Para onde vai a Itália?

(Dieter Dellinger, 18/05/2018)

italia

As eleições na Itália decorreram a 4 de Março e até hoje os partidos ainda não conseguiram formar governo. O sistema de voto proporcional e uninominal não funcionou na Itália. Muitos socialistas devem estudá-lo para verificar se pode alguma vez ser melhor que o português.

Itália entrou numa longa crise de ingovernabilidade. Na Câmara dos Deputados, venceu a coligação de “Legga, Força Itália, etc., de Pier Luigi Bersani e Berlusconi com uma diferença muito pequena: 29,5% dos votos e 29,1% para o partido de Beppe Grilo “Movimento Cinco Estrelas”.
No Senado, a situação é dramática: a coligação de Legga, FI obteve 31,6% dos votos. O “M5S” 30,7%. Sem maioria no Senado, é impossível governar.

A coligação de esquerda que governava a Itália com Mateo Renzi teve um resultado péssimo por causa das exigências europeias e do tremendo afluxo de refugiados africanos e sírios que a Europa não quer receber, mas que chegam diariamente ao Sul da Itália.

A maior novidade destas eleições foi o comediante Beppe Grillo. O seu Movimento 5 Estrelas tornou-se o primeiro partido da Itália, com mais de 25% dos votos, um resultado extraordinário. O comediante usou apenas as praças do país e nenhum canal de TV.

Berlusconi com a sua “Força Itália” mais vários pequenos partidos permitiu depois de muitas hesitações as negociações entre a Liga e o M5E, que ainda se devem entender sobre quem vai chefiar o governo, bem como sobre o programa deste, mas o afastamento do político multimilionário Sílvio Berlusconi, que dirigiu a direita italiana durante 25 anos, fez desaparecer o principal obstáculo.

Os eleitos do partido Forza Italia (FI) não darão a confiança ao M5E do ex-palhaço Bebe Grillo, que “não tem maturidade política para assumir esta responsabilidade”, mas um acordo entre a Liga e o M5E “não marcará o fim da aliança entre a FI e a Liga, em particular nas regiões que dirigem em conjunto”, garantiu.

Ao fim de mais de dois meses de discussões infrutíferas entre as diversas forças políticas, a situação parece tender a desbloquear-se entre a coligação de direita, que tem 37% dos votos, com a Liga à cabeça, e o M5S, que é o partido mais votado, com mais de 32%, e o Partido Democrata, que caiu para os 19%.

Luigi Di Maio, líder do M5S, e Matteo Salvini, dirigente da Liga, declararam-se prontos a governar em conjunto, mas as discussões bloquearam quando se tratou de discutir o lugar de Berlusconi, símbolo de todos os males da Itália, aos olhos de Di Maio, mas um precioso aliado para Salvini.

Todos são mais ou menos antieuropeístas, mas no programa de governo parece que o referendo sobre a permanência da Itália na União Europeia fica, para já, congelado.

O que não fica é o desconto exigido pela Itália ao BCE de 250 mil milhões de euros para evitar a saída da Itália do Euro, o que tornaria a gigantesca dívida italiana mais acessível a uma regularização dos seus défices e contas públicas em geral.

Os italianos não se entendem desde que os magistrados destruíram os partidos tradicionais, nomeadamente o líder Andreotti da democracia-cristã que fez vários governos de coligação com os comunistas que passaram depois a serem sociais-democratas.

Andreotti foi acusado de ser financiado pela Máfia que na Itália é apenas sinónimo de muitas organizações de crime organizado de extorsão e outras coisas mais, tendo existido mais no sul e na Calábria que no norte. O líder Andreotti foi condenado, absolvido e novamente condenado por reabertura quase ilegal do processo e perto do fim da sua vida absolvido.

Os juízes politiqueiros com os longos anos que levaram a tentar matar politicamente a democracia-cristã e o partido socialista acabaram por dar origem ao ridículo de um partido fundado por um palhaço ser o mais votado na Itália. A Itália tornou-se uma palhaçada e já tinha sido com Berlusconi. Tudo o que veio depois foi pior e as máfias chegaram ao norte ao mesmo tempo que a “Legga Norte” muda para “Legga”, abandonando a ideia de separar o Norte da Itália do Sul, passando a partido nacional de centro quase esquerda.

Hoje, organizam-se já diversas máfias no norte da Itália, podendo citar-se como um exemplo curioso a vila de Brescello de 5.600 habitantes, que não tem Presidente da Câmara há dois anos, porque a máfia local não deixa e prefere ou não pode impedir que a autarquia esteja sob o controle do Ministério do Interior. Também quase não tem votantes, pois quase todos os habitantes são estrangeiros. Os chineses nas lojas e restaurantes, os do Bangla-Desh e da África nos campos de arroz e no cultivo de pastagens e criação de gado. Sem os estrangeiros não haveria mais o queijo de Parma, cidade para a qual uma parte da população emigrou para serem professores, médicos, funcionários públicos e gerentes de empresas. Na Itália, onde imperam as Máfias, que os juízes nunca foram capazes de combater eficazmente, a população educada foge para as grandes cidades e vêm os africanos. Os partidos esperam unirem-se todos e fazer eleger uma candidata à presidência da autarquia.

Brescello situa-se nas margens pantanosas do rio Pó e para as pessoas com uma certa idade tem um significado especial. A vila com um presidente comunista e um pároco cristão-democrata inspirou a obra do escritor Giovanni Guareschi e alguns filmes feitos há, talvez, uns 60 anos atrás. Foram os célebres “Don Camillo e Peppone”. Também aí perto foi rodado em 1949 o célebre filme “Arroz Amargo” de Guiseppe de Santis com a célebre Silvana Mangano.

Isto nos bons tempos da cinematografia realista italiana que tanto gostei até ser destruída pelas fantasias de Fellini que deram cabo do cinema italiano em conjunto com a conquista monopolista em toda a Europa da distribuição dos filmes americanos que hoje já ninguém quer ver. Capitalismo sem concorrência é suicídio dos próprios.

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3 pensamentos sobre “Para onde vai a Itália?

  1. É tudo culpa de toda a gente, menos de quem leva os italianos a não querer mais do mesmo. Os novos, percebendo tanto de economia como os anteriores, desistem de mudar alguma coisa. Entretanto, o italiano que percebe que isto funciona mal, lá vai esperando que acabe o seu mandato no BCE e que caiba a outro a batata quente de ter que convencer a Alemanha a manter o QE e quejandos ilegais para evitar o colapso da eurolândia.
    Tá bonito.

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    • 😆 O Banco Comunista Europeu não tem outra hipótese – se quiser manter o actual estado das coisas – que não seja manter o EAPP & Compª Lda. & JUROS ZERO/NEGATIVOS, caso contrário o esquema ponzi que eles iniciaram, após o início em 2007/8 nos EUA da nova vaga de terrorismo financeiro, rebenta e então eles perdem o controlo do sistema e aí será FESTA RIJA!

      Eles só acabarão com os esquemas de terrorismo financeiro que estão a utilizar se tiverem na manga uma ferramenta melhor – não significa que seja nova – e que esteja pronta a utilizar por forma a distrair ainda mais – se tal é possível – a MANADA de escravos boçais europeus!

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  2. Primeiro que tudo faz-me uma certa confusão continuar sempre a ler a mesma cassete de debita que “vivemos num sistema capitalista”! Só quem passa a vida a comer pipocas e a ver filmes é que acredita em tal ilusão!

    Segundo que nada a Itália vai no caminho que tem de ir, e esse caminho vai provocar pequenas ondas no oceano do Banco Comunista Europeu e na desUnião Europeia, então só lamento que as ondas só agora tenham adquirido energia cinética para danificar a miséria!

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