A razão dos “coletes amarelos”

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 13/12/2018)

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É certo que o movimento dos “coletes amarelos” conta entre os seus líderes e participantes com muitos elementos da União Nacional, o partido de extrema-direita dirigido por Marine Le Pen. É igualmente verdade que a causa próxima não é necessariamente a mais progressista: um mundo sem impostos é um mundo sem serviços públicos e sem redistribuição, e foi precisamente em revolta contra os impostos que nos EUA emergiu o movimento populista reacionário (“TEA Party”, de “Taxed Enough Already”) que nos últimos anos esteve na origem da mutação gradual do Partido Republicano e culminou na eleição de Trump.

No entanto, é um erro desconsiderar a legitimidade popular das reivindicações e ressentimentos que subjazem a estes protestos. Se a intenção de aumentar o imposto sobre o gasóleo foi apresentada por Emmanuel Macron e pelo seu governo com uma justificação ambientalista, é preciso ter em conta a forma como o seu custo se iria distribuir pela sociedade e principalmente o facto de se somar a um conjunto de medidas, a nível fiscal, orçamental e da segurança social, que desde a eleição de Macron beneficiaram fortemente os ultra-ricos e penalizaram sobretudo os mais pobres.

Macron tem feito juz ao cognome de “Presidente dos ricos” com que foi apelidado ainda antes de iniciar o mandato, pelo que a atual revolta das classes populares em França não é apenas contra o imposto sobre o gasóleo, mas de uma forma mais fundamental contra o caráter injusto de uma política que favorece os mais ricos, as grandes empresas e as elites.

É por isso que este não é um mero movimento reacionário mas uma revolta popular legítima, que se for abandonada pela esquerda cairá diretamente nos braços da extrema-direita, aumentando fortemente a probabilidade de concretização da funesta profecia “Macron 2017, Le Pen 2022”. É por isso, também, que as tentativas de transposição para o caso português fazem pouco sentido, independentemente da relação quantitativa entre o preço do gasóleo e o montante do salário mínimo num e noutro país: é que o momento político em Portugal nos últimos anos é de reforço de direitos e rendimentos e de redução da desigualdade, não o seu contrário, ainda que esse reforço e essa redução não sejam tão rápidos ou abrangentes como seria desejável.

É significativo da capacidade de pressão que a ação popular de massas pode ter que o bonapartista Macron se tenha visto obrigado a renunciar à intransigência e a oferecer um conjunto de concessões que, apesar de limitadas e algo enganadoras, vão já para além do recuo no imposto sobre o gasóleo. Não sabemos onde este processo irá levar, mas pode alterar significativamente o contexto político não só em França como na Europa: os 10 mil milhões de euros de despesa adicional que este conjunto inicial de cedências deverá implicar deverão fazer o défice orçamental francês do próximo ano exceder largamente os 3% das regras europeias, minando a capacidade da Comissão impor o seu espartilho normativo a países como a Itália ou, já agora, Portugal. É irónico que este desenvolvimento surja no horizonte dias depois do anúncio pelo Eurogrupo de uma nova reforma da zona euro que é tão insignificante que já ninguém se lembra do seu conteúdo. Mais do que das decisões tecnocráticas, é da força das reivindicações populares que podemos esperar mudanças.

O perigo europeu não é Londres

(Francisco Louçã, in Expresso Diário, 11/12/2018)

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2018 tem sido um annus horribilis para a União Europeia. A formação do governo italiano e a crescente popularidade de Salvini, a consolidação do grupo de Visegrado e a impunidade de Orban, o anúncio do afastamento a prazo de Merkel, a pressão de Trump e, sobretudo, o Brexit, todas as grandes transformações políticas operam no mesmo sentido, a criação de um sofrido e irresolúvel impasse institucional. Por isso, a questão chave vai ser a relação entre os governos e a revolta popular, que tem crescido precisamente num período de aumento do emprego e de lenta – ou lentissima – recuperação salarial. O facto é que toda a década perdida desde a crise financeira de 2008 está agora a cobrar o seu preço: os trabalhadores pobres irritados com a globalização, os migrantes fugindo da miséria, os jovens cansados da precariedade e da marginalização no emprego ou na cidade, as vítimas do espaço urbano colonizado pela especulação, são multidões arrastadas pela política abissal e que começam a falar. Perante este clamor, a crise ganha uma nova dimensão com a incapacidade institucional de responder ao mal estar social e, portanto, só se pode agravar, dado que os poderes europeus só conhecem uma resposta, a litania auto-satisfatória, que é justamente uma das causas da desafeição popular. Castigar Shiller e Beethoven repetindo ad nauseum o Hino à Alegria tornou-se a última das respostas da Comissão e dos seus comissários.

Uma expressão desta arrogância é a forma como os poderes europeus, ou seja Merkel e Macron, responderam ao referendo do Brexit, que aliás autorizaram e até estimularam, para depois, perante o resultado expectável, terem transformado a negociação numa demonstração de como será punido qualquer Estado que decida a saída. E vemos agora Theresa May, afinal uma das apoiantes de sempre da ortodoxia da direita europeia, ser sacrificada no altar de Bruxelas, correndo de um lado para o outro à procura de coisa nenhuma para uma misteriosa fronteira entre duas Irlandas. O certo é que Paris e Berlim acharam, no vendaval do Brexit, a oportunidade de fragilizar uma grande economia concorrente e de atingir o poder político e militar que historicamente equilibrava as disputas continentais, e querem levar o ajuste de contas até ao limite.

O problema deste plano é que ele atinge os próprios fautores, que se vão afundando na sua teia. Assim, enquanto a sucessão de Merkel vai anunciando um governo mais inclinado para a direita e mais menos-europeu, é em França que está o mais grave perigo. Era onde morava a solução, se quem lê estas linhas se lembra do entusiasmo com o jovem telegénico, enérgico e prometedor que tomou conta do Eliseu com uma vitória empolgada e uma maioria parlamentar arrasadora. Ele era o sonho chegado de novo ao poder, era o líder que ia reerguer a Europa, era a nova política para lá das velhas divisões, era o homem que abraçava mas sabia corrigir Trump, era a estrela que nos ia guiar. As elites lusitanas deslumbraram-se com as suas promessas (mutualização da dívida, lembra-se?), com o seu arrojo (convenções europeias em cada país até fim de dezembro de 2018, lembra-se?), com a sua pose. Esperavam um salvador, um Napoleão benévolo, e ei-lo a surgir em Paris.

Um ano e meio depois, o ras-le-bol francês é avassalador. Quatro semanas de protesto confuso, milhares de detidos, centenas de milhares de manifestantes, uma barreira de incomunicabilidade entre o povo e o governo, um presidente aflito, temos a França a lembrar-se de como sempre tem sido o país das revoltas e das revoluções europeias. E descobre-se como Macron falhou em todos os planos.

Falhou na vida social. Os jornais assinalam hoje como o presidente evocou a sua condição de banqueiro de investimento ao abolir o imposto sobre as fortunas – a única medida que se recusa a corrigir, mesmo quando aparece na televisão de baraço ao pescoço – e mostrou a sua enfatuação ao dar uma reprimenda a um jovem e ao menosprezar um desempregado que o interpelaram na rua, ao lançar que nas estações de caminho de ferro se encontra “gente que não é ninguém”, ao mesmo tempo que se rodeava do fausto de Versalhes para falar aos deputados aprumados. Macron, que acredita e afirma que faltou um rei aos franceses e que, sem temer o ridículo, se compara com Júpiter, vê-se como representante de uma transcendência no país mais republicano da Europa, e era evidente que um dia a contradição cobraria a sua fatura. Foi agora, com o povo na rua.

Falhou ainda no plano político. A maioria parlamentar de que dispõe é demasiada, crispa-se em divisões, hesita perante as pressões, adivinha deserções. Com tudo isto, arrisca-se a perder as eleições europeias para Le Pen (que é a aposta de Trump), enquanto tenta compor uma aliança internacional de desesperados: prometeu listas conexas com os liberais que estiveram reunidos em Madrid, tenta seduzir o Partido Democrático, de Renzi, em Itália, a Nova Democracia na Grécia e até os Verdes alemães para o seu novo partido europeu, mas já não é seguro que seja levado a sério.

Levado aos ombros pela ilusão europeia, Macron é hoje o mais fraco dos mais fortes. A consequência é tratar o Brexit com os pés e reduzir a União a este projeto falhado de frases tão grandiloquentes como inconsequentes. Em Paris está a exibir-se a morte da promessa da globalização feliz, perante um povo que descobriu que só lhe sobrou a vida triste.

Ser realista, exigir o impossível

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 09/12/2018)

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Nasci quatro anos antes de Maio de 68. Não posso ter memória disso, mas nos Paris Match dos meus pais, como em documentários na TV pós-25 de Abril, folheei e gravei no coração o romantismo e rebeldia daquela revolta de rapazes e raparigas sem medo, a beleza das imagens a preto e branco e das palavras de ordem nas paredes, a ideia de que por algum tempo – um mês e meio – tinha sido possível desafiar toda a ordem, toda a autoridade, e acreditar que tudo iria mudar.

A melancolia que sempre senti face a isso encontrei-a, deslumbrantemente exposta e narrada, em No Intenso Agora, o filme no qual João Moreira Salles, como eu uma criança à época, interroga, a partir de imagens de arquivo, aqueles dias extraordinários e o que se seguiu – desmobilização, desilusão, conformismo, integração, carreirismo, a vida normalmente. Um dos momentos mais pungentes é aquele em que uma jovem operária chora à porta da fábrica porque não quer desistir, regressar ao mesmo, enquanto colegas a tentam convencer de que houve conquistas, que não foi tudo em vão, que não ficou tudo igual mesmo se a revolução sonhada – qual? – não chegou a suceder.

Fast forward: Cohn-Bendit, o mais famoso rosto de Maio de 68, já veio certificar que este inverno revoltoso nada tem a ver com a primavera de há 50 anos – “Em 68 queríamos tirar um general do poder, agora querem lá pôr um”. É certo. Como é certo que no 68 internacionalista se gritava “não queremos saber de fronteiras”, e em 2018, entre as reivindicações dos coletes amarelos – ou pelo menos de uma das listas que circulam – está o frexit, a saída da UE, e “impedir os fluxos migratórios impossíveis de acolher e integrar dada a profunda crise civilizacional que vivemos” (que crise civilizacional não explicam).

Mas nas 25 exigências de um dos manifestos desta revolta, que li ontem, há decerto alguma coisa com que os manifestantes de 68 se identificariam. Porque a lista atira em todas as direções, contraditória e infantil como é inevitável num movimento que mistura gente de várias ideologias e sobretudo de nenhuma.

Vejamos: se a primeira reivindicação é “inscrever na Constituição que o Estado não pode confiscar mais de 25% da riqueza dos cidadãos”, o que dificilmente veríamos num manifesto de 68, a segunda é “aumento imediato do ordenado mínimo, das pensões e das prestações sociais mínimas em 40%”, e a terceira é “contratação massiva de funcionários públicos para restabelecer a qualidade dos serviços”, encontrando-se também “quadruplicar o orçamento da justiça e torná-la totalmente gratuita”. Ou seja, os coletes amarelos querem que o Estado recolha menos impostos, uma exigência típica (no discurso; na prática outros galos cantam) da direita liberal, mas, numa reivindicação tradicional da esquerda coletivista (mas também da direita populista), igualmente que gaste muito mais; de onde julgam que virá a riqueza para a segunda parte não dizem.

Uma contradição na qual, de resto, e mesmo após o curso de macroeconomia forçado a que fomos submetidos nos últimos anos, se tropeça todos os dias nos comentários de internet – como se as pessoas em geral ainda não tivessem percebido que o dinheiro do Estado advém das contribuições, e que exigir muito mais investimento público não é compaginável com reduzir impostos.

A seguir vem “anular a dívida pública”, e “sair da UE e da NATO” – um orgulhosamente sós à maneira – mas também “tornar os bancos mais pequenos, desfazer monopólios, separar a banca de investimento da de retalho e proibir o resgate pelo Estado” e “parar com as privatizações”. Portanto, nacionalismo anticapitalista e reforço da ingerência do Estado no setor privado da economia, para a seguir lermos, sobrancelhas levantadas pelo paradoxo: “Interditar ao Estado a ingerência no ensino, na saúde e na família” e “excluir toda a ideologia do ministério da educação”. Mais Estado e menos Estado, ao mesmo tempo, pois. Mas “não ingerência na família” será o quê? Acabar com o reconhecimento estatal do casamento e da união de facto ou permitir todo o tipo, incluindo o polígamo, de casamento? Liberalizar a procriação assistida e a maternidade de substituição? Desmantelar a proteção de menores e acabar com a escolaridade obrigatória e a proibição da violência doméstica? Seria interessante descobrir, como o que será essa ideologia que recusam ao ministério da Educação – a menos que estejamos ante a cartilha antifeminista e anti-igualdade de todas as extremas-direitas emergentes.

Sim, é uma baralhada assustadora e sobretudo hiperpopulista, que sonha com homens providenciais e o regresso a uma abastança autossuficiente que nunca existiu – não admira que Trump bata palmas. Mas pode a noção disso esgotar o pensamento sobre o que se passa em França? Temo que não.

Porque há motivos para a raiva, para um sentimento de traição fundamental face à persistência da desigualdade; porque o desespero e o ressentimento são reais. Porque, caramba, ninguém pode ver aquela imagem dos liceais de joelhos sem se revoltar – que Estado faz aquilo? Que governo democrático? Porque, 50 anos depois, o poético e irónico “sejamos realistas, peçamos o impossível” de Maio de 68 é a fórmula triunfante dos demagogos.