A coligação dos indispostos

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 11/09/2025)


Macron queria que os EUA se comprometessem, mas, do “outro lado da linha”, não só não veio qualquer comprometimento, como Macron ouviu o que não esperava. Os EUA não colocarão forças terrestres na Europa, nem funcionarão como backstop das forças europeias.


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No dia 4 de setembro teve lugar em Paris mais uma reunião do grupo de países que integra aquela coligação, liderada pelo presidente francês Emmanuel Macron e pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer, para ultimar os trâmites de uma força europeia conjunta (terrestre, aérea e marítima) e combinada a ser projetada para a Ucrânia. O enviado norte-americano Steve Witkoff também esteve presente no encontro, mas por apenas 20 minutos. O evento parece, pois, não ter corrido muito bem aos seus promotores.

Tudo se azedou quando Macron telefonou ao presidente norte-americano Donald Trump a dar-lhe conta das conclusões de mais este conclave. Uma vez acordados os preparativos, faltava agora o comprometimento de Trump em lhe dar apoio. Segundo Trump, na sequência da conferência do Alasca, Putin não se oporia à colocação de uma força internacional em território ucraniano no âmbito das tão faladas garantias de segurança.

Macron queria que os EUA se comprometessem, mas, do “outro lado da linha”, não só não veio qualquer comprometimento, como Macron ouviu o que não esperava. Os EUA não colocarão forças terrestres na Europa, nem funcionarão como backstop das forças europeias. Trump relembrou Macron, que se pretende apoio americano, os europeus terão primeiro de colaborar nas sanções à Rússia e começar por deixar de comprar petróleo russo à Índia. “Porque é que a Europa não sanciona a India?” Questionou Trump.

Washington também quer que a Europa se comprometa. “Eu [Trump] quero que vocês cortem o comércio com a China e com a India,” insistindo na ameaça furada das sanções secundárias, enquanto instava os europeus a comprarem americano. O que inevitavelmente terá de acontecer, uma vez que a extração de gás dos campos de Yamal, que abastecia a europa, foi desviada para o fornecimento à China. Não bastava a política de tarifas, os europeus têm agora menos alternativas em matéria de segurança energética, agravando a sua dependência dos EUA.

Os EUA não dão garantias de segurança, mas vendem armas. O Congresso prepara uma proposta de criação de um fundo para o qual os europeus contribuirão com dinheiro para repor o equipamento militar enviado para a Ucrânia. Por outras palavras, o apoio norte-americano à Ucrânia continua, mas com dinheiro europeu, como tinha anunciado Trump.

Com a Rússia a ganhar a guerra, sem conseguir o tão desejado comprometimento de Trump e com os EUA a distanciarem-se da Europa, Macron e os seus acólitos começam a entrar em pânico. Nem Moscovo nem Washington os ouvem. Uma vez excluídos do processo negocial, querem à tripa forra ter algum protagonismozinho, agarrando-se desesperadamente às garantias de segurança, apesar de ainda não se visualizar quando e como terminará o conflito. Zelensky, que também esteve presente na reunião, percebeu a charada à volta da discussão das garantias de segurança e perdeu a paciência com Macron.

Nas suas contradições, Zelensky abandonou o objetivo de expulsar os russos do território ucraniano, optando por somente congelar as hostilidades na linha de confrontação. Afinal “para nós, a sobrevivência é a vitória”. Segundo ele “O objetivo de Putin é ocupar a Ucrânia…, é claro, quer ocupar-nos completamente. Para ele, isso é uma vitória. E enquanto ele [Putin] não conseguir fazer isso, a vitória está do nosso lado [ucraniano].” Talvez isto justifique que, apesar de estar frustrado com os europeus, não seja ainda tempo de fazer cedências, pois pode ainda ganhar.

Os indispostos parecem não ter percebido duas coisas fulcrais: (1) Não vai haver cessar-fogo, nem a Rússia vai permitir a presença de forças internacionais na Ucrânia – Moscovo deixou claro o seu veto à colocação de quaisquer forças europeias em território ucraniano, que serão consideradas alvos legítimos; (2) Os líderes europeus já não podem contar com os Estados Unidos, como garantia da sua segurança.

A surdez de Macron tem-se acentuado. Ainda assim, convém lembrá-lo, bem como aos seus compagnons de route, que a guerra na Ucrânia começou exatamente para evitar a colocação de forças estrangeiras em território ucraniano. Parece não ser difícil de descortinar que, ao estar agora numa situação vantajosa, Moscovo nunca o permitiria. A ideia peregrina de enviar forças após o cessar-fogo, a ser exequível, não estimula Putin a assiná-lo. Ainda por cima, quando Trump já concordou que o cessar-fogo, que depende dos russos, não é o caminho a seguir.

A força militar europeia

Desconhecem-se os contornos exatos dessa força: missão, composição e local onde poderá vir a ser colocada. Sendo improvável a sua colocação na linha da frente, talvez fique numa zona de retaguarda. Tudo indica não se tratar de uma força de “peacekeeping” ligeiramente armada com a missão de patrulhar a linha de contacto. Também não seria uma força neutra de manutenção da paz e interposição – pelo contrário, seria uma força de dissuasão com capacidade ofensiva. Adicionalmente, essa força forneceria também logística, conhecimentos especializados em armamento e formação — embora talvez tivessem mais a aprender do que a ensinar — para ajudar a reconstruir as forças terrestres da Ucrânia, após um acordo de paz.

Os anunciados 25 países disponíveis para participar na força parecem insuficientes. O Reino Unido fez saber as suas limitações em forças terrestres. Estaria disponível para colaborar com aviação e navios, começando já a salivar com a possível presença de fragatas britânicas no Mar Negro.

A Polónia e a Itália já disseram que não participariam. A Alemanha, também não, apesar daquilo que gostaria o Chanceler Merz. Talvez o Luxemburgo, a Bélgica, os países Bálticos e outros estarão disponíveis para participar. A Roménia exclui o envio de tropas para a Ucrânia, mas o país está preparado para oferecer a sua infraestrutura militar — incluindo bases aéreas operadas pela NATO — para uso das forças aliadas. Todos esses planos, no entanto, enfrentam uma dura realidade: a Europa não pode montar uma tal operação sem o poder aéreo dos EUA no Mar Negro.

Está igualmente por saber qual seria a cobertura legal dessa força e o papel do Conselho de Segurança na sua autorização. Muito haverá ainda por clarificar. Entretanto, o “Le Monde” adiantou a possibilidade de serem colocadas forças na Ucrânia ainda “antes da assinatura de um cessar-fogo não depois, a fim de ‘pressionar’ Putin a aceitar essa trégua.” Fontes não certificadas referem que forças francesas poderão estar secretamente em deslocamento para território ucraniano, à semelhança daquilo que Moscovo acusa Merz de estar a fazer com mísseis.

Os dirigentes europeus sentem que os russos estão a vencer e os americanos a afastar-se. Estão desesperados e começam a entrar em pânico, depois de terem passado três anos a vender ilusões às suas populações. Afinal a Rússia já não está todas as semanas à beira do abismo. Agora, o objetivo é fazer com que soçobre antes da Ucrânia implodir. Não só a perceção da realidade se torna cada vez mais evidente, como escasseiam ideias claras sobre o modo de evitar uma catástrofe geoestratégica. Charadas sem sentido, como esta da força internacional, provam o argumento deste texto.

II Guerra Mundial – 1 de setembro de 1939

(Carlos Esperança, in Facebook, 01/09/2025)


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Há 86 anos, Hitler invadiu a Polónia, apesar dos correligionários que aí tinha, e iniciou a II Guerra Mundial. O clima político e económico tinha semelhanças com o atual. As fronteiras e o «espaço vital», hoje trocados pelos mercados, foram detonadores de uma catástrofe em que, pela segunda vez, a Alemanha ganhou todas as batalhas e perdeu a guerra.

Dessa tragédia, do desvario belicista, dessa delinquência nacionalista, a História regista nomes sinistros: Hitler, Goebbels, Bormann, Himmler, Goering, Eichmann, Ribbentrop, Rosenberg e Rudolf Hess.

Hoje, 86 anos depois, parecem mais confiáveis os principais entusiastas da corrida ao armamento e mais generosa a justificação. Defender as fronteiras de um país invadido é bem mais aceitável do que pretender conquistar um território, mas o entusiasmo de dois alemães causa alguma perplexidade.

Friedrich Merz e Von der Leyen, o primeiro em nome da Alemanha, e a segunda no da UE, apoiam o país europeu invadido por outro igualmente europeu, e arrastam a Europa para um confronto que só acabará, como todas as guerras, pela capitulação de um deles, ou à mesa das negociações. E surpreende que, depois de três anos e meio de guerra, jamais tenham equacionado um plano de paz para negociar.

Quem apoiou a divisão da Jugoslávia e o ataque à Sérvia, para lhe amputarem o Kosovo, e se conformou com a ocupação de cerca de 37% do território e divisão do Chipre pela Turquia, certamente justificaria maior recato na defesa de uma causa, por mais justa que seja, com recurso à guerra.

A política externa da UE, ora confiada a Kaja Kallas, só beneficiou a Turquia e a China, dois países que são a antítese das democracias que nós defendemos. Não foi a Rússia, o País invasor da Ucrânia, que virou costas à Europa Ocidental, foi esta que a escorraçou para benefício geoestratégico dos EUA.

Agora, quando os EUA se desinteressam da guerra na Ucrânia, limitando-se a vender-nos armas para manter a guerra, ainda nos impõe tarifas sem reciprocidade e exige o sacrifício de 5% do PIB em detrimento dos apoios sociais.

E a senhora Von der Leyen, parece uma gladiadora a gritar ao imperador Cláudio, digo Trump, “Salve, César, aqueles que vão morrer te saúdam”.

O mundo está diferente e quando pensávamos que já não havia um país comunista, apenas ditaduras e democracias, vemos o neoliberal Trump a disparar tarifas e o “comunista” Xi Jinping, a defender o comércio livre! 😊

O que dói é ver a deriva belicista e o desvario de Trump sufragados pela UE e a China a ser a beneficiária da guerra na Europa, que destrói a UE e a confiança nos EUA.

Ontem assistimos ao tropismo da Índia para a China, a esquecer a rivalidade histórica, com o PM Narendra Modi a declarar que o problema das fronteiras estava resolvido.

Abandonámos o Brasil à vingança de Trump, provavelmente a vítima que não resiste a mais uma ditadura pró-americana, e assistimos ao regresso do obscuro regime da Coreia do Norte ao convívio da China, Rússia e Índia.

E a UE fica a persistir na guerra com o RU, o país satélite dos EUA que quis destruí-la.  A UE quis isolar a Rússia e isolou-se.

É de desconfiar da pressa e segurança com que a senhora Von der Leyen atribuiu à Rússia o ataque ao sistema de GPS no voo que a levou à Bulgária.

Sabemos como começam as guerras. Raios partam a sorte!

1 de setembro de 2025

A Ásia Ocidental está a caminhar para a guerra

(M. K. Bhadrakumar, in SakerLatam.org, 30/08/2025)

Outdoor com fotos de cientistas nucleares e centrífugadoras com a legenda “A ciência é o poder”, praça Enqelab, Teerão, 29 de agosto de 2025

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Há notícias extremamente alarmantes sobre a situação em torno do Irã. Em consultas com o governo Trump — ou melhor, em deferência à ordem de Washington —, os países do E3 (Grã-Bretanha, França e Alemanha), que são os signatários ocidentais remanescentes do acordo nuclear com o Irã de 2015, conhecido como JCPOA, iniciaram o processo de acionamento do chamado mecanismo de snapback com o objetivo de reimpor todas as sanções da ONU contra o Irã, alegando que o país violou os termos do acordo de dez anos.

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