O direito — o nosso e o dos outros

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 24/03/2023)

Miguel Sousa Tavares

Se, de facto, a Rússia raptou 6000 crianças ucranianas e, à revelia dos seus pais, as levou para a Rússia, com o conhecimento ou o consentimento do Presidente russo, então Vladimir Putin pode ser indiciado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), órgão das Nações Unidas, sob a acusação de crime de “genocídio”, ao abrigo do artigo 5º, alínea e), dos seus estatutos, que reza o seguinte: “Transferência, à força, de crianças do grupo para outro grupo.” Porém, tal pressupõe previamente diligências de investigação, de prova, de notificação, de contraditório e de defesa que, nos termos do artigo 18, manifestamente não parecem ter sido feitas antes de, com todo o ribombar de canhões na imprensa internacional, o TPI ter declarado Putin “arguido” e contra ele ter emitido um mandado de captura que dizem ser válido em 142 países signatários dos seus estatutos, Portugal incluído — como pressurosamente informou ao país e ao mundo o ministro João Cravinho.

Mas, além dessa minudência processual, concorre ainda outra questão nada menor. Sucede que, não só a Rússia — para efeitos processuais definida como “outra parte” — não é signatária e membro do TPI como não o são também países como Israel, a Turquia, a Arábia Saudita ou os Estados Unidos. Et pour cause. Se o fossem, Israel cairia sob a alçada do artigo 7º, alínea j) — “Crimes contra a Humanidade”, por apartheid; a Arábia Saudita veria o seu príncipe regente, o que mandou cortar às postas o jornalista saudi-americano Khashoggi na embaixada saudita de Istambul, e a quem Biden foi visitar a Riade para lhe pedir em vão petróleo, acusado por “homicídio”, ao abrigo do artigo 7º, alínea a); Erdogan, a quem os outrora Estados de honra da Escandinávia agora mendigam um nihil obstat para que eles os deixe entrar na NATO, seria declarado cadastrado internacional nos termos do artigo 7º por todos os “crimes contra a Humanidade” que pratica à vista de todos contra a comunidade curda do seu país; a NATO, com os Estados Unidos à cabeça, e o ex-Presidente George W. Bush teriam de responder, de acordo com o artigo 8º, que reza sobre os “crimes de guerra”, sobre os 78 dias de bombardeamentos aéreos de Belgrado, onde morreram 2500 civis inocentes em troca de conseguir a rendição do criminoso de guerra Slobodan Milosevic, transportado em glória para ser julgado em Haia… pelo TPI, ou sobre a “Operação Choque e Pavor”, mais conhecida como a 2ª Guerra do Iraque, responsável por 100.000 mortos, quando um grupo de aliados dos americanos, incluindo Portugal, invadiu um país soberano para procurar armas que não existiam — ambas as operações sem mandato da ONU; e os Estados Unidos e três dos seus Presidentes, incluindo o actual, teriam de responder, nos termos do artigo 7º, alínea e), pelo crime de “prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave, em violação das normas fundamentais do direito internacional”. Porque Abu Ghraib (fechada em 2014) e Guantanamo são prisões ilegais, fora de quaisquer jurisdições reconhecidas, para onde os presos foram transportados clandestinamente (e com a cooperação portuguesa), depois de terem sido sequestrados nos seus países, e onde estão, alguns porventura inocentes, há dez ou doze anos, sem direito a advogados, a contactos com as famílias e a correspondência com o exterior, sem serem julgados ou condenados, a poderem ser torturados por ordem presidencial, e a poderem ficar ali até ao final da vida sem que nenhum tribunal se preocupe com eles.

<span class="creditofoto">ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO</span>
ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Sim, Putin não é flor que se cheire. É mesmo um assassino, como disse Biden. Tem aquele hábito desagradável de se livrar dos seus adversários envenenando-os no estrangeiro ou fazendo-os suicidar-se saltando do alto de prédios na Rússia. Nisso, como em outras coisas, embora mais brandamente, segue a tradição dos czares russos que empalavam os seus inimigos fora das muralhas do Kremlin e ali os deixavam a agonizar para servirem de exemplo. Na guerra da Ucrânia, seguramente que, em Bucha e não só, os russos cometeram barbaridades.

Mas só quem não conheça a história da selvajaria secular dos eslavos e da barbaridade das guerras civis, como esta é, só quem ainda se deixe embalar pela narrativa unilateral que aqui, no Ocidente, nos é servida, é que pode acreditar que esta é uma guerra única: bandidos de um lado, anjinhos do outro. Às tantas, a Amnistia Internacional ousou quebrar timidamente essa unanimidade informativa e opinativa estabelecida como verdade única e logo foi trucidada e silenciada na Ucrânia e nas “democracias liberais”.

Temos, pois, Putin, como fugitivo internacional, segundo um critério judicial que se aplica a ele mas não a outros. E o que ganhamos com isso? Segundo uns crânios domésticos de Relações Internacionais e Direito Internacional que tenho escutado, ganhamos muito: agora o homem está diminuído, desprestigiado, acossado. E foi esse pobre e irrelevante homem, esse desprestigiado fugitivo a quem o ministro Cravinho e mais 141 dos seus homólogos prometem deitar a mão, que eu vi esta semana receber em Moscovo o outro homem que vai decidir os destinos do mundo: Xi Jinping. Aquele sobre quem, numa perfeita definição da imensa estupidez aonde nós, o Ocidente, chegámos, um comentador político chinês resumiu a mensagem dos Estados Unidos: “Ó Xi, diga lá ao Putin que vai deixar de o apoiar para que a seguir nós nos ocupemos de si sem ter a Rússia a apoiá-lo.” Caramba, e andam aqui os nossos mestres, professores doutores de Relações e Política Internacional, os auditores dos cursos de Defesa Nacional, os autores (que são sempre os mesmos, dê o mundo as voltas que der) dos Conceitos Estratégicos de Defesa Nacional, a elaborar consumadas teses sobre geoestratégia mundial e, afinal, um modesto comentador da TV chinesa resume tudo numa simples frase que transforma tudo o resto em absoluto ridículo!

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Como disse Aleksandar Vucic, Presidente da Sérvia, a consequência mais óbvia da declaração do TPI é que a Ucrânia fica sem interlocutor com quem negociar a paz. Mas não será isso justamente o que se pretende? Todas as tentativas de mediação surgidas até agora, por mais tímidas que fossem, foram descartadas à partida pelo Ocidente, por inviáveis ou não credíveis: a do Brasil, a da Turquia, a da China, a do Papa. Eufórico, o secretário-geral da NATO, Stoltenberg, já avisou que na próxima cimeira da organização, em Vilnius, vai pedir que o patamar dos 2% do PIB que cada membro tem de gastar com a defesa seja aumentado, e não faz segredo que a área de influência e futura actuação da NATO deve estender-se para a Ásia-Pacífico, assim acompanhando a sua nova Carta, não escrita, que é a de ser a extensão do braço armado dos Estados Unidos, aonde quer que ele vá. Quanto à Ucrânia, e como explicou Teresa de Sousa em recente artigo no “Público”, permaneceremos amarrados em duas posições inconciliáveis: o “campo da paz” e o campo da guerra — perdão, o “campo da justiça”. Sendo que, segundo ela, o campo da paz é-o “da paz a qualquer preço”, e o da “justiça” será então o da guerra a qualquer preço, visto que a justiça não tem preço. Mas eis que agora andam muito incomodados porque, depois de terem passado um ano a tecer loas ao inacreditável fortalecimento do Ocidente que o aventureirismo de Putin tinha proporcionado, olham à roda e vêm uma Europa economicamente destroçada e a China a ocupar paulatina e sabiamente todo o resto do mundo deixado para trás e que estranhamente não vê vantagem em “ocidentalizar-se” — para usar a expressão escandalizada de uma ex-embaixadora americana na NATO. Tudo isto vai acabar espantosamente mal para o Ocidente.

2 Já toda a gente percebeu que este plano governamental para a habitação foi feito em cima do joe­lho e fruto do desespero e da desesperança. É verdade, porém, que não se conhece nenhum outro em alternativa nem tal seria possível. Porque a situação actual não reflecte, de facto, uma crise de habitação, mas uma crise anterior, a montante e muito mais profunda, que nenhum plano de urgência resolverá num par de anos. Numa das muitas discussões que ocorrem, ouvi dizer que o problema estoirou porque, enquanto que até à última década se construíam 800.000 casas a cada dez anos, na última década só se construíram 100.000. Mas não é esse o problema: basta percorrer o país para ver que não faltam casas vazias em Portugal, mas se o Governo quiser deitar-lhes a mão, não encontrará ninguém que queira ir viver nelas.

Não há um problema de falta de casas em Portugal: há, sim, em Lisboa e no Porto e suas periferias. E esse problema chama-se desertificação e abandono do interior e começou a sério há 30 anos.

E sabem quem foi o primeiro responsável político por ele? Um senhor que ainda há dias fez um sermão à pátria, como sempre culpando os outros pelos problemas que ele, na altura, jurou ter deixado resolvidos para sempre. Esse mesmo: Aníbal Cavaco Silva. Há 30 anos — e porque na sua imensa incultura política não percebeu que a agricultura era muito mais do que um negócio de deve e haver —, Cavaco Silva começou por vender a agricultura portuguesa a Bruxelas por tuta e meia. Aí se iniciou o processo de morte do mundo rural e consequente êxodo para as cidades, acentuado depois pelo abandono, sempre subsidiado, das pescas, das indústrias extractivas, dos têxteis, sem nenhuma contrapartida oferecida a quem se quisesse estabelecer no interior e no vazio deixado. Desprezando o modelo europeu das cidades de média dimensão, Cavaco Silva abandonou também os caminhos de ferro e dedicou-se a construir auto-estradas para, como disse então Ribeiro Telles, os espanhóis colocarem cá mais depressa os produtos deles. Foi quando, seguindo sempre um critério rentabilista, se começaram a fechar hospitais e centros de saúde na província, tribunais, correios, escolas, tudo o que representasse a presença do Estado junto dos portugueses, que viviam num círculo vicioso de despovoamento. Apostou tudo nos serviços e no turismo, convidando os portugueses a virem viver para o Porto e Lisboa ou para trabalharem no Algarve, no Verão. Quem veio a seguir a ele continuou o mesmo caminho sem retorno para um país que hoje parece sem salvação à vista. E não foi por falta de avisos ou falta de estatísticas e relatórios crescentes do que se estava a passar. Foi porque, como sempre, nunca há tempo de pensar o país além da próxima eleição ou da próxima greve.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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Um ano de estupidez humana

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 24/02/2023)

Miguel Sousa Tavares

Um ano depois, a Ucrânia, sobretudo as suas pequenas cidades e aldeias do interior, continua a ser paulatinamente devastada e nem Putin conseguiu a rápida vitória que teria previsto nem a NATO conseguiu, por interposto Zelensky, correr com os russos da Ucrânia. No terreno, a guerra de artilharia levada a cabo incansavelmente por ambos os lados, e sem saída militar à vista, é mantida, do lado russo, pelo envio constante de cada vez mais soldados para a morte e, do lado ucraniano, por uma tão persistente exigência de mais armas ao Ocidente que se atingiu a situação jamais vista de exaustão de munições nos arsenais da NATO. Entretanto, a continuação da guerra devora economicamente a Europa e num só dia gasta-se 10 vezes mais em armas na Ucrânia do que aquilo que seria necessário para acorrer a oito milhões de sírios que dormem ao relento e morrem de fome e frio, sem auxílios internacionais, depois do terramoto de há três semanas. Mas, sintetizando aquilo que é a voz comum de uma Europa “unida como nunca”, decretou há dias o nosso António Costa que “a paz só é possível com a vitória da Ucrânia e a derrota da Rússia”. Mas o que será essa esperada derrota da Rússia? A retirada de todos os territórios conquistados nesta invasão — seguramente que sim, que é exigível; a participação na reconstrução da Ucrânia, sim; a entrega à justiça dos responsáveis por crimes de guerra, como os de Bucha, sim. Mas também a renúncia aos Acordos Minsk II assinados pela Ucrânia? A devolução da Crimeia, que por breves 23 anos numa história secular e por descuido de um irresponsável chamado Ieltsin, pertenceu à Ucrânia independente? A aceitação da Ucrânia como membro de pleno direito da NATO e também da Geórgia e uma base americana em Odessa? Ou a derrota militar total no terreno dos exércitos russos, custe isso o que custar aos ucranianos e sejam quais forem os riscos de escalada envolvidos? António Costa e os seus iluminados pares acreditam mesmo que a “solução pacífica” estará em conseguir fazer sair a Rússia, esmagada e humilhada, da Ucrânia?

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

E, se bem que seja este o único horizonte de esperança que estes líderes europeus têm para nos oferecer para o próximo ano, há coisas curiosas e contraditórias nesta guerra, onde alguns espíritos, outrora mais lúcidos, comparam a invasão russa à “barbárie nazi” e insistem que não há outra solução para a paz que não a guerra. Ora, reparem: esta é uma guerra onde, a todo o tempo, os dois lados trocam entre si prisioneiros de guerra; onde um dos lados, a Rússia, permite ao outro que continue a escoar o grosso das suas exportações — os cereais — através de portos no mar Negro, que lhe seria fácil bloquear, ao mesmo tempo que viu as suas exportações de gás para a Europa serem definitivamente encerradas através da sabotagem dos gasodutos civis Nord Stream I e II, numa operação que, sendo “nossa” e não “deles”, não pode, obviamente, ser classificada como terrorismo; onde, apesar da destruição causada pelos invasores, as principais cidades da Ucrânia e, sobretudo, as cidades cuja história está intimamente ligada à da Rússia, Kiev e Odessa, permanecem fundamentalmente intactas e com uma vida tão normal quanto possível em tempo de guerra: a “barbárie nazi” não tocou em Odessa, onde 60 mil soldados russos morreram na II Grande Guerra para a resgatar dos nazis, nem em Kiev, onde todos os líderes europeus se passeiam livremente e Joe Biden foi reafirmar ao “assassino” Putin que não tem nada a negociar com ele, depois de o ter cautelarmente avisado de que iria ali fazer uma corajosa “visita-surpresa”.

Dez pacotes de sanções à Rússia puseram de joelhos a Europa, mas não a Rússia e, menos ainda, os Estados Unidos, e deixaram de fora os preciosos diamantes da praça de Antuérpia, e Boris Johnson, o grande campeão da solidariedade ocidental para com a Ucrânia, exibe-se pelo “mundo livre” a expor as virtudes da continuação da guerra sem fim ao preço de 200 mil euros por conferência. Mas se mesmo em plena guerra, e apesar dela, é possível estabelecer acordos destes, não seria possível, havendo um mínimo de vontade séria, de lançar bases exploratórias de uma negociação de paz?

Sim, não tenho dúvidas, Vladimir Putin toma-se por um novo czar. Eu, se fosse russo e habitasse no Palácio de Inverno de S. Petersburgo ou no de Tsarskoye Selo e se conhecesse a história da Rússia imperial, também era capaz de sofrer da mesma patologia. Mas tão culpado é o doente como os que se aproveitam da sua demência. Só passou um ano e ainda é cedo; por ora, conhecemos apenas os inacreditáveis erros de avaliação e estratégia de Vladimir Putin; um dia conheceremos toda a história por detrás deles. Oxalá ainda valha a pena.

2 Depois de confiscarem a terra aos proprietários — o que bem se justificava —, os revolucionários russos de 1917 trataram também de confiscar os cereais aos pequenos produtores e camponeses face à escassez de oferta no mercado. Revoltados, os mujiques reduziram a produção e esconderam o pouco que produziam para consumo próprio. Apesar dos fuzilamentos em massa, seguiram-se anos de fome que mataram milhões de pessoas na Rússia e na Ucrânia. Quando a oferta escasseia, a tentativa do Estado de se sobrepor à força às leis do mercado raramente melhora a economia e dificilmente não perturba a liberdade. Mas não foi por súbito assomo de ideologia “comunista” que o Governo resolveu lançar mão dos arrendamentos compulsivos das “casas devolutas”, intervir administrativamente no preço dos alugueres ou atacar os AL: foi por desespero. Esse desespero é compreensível e a tentativa de finalmente fazer alguma coisa é louvável. Até porque, ao contrário da indignação hormonal da direita, eu não acho que exista um direito à propriedade ao abandono. Simplesmente este não é o caminho, e bastaria ter visto a ministra da Habitação completamente à toa na SIC para o perceber: não só essa solução lançaria o país numa guerra política e de litigância sem fim à vista, como jamais o Estado teria a capacidade de pôr em execução uma medida abrangendo as 730 mil casas devolutas do país com um mínimo de eficiência e justiça.

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Porém, o pacote Mais Habitação tem coisas boas, como o fim dessa mistificação que são os vistos gold ou a simplificação dos processos de licenciamento de construção. Omite coisas em falta de há muito, como a municipalização de solos urbanos públicos e a sua entrega a sociedades mistas de construtores e cooperativas de habitação ou compradores para habitação própria a preços controlados. Mas erra por completo o tiro ao alvo principal, que é a inexistência desde há décadas de um mercado de arrendamento funcional. Por isso é que somos o país europeu onde mais gente é proprietária de casa própria ou, melhor dito, devedor ao banco de um empréstimo para compra de casa própria (o que, por sua vez, demonstra até que ponto é uma vergonha que, com este maná nas mãos, a banca tenha tido de ser tantas vezes socorrida pelos contribuintes). Perceber por que razão tão poucos investidores estão interessados em comprar casas para as arrendar deveria, pois, ser o primeiro passo para atacar o problema a prazo. Mas como a situação é de emergência, não há outro caminho a curto prazo que não o do alívio fiscal sobre os rendimentos dos senhorios. Isso deixará a extrema-esquerda aos berros e obrigará a fazer poupanças na despesa com a clientela fixa do Estado. Mas a alternativa é deixar tudo na mesma, uma geração inteira sem direito a uma casa.

3 Tão certo como a seguir ao Outono vir o Inverno, era de esperar que depois da divulgação do relatório da Comissão Independente sobre os abusos sexuais sobre menores na Igreja Católica Portuguesa surgisse o contra-ataque da parte desses católicos ajoelhados perante a sua hierarquia, beatos, confessionais, em tudo dispostos a desvalorizar, justificar, ocultar, contrapor: os sobreviventes da Igreja do nojento padre Frederico e do sinistro bispo do Funchal, que o cobriu e o comparou a Cristo. Os argumentos do contra-ataque foram os mesmos de sempre: anticlericalismo, ódio à Igreja, ateísmo militante e mais umas banalidades de ocasião. Mas também houve excepções, entre as quais o provincial dos Jesuítas, que não hesitou em ir ao fundo das questões, de forma desassombrada e corajosa. E agora, que a Igreja está debaixo de fogo, eu, que andei oito anos nos Jesuítas, de onde saí com uma amarga experiência pedagógica e ética, sinto-me, porém, obrigado a dizer, por dever de consciência, que, no que toca àquilo de que hoje se fala, jamais vivi de perto ou testemunhei qualquer coisa que pudesse ir parar ao relatório da Comissão. Da mesma forma que, na minha vida profissional errante, vi — em África, na Índia ou no Brasil, e em Portugal também — lugares e situações onde os sacerdotes católicos eram as únicas ou as mais evidentes presenças de humanismo e da palavra do Evangelho, e, para além disso, gente que eu gostaria de ter em minha casa, para os ouvir, para partilhar um vinho, para ficarmos amigos. Mas também conheci ou vi os outros, os padres betinhos, os deslumbrados, os da subterrânea Opus Dei. Um destes é o padre Gonçalo Portocarrero, de Almada, colunista do “Observador”. O que ele escreveu esta semana no jornal a tentar minimizar os abusos de décadas da Igreja é uma peça absolutamente abjecta e que merece ser publicamente denunciada. No seu texto, ele começa por tentar desvalorizar e ridicularizar o número de casos ocorridos através de uma aritmética da ocultação. A seguir, defende que o relatório não deveria ser público, mas apenas entregue à Comissão Episcopal (que adequado!), e que os relatos dos abusos foram uma violação da privação das vítimas e deveriam ter sido omitidos (que conveniente!), para concluir que, em tudo isto, a “Igreja portuguesa não foi cúmplice, mas sim vítima”. E, no fim, remete a coragem das denúncias para a Igreja e as culpas dos abusos para as “famílias”, que a Igreja doutrina: “É de esperar que a sociedade civil reconheça a nobreza deste gesto (da Igreja) e o saiba imitar.” À Igreja Católica, a que eu não pertenço, mas a que pertencem tantas pessoas que eu admiro e que nela acreditam, este padre Portocarrero, de Almada e da Opus Dei, não devia poder pertencer, pois que só lhe causa danos.

Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia


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O problema mal resolvido da habitação em Portugal

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 11/06/2019)

Paes Mamede

Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, a habitação, saúde e educação, cantava Sérgio Godinho nos tempos da revolução. A paz chegou logo. O pão, a saúde e a educação para todos foram sendo construídos, com bastante sucesso. A habitação foi e é a parente pobre do Estado Social em Portugal.

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Sem vontade ou condições políticas para pôr em causa o regime de propriedade urbana herdada do Estado Novo, o regime democrático resignou-se com a enorme desigualdade na distribuição da riqueza imobiliária. O congelamento das rendas foi a solução encontrada para diminuir a carga sobre os inquilinos, mas teve efeitos devastadores na degradação dos imóveis, desincentivando durante anos o investimento na construção para arrendamento.

Os governos acrescentaram ao congelamento das rendas a bonificação do crédito para compra de casa. Começou em 1983, com o governo do Bloco Central, e assim continuou durante décadas. A redução abrupta das taxas de juro e a concorrência desenfreada entre bancos na década de noventa deram o impulso que faltava para a explosão do crédito à habitação.

Em poucos anos Portugal tornou-se um dos países da Europa onde uma maior parcela de famílias é proprietária da casa onde reside. Isto transformou a estrutura social portuguesa, com implicações diversas – políticas e económicas.

O incentivo do Estado à compra de casa própria foi um dos principais determinantes do endividamento das famílias portuguesas. Entre 1995 e 2008 Portugal foi o país da UE onde mais aumentou a dívida das famílias em percentagem do PIB e cerca de 4/5 desse aumento são explicados pelos empréstimos à habitação. Por outras palavras, tentou-se resolver o problema da habitação convidando as famílias a endividarem-se para níveis pouco frequentes noutros países europeus.

O endividamento excessivo das famílias tornou-se um problema logo que a economia começou a abrandar, na viragem do século. Em alguns casos, as pessoas que perderam o emprego, ou cujos rendimentos caíram por qualquer outro motivo, deixaram de conseguir pagar o empréstimo e perderam as suas casas (continuando ainda assim a ter de pagar a dívida ao banco). Em Portugal estes casos foram menos frequentes do que noutros lados, mas houve outras consequências.

Pessoas muito endividadas têm menos rendimento disponível, pelo que consomem e investem menos. Quando isto acontece em larga escala, há menos procura agregada no país, o que se traduz em menos actividade económica e menos emprego. Passa por aqui uma parte da história do mau desempenho da economia portuguesa após 2000.

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Além disso, o sistema bancário ficou refém do mercado imobiliário. Quando grande parte do negócio bancário depende do crédito à habitação, qualquer redução do preço das casas pode tornar-se um problema. Para os bancos, as casas cuja compra financiam constituem uma garantia, um activo que permite realizar outros negócios. Se o valor das casas cai – como aconteceu após 2008 – os bancos ficam em dificuldade. Num sistema como aquele que vivemos, isto significa menos financiamento a custos mais elevados para o conjunto da economia – senão mesmo a necessidade de injectar o dinheiro que é de todos em bancos insolventes.

A dependência da banca face ao crédito para habitação, há muito estimulada pelos poderes públicos, é hoje outra vez um risco e um problema. O Banco de Portugal tem alertado para os efeitos negativos de uma possível interrupção da dinâmica dos preços do imobiliário. Mas também esta é apenas uma parte da questão.

Há hoje muita gente com poder que está pouco interessada em que os preços das casas desçam. Os bancos, porque veriam o seu balanço deteriorar-se outra vez. Os fundos de investimento imobiliário, cujos lucros dependem do aumento do preço das casas. Os grandes escritórios de advogados, que representam os interesses dos fundos estrangeiros no nosso país, que têm na assessoria às operações imobiliárias uma parte importante do seu negócio. O governo, que não quer ficar com uma crise nas mãos para gerir.

A grande aposta do governo anterior e da troika para o problema da habitação – a liberalização das rendas e dos despejos – baseava-se num pressuposto simples: aumentando o retorno e reduzindo o risco para os senhorios, haveria mais oferta de casas para arrendamento. Se isto aconteceria ou não num mundo ideal, não sabemos. No contexto actual, marcado pela explosão do turismo e pela enorme liquidez dos fundos imobiliários internacionais, o resultado é conhecido: o negócio da compra e venda de casas aumentou muito, mas a vida de quem necessita de casa para viver tornou-se ainda mais difícil. Uma parte crescente da população portuguesa está a ser empurrada para fora dos centros urbanos – exactamente o contrário do que prometeram.

A solução a prazo para os problemas de habitação não precisam de ser inventados: foram postos em prática há décadas por algumas das principais cidades europeias. É necessário que uma parte importante do mercado de habitação seja protegida das lógicas especulativas. Para isso é necessário pôr nas mãos do sector público e/ou do sector cooperativo boa parte da oferta de casas para quem cá vive todos os dias.

Portugal é um dos países europeus onde a habitação pública e/ou cooperativa é mais reduzida. Vai demorar muitos anos a corrigir este atraso. Mas é preciso começar a fazê-lo. Mais vale tarde do que nunca.

Economista e Professor do ISCTE-IUL