Este é  o tempo da chegada das trevas

(Miguel Castelo Branco, in Facebook, 17/08/2025, Revisão da Estátua)


A ceifeira continua imparável a reclamar corpos de crianças. Hoje ao cair da tarde, em Gaza, matou os irmãos Omar, Ranim, Reem e Farah, cujos pais já haviam sido imolados.

O mundo dito dos “nossos valores” nem pestaneja, e até o novo Papa parece ter sido tomado por aquela indiferença característica dos burocratas. Se ainda se justificasse bradar aos céus, ou dar ralhetes ao Altíssimo, tal como o fazia o nosso Padre António Vieira, tudo isto faria sentido.

 Mas não, para quantos se agarram à transcendência, o único deus que se assemelha a este grande silêncio, a esta imperturbabilidade e mutismo é o deus dos estoicos, um ente absolutamente distante.

Por outro lado, para os que apenas se atêm ao plano da imanência e buscam compreender a realidade a partir da própria realidade, este é o tempo do fim da tradição intelectual ocidental, do humanismo e das luzes.  Em ambas as posições, este é  o tempo da chegada das trevas.

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Os títeres

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 05/08/2025)


Para os títeres, a Amnistia Internacional, a Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio e autoridades de Direitos Humanos estão equivocados e ao serviço do Hamas por considerarem os acontecimentos em Gaza um genocídio.


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Apesar de desfeito, segundo Telavive, o Hamas ainda tem uma réstia de fulgor e ainda nos consegue ludibriar. Afinal não há fome em Gaza. As imagens de crianças subnutridas não são verdadeiras. São fabricadas, manipuladas e editadas pelo Hamas para impressionar as opiniões públicas. A fome em Gaza é uma narrativa fabricada, o que vemos são imagens produzidas e editadas pelo Hamas. Segundo o porta-voz das Forças de Defesa de Israel (FDI) as horrendas imagens de crianças famintas inserem-se numa campanha de falsidades destinada a moldar perceções. Como alguém disse, trata-se da “pornografia da fome”.

Bem vistas as coisas, até talvez possa haver alguma fome em Gaza, mas o responsável é o Hamas, conivente com as agências da ONU que trabalham em Gaza; seguramente que essa responsabilidade não pode ser atribuída ao Governo israelita nem às irrepreensíveis FDI.

É um Hamas masoquista que destrói árvores, polui as águas costeiras e infiltra poluentes nas fontes de água subterrânea. É um desbaratado Hamas que impede os camiões carregados de alimentos, estacionados em Israel e no Egipto, de entrar na Faixa de Gaza, é quem dispara sobre as ambulâncias do Crescente Vermelho e sobre os palestinianos que aguardam na fila por uma malga de sopa.

Também não há mortos civis em Gaza. O número de mortos é fabricado pelo Hamas. As FDI são uma força moral, nunca matariam civis nem cometeriam crimes hediondos. Nada disso. Andamos todos a ser trapaceados pelo Hamas. Afinal o projeto da Riviera de Gaza e a expulsão dos palestinianos de Gaza não passou de um equívoco semântico, uma graçola. Percebemos todos mal. Não se tratava, de modo algum, de limpeza étnica. Só mentes sediciosas poderiam cogitar tal conspiração.

São precisas pessoas muito especiais, desprovidas de ética, para propalar estas “verdades”. É preciso “estômago” para dizer que não há fome em Gaza. Falamos de gente que vendeu a alma ao Diabo e se colocou ao serviço de um projeto demoníaco. Depois do Holocausto, esta é seguramente a maior atrocidade dos séculos XX e XXI, mais perversa do que os crimes em série de Pol Pot, no Camboja, ou a perseguição mortal aos Rohingya, em Myanmar, desta feita em direto nas televisões e sem defensores convictos nas lideranças ocidentais.

Referimo-nos a pessoas que branqueiam conscientemente a matança mais abjeta do planeta e que lançam fumo para manter os incautos na dúvida; gente desprovida de consciência que escamoteia os factos. Não deixa de nos surpreender – 80 anos após a assinatura da Carta das Nações Unidas – a ocorrência desta barbárie e, apesar da informação disponível, existirem pessoas a colocarem-se despudoradamente ao serviço dos responsáveis pelos acontecimentos em Gaza.

Os manipuladores precisam dos títeres para fazerem o trabalho sujo, pessoas desprezíveis que se prestam a tal. Negam todas as evidências. Como alguém escreveu magistralmente, se tivessem vivido em 1943, “estes comentadores até poderiam dizer que Birkenau era um campo de férias e que os vapores do gás provinham de banhos turcos.” Um dia destes dirão que as imagens de Gaza destruída são uma construção da Inteligência Artificial, ou mesmo uma instalação, e os emaciados palestinianos não passam de atores contratados. Quem desmonte estas alucinações é apelidado por eles de antissemita. A palavra sionismo foi apagada dos seus dicionários.

Ironicamente, os defensores da “verdade” não permitem que ela seja mostrada. O correspondente da BBC para o Médio Oriente sabe do que falo quando o impediram de filmar a partir do avião militar em que voava. “Israel não permitirá que repórteres como eu entrem em Gaza para relatar a história, eles não querem que a vejamos, ou que a filmemos, de qualquer forma, mesmo do céu.” Muito haveria a dizer sobre isto.

Como o Hamas rouba a ajuda humanitária contornando o sistema montado pela ONU, foi preciso Telavive substituí-lo por uma empresa privatizada norte-americana (GHF) protegida por contratados armados. Tudo isto, sem haver, segundo militares israelitas evidências de que o Hamas roube sistematicamente a ajuda da ONU, em Gaza, e confirmarem a eficácia do sistema da ONU que resiste à interferência do Hamas.

O antigo funcionário da GHF Anthony Aguilar corroborou as alegações da ONU de que Israel mata deliberadamente civis, incluindo crianças, que esperavam por comida e água nos postos de assistência, na faixa de Gaza, contrariando as lucubrações negacionistas de que os palestinianos não são mortos nos centros do GHF pelos elementos das FDI nem do GHF, mas pelo Hamas. O GHF apoiado pelos EUA para substituir as agências da ONU tem muito menos locais de distribuição de alimentos e tem sido letal para os civis, tendo matado mais de 1.300 pessoas que tentavam aceder à comida.

Os factos alternativos amplificados pelos títeres são desmontados e levadas ao tapete pelos israelitas que ainda têm algum assumo de decência. O ex-primeiro-ministro israelita Ehud Olmert, num assombro de humanidade, considerou ilegal a guerra em Gaza e declarou que “já matamos e destruímos o suficiente em Gaza.” Estas ações podem ser consideradas crimes de guerra e são motivadas pelos interesses pessoais e políticos de Netanyahu. Os grupos israelitas de Direitos Humanos B’Tselem e Physicians for Human Rights Israel rotularam a guerra de Israel em Gaza como genocídio.

O branqueamento do genocídio abraçado pelos títeres é uma falha moral hedionda. Gaza está arrasada, sem infraestruturas, as pessoas estão a morrer diariamente aos magotes, e a culpa não é do Hamas. Para estas pessoas, a limpeza étnica e o genocídio não são a barbárie, mas sim a civilização. Haverá algum país, para além de Israel, que defenda matar os seus próprios cidadãos para não serem feitos prisioneiros (protocolo Hannibal), que terá sido implementado nos trágicos acontecimentos de 7 de outubro? Para estes seres, é um ato civilizacional as alusões de Netanyahu à condição sub-humana dos palestinianos, e à completa destruição de todos os amalequitas – incluindo bebés, bens, animais – tudo, aplicado ao Hamas e aos palestinianos.

A linguagem “politicamente correta” dos ministros israelitas extremistas Smotrich e Ben-Gvir, em matéria de limpeza étnica na Faixa de Gaza, levou a Holanda a declará-los persona non grata. Só a tremenda condenação internacional fez com que Netanyahu aprovasse timidamente o aumento da ajuda humanitária a Gaza, apesar da oposição do partido sionista religioso de Bezalel Smotrich, que defende abertamente a fome como arma de guerra. Não foi de livre vontade que Netanyahu o fez.

Para os títeres, a Amnistia Internacionala Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio e autoridades de Direitos Humanos estão equivocados e ao serviço do Hamas por considerarem os acontecimentos em Gaza um genocídio. Provavelmente, concordam que bombardear e fazer passar à fome até à submissão, matando, mutilando e deslocando a população é um adequado “incentivo à emigração”. Não é a barbárie a sobrepor-se à civilização. A negação sem incómodo ou perturbação moralmente inaceitável do que está a ocorrer em Gaza indica que não são seres saudáveis. As narrativas mirabolantes que constroem e inventam para sustentar as suas teses, assumem contornos de uma grave psicopatia.

Se ainda apoias Israel em 2025, algo está mal contigo como pessoa

(Caitlin Johnstone, 18/07/2025, Trad. Estátua de Sal)


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Às vezes, acho impressionante a agressividade com que os apoiantes de Israel trabalham para reprimir as críticas a Israel. Então, lembro que essas pessoas também apoiam o assassinato em massa de crianças; tentar tirar.me o direito de me exprimir é um de seus objetivos menos perversos. Tal não deveria chocar-me.

Vi alguém a falar online sobre como é insano que grupos musicais que se manifestam contra as atrocidades de Israel estejam começando a formar alianças entre si, na tentativa de neutralizar a campanha para os silenciar e destruir as suas carreiras, dizendo que não deveria ser necessário formar uma aliança para se opor a um genocídio em andamento. E é verdade, não deveria ser necessário. Mas também não devemos surpreender-nos com o facto de pessoas que acham que bombardear hospitais é aceitável, tentarem cancelar músicos por criticarem Israel.

Um erro que os ocidentais continuam a cometer é pensar nos apoiantes de Israel como pessoas normais, com padrões morais normais, só porque os conhecemos e interagimos com eles nas nossas comunidades. Eles parecem-se conosco, falam como nós, vestem-se como nós e agem como nós, então presumimos que eles também devem pensar e sentir muito como nós.

Mas não. Se tu ainda apoias Israel no ano de 2025, há algo seriamente errado contigo como pessoa. Tu não tens um senso normal e saudável de empatia e moralidade.

Estamos em 2025. Soldados israelitas estão dizendo à imprensa israelense que estão recebendo ordens para massacrar civis famintos que tentam obter comida em centros de assistência. Inúmeros médicos têm dito ao mundo que atiradores israelitas estão rotineiramente a disparar deliberadamente na cabeça e no peito de crianças em toda a Faixa de Gaza. A Amnistia Internacional a Human Rights Watch e todos os principais especialistas em genocídio autoridades de direitos humanos estão dizendo que um genocídio está a ser perpetrado em Gaza. O New York Times acabou de publicar um artigo de opinião de um estudioso sionista do genocídio que finalmente admite que se trata de um genocídio.

Não há como negar o que isso significa. Se tu ainda apoias Israel em 2025, não é porque não acredites que Israel esteja a cometer atrocidades horríveis. É porque tu acreditas que essas atrocidades horríveis são boas e queres vê-las cometidas mais vezes.

A maioria dos apoiantes de Israel negará que isso seja verdade, porque mentem. Mentem constantemente. Eles não têm problemas morais em mentir. Eles não têm problemas morais com queimar crianças vivas , então é claro que não têm problema em mentir.

É aí que as pessoas se enganam. Presume-se que os apoiantes de Israel não podem estar a mentir sobre as suas preocupações com o “antissemitismo” para promover os interesses informativos de Israel, porque ninguém poderia ser tão maligno. Mas os apoiantes de Israel acham aceitável matar bebés à fome intencionalmente, bloqueando a entrada de leite em pó em Gaza. É claro que eles são mesmo malignos.

As pessoas presumem que os apoiantes de Israel não encenariam deliberadamente falsos incidentes antissemitas ou inflacionariam artificialmente os números do antissemitismo  nos seus próprios países para que os seus governos implementassem medidas autoritárias para reprimir as críticas a Israel em nome do combate ao antissemitismo, porque presumem que ninguém poderia ser tão depravado. Mas essas pessoas acham aceitável que as Forças de Defesa de Israel (IDF) assassinem sistematicamente jornalistas palestinianos para os impedir de dizer a verdade. É claro que eles são mesmo depravados.

Claro que tentariam silenciar a nossa voz. Claro que tentariam mandar os nossos filhos para a guerra com o Irão. Claro que se esforçariam por manipular o nosso governo. Claro que poluiriam o ecossistema de informação com montanhas de mentiras. Eles apoiam um genocídio transmitido ao vivo. São pessoas más.

Apoiar Israel e suas ações não é uma opinião política como a sua posição sobre impostos sobre a propriedade ou a legalização da maconha. Não se trata apenas de algumas pessoas terem um ponto de vista que precisamos respeitar e tratar como igual ao nosso sobre o assunto. Elas estão a trabalhar para tornar possível a condução de uma campanha de extermínio de horror insondável. Isso é tão político quanto uma violação coletiva, e igualmente digno de respeito.

Não há realmente nada que se possa ignorar em relação aos apoiantes de Israel neste momento. Eles vão mentir. Eles vão manipular. Eles vão fingir acreditar em coisas em que não acreditam. Eles vão fingir sentir coisas que não sentem. E farão tudo isso para facilitar algumas das piores atrocidades que se possa imaginar.

É isso que os apoiantes de Israel são. Eles mostram quem são todos os dias.

Fonte aqui.