O mundo está cada vez mais perigoso

(Por Carlos Esperança, 19/02/2019)

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O Estado democrático de direito está ameaçado e a existência de eleições, por sufrágio universal e secreto, sendo uma condição essencial, é cada vez menos fiável para eleger governos democráticos.

Sabemos da História que Hitler e Mussolini chegaram ao poder pela via eleitoral e só o tosco Salazar, o frio genocida Francisco Franco e alguns outros generais renunciaram à via democrática para atingirem o poder. Mas, depois de eleitos, sabe-se o que sucedeu.

Há quem pense, por ignorância, maldade ou ambas, que a democracia é apenas a forma, desprezando a substância, e é preciso ser demasiado cínico ou suficientemente estúpido para considerar democratas os líderes dos EUA, Brasil, Turquia, Polónia, Filipinas ou Hungria, pelo facto de terem sido sufragados pelos eleitores. Não são melhores do que o líder chinês ou o príncipe-herdeiro saudita.

A democracia não é apenas o governo das maiorias, é sobretudo o respeito das minorias, a defesa dos direitos humanos e a integração económica, política e social de todos os cidadãos. Não há democracia quando se discriminam mulheres, perduram gerações de pobres ou se acentuam as diferenças sociais. Hoje, à semelhança das religiões, há países que estabelecem os seus interesses, disfarçados de ideologia, e têm meios, tecnologia e obstinação para os impor a nível regional ou global.

A globalização da paz, da prosperidade e da solidariedade é substituída pela ditadura de países que detêm os meios de pagamento internacionais, os arsenais nucleares e até os algoritmos que condicionam o pensamento de multidões que se julgam livres.

Ainda há pouco, o exótico ditador da Coreia do Norte abria os noticiários mundiais para atrair o ódio, e bastou um gesto de Trump para desaparecerem da imprensa, de todos os órgãos, as imagens, as recriminações e a instilação do medo do biltre incontrolável.

A Arábia Saudita, alfobre do terrorismo, que abomina a democracia, a carne de porco e a paz, é uma monarquia teocrática, agressiva e sinistra, mas tem o apoio do nefasto PR dos EUA. Os genocídios do príncipe sanguinário são esquecidos com barris de petróleo e os seus crimes apenas denunciados por corajosos defensores dos direitos humanos, cada vez mais silenciados e ignorados.

O aquecimento global tornou-se uma emergência mundial, mas os interesses dos países hegemónicos ignoram a tragédia em curso, apesar de ser a única que liquidará, de forma igual, países ricos e pobres, tornando insustentável a vida em todos.

Vivemos num tempo de alucinante progresso tecnológico com líderes medíocres a nível internacional e com os mais insensatos e perigosos a serem sucessivamente sufragados por povos que perderam a bússola dos seus interesses e o sentido do futuro.

A pedagogia democrática é cada vez mais difícil, e o mundo mais perigoso.

Como os defensores da globalização cederam o campo a Donald Trump

(Por Robert Kuttner, in A Viagem dos Argonautas, 12/09/2019)

Quando se trata de compreender a dinâmica da globalização e a reação contra ela, a descrição mediática das guerras tarifárias de Donald Trump mostra que a visão dominante neoliberal sobre o comércio internacional é tão louca à sua maneira quanto Donald Trump é – e em que Trump é o beneficiário da sua miopia. Deixem-me explicar….


Continuar a ler aqui: A responsabilidade da esquerda na trajetória de ascensão do neoliberalismo – algumas grelhas de leitura – 3. A leitura de Robert Kuttner – B. Como os defensores da globalização cederam o campo a Donald Trump | A Viagem dos Argonautas

O próximo teste

(Jaime Nogueira Pinto, in Diário de Notícias, 31/01/2019)

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(Hoje a Estátua resolveu dar voz à Direita mais civilizada. De facto, Jaime Nogueira Pinto é das raríssimas vozes da direita que consegue soletrar, contar até 100 e capaz de ter um discurso minimamente articulado e que não ofenda a inteligência, ainda que dele se possa discordar.

Enquanto Nogueira Pinto sabe falar e escrever – este texto é prova disso mesmo -, a maior parte dos direitolas que pululam pelo espaço público não vai além do cacarejo e do parlar.

Para que não digam que sou um fundamentalista enviesado.

Comentário da Estátua, 01/02/2019)


A crise venezuelana é mais um sinal do novo modo confrontacional por que está a passar a sociedade internacional. A reacção constitucionalista do presidente do Parlamento, o extraordinário apoio popular que recebe e a atitude dos Estados Unidos e do Brasil reconhecendo-o, mostram que o movimento iniciado em 2016 com o Brexit e a eleição de Trump está a mudar a política.

O ano de 2018 foi marcado pelo novo paradigma que está a abalar o modelo político-económico estabelecido há um quarto de século, no final da Guerra Fria; um modelo que projectava, para todo o sempre, uma democracia de mercado globalizada e globalizante coberta intelectualmente por uma cultura progressista, materialista e hiperliberal em matéria de valores e costumes.

Em 2018, o acontecimento mais significativo desta nova vaga foi a eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil, contra a violenta hostilidade das forças sistémicas, dos grandes media e de parte substancial da classe artística e intelectual. Num desfecho mais uma vez “inesperado”, o candidato nacionalista e conservador quase venceu na primeira volta por maioria absoluta e derrotou, na segunda, o seu opositor com o “voto útil” que lhe faltava.

Em Itália, há um governo de direita nacional e identitária, coligado com populistas de esquerda. Na Mitteleuropa – Polónia, Hungria, Áustria, República Checa, Eslováquia – há governos de partidos de direita conservadora ou de direita nacionalista que, em alguns casos, governam coligados. No resto da União Europeia, com excepção da Irlanda e de Portugal, estão a emergir partidos eurocépticos e identitários, hostis à hegemonia da esquerda e ao seu breviário, mas também com reservas ao liberalismo desenfreado e ao capitalismo selvagem.

Esta vaga nacional-identitária e popular está a alterar profundamente os modelos partidários do Continente, fixados, em grande parte, entre um centro-direita conservador ou democrata-cristão e um centro-esquerda socialista ou social-democrata. Isto depois da implosão da União Soviética ter levado à redução à expressão mais simples ou mesmo ao fim dos partidos comunistas da Europa Ocidental, com excepção do PCP português.

Ora é precisamente este modelo de alternância ao centro que tem vindo a ser posto em causa. Não por maquiavélicas conspirações antidemocráticas, inspiradas por Putin ou Bannon, mas porque os valores, os princípios e os interesses deste modelo e dos seus representantes se mostram incapazes de responder aos problemas que se colocam hoje às sociedades euroamericanas.

Entre as causas desta incapacidade de resposta, está a redução da política a uma escrava da economia e a consequente globalização desregulada, na Europa e nos Estados Unidos, que atingiu as classes trabalhadoras e que chega agora às classes médias.

A edição de Novembro-Dezembro da Foreign Affairs (uma publicação do mainstream ideológico), num artigo de Kenneth Scheve e Matthew Slaugher, “How to save Globalization”, enuncia, com algum pormenor, as raízes económico-sociais da nova corrente antiglobalização nos Estados Unidos, destacando a baixa dos salários reais dos trabalhadores e dos quadros médios e a subida em flexa dos vencimentos e prémios dos altos executivos nas últimas décadas. Assim, numa sociedade de tradição igualitária e meritocrática, o salário dos “de cima” é, em média, 330 vezes superior ao dos “de baixo”; há dez anos era 300 vezes superior e há trinta não chegava a 50. As mudanças tecnológicas e as deslocalizações rápidas das empresas estão na base destas desigualdades. Numa sociedade que, desde o fim da Grande Depressão, se habituara a que os filhos viessem a viver melhor do que os pais, este agravamento da disparidade tem profundas implicações na saúde física e mental dos trabalhadores.

As “doenças do desespero” e do desemprego ou subemprego – suicídios, overdoses, alcoolismo – matam muitos destes marginalizados do mercado de trabalho (especialmente brancos não-hispânicos sem estudos superiores); ao mesmo tempo, aceleraram-se as desigualdades de nível de vida entre as grandes metrópoles e as comunidades mais pequenas. Foram, sobretudo, estes “brancos zangados” dos decadentes Estados industriais do Nordeste, do chamado Rust Belt, que deram a vitória a Trump em 2016 e com isso começaram a mudar o rumo da História do século XXI.

Trump, Bolsonaro, Salvini, Orbán sendo, por um lado, consequência de coligações negativas – anti-Hillary, anti-PT, anti-sistema -, são também sinal de um redescobrimento de valores orgânicos e identitários que ressurgem como alternativa ao fracasso dos valores individualistas e globalistas-humanitários. Vêm contradizer a filosofia do fim da História pós Guerra Fria, que proclamava a construção de uma ordem mundial apresentada como ideologicamente neutra e definitiva, uma ordem democrática e capitalista, governada pela “mão invisível” dos tratadistas de Manchester e por uma reedição do iluminismo mundializante dos filósofos franceses, acolitada por um ala de progressismo radical e relativismo absoluto.

Esta ala, que ganhou uma hegemonia artificial graças a minorias de controlo na Academia e nos media, impõe ou quer impôr a sua agenda minoritária através da legislação em matérias não-económicas, que as “direitas” do sistema secundarizam e por isso lhe entregam de mão-beijada. Perante a inércia dos “moderados”, estas políticas – como as da ideologia de género e as políticas anti-família – desencadeiam reacções também radicais de grupos religiosos identitários, como os Evangélicos – decisivos, por exemplo, para as vitórias de Trump e Bolsonaro. O tempo é agora de bipolarização, sem grande espaço para terceiras vias.

O que é interessante e parece perturbar o sistema é que estas mudanças vêm dos votos dos eleitores, do povo, e não de uma conspiração reaccionária, de um golpe militar, das manobras de uma elite qualquer. É um despertar, uma frente comum, que começou por definir-se pela negativa mas que, a pouco e pouco, vai encontrando valores alternativos.

O próximo teste vão ser as Europeias, em Maio.