Cultura de exigência? Se alguma persiste, terias de te demitir!

(Hugo Dionísio, in substack. 10/09/2026, Revisão da Estátua)


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Em Portugal, os ricos pagam colégios privados dispendiosos para que os seus filhos obtenham, quase automaticamente, as notas de que necessitam para entrar nas universidades economicamente acessíveis do público, atirando para as universidades dispendiosas privadas e detidas pelos ricos, os filhos dos trabalhadores que têm de andar nas escolas públicas, nas quais não se pode pagar para obter notas mais altas!

Eis, em algumas palavras, o resumo da educação em Portugal! O rico envia o filho para o privado e daí para o público e o pobre, envia o filho para o público e daí para o privado, para a imigração ou para lado nenhum!

Daí que. esta “cultura de exigência”, vinda de um governo como este soa como ouvir um fumador falar em combate ao tabagismo. Vamos pedir às nossas crianças que façam como está a fazer o Ministro da Educação? Com a mesma “cultura de exigência” com que ele tratou a colocação de professores e a privatização da correcção dos exames nacionais? Vamos aplicar a mesma “cultura de exigência” que Montenegro aplicou quando disse que ia, em 60 dias de governação, criar e aplicar um plano de acção para a resolução do caos na Saúde? Ou demandaremos uma “cultura de exigência” do tipo daquela que foi usada no bónus da REN ao dono da ZARA? E que tal a “cultura de exigência” no caso das fragatas italianas?

Os resultados obtidos no PISA 2025 só podem admirar quem tem andado a dormir, de forma muito profunda, nos últimos 15 anos. Nem por um momento poderia haver dúvidas sobre o caminho prosseguido. E nem vale a pena atirar com as culpas apenas a Montenegro e companhia, uma vez que as responsabilidades governativas foram repartidas e houve quem tivesse tempo de inverter o caminho de descalabro para onde este país rapidamente avança.

Quando, ainda no tempo de Durão Barroso, se decidiu, por razões puramente políticas e anti-sindicais, iniciar uma guerra contra os professores, supostamente por causa da sua avaliação, porque “tinha de haver cultura de exigência”, todos deveriam ter percebido que uma escola pública não funciona bem com a sua força de trabalho em permanente alvoroço devido às ofensivas governamentais. Com Sócrates, a realidade beligerante governo–sindicatos não mudou; contudo, valha a verdade, o período de José Sócrates foi o último em que sentimos um investimento efectivo na educação e na escola pública. É certo que se trataram de investimentos feitos com o autoritarismo e sujeitos às escolhas, não poucas vezes duvidosas, de José Sócrates.

Na década seguinte, Portugal sentiu esses investimentos, nomeadamente com a redução brutal da taxa de abandono escolar precoce, naquela que foi a maior redução registada na OCDE. No PISA 2015, Portugal obteve os melhores resultados de sempre. Mas quando chegámos à Troika de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas — Portugal que, com José Sócrates, tinha subido o investimento na educação para níveis médios próximos dos da OCDE —, com o governo PPD/CDS e com o beneplácito da UE e do FMI, o orçamento da educação baixou cerca de 30%, de forma abrupta. No final da legislatura neoliberal radical, o orçamento do Ministério da Educação ficava bem abaixo da média da OCDE. Nesses tempos, todos deveríamos ter percebido que a coisa não poderia correr bem. Diga-se em abono de Passos Coelho e Nuno Crato que, pelo menos, tiveram a esperteza saloia de suspender a participação de Portugal no PISA. Sabiam bem o que faziam e sabiam bem os resultados que daria.

Veio António Costa e este, em 8 anos de poder, poderia ter mudado Portugal para sempre! Poderia ter operado uma transformação deveras importante, não se ficando apenas por paliativos, os quais, em muitos casos, apenas foram introduzidos por imposição da “essssqueeerda raaadicaaalll” ou da “exxxxtreeemaaaa esssquerdaaaa”. Foi o caso dos manuais escolares gratuitos, dos aumentos nos apoios sociais e de algum desafogamento financeiro na vida das famílias, que lhes permitiu garantir melhores condições de educação às suas crianças. Não fossem os papões da “exxxxtreeemmmaaaa essssquerdaaaa”, nem sequer o PS teria chegado ao poder. O resultado foi o que se esperava por parte de um partido que vive no drama de dizer querer valorizar os direitos dos trabalhadores, a Constituição e os serviços públicos e de se submeter aos ditames de Bruxelas. Querer praticar uma política de esquerda, ao mesmo tempo que se submete a um enquadramento normativo, institucional e económico de caráter neoliberal e neocolonial, é algo muito complicado.

Valha a verdade: o único momento, ao longo de todo o século XXI, em que os salários portugueses quase convergiram com a média europeia, foi o período da jocosamente designada “geringonça”. Nesse período, a economia portuguesa cresceu também sempre acima da média. Bastou desapertar alguns dos calces neoliberais que asfixiam a economia e os trabalhadores e o país voltaram a ver alguma luz. Pela primeira vez, também, a legislação laboral foi “reformada” sem que os trabalhadores perdessem direitos. O resultado é conhecido. Com uma maioria absoluta, depois de traídas as esquerdas, sozinho, o executivo de António Costa foi alvo de um violento ataque de “lawfare”, algo que deveria ter-se previsto quando o patronato, em protesto, abandonou a Comissão Permanente de Concertação Social.

Nesse período, o país foi vítima das indefinições dos que se dizem “do centro”, “da moderação”, mas que são absolutamente sectários e fanáticos no seguidismo das políticas de Bruxelas, quando as mesmas se destinam a suprimir direitos e conquistas civilizacionais. Os únicos momentos em que os governos portugueses incumpriram as “recomendações” e imposições de Bruxelas trataram-se de situações que funcionariam a favor dos trabalhadores e do povo. Nesses casos, como o da habitação, o “centro moderado” esquece-se logo do bom comportamento.

Depois do golpe de Estado, do silêncio cúmplice e cobarde do PS e do exílio de Costa, forçado a abdicar, tal como querem fazer com Pedro Sánchez, pois Bruxelas e o capital monopolista têm horror aos governantes que, mesmo de forma limitada, conseguem governar para além das imposições do semestre europeu, dos planos, agendas, actos e estratégias de von der Leyen e da check-list do consenso de Washington.

Mas 8 anos de PS e uma maioria absoluta não resolveram o problema da falta de professores, nem a sangria anual de jovens portugueses que são forçados a emigrar devido aos custos especulativos da habitação; 8 anos e uma maioria absoluta não foram suficientes para repor os salários perdidos pelos professores, não sendo também suficientes para recuperar a imagem desta classe aos olhos do povo. Como querem que os estudantes levem a sério os ensinamentos dos professores, se tudo o que ouvem, em casa e na imprensa totalitária, é que os professores são acomodados, gostam é de progressões automáticas e estão habituados à boa vida sem exigência? Mesmo quando uma parte importante deles tem de viver com salários de miséria, estagnados, sem progressão e desenraizados do seu meio e longe das suas famílias?

Chega Montenegro, cheio de reformas e planos urgentes, mas de urgente só vimos a destruição de tudo o que resta da enorme transformação que o país sofreu entre 1974 e 1976, que conduziu à CRP de 1976 e à criação de um conjunto de garantias públicas que catapultaram este país para níveis de desenvolvimento, ainda que insuficientes e insuficientemente atingidos, mais consentâneos com o país que se diz uma “democracia”. Nada mais Montenegro tem feito do que engordar a extrema-direita e o neofascismo, seja seguindo os seus passos, seja contribuindo para o ressentimento e a desilusão.

Portanto, falar de “cultura de exigência” por parte de Montenegro é considerar que, então, todo o mal que este governo tem praticado tem-no feito de propósito e com enorme competência.

Será que o ódio destilado quanto à capacidade colectiva e organizativa demonstrada pelos professores não pode poupar os nossos filhos? Será que o ódio aos sindicatos, à capacidade reivindicativa, não pode esperar que os nossos filhos e crianças se formem? Destruir o colectivo dos professores é mais importante do que a educação das nossas crianças? Existe alguma escola pública forte que não tenha uma classe de professores igualmente forte, autónoma, independente?

Mas o mais interessante dos dados do PISA 2025 é que confirmam uma tendência que se vem acentuando nas últimas décadas e que está relacionada com a profunda decadência do Ocidente e do seu modelo de governação. Não mais o ocidente, com exceção de uma Finlândia e pouco mais, conseguiu acompanhar a Ásia. A China, com a média mais alta, demonstra que para ter resultados diferentes É PRECISO FAZER DIFERENTE! A superioridade chinesa em tudo é tal, que já se torna fastidioso discutir se governam melhor ou pior, se é diferente ou igual à podridão decadente do ocidente. Apenas a Estónia se intrometeu entre os asiáticos. Se bem que falamos apenas de 4 países asiáticos, a China (com uma superioridade brutal e esmagadora), que a separam em vários países, o Japão, Singapura e a Coreia do Sul.

A Turquia, país em que estive há uns anos no âmbito de uma delegação da OCDE e EU a visitar estabelecimentos de ensino e formação profissional, está hoje à frente de Portugal, acima da média da OCDE. Há 10 anos, nos locais mais pobres, tinha escolas sem água e sem electricidade. Mesmo assim, ficou acima da média da OCDE e o PS mostra-se contente porque está “na média”! Governantes medíocres apenas atingem resultados medíocres, ou medianos, o que, neste mundo, quer dizer medíocre. Se esta imagem da ascensão Turca não nos mostra as transformações profundas no mundo e a forma como a periferia começa a exigir a sua parte do bolo do direito ao desenvolvimento, então usemos a China, porque é este o país o responsável pela quebra da dicotomia que caracterizou os últimos 250 anos de imperialismo ocidental: a dicotomia que existe entre um centro que suga as riquezas de uma periferia que se viu, por isso, bloqueada no seu direito ao desenvolvimento.

Aquilo que o Ocidente, de forma reaccionária, chama de sobrecapacidade industrial consiste na capacidade que a China tem de exportar factores de produção a baixo custo, em transações Sul-Sul, ou periferia-periferia, que não apenas transforma a China num centro exportador de mais-valia produtiva, capaz de contrariar o efeito de sucção produzido pelo neocolonialismo e imperialismo ocidental. Estas realidades demonstram, sobretudo, a decadência relativa do ocidente e o nascimento de uma nova ordem, multipolar, pluricêntrica e baseada em trocas mais vantajosas. Kallas, von der Leyen ou Trump têm razão: a culpa é da China, mas não porque faça algo de mal, e sim pelo que faz de melhor. Ao contrário do Ocidente, a China desenvolveu-se sem colonizar e ocupar ninguém. Daí que o seu sucesso seja ainda mais admirável. E nossa decadência mais inaceitável.

Houvesse “cultura de exigência” e o governo teria de se demitir e já! E com ele, toda esta classe dirigente europeia, que se comporta como um batalhão de CEOs que se limitam a cumprir regras como se fossem algoritmos humanos, incapazes de fazer coisas diferentes, de atacar os problemas, com profundidade e, agora, já nem capazes de discutir são, pois a ferramenta que existia e que o impunha foi arregimentada pelos seus patrões: a comunicação social.

Esperar que Portugal, onde os ricos pagam pelas notas altas dos filhos, fizesse melhor, só poderia ser ilusão!

Países onde não se conseguem consolidar avanços civilizacionais e produzir, em cima dos mesmos, um edifício de desenvolvimento incremental, sem recuos, apenas com incrementos, países que sistematicamente avançam e recuam num processo de destruição constante das conquistas civilizacionais que se vão fazendo são países condenados!


Fontes Consultadas

· OCDE — PISA 2025 Results (Volume I): https://www.oecd.org/en/publications/pisa-2025-results-volume-i_73451bc5-en.html

· OCDE — Education at a Glance 2014 (dados citados pelo Observador, 09-09-2014): https://observador.pt/2014/09/09/investimento-por-aluno-portugal-abaixo-da-media-antes-secudario-e-superior/

· Edustat/GEE — “Portugal gasta menos em Educação do que há 20 anos”: https://www.edustat.pt/Infostat/InfostatDetail?ID=14

· Edustat — Taxa de abandono escolar 2025: https://www.edustat.pt/detalhes-infostat?ID=59

· Visão — “Portugal é o país que desinvestiu mais em Educação na última década” (11-09-2014): https://visao.pt/atualidade/economia/2014-09-11-portugal-e-o-pais-que-desinvestiu-mais-em-educacao-na-ultima-decadaf795120/

· RTP — abandono escolar precoce, maior redução (Eurostat, 20-04-2015): https://www.rtp.pt/noticias/mundo/portugal-com-quarta-maior-taxa-de-abandono-escolar-precoce-mas-a-melhorar-eurostat_n821840

· Polígrafo-Sapo — PIB acima da média da UE entre 2016 e 2019 (25-01-2022): https://poligrafo.sapo.pt/fact-check/pib-de-portugal-cresceu-acima-da-media-da-uniao-europeia-entre-2016-e-2019/

· Público — patrões abandonam concertação social (22-10-2021): https://www.publico.pt/2021/10/22/economia/noticia/patroes-abandonam-concertacao-social-pedem-intervencao-marcelo-1982148

· GEP/MTSSS — “Salário Mínimo Nacional — 45 anos depois”: https://portugal.gov.pt/

· Wikipedia — Nuno Crato (mandato 2011–2015, resultados PISA 2015): https://en.wikipedia.org/wiki/Nuno_Crato

· Entrevista a Nuno Crato — “Chalk & Talk”, ep. 58: https://www.annastokke.com/transcripts/ep-58-transcript

· BCE — Relatório Anual 2019: https://www.ecb.europa.eu/press/annual-reports-financial-statements/annual/html/ar2019~c199d3633e.pt.html

· Assembleia da República — Constituição da República Portuguesa (1976): https://www.parlamento.pt/


Fonte aqui

A mentira tem perna curta

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 08/09/2026, Revisão da Estátua)


Entre Outubro de 1941 e Outubro de 1942, a propaganda alemã mentiu desavergonhadamente às tropas, ao povo e à comunidade internacional, asseverando que ganhara a guerra e que a Rússia estava derrotada.

Da primeira vez, anunciou que as pinças blindadas estavam prestes a entrar em Moscovo. Dois meses depois, os russos empurraram-nos das cercanias da sua capital e infligiram aos alemães a primeira grande derrota na guerra. Um ano volvido, anunciaram que Estalinegrado caíra e que a URSS perdera a guerra. Três meses volvidos, estes rendiam-se.

A propaganda de guerra deve assentar no equilíbrio de ouro entre a verdade e o realismo. Não deve mentir, senão em aspetos acessórios, deve preservar o essencial que garanta a credibilidade de quem a usa para infundir segurança, esperança e ânimo elevado entre os soldados da frente e a confiança da frente interna, mas, sobretudo, nunca deve correr o risco de desautorização internacional do governo que a produz.

A Ucrânia tem mentido repetidamente desde 2022, movimento no qual é acompanhada e incentivada pelos ocidentais. Desde a Ilha das Serpentes, do levantamento do cerco russo a Kiev (resultado do cumprimento russo dos gorados acordos de Istambul), dos falsos massacres de Bucha e Irpin, das grandes batalhas pelas cidades do Donbass, da tão anunciada contraofensiva de 2023, das mil mentiras sobre o esgotamento militar russo, da iminente derrocada económica russa e do anedotário que insistia que os russos combatiam com pás, recorriam ao canibalismo, trocavam munições por víveres, a Ucrânia esgotou a sua reputação.

Hoje, ninguém assisado acredita numa palavra de Zelensky e destes propagandistas atoleimados que enxameiam a comunicação social ocidental.

Tomo conhecimento do ataque devastador que hoje fez tremer Kiev. Centenas de alvos tocados, edifícios, instalações militares, unidades industriais e grandes superfícies logísticas arrasadas.

Após semanas de propaganda em que nos fizeram crer que a Rússia estava a ser destruída pelos ataques ucranianos a refinarias na Rússia, a Ucrânia está desesperada. Não há luz, gás, circulação ferroviária, as estantes dos supermercados vazias. A mentira tem vida curta e quanto maior for, maior a fatura de credibilidade exigirá. É aí que estamos.

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És um “putinista”?

(Miguel Szymanski in Facebook, 05/09/2026, Revisão da Estátua)


Quem argumenta (com dados orçamentais) que a UE e o Reino Unido estão numa espiral belicista e em declínio económico (só o grupo Volkswagen anunciou esta semana o despedimento de até cem mil pessoas, as exportações para a China sofreram uma quebra de 30% desde o início da guerra);

quem argumenta que as cedências de território – temporárias, de jure, de facto, não interessa – fazem parte das guerras e dos acordos de paz, desde que há guerras e acordos de paz, e que são o mal menor, quando de um lado está a maior potência nuclear e, do outro, um país que, por alguma razão, não fazia, nem faz parte da NATO;

quem argumenta que a dupla bitola dos “valores europeus” (Ucrânia versus Palestina, Venezuela, Irão etc.) descredibiliza a narrativa da União Europeia e do Reino Unido de alimentar esta guerra “pelos nossos valores”;

quem argumenta que a expansão da NATO é uma das razões desta guerra (desde o Papa Francisco a Kissinger passando por uma longa lista de prestigiados analistas militares e civis ocidentais ainda vivos e a escrever todos os dias);

 quem argumenta que a russofobia, tal como, em geral, demonizar os vizinhos dificulta a convivência;

 quem argumenta que os EUA têm um interesse, assumido, em enfraquecer as actuais democracias na Europa e militarmente a Rússia (ver o último Relatório do Pentágono de Novembro de 2025);

 quem argumenta com todos estes factos, cumulativamente, já é um “putinista”? Sim ou não?

Se a resposta é sim, percebe-se que chamar a alguém “putinista” (ou “Putinversteher” em alemão) não passa de uma expressão carregada de hipocrisia para rotular e tornar suspeito quem se limita a opor-se à atual narrativa de Berlim, Bruxelas, Paris ou Londres.

É o mesmo tipo de lógica perversa de quem insulta como sendo antissemitas as pessoas que protestam contra o genocídio na Palestina.

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