A guerra não está a correr nada bem para Israel

(José Neto, in comentários na Estátua de Sal, 02/12/2023)

(Este texto resulta de um comentário a um artigo que publicámos de Samuel Moncada, embaixador da Venezuela na ONU, ver aqui. Pelo contributo para o debate sobre a evolução futura da guerra na faixa de Gaza, resolvi publicá-lo como artigo.

Estátua de Sal, 02/12/2023)


Pois é, e a guerra não está a correr nada bem para Israel.

E devo dizer que isso não é novidade nenhuma para mim dado que, logo no rescaldo da ofensiva das Brigadas Al-Qassam, eu disse aqui, contrariando a opinião de Carlos Matos Gomes, que não me parecia que o Hamas estivesse destinado a perecer na sequência da previsível resposta furiosa dos sionistas.

Disse-o por considerar que uma ação militar tão bem executada e com uma preparação tão longa no tempo, tivesse o suicídio como único objetivo. Os árabes não são exatamente lemingues e não têm propensão para o suicídio coletivo. Nem os lemingues, de resto. Isso é uma lenda idiota criada por um documentário falso produzido pela Disney em 1958.

Desculpem lá eu estar sempre a lembrar estas coisas, mas ninguém é perfeito e acho que vocês já devem ter desconfiado de que a humildade não é uma das minhas melhores qualidades.

Acontece também que, ao contrário de outros que andam por aí, eu não me sinto limitado por nenhum preconceito de superioridade racial do Ocidente, incutido desde os tempos da escola ou transmitido subliminarmente pelo cinema americano. E então não acho que os árabes, e particularmente os palestinos e seus mentores, sejam assim uma espécie de “índios” atrasados que agem por instinto e ao sabor do fanatismo. Por acaso eles até têm exatamente o mesmo volume de massa encefálica que os ocidentais. E os seus comandantes possuem uma formação militar que em nada fica a dever à dos melhores estrategas da NATO.

E ainda por cima eles não têm nada a perder e estão a lutar na sua “casa”, no seu terreno, que conhecem como ninguém. E isso faz toda a diferença. Sempre fez, como os americanos e as antigas potências coloniais europeias, Portugal incluído, têm obrigação de saber. Aprenderam à própria custa.

Israel mobilizou mais de 100 mil soldados em torno da Faixa de Gaza, que tem uma área total de cerca de 360 ​​quilómetros quadrados. A maior parte destas tropas pertence às forças regulares e Israel convocou mais 300 mil soldados e oficiais da reserva – mais do que o número de reservistas convocados pela Rússia para lutar na Ucrânia ao longo de uma frente de 1.500 km contra um exército ucraniano que no início do conflito teria potencialmente meio milhão de homens. Todas as forças regulares que o exército sionista conseguiu reunir foram mobilizadas na Faixa de Gaza desde o início da quarta semana de guerra. Além disso, Israel mobilizou metade do seu stock de artilharia, metade da sua força aérea e cerca de mil veículos blindados.

As tropas israelitas penetraram em Gaza a partir de três pontos e avançaram protegidas pelos bombardeamentos maciços da aviação, que foram desbravando caminho numa distância de 500 metros adiante. Eles também desembarcaram nas praias e tentaram progredir a partir do mar para o interior, mas aí encontraram uma resistência feroz que os impediu de avançar.

Os comandos do Hamas não tentam impedir o avanço dos blindados israelitas, o que seria impossível dada a cobertura aérea de que estes beneficiam, mas depois atacam-nos em locais previamente escolhidos, onde existem bocas de túneis. Eles saem rapidamente em pequenos grupos e abrem fogo sobre os blindados, destruindo-os. Muitos soldados israelitas encontraram a morte neste processo, ainda que Israel apenas confirme 70 baixas mortais. Os números reais andarão por várias centenas. O Hamas divulgou de forma documentada a destruição de 320 tanques e outros blindados.

É a guerra de guerrilha na sua expressão máxima. Israel nunca conseguirá atrair os comandos do Hamas para o combate em campo aberto. Os seus soldados não têm vontade nenhuma de sair dos seus blindados e entrar num combate urbano casa a casa, como fizeram russos e ucranianos em Mariupol e Bakhmut por exemplo. Isso faria disparar o número de baixas para números incomportáveis para os israelitas. E tão pouco podem entrar nos túneis que vão encontrando em perseguição do inimigo, pois eles estarão de certeza armadilhados e rapidamente se iriam tornar nos seus túmulos.

Israel atingiu assim um ponto de bloqueio do qual não consegue sair. Não significa nada dizer que “ocuparam este ou aquele território”. Porque, se eles lá estão, os comandos Al-Qassam também estão. Mesmo por baixo deles. Esta não é uma guerra do tipo convencional, como sucede na Ucrânia. Ali, quando os ucranianos controlam uma região os russos saíram de lá e vice-versa. Em Gaza os dois exércitos inimigos coincidem nos mesmos locais, com os árabes no papel de “snipers” e os israelitas como alvos.

Foi por se ter chegado a uma situação de impasse, com maior prejuízo para o exército israelita, que Israel finalmente aceitou negociar um cessar-fogo e proceder a uma troca de prisioneiros, que é exatamente o que Netanyahu tinha dito que nunca faria. E ainda pior, aceitou fazê-lo nas condições exigidas pelo Hamas, como Scott Ritter muito bem chamou a atenção num texto aqui publicado.

Esta pausa nos combates beneficia Israel muito mais do que o Hamas, que mantém o seu exército praticamente intacto (terá sofrido cerca de 1 500 baixas num total de efetivos de cerca de 40 000 reforçado com cerca de mais 30 000 provenientes das outras forças de resistência suas aliadas) enquanto Israel vai ter de repensar toda a sua estratégia.

Entretanto, na Cisjordânia, prosseguem ferozes combates com as forças do Hezbollah, que não integram o acordo para a pausa nos combates. O facto de Israel ter as suas forças divididas em duas frentes deveria preocupar os seus estrategas militares, já que o Hezbollah é uma força formidável, equipada com armamento de ponta iraniano e possuidora de grande experiência de combate real (que os soldados israelitas não têm) sobretudo resultante da sua participação na luta contra o ISIS na Síria. O Hezbollah tem ainda à sua disposição entre 150 000 e 200 000 misseis de médio e longo alcance capazes de destruir rapidamente toda a infraestrutura de Israel. E poderá ter mais trunfos que ainda não são conhecidos, como é normal em todas as guerras. Nunca se mostra tudo ao inimigo.

Aparentemente os Israelitas estão confiantes de que o Hezbollah não irá desencadear uma ofensiva decisiva por receio de entrar em rota de colisão com a força de intervenção da OTAN sita no Mediterrâneo. Talvez, mas eu não apostaria o meu dinheiro nisso.

Uma ofensiva americana contra o Hezbollah levaria à guerra com o Irão e eu não acho que os russos achassem muita graça a isso. Neste momento da sua História, com todo o esforço diplomático que eles estão a desenvolver para ganharem ascendente junto dos países da região, e por extensão em todo o Sul Global, não podem de maneira nenhuma dar-se ao luxo de permitir que o seu maior aliado militar seja eventualmente destruído pelas forças do Império. Isso iria deitar por terra tudo o que foi conseguido nesse campo ao longo dos dois últimos anos. Faria desabar (mais uma vez depois da Perestroika) toda a sua credibilidade como potência mundial.

Repare-se que as sucessivas afrontas que o Rei da Arábia Saudita tem vindo a infligir a Biden e aos seus diplomatas deve-se muito ao facto de ele considerar que tem as costas quentes. O truculento americano não o assusta porque ele acha que tem na Rússia um protetor mais forte e que, ainda por cima, é mais respeitoso e menos intrusivo. O recuo de Putin numa situação limite como essa seria o fim de muita coisa. O próprio desenvolvimento da organização BRICS+11 seria talvez ferido de morte.

Também por essa razão se encontra uma frota chinesa com grande capacidade de dissuasão no local.

Os comandos militares dos Estados Unidos e da Rússia têm vias de comunicação diretas para falarem entre si e de certeza que os americanos foram avisados das linhas vermelhas de maneira bastante enfática. Eu acho que eles estão ali só para fazer pose. Ou então a III guerra Mundial pode estar mesmo ao virar da esquina. Os cogumelos laranja também são possíveis, claro. E eu até acho que prováveis, como já disse aqui mais de uma vez, mas talvez não para já.

Repare-se que os líderes do Hezbollah e do Hamas, organizações muito próximas e dependentes do Irão, rapidamente se esforçaram por vincar que a decisão da ofensiva “Dilúvio de Al Aqsa” foi exclusivamente do Hamas e nada teve a ver com o governo iraniano. Provavelmente não é verdade mas trata-se de não dar aos americanos um pretexto aceitável para o conflito aberto de grande dimensão (ou um motivo de constrangimento praticamente impossível de engolir) que não interessa a ninguém. Nem aos americanos, obviamente.

A economia de Israel não poderá suportar uma guerra de vários meses e não se está a ver como é que eles conseguirão atingir os seus objetivos militares em menos tempo do que isso. Aquele conflito tem tudo para durar anos. As brigadas Al-Qassam poderão receber suprimentos indefinidamente por via subterrânea a partir do Egito. Os Estados Unidos, na pessoa de Blinken, já fizeram saber ao governo de Israel que aquela guerra terá de ser resolvida muito rapidamente, de uma maneira ou de outra, supostamente em menos de trinta dias. Porque quanto mais tempo ela durar, maior será a condenação mundial e americanos e israelitas estão no mesmo barco. Todo o trabalho da diplomacia americana no Médio Oriente e em outras partes do mundo será arruinado.

A indignação do mundo árabe atinge níveis avassaladores, talvez nunca antes atingidos mesmo quando os americanos arrasaram o Iraque e a Líbia, e quase conseguiram fazer o mesmo na Síria, se os russos não tivessem atuado de forma inteligente para lhes frustrar os planos. Aí as coisas foram feitas de outra maneira e os americanos jogaram sabiamente com as grandes rivalidades entre os países muçulmanos da região que eles próprios fomentam. A maior parte das atrocidades cometidas só veio a ser revelada mais tarde. Agora é diferente, com os telemóveis a filmarem tudo e a divulgarem as imagens na net. O mundo está a assistir pela primeira vez na sua história a um genocídio em direto.

É claro que as elites árabes da região, ainda que em alguns casos possam estar genuinamente indignadas com o que estão a ver, consideram também os interesses que possuem nos países ocidentais e de que não querem abdicar. Mas as suas populações pensam de outra maneira. Ao contrário do que se possa pensar, o facto de os líderes da região serem soberanos que governam por desígnio divino e não políticos eleitos, não significa necessariamente que não podem ser demitidos. Significa apenas que poderão não sobreviver ao processo de impugnação.

Mais uma vez, não resisto a lembrar aqui o excelente trabalho de destruição da estrutura mundial do poder americano que o velho Biden tem levado a cabo desde que foi eleito. Apenas no decurso de um mandato ele já conseguiu conduzir os Estados Unidos a dois vexames militares espetaculares, no Afeganistão e na Ucrânia, libertar a Rússia da sua dependência face ao Ocidente e lançar a respetiva economia num crescimento de 5% ao ano (algo que a UE não conseguiu nem nos seus melhores tempos) acelerar o crescimento do BRICS e o processo de desdolarização, fazer disparar a dívida americana para níveis realmente estratosféricos e ainda, a cereja no topo do bolo, pôr os líderes dos principais centros de produção energética (dos quais a América depende em absoluto) furiosamente contra si.

Biden abriu descuidadamente a caixa de Pandora, esquecendo que lhe tinham dito que ali não era para mexer, e ela estava cheia de dragões que rapidamente saltaram para fora e se espalharam pelo mundo vomitando fogo e enxofre contra os interesses americanos nos quatro cantos do planeta.

O raio do velho tem realmente uma capacidade de gerar o caos que faria corar de inveja qualquer borboleta chinesa que se preze!

Quando a trégua em Gaza terminar Israel irá retomar os bombardeamentos assassinos sobre a população. E as forças da resistência continuarão em segurança, à espera na segurança dos seus túneis fortificados.

Quando o mar bate na rocha…


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O Hamas vence a batalha por Gaza

(Por Scott Ritter, in Resistir, 28/11/2023)

O cessar-fogo recentemente anunciado é uma bênção tanto para os palestinos como para os israelenses – uma oportunidade para a troca de prisioneiros, a ajuda humanitária ser distribuída aos necessitados e para as emoções de ambos os lados do conflito arrefecerem.

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O Escorpião picará o Sapo dos EUA?

(Alastair Crooke, in Sakerlatam.org, 22/11/2023)

Netanyahu está preparando o terreno para uma armadilha à Administração Biden, ao manobrar para que os EUA não tenham outra escolha senão juntarem-se a Israel.


A alegoria é aquela em que um escorpião depende do sapo para atravessar um rio inundado, pegando uma carona nas costas do sapo. A rã desconfia do escorpião; mas relutantemente concorda. Durante a travessia, o escorpião pica fatalmente o sapo que nadava no rio, sob o escorpião. Ambos morrem.

É um conto da antiguidade que pretende ilustrar a natureza da tragédia. Uma tragédia grega é aquela em que a crise que está no cerne de qualquer “tragédia” não surge por mero acaso. O sentido grego é que a tragédia é onde algo acontece porque tem que acontecer; pela natureza dos participantes; porque os atores envolvidos fazem com que isso aconteça. E eles não têm escolha a não ser fazer isso acontecer, porque essa é a sua natureza.

É uma história que foi contada por um antigo diplomata israelense, bem versado na política dos EUA. A sua narração da fábula da rã fez com que os líderes de Israel se defendessem desesperadamente da responsabilidade pelo desastre de 07 de outubro, com um gabinete a tentar furiosamente transformar a crise (psicologicamente) num desastre culpável – para apresentar ao público israelense, em vez disso, uma imagem de oportunidade épica.

A quimera apresentada é aquela que, ao remontar à ideologia sionista mais antiga, Israel pode transformar a catástrofe em Gaza – como o Ministro das Finanças Smotrich há muito argumentou – numa solução que, de uma vez por todas, “resolva unilateralmente a contradição inerente entre as aspirações judaicas e palestinas” – acabando com a ilusão que qualquer tipo de compromisso, reconciliação ou divisão é possível.

Esta é a potencial picada de escorpião: o gabinete israelense aposta tudo numa estratégia extremamente arriscada – uma nova Nakba – que poderia arrastar Israel para um grande conflito, mas ao fazê-lo também afundaria o que resta do prestígio ocidental.

É claro que, como sublinha o antigo diplomata israelita, esta manobra é essencialmente construída em torno da ambição pessoal de Netanyahu – ele manobra para aliviar as críticas e permanecer no poder enquanto puder. Mais importante ainda, ele espera que isto lhe permita espalhar a culpa, libertando-se de si mesmo de toda e qualquer responsabilidade. [Melhor ainda], “pode colocar Gaza num contexto histórico e épico como um evento que pode tornar o Primeiro-Ministro um líder formativo de grandeza e glória durante a guerra”.

Exagerado? Não necessariamente.

Netanyahu pode estar debatendo-se politicamente pela sobrevivência, mas também é um verdadeiro “crente”. Em seu livro Going to the Wars, o historiador Max Hastings escreve que Netanyahu lhe disse na década de 1970 que: “Na próxima guerra, se fizermos certo, teremos a chance de tirar todos os árabes de lá… Podemos limpar a Cisjordânia, resolver Jerusalém.”

E o que pensa o gabinete israelense sobre a “próxima guerra”? Pensa ‘Hezbullah’. Como observou recentemente um ministro, “depois do Hamas, passaremos a lidar com o Hezbollah”.

É precisamente a confluência de uma longa guerra em Gaza (de acordo com as linhas estabelecidas em 2006) e uma liderança israelense aparentemente com a intenção de provocar o Hizbullah a subir e a subir a escada rolante, que está a fazer com que luzes vermelhas pisquem dentro da Casa Branca, de acordo com o ex-diplomata israelense.

Na guerra de 2006 com o Hezbollah, todo o subúrbio urbano povoado de Beirute – Dahiya – foi arrasado. O General Eizenkot (que comandou as forças israelenses durante a guerra e agora é membro do ‘Gabinete de Guerra’ de Netanyahu) afirmou em 2008: “O que aconteceu no bairro Dahiya de Beirute em 2006 acontecerá em todas as aldeias de onde Israel for alvo de tiros… De do nosso ponto de vista, estas não são aldeias civis, são bases militares… Isto não é uma recomendação. Este é um plano. E foi aprovado.”

Daí o tratamento recebido por Gaza.

Não é provável que o Gabinete de Guerra israelita procure provocar uma invasão em grande escala de Israel pelo Hezbollah (o que representaria uma ameaça existencial); mas Netanyahu e o gabinete talvez gostassem de ver a atual troca de tiros na fronteira norte escalar até ao ponto em que os EUA se sintam compelidos a lançar alguns golpes de alerta sobre a infraestrutura militar do Hezbollah.

Com as FDI já atacando civis a 40 km dentro no Líbano (um carro com uma avó e as suas três sobrinhas foi incinerado na semana passada por um míssil das FDI), a preocupação dos EUA com a escalada é real.

É isto que preocupa a Casa Branca, afirma o diplomata. O Irã confirma que recebeu nada menos que três mensagens dos EUA num dia, dizendo a Teerã que os EUA não procuram guerra com o Irã. E um enviado americano, Amos Hochstein, tem feito rondas em Beirute insistindo que o Hezbollah não deve escalar em resposta aos ataques transfronteiriços israelenses.

“A relutância de Netanyahu em enunciar quaisquer ideias sobre o ‘dia seguinte’ em Gaza – e os grandes e ameaçadores desenvolvimentos crescentes no Líbano – estão criando uma ruptura entre as políticas dos EUA e de Israel, ao ponto de alguns na administração Biden e no Congresso começarem a pensar que Netanyahu está tentando arrastar os americanos para uma guerra com o Irã”.

“[Netanyahu] ‘não está interessado numa segunda frente no norte com o Hezbollah’”, diz o ex-funcionário, acrescentando, no entanto, que eles [na Casa Branca] acreditam que um ataque dos EUA contra as provocações do Irã poderia potencialmente transformar o desastre abjecto de Netanyahu numa espécie de triunfo estratégico.”

“Essa é a mesma lógica complicada que o guiou quando encorajou a sua alma gêmea, o então presidente Donald Trump, a retirar-se unilateralmente do acordo nuclear com o Irã em maio de 2018. Essa foi também a lógica subjacente à sua audiência no Congresso de 2002, encorajando os americanos a invadir Iraque, porque iria “estabilizar a região” e “repercutir” no Irã”.

Esses medos estão no cerne da “tragédia” que “tem que acontecer” – o sapo concordou muito cautelosamente em carregar o escorpião durante a travessia do rio, mas quer uma garantia de que, dada a natureza do escorpião, ele não picará seu benfeitor.

A administração Biden, da mesma forma, não confia em Netanyahu. Ela não deseja “ser picada” por ser arrastada para uma guerra pantanosa com o Irã.

A dor é palpável: o gabinete de Netanyahu está gradual e deliberadamente preparando o terreno para a armadilha à Administração Biden, manobrando para que Washington tenha pouca escolha a não ser juntar-se a Israel, caso a guerra se amplie.

Como em toda tragédia clássica, o desfecho surge porque os atores envolvidos fazem com que ela aconteça; eles não têm escolha a não ser fazer acontecer, porque essa é a natureza deles. “O primeiro-ministro israelense não apenas rejeita qualquer ideia ou pedido vindo de Washington; Netanyahu quer explicitamente que a guerra em Gaza continue indefinidamente, sem qualquer corolário político”, relata o ex-funcionário.

Consideremos também a definição explícita de Jake Sullivan das linhas vermelhas dos EUA: Não há reocupação de Gaza; nenhum deslocamento da sua população; nenhuma redução do seu território; nenhuma desconexão política com as autoridades da Cisjordânia; nenhuma alternativa de tomada de decisão, salvo apenas os palestinos – e nenhum regresso ao status quo ante.

Netanyahu simplesmente rejeita todas estas “linhas” numa única frase: Israel, disse ele, supervisionaria e manteria “a responsabilidade geral pela segurança” por um período de tempo indefinido. De uma só vez, ele mina o objetivo final identificado pelos EUA, deixando-os à mercê dos ventos frios de um sentimento global e interno cada vez mais antipático, e as areias da ampulheta a esgotarem-se.

O “fim do jogo” de Smotrich é evidente: Netanyahu está construindo apoio interno popular para um novo ultimato silencioso para Gaza: “emigração ou aniquilação”. Isto é um anátema para a administração Biden. As décadas de diplomacia americana no Oriente Médio “foram por água abaixo”.

Washington observa com crescente desconforto a “escalada militar horizontal” em toda a região e interroga-se se Israel sobreviverá a este laço cada vez mais apertado. No entanto, os EUA têm apenas meios e tempo limitados para restringir Israel.

O apoio imediato de Biden a Israel está criando turbulência a nível interno e acarretando um preço político que – faltando um ano para as eleições – têm consequências. Talvez fosse “da natureza de Biden” que ele pudesse acreditar que poderia “abraçar” Israel para obedecer aos interesses dos EUA. No entanto, não está funcionando – deixando-o preso com um escorpião nas costas.

Alguns argumentam que a solução é simples: ameaçar cortar o fornecimento de munições ou o financiamento que flui para Israel. Parece simples. Constituiria uma “ameaça” poderosa; mas para que isso acontecesse, seria necessário que Biden enfrentasse o todo-poderoso “Lobby” e o seu forte controle sobre o Congresso. E esta não é uma competição que ele provavelmente venceria. O Congresso está solidamente com Israel.

Alguns sugerem que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU [CSNU] poderia impor “um fim ao pesadelo de Gaza”. Mas Israel tem uma longa história de simplesmente ignorar tais resoluções (de 1967 a 1989, o Conselho de Segurança da ONU adoptou 131 resoluções abordando diretamente o conflito árabe-israelense, a maioria das quais teve pouco ou nenhum impacto). Na quarta-feira desta semana, o CSNU aprovou uma resolução apelando a pausas humanitárias. Os EUA abstiveram-se e, muito provavelmente, a resolução será ignorada.

Então, um apelo mundial por uma solução de dois Estados poderia ser melhor? Até agora não aconteceu. Sim, teoricamente o CSNU pode impor uma resolução, mas o Congresso dos EUA “enlouqueceria” se o fizesse e ameaçaria com força qualquer pessoa que tentasse implementá-la.

No entanto, dito sem rodeios, a retórica dos dois Estados não entende o essencial: não é apenas o mundo islâmico que está sofrendo uma furiosa transformação popular – Israel também está. Os israelenses estão zangados e passionais e, com uma maioria esmagadora, aprovam a aniquilação em Gaza.

A contextualização de Netanyahu da guerra de Gaza em termos absolutamente maniqueístas – luz versus escuridão; civilização versus barbárie; Gaza como sede do mal; todos os habitantes de Gaza são cúmplices do mal do Hamas: os palestinos como não-humanos – tudo isto está despertando emoções e memórias israelenses de uma ideologia ao estilo de 1948.

E isto não se limita à Direita – o sentimento popular em Israel está a mudar de liberal-secular para bíblico-escatológico.

O presidente do B’Tselem O Conselho Executivo, Orly Noy, escreveu um artigo – O Público Israelense Abraçou a Doutrina Smotrich – que sublinha como a internalização do “Plano Decisivo” de Smotrich se manifesta no apoio popular à política de “ emigração ou aniquilação” de Israel em Gaza:

“Há seis anos, Bezalel Smotrich, então um jovem membro do Knesset no seu primeiro mandato, publicou o seu pensamento sobre um fim de jogo para o conflito israelo-palestiniano… Em vez de manter a ilusão de que um acordo político é possível, argumentou ele, a questão deve ser resolvida unilateralmente de uma vez por todas.

[A solução Smotrich propôs oferecer] “aos 3 milhões de residentes palestinos uma escolha: renunciar às suas aspirações nacionais e continuar a viver nas suas terras num estatuto inferior, ou emigrar para o estrangeiro. Se, em vez disso, decidirem pegar em armas contra Israel, serão identificados como terroristas e o exército israelense começará a “matar aqueles que precisam de ser mortos”. Quando questionado numa reunião, na qual apresentou o seu plano a figuras religioso-sionistas, se ele também se referia a matar famílias, mulheres e crianças, Smotrich respondeu: “Na guerra como na guerra””.

Orly Noy argumenta que este pensamento não está simplesmente confinado ao Gabinete ou à Direita israelita – pelo contrário, tornou-se dominante. A mídia israelense e o discurso político mostram que, quando se trata do atual ataque das FDI a Gaza, grande parte do público israelense internalizou completamente a lógica do pensamento de Smotrich.

“Na verdade, a opinião pública israelense em relação a Gaza, onde a visão de Smotrich está sendo implementada com uma crueldade que mesmo ele pode não ter previsto, é agora ainda mais extrema do que o próprio texto do plano. Isto porque, na prática, Israel está retirando da agenda a primeira possibilidade que lhe é oferecida – de uma existência inferior e despalestinizada – que até 07 de outubro foi a opção escolhida pela maioria dos israelenses”.

A implicação desta ‘smotricização’ do público é que Israel – como um todo – está tornando-se radicalmente alérgico a qualquer forma de Estado palestino existente. O público, observa ela, passou agora a ver a recusa dos palestinos em submeter-se ao poder dos militares israelenses como uma ameaça existencial em si – e razão suficiente para o seu deslocamento.

Fonte aqui


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