (PCI). Mas o princípio de Murphy faz das eleições de amanhã a inauguração de um novo mapa.

O caso é que o regime é abalado pela degradação das alternativas que governaram nas últimas décadas. Estas eleições, aliás, são a consequência de uma aventura de Matteo Renzi, que lançou um referendo para reforçar o seu poder e perdeu, criando um vazio político que revela o fim do ciclo do centro e entrega o poder à direita.

Longa foi a viagem do PCI, reinventado como Partido Democrático, para chegar a formar o Governo que aplicou as reformas neoliberais. Correndo em frente, o seu chefe, Renzi, aposta agora numa afirmação identitária europeísta, procurando imitar Macron na ideia de uma refundação miraculosa que criasse os Estados Unidos da Europa. Ao fazer esta escolha coloca o eurocratismo no boletim de voto e arrisca a sua humilhação.

A direita de volta ao passado

A queda eleitoral do centro colocaria Renzi na margem do jogo coligacionista, sendo que as sondagens sugerem que ninguém formará governo com facilidade: quem pode ter mais votos, o 5 Estrelas, ficaria longe da maioria, o PD ainda mais. Por isso, é a recomposição das direitas que se tem tornado o segundo elemento murphista de domingo. Essa transmutação tem duas entoações. A primeira é a deslocação das direitas para um vago euroceticismo, tingido de promessas de tensão com os tratados europeus. A segunda é a concentração transformista na recusa dos refugiados.

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Assim, as direitas radicalizam-se e ressurge mesmo a estética de figurações fascistas: Matteo Salvini (na foto), o chefe da Liga Norte, de terço na mão, a jurar sobre a Constituição numa praça de Milão, fingindo uma precoce tomada de posse e fazendo a multidão jurar com ele, é o ícone desta nova direita. Salvini ganhou os seus galões tornando-se o arauto do horror ao estrangeiro, no que vai arrastando outros partidos, prometendo também romper com o euro. Berlusconi, com a sua Forza Italia, estabeleceu um compromisso de pré-coligação com ele, mas disputam entre si quem ficará à frente e designaria o primeiro-ministro, mecanismo garantido para que as direitas concorram para criar ódios e fazê-los votar.

O difuso Movimento 5 Estrelas exibe entretanto novas dificuldades: a sua proposta mais inovadora é o já célebre rendimento básico universal, prometido pelo valor aproximado de 25 euros por mês, tamanha generosidade. Se as direitas se juntarem e o centro cair, o 5 Estrelas fica pendurado.

A minha conclusão: populismo, são todos estes partidos. Já só se disputam eleições destas em modo populista. Uma esquerda que quer contrariar a maldição, Potere al Popolo, começa a juntar-se entre os destroços, mas ainda lhe falta muito para ser protagonista (será tema para outro artigo).

O destino é para baixo? 

A Itália em risco no concerto europeu? Fosse só isso. A queda de Renzi revela outra faceta desse temor, também de impacto duradouro: ele promete juntar-se a Macron nas eleições europeias de 2019 e criar um novo grupo em Estrasburgo, pilhando os restos dos Verdes e dos Liberais e dividindo os socialistas. Esta ameaça ao PS europeu não é menor, pode torna-lo um grupo pequeno, comparado com o das esquerdas.

Um apanhado das últimas duas décadas é constrangedor para os socialistas e sociais-democratas e demonstra como Macron pode mesmo reduzi-los a um testemunho saudoso: comparando eleições desde o virar do século, na Grécia perderam 35 pontos, na República Checa caíram de 20 para 7%, na Holanda de 25 para 6%, em França de 30 para 7%, em Espanha de 34 para 22%, na Alemanha de 40 para 20,5%, o pior resultado desde a II Guerra Mundial e que pode ainda piorar.

Em 2017, os sociais-democratas ou aparentados perderam os governos da França, Áustria e República Checa, só mantendo os de Portugal, Suécia, Grécia, Malta e Eslováquia (aqui com o escândalo de um jornalista assassinado) entre os 27 países da União.

A ameaça de Macron é, portanto, feroz: formando o seu grupo internacional, fecharia o tempo em que democracia-cristã e os sociais-democratas partilhavam o poder europeu e deixaria a Comissão e as instituições sob pressão da metamorfose da direita, com a pulverização do centro. Como a experiência italiana demonstra, isso pode exprimir o reforço das forças centrífugas. Na Hungria, Polónia, República Checa e Áustria, essas forças já são Governo, o que lhes dá poder bloqueador no Conselho Europeu; fazem parte do Partido Popular Europeu, com Berlusconi e Orbán ao lado de Paulo Rangel, Nuno Melo e companhia; noutros países condicionam a evolução política, como na Alemanha.

Com o prazo curto até ao verão de 2019 e as eleições europeias, é um mundo novo que se está a desenhar. Trump de um lado e Berlusconi ou Salvini dentro de casa a celebrarem o murphismo, cá se vai cantando e rindo.


O mercado, tão gostoso

Foi um relâmpago de choque e pavor, mas afinal não era tão difícil de imaginar. Kylie Jenner escreveu num tweet depois do jantar que estava farta do Snapchat, uma aplicação de partilha de imagens, e em consequência a cotação da empresa caiu 6% no dia seguinte, reduzindo a capitalização em 1300 milhões de dólares. Jenner tem vinte anos e uma carreira brilhante: desde os dez que é uma estrela da série “Keeping up with the Kardashians”, outra família de socialites, tendo-se tornado, entretanto, uma empresária de sucesso, com uma marca de cosméticos e roupa. Ser uma reality star de sucesso é o que sobra de espírito empresarial no século XXI e o mercado treme quando a star suspira.

Mercado mesmo, no sentido mais líquido: Jenner oficia num reduto de 25 milhões de seguidores no Twitter e de 100 milhões no Instagram. É mercado porque são os seus consumidores, essas redes tornam-se uma segunda pele, a voz que fala, o modo de atenção ao mundo. Distorce, aliena, torna-se uma forma obsessiva de reconhecimento social? Isso é precisamente o que é o mercado. Lembre-se de Chico Buarque, no seu último disco, a cantiga em dueto com Clara Buarque: “Se dane o evangelho e todos os orixás/ Serás o meu amor, serás amor a minha paz/ Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis/ Consta no Google, no Twitter, no Face/ No Tinder, no WhatsApp, no Instagram/ No e-mail, no Snapchat, no Orkut, no Telegram/ No Skype”. O mercado é esta virtude virtual, esta lista de aplicações, sociedades sombra e rituais iniciáticos, só não sei se garante o circuito do amor, talvez Chico e a sua neta também desconfiem desse trânsito. O facto é que, com umas dezenas de carateres, Jenner assustou o mercado.

Já ouço as vozes contristadas: nada disso é o mercado com a sua inteligência e conhecimento, é só uma falha, uma crispação, uma perturbação que passa. Foi um engano, em resumo. Toda a ignorância é atrevida, só posso concluir. Há no mar uma tonelada de plástico por cada tonelada de peixe, suspeito que é mesmo o mercado. Há no espaço virtual uma pilha de capitais fictícios que jogam em bitcoins e outros produtos e mistificações, é mesmo o mercado, que organiza o perigo porque é ele o perigo.

Assim se pode compreender o incidente, Jenner twitou e o mercado estremeceu. Mas, calma, ela twitou depois a explicar que estava só a brincar.