Quando a «nossa civilização» zurra

(Por José Goulão, in SCF, 16/12/2025)


Roubar bens a populações sob ocupação é um crime de guerra, de acordo com as convenções internacionais.


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Menahem Begin, distinto Premio Nobel da Paz e primeiro-ministro de Israel entre 1977 e 1983, depois de ter chefiado o grupo terrorista Irgun e iniciado a sua militância político-paramilitar em grupos sionistas integrados na marinha fascista de Mussolini, costumava dizer que “os palestinianos são animais que caminham sobre duas patas”.

O sionismo, como doutrina racista e supremacista de inspiração divina e reverenciada por quase todos os dirigentes mundiais, recorre com frequência a este padrão zoológico para vincar a superioridade do “povo eleito” sobre todos os outros povos à face da terra, aglutinados na amálgama dos “estrangeiros”, designados “goiym” em língua hebraica. “Os goiym”, dizia o ex-ministro israelita e fundador do partido governamental Shass, Ovadia Yussef, “nasceram para nos servir, para servir o povo de Israel, senão não teriam lugar no mundo”. Não temos de nos surpreender, portanto, quando Yoav Gallant, ministro da Defesa de governos de Netanyahu, afirma que “em Gaza estamos a lutar contra animais humanos e agindo em conformidade”; ou quando o ex-primeiro ministro israelita Naftali Bennett dizia a membros da delegação palestiniana participante nas “negociações de paz” que “ainda vocês trepavam às árvores e já nós tínhamos um Estado”.

Acontecimentos muito recentes, e cuja ocorrência foi devidamente confirmada, ainda que não tenham merecido a atenção da máquina globalista da comunicação social, ajudam-nos a compreender mais a fundo as particularidades zoológicas do sionismo. Uma delas diz-nos que, aos olhos do exército e do governo de Israel, existe uma diferença determinante entre os animais de duas patas e os de quatro patas, neste caso favorável aos quadrúpedes.

Exemplos exaltantes

Exemplos desta opção começam a abundar. Centenas de burros têm sido retirados da Faixa de Gaza pelas tropas de Israel, sobretudo nas áreas que continuam a ocupar depois de iniciada a farsa mais recente de “cessar-fogo”; alguns desses animais são transportados carinhosamente, e com um máximo de cuidados, para países da Europa – sobretudo Bélgica, França e Alemanha – depois de acolhidos em instalações construídas pelas Forças de Defesa de Israel – administradas por uma organização designada “Starting Over Sanctuary (SOS)”, situada em Moshav Harat, ao sul de Telavive.

As informações foram dadas pela estação israelita KAN e reproduzidas em outros meios israelitas e europeus, designadamente o Allgemeine Zeitung da Alemanha e o website Jewish News, em ambos os casos através de narrativas empolgantes e comoventes.

A organização israelita de acolhimento “SOS” informa que, numa primeira fase, depois de transferidos da Faixa de Gaza os burros são tratados de “traumas psicológicos”, uma vez que, segundo as tropas israelitas, foi necessário salvá-los de “doenças e negligência”.

Ainda segundo a “SOS”, desde os acontecimentos de 7 de Outubro de 2023 já foram acolhidos no “Santuário” cerca de 1200 jericos, tornando-se beneficiários desta iniciativa tão generosa como humanista e assim poupados aos bombardeamentos e às incursões selváticas das tropas sionistas.

De acordo com outras fontes, que não a “SOS” ou as Forças de Defesa de Israel, desde que o exército sionista iniciou a actual fase de guerra e genocídio contra a população do enclave, precisamente no mesmo dia 7 de Outubro de 2023, foram mortas cerca de 70 mil pessoas, um terço das quais crianças. Trata-se, porém, dos tais “animais de duas patas” – voltando a citar Menahem Begin – ou então “de um povo semi-selvagem com conceitos extremamente primitivos”, de acordo com a doutrina sionista tal como foi exposta pelo escritor israelita Moshe Smilansky. As estatísticas são omissas, porém, quanto ao número de burros vitimados durante o mesmo período.

Europa de portas abertas aos burros

Preocupada em permanência com os direitos humanos, e neste caso dos burros, a Europa, na sua versão União Europeia, assumiu parte da tarefa de resgatar, tratar e proporcionar excelente qualidade de vida aos animais extraídos de Gaza. Os mesmos meios de comunicação atrás citados revelam que, em Maio deste ano de 2025, 58 burros foram transportados do “Santuário” israelita para o aeroporto de Liège, na Bélgica, onde descansaram durante uma noite antes de seguirem viagem para os seus destinos em território belga e em França, na região de Chartres. À chegada a terra francesa a comitiva de jericos foi saudada como “um símbolo de compaixão e civilidade”, de acordo com pessoas que acorreram para presenciar a cerimónia.

A “Network for Animals”, organização britânica responsável pela logística do complexo processo de salvação e transporte, garantiu que os animais, vítimas de “guerra e abusos”, viajaram em condições que lhes permitiram uma “transição sem stress”. Nos dias em que decorreu a operação, o exército israelita chacinou cerca de dois mil palestinianos em Gaza.

O jornal alemão Allgemeine Zeitung noticiou que nos arredores da cidade de Oppenheim foram recebidos, em Outubro último, quatro burros de Gaza que passaram igualmente pelo “Santuário” israelita depois de poupados à guerra pelos próprios soldados invasores. Anna, Greta, Elsa e Rudi, três burricas e um burro, foram acolhidos em condições que lhes permitem recuperar do “trauma psicológico” e “do stress”; além de lhes garantirem beneficiar de instalações climatizadas para que não sofram os efeitos nocivos da transição de um clima quente para ambientes mais frios.

Poucas semanas antes de os burros serem recebidos em território alemão, o governo de Berlim recusara-se a receber para tratamento cerca de 20 crianças palestinianas que foram vítimas de ferimentos graves em Gaza, decorrentes da agressão israelita. Ao invés, além dos burros, o executivo da Alemanha acolhe automaticamente qualquer cidadão israelita que ali queira permanecer, e que recebe automaticamente o estatuto de “hóspede alemão”.

A cooperação entre Israel e Estados da União Europeia para salvação dos burros de Gaza, e também da Cisjordânia, é uma consequência da cultura humanista e de respeito pelos direitos humanos que se pratica em ambas as geografias.

Não esqueçamos que desde a sua origem, e tal como é recordado, a cada passo, pelo primeiro ministro israelita, Benjamin Netanyahu, o sionismo e o Estado de Israel representam “a nossa civilização” na região do Médio Oriente povoada por “bárbaros”.

O ex-chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, tornou-se notado por dizer algo equivalente ao lançar o alerta de que o “jardim” onde usufruímos da “nossa civilização” superior está cada vez mais cercado e ameaçado de destruição por bárbaros oriundos do resto do mundo. Israel tudo faz para ser um bastião de defesa desse “jardim”, designadamente enriquecendo-o com burros também eles sofrendo as consequências do terror que está na massa do sangue desses mesmos bárbaros.

Nenhuma das publicações citadas se incomodou com isso, mas os burros estão a ser roubados aos seus legítimos proprietários, que deles necessitam para tentar sobreviver.

Num território que funciona como um campo de concentração, onde continua a faltar tudo o que é essencial – água, energia eléctrica, alimentos, cuidados de saúde, habitação, escolas e o resto – devido à agressão arrasadora e contínua das tropas israelitas, o burro tornou-se um animal indispensável ao ser humano para sua própria sobrevivência. Não já para os trabalhos agrícolas e a vida rural, que deixaram de existir, mas por serem, em muitas ocasiões, o único transporte de pessoas e bens na busca meios de subsistência e para as longas e penosas marchas a que as populações são submetidas durante os permanentes e forçados êxodos internos. A tropa israelita chama a isto “guerra, abusos e negligência” contra burros inocentes, enquanto chacina pessoas por atacado. Além de uma prática cleptómana, porém, sequestrar os burros às populações de Gaza é uma actividade cínica e cruel que contribui com a sua parte para a enorme operação de genocídio.

Não consta ainda, mas tudo leva a crer, que Ventura & Montenegro estejam a tratar de montar instalações convenientemente equipadas para que Portugal possa cumprir a sua quota parte no acolhimento dos burros salvos do inferno de Gaza.

No fim de contas, os jericos são uma outra espécie de imigrantes, bem mais benévola e irrepreensível, aos quais se devem franquear as portas do país, ainda que haja alguns custos para o erário público. É certo que não podem nem têm a obrigação de trabalhar – devem usufruir de merecida reforma depois da “guerra, negligência e abusos” sofridos na sua terra – mas não transportam com eles os vícios e as malquerenças daqueles povos que não querem sair da barbárie e, ainda por cima, invejosos e mal formados como são, pretendem aniquilar a “nossa civilização”. Os burros imigrantes apenas dão coices e zurram, mas sempre que o fazem é porque têm razões para isso, além de ser um direito inalienável e uma manifestação de liberdade de opinião.

Existe, porém, um pormenor que não tem sido levado em conta nestes esforços humanitários. Roubar bens a populações sob ocupação é um crime de guerra, de acordo com as convenções internacionais. Mas quem iria lembrar-se dessas velharias quando se trata de salvar uns pobres burricos entre pilhas de cadáveres humanos? Só os bárbaros, por certo.

Fonte aqui

A flotilha: valha-nos Ferro Rodrigues, Pedro Nuno e “Chicão”

(Ana Sá Lopes, in Público, 05/10/2025)


Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, a compaixão seria imensa neste país político.


Quem ainda não tinha percebido o significado profundo da grande vitória da direita em Maio percebeu agora com as reacções generalizadas à flotilha que Mariana Mortágua e mais três portugueses integraram.

Se havia dúvidas sobre o país que somos hoje, basta dar um salto às redes sociais, ouvir os comentadores, incluindo do PS, e assistir à fúria que uma missão humanitária provocou. Este ambiente político não existia antes de a direita valer dois terços dos votos dos portugueses.

O ódio à flotilha vem de todos os lados, mesmo de quem chama a Netanyahu “fascista” e admite que Israel está a cometer genocídio.

O Bloco de Esquerda é hoje um partido totalmente irrelevante na sociedade portuguesa que só elegeu um deputado. Suscita tanta fúria porquê? Ou é Mariana Mortágua?

Os argumentos contra Mortágua vão desde “porque não foi para o Sudão” ou “para a Ucrânia” a “está a perturbar o processo de paz em curso”. Não sabia que Mortágua tinha tanta influência na resolução de conflitos, mas este ódio é um sintoma da degradação do espaço público.

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Todas estas iniciativas são sempre políticas. Desde quando um acto ser “político” ou “ideológico” passou a ser crime de lesa-pátria? Odeiam Mariana Mortágua por causa do “imposto Mortágua”? Uma péssima notícia para quem ainda não deu por isso: o Governo de direita não acabou com “o imposto Mortágua”. Está em vigor, a menos que o Orçamento agora aprovado em Conselho de Ministros venha a aprovar a sua extinção.

Se a posição da direita, agora maioritária, pode não espantar ninguém (apesar de o Governo ter agora reconhecido o Estado palestiniano, historicamente quase toda a direita é aliada cega das actividades levadas a cabo pelas forças armadas israelitas), o caso da flotilha serviu para perceber como o secretário-geral do PS está perdido, sem rumo e tem só um objectivo neste momento: durar.

Se os ventos são agora desfavoráveis à esquerda, a direcção do PS parece achar que é o “parecer mais de direita” que fará com que o povo um dia o volte a agraciar com bênçãos.

O silêncio de José Luís Carneiro sobre a flotilha e a detenção de Mariana Mortágua e os outros portugueses em Israel — onde o ministro Ben-Gvir foi humilhar os participantes da flotilha acusando-os de ser “terroristas” — tem sido revelador deste medo que percorre algum PS.

Duvido que se o deputado em causa fosse André Ventura (detido na Venezuela, por exemplo, se lá fosse manifestar solidariedade com os presos políticos do regime) não houvesse uma palavrinha de solidariedade não só do PS como dos outros actores políticos em geral.

O incómodo de José Luís Carneiro voltou a ser sentido este domingo quando novamente fugiu às perguntas sobre o assunto, agora sobre a manifestação pela libertação dos portugueses e a mensagem de Ferro Rodrigues. Para Carneiro, “a actualidade política são as autárquicas” e não leu a mensagem de Ferro Rodrigues.

Para que o PS não saísse totalmente envergonhado deste episódio, perante o qual parte dos seus (ainda) eleitores se sentem perplexos, felizmente houve a mensagem de Ferro Rodrigues.

Ferro fez uma crítica dura à posição do líder do CDS e ministro da Defesa — que acusou os participantes da flotilha de “serem apoiantes de terroristas” —​ de ter “enorme gravidade e irresponsabilidade” e lembrou “o tratamento degradante que o ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben-Gvir, lhes deu, filmando-os ajoelhados e chamando-lhes terroristas e apoiantes de assassinos”.

Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, com um ministro a humilhá-lo, a compaixão seria imensa neste país político. Todos os líderes se acotovelariam para manifestar sentida e penhoradamente a sua solidariedade e a exigir a libertação.

Mariana Mortágua, por estes dias, não é pop. Já foi, no tempo em que o Bloco valia 10% e permitiu a José Luís Carneiro tornar-se pela primeira vez governante. Infelizmente, além de Pedro Nuno Santos, que veio condenar os insultos a Mortágua que enchem as redes sociais e não só, praticamente só uma outra voz de decência se fez ouvir: a de Francisco Rodrigues dos Santos, ex-líder do CDS, que não partilha uma única ideia política com Mortágua. “Chicão” disse na CNN sentir-se “revoltado” com quem “achincalha um conjunto de portugueses que teve a coragem de se opor a um genocídio”.

Não sei se o PS acha que tem mais votos nas autárquicas com este posicionamento. Pode sair-lhe o tiro ao lado.

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Gaza, a ignomínia

(Por José Gil, in Público, 05/10/2025)

Samah Matar, uma mãe palestiniana deslocada, com o seu filho Youssef, que sofre de paralisia cerebral e está desnutrido, numa escola onde pernoitavam, quando, em Julho, uma grave crise de fome atingia a Cidade de Gaza, por causa da guerra e do bloqueio movidos por Israel.

Gaza tornou-se o epítome da nova moral da força que faz do princípio da violência e da morte do outro a norma que deve presidir às relações entre as nações, entre os povos e entre os indivíduos.


Vimos com horror o massacre dos israelitas cometido pelo Hamas a 7 de Outubro de 2023.
A barbárie que vitimou mais de mil civis atingiu um grau de crueldade inimaginável. Ninguém, no dia seguinte, negava a Israel o direito de responder tomando como alvo a organização terrorista. Hoje, dois anos depois, tornou-se escandalosamente difícil evocar o 7 de Outubro perante a destruição apocalíptica de Gaza. Porquê? Se não faz sentido estabelecer comparações morais entre crimes tão hediondos, as atrocidades do Hamas não são “piores” do que a matança da população palestiniana perpetrada pelo Exército israelita.

Afirmar o contrário é tentar justificar o assassínio de todo um povo. É supor que os israelitas têm o “direito de se defender” de qualquer modo, direito exclusivo que lhes adviria do seu passado histórico de discriminação e de sofrimento sem fim — e que culminou no Holocausto. Passado que fez do povo judeu a vítima eleita da injustiça dos poderes estabelecidos do Ocidente, isto é, vítima da humanidade inteira (e assimilar a humanidade ao Ocidente é já um preconceito eurocêntrico). Considera-se agora que a vida de cada judeu vale mais do que a de qualquer outro ser humano — julgamos assim redimir-nos do Holocausto, nós, herdeiros dos ocidentais culpados daquele crime.

É a crença no valor superior de um judeu — e, portanto, de um israelita — que justifica que se arrase Gaza com os seus dois milhões de palestinianos, que se abatam mulheres e crianças, que se atire a matar contra os que, esfomeados, acorrem aos locais de ajuda alimentar — e que se troque um soldado israelita por centenas de militantes do Hamas. A vida de um palestiniano vale menos do que a de um judeu. A vida de uma criança palestiniana vale menos do que a de uma criança israelita. Ora, a erosão deste princípio, produzida pela guerra de Gaza, faz com que se torne difícil lembrar o 7 de Outubro. Foi uma convicção deste tipo — mas, ao invés, desumanizando os judeus — que levou o anti-semitismo hitleriano ao Holocausto.

Poder para a guerra

Como foi possível esta reviravolta que converteu um povo mártir em responsável por um massacre tão abominável como o que sofreu na Segunda Guerra Mundial?

Ele, que devia ser o primeiro a afirmar e a praticar as normas mais básicas de respeito pelo outro, ergueu-se, arrogante e feroz, e decidiu vingar-se bombardeando e matando a que julga ser raça inferior. A lógica que levou os descendentes das vítimas dos campos da morte nazis a uma tal posição de poder prepotente mostra como o exercício do poder político, voltado essencialmente para fins de sobrevivência, se transforma em poder para a guerra, com todas as consequências bárbaras que acarreta, sobretudo quando detém uma enorme superioridade bélica.

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A ameaça de morte de Israel brandida pelos Estados árabes foi constantemente amplificada pelo discurso paranóico do poder israelita que via nela a continuação do projecto de “solução final” do Holocausto; e, para dele definitivamente se livrar, virou-o contra o inimigo, começando pela expulsão brutal, em 1948, dos palestinianos e árabes das suas terras (Nakba), seguido pela política dos colonatos e pela transformação de Gaza num vasto campo de concentração. Projecto que culmina agora com a sua destruição. O processo que levou à guerra actual e à decisão de eliminar por completo a presença e a existência de um povo do seu território implicou a inversão imaginária da posição de vítima (do Holocausto) na de carrasco; e a inversão e projecção da ameaça de aniquilação total (reactivada pelo 7 de Outubro) sobre o inimigo árabe-palestiniano.

Palestinianos desesperam para receber alimentos de uma cozinha comunitária no final de Agosto — a fome atinge a Cidade de Gaza e as áreas vizinhas 

Gaza tornou-se um campo de extermínio de ratos humanos que fogem para todos os lados enquanto são bombardeados pelos aviões israelitas que os abatem à vontade, às dezenas, todos os dias. No meio de escombros e de lixo, os palestinianos dormem ao relento ou em tendas, correm humilhados e esfomeados para a ajuda humanitária que não chega, vivem sem cuidados médicos, sem higiene, doentes, feridos, mutilados, constantemente escorraçados. Vão de um sítio para outro, supostamente seguro, mas onde são baleados, despedaçados, mais uma vez desapossados da sua condição de humanos.

Nas imagens e nos relatos que nos chegam, é como se víssemos desenrolar-se, a céu aberto, uma outra versão da vida dos prisioneiros de Auschwitz. Gaza transformou-se no laboratório social de um Mengele genocidário: testa-se a resistência de um povo que, morrendo todos os dias um pouco, há-de acabar por abandonar a sua terra ou ser expulso por cinco mil dólares por pessoa — deixando-a livre, para os grandes empreendimentos imobiliários construírem a “Riviera do Médio Oriente” sonhada por Trump.

À frente dos nossos olhos

Tudo isto se passa diante dos nossos olhos com a cumplicidade da Europa, dos Estados Unidos e das nações democráticas que se calam perante os crimes de Israel. Neste sentido, Gaza é hoje o revelador sintomático de uma situação geopolítica mundial abstrusa, absurda, que nos afecta a todos, individual e colectivamente: as relações de força que determinam as estratégias e acções políticas das grandes potências, que condicionam a guerra e a paz e, directamente, a vida dos indivíduos, cessaram de se mascarar com ideologias, doutrinas políticas, religiões ou normas de direito internacional, para aparecer na sua nudez, na sua crueza ou crueldade brutas — e serem aceites como “normais”.

A visibilidade (não a transparência) dos acontecimentos, processos e iniciativas que giram à volta dessas relações de força alcançou um tal grau de intensidade e extensão que os valores jurídicos e a moral política já não contam — vale apenas a força, não há sequer lugar para o cinismo, a mentira ou a denegação, que tendem a desaparecer, dissolvidos na universalidade e clareza da violência que ocupa todo o campo político. Putin e os seus “crimes contra a humanidade” perpetrados na Ucrânia; Netanyahu e o assassínio colectivo de uma população indefesa; a repressão brutal das revindicações femininas pela polícia de Teerão; a inimaginável crueldade dos taliban contra as mulheres afegãs; a morte pelas bombas e pela fome das crianças palestinianas são “admitidos” com indiferença pelas democracias ocidentais.

Putin, Netanyahu, Trump e outros autocratas e criminosos de gravata continuam a exibir-se na cena mediática internacional, atraindo simpatias, elogios, posturas reverenciais, como se nada fosse. Porque acontece que esses homens não são apenas pessoas, representam a força de uma política que impõe aos povos um estado de espírito. Os sistemas autocráticos actuais concentram todo o tipo de poder (político, militar, económico, judicial) num só indivíduo. Deste, dos seus interesses e da sua vontade, depende a vida de milhões de seres humanos — o destino dos ucranianos nas mãos de Putin; as vidas dos palestinianos de Gaza e da Cisjordânia sacrificadas para que Netanyahu escape à justiça do seu país. Estes factos escandalosos, a sua impunidade ofensiva, a ausência de uma instância que os impeça e os puna — quando, por outro lado, a sua presença é cada vez mais exigida pelo sentimento de injustiça que vai emergindo na opinião pública — são mais uma faceta do bloqueio e da passividade a que a consciência política das nações parece condenada.

Gaza reflecte uma situação planetária paradoxal: a democracia de Israel comporta-se como uma autocracia; o povo descendente da Shoah apoia a “solução final” que os seus dirigentes programaram para os palestinianos; as vítimas tornaram-se verdugos, o “bom” é agora “mau” e cruel — e são eles os nossos aliados, depositários do mais profundo legado de humanidade, aquele que, precisamente, deveria fundar a nossa fé na democracia, depois do Holocausto.

Neste sentido, Gaza espelha da forma mais aguda o que acontece hoje às democracias, minadas pela violência da extrema-direita: os seus mecanismos institucionais políticos e jurídicos tendem a funcionar ditatorialmente, enquanto o discurso e os rituais de ostentação se mantêm aparentemente “democráticos”, afirmando a liberdade para o povo. Uma mesma lógica distorcida tece o fio que liga afectiva e politicamente Netanyahu a Orbán, Orbán a Putin, Putin a Trump, Trump a Bolsonaro, a Milei e a Meloni. Mas essa lógica deixa atordoados os jovens que se iniciam na democracia: será mesmo Putin o responsável pela guerra da Ucrânia? As atrocidades do Hamas no 7 de Outubro não justificam a retaliação empreendida por Israel?

A moral política evaporou-se, os fins agora justificam os piores meios porque o que está constantemente em jogo é, alegadamente, a sobrevivência das nações — foi uma questão “existencial”, como diz Putin, que levou a Rússia a invadir a Ucrânia; é uma questão de “segurança nacional” que faz Trump afirmar que os Estados Unidos “precisam de ter” a Gronelândia; é a sobrevivência de Israel que legitima a sua política bélica contra os palestinianos e os árabes. Porque os fins são derradeiros, todos os meios — e, antes de mais, a guerra — são bons para os atingir.

No discurso polarizado extremista do MAGA invoca-se a necessidade de matar para o renascimento da América; e todo o discurso xenófobo e racista dos movimentos populistas europeus fazem da morte do inimigo a condição primeira da sobrevivência. Gaza tornou-se o epítome da nova moral da força que faz do princípio da violência e da morte do outro a norma que deve presidir às relações entre as nações, entre os povos e entre os indivíduos. O genocídio dos palestinianos viabiliza a vida do povo israelita — aceitá-lo é aceitar a nova ordem mundial.

A política da força

A impunidade com que Netanyahu, Putin e Trump conduzem a sua obra de destruição vem da supremacia que a violência adquiriu nas relações entre Estados. O império da força leva à impotência dos povos e dos indivíduos. Nunca como agora essa impotência se manifestou tão agudamente: desde as manifestações de centenas de milhares de bielorrussos, ou de iranianas, durante semanas e semanas, de que só resultaram a repressão brutal e o reforço dos regimes autoritários até ao massacre, executado na impunidade, dia após dia, aos olhos de todos, dos palestinianos de Gaza, é toda uma série crescente de crimes cometidos pela pura violência do poder que paralisa, sidera e petrifica as vontades. É um terror legal, de Estado, que se abate sobre a população mundial.

A violência é política, física e mental, intelectual e emocional, e violência bélica letal. Gaza concentra em si a visão da impunidade obscena de todos os assassinos e violadores do direito internacional. As resoluções da ONU ou do Tribunal Internacional de Haia, as iniciativas das ONG, as denúncias dos media, os protestos populares revelam-se impotentes para conter a injustiça. A violência desfaz o simbólico: as manifestações de massa, as greves da fome, as imolações públicas, os sacrifícios mais corajosos perdem toda a sua eficácia. A impunidade vem da estratégia da violência, mas também da espécie de dilema a que ela condena todo o tipo de resistência possível: porque é da sobrevivência da nação prepotente que se trata, ou se aceita a eliminação do inimigo — por qualquer meio —, ou se é eliminado por ele. Ou se apoia o morticínio dos palestinianos para salvar Israel e os reféns, ou se é destruído pelo Hamas. Ou o Governo americano (e os Governos europeus) expulsa os imigrantes (“assassinos e violadores”), ou o seu país desaparecerá.

Este dilema em forma de extremo duplo impasse violenta e bloqueia o pensamento e a acção, deixando o campo aberto à política da força que avança sempre arrasando tudo à sua frente, sem hesitações, sem culpabilidades nem escrúpulos. É a lógica da violência neofascista. É ela que está a reduzir Gaza a cinzas. É ela que sufoca os resistentes que, não se deixando vergar aos ditames desta lógica, procuram ainda meios de lutar contra a ignomínia que nos atinge a todos.