Admirável Portugal novo

(Alexandre Abreu, in Expresso Diário, 23/09/2015)

Alexandre Abreu

Alexandre Abreu

Através das redes sociais, fui ontem parar a um anúncio de emprego surrealista, publicado pela Administração da Universidade de Coimbra num sítio de internet dedicado ao emprego e mobilidade científicos em Portugal.

Refere o dito anúncio a intenção da Universidade de Coimbra em abrir concurso para atribuição de duas “bolsas de gestão de ciência e tecnologia” no âmbito daquilo a que chamam o Projecto “Recuperação de créditos de propinas e taxas devidos à Universidade de Coimbra”. Logo de seguida, adverte desde já que “a atribuição da bolsa não gera nem titula uma relação de natureza jurídico-laboral”, apesar de ser “exercida em regime de dedicação exclusiva”.

Por outras palavras, e para quem não tiver percebido logo do que se trata, a Universidade de Coimbra está a tentar recrutar dois trabalhadores para se dedicarem à cobrança coerciva de propinas em atraso. Ao mesmo tempo, está também a tentar disfarçar de forma patética este processo de recrutamento, mascarando-o de processo de atribuição de bolsas no âmbito de um projecto científico – ao qual não falta sequer o nome do projecto (que referi em cima) e a “orientação científica” (que é prestada por uma responsável do serviço de gestão académica da Universidade).

Os dois trabalhadores a recrutar serão no fundo uma espécie de cobradores de fraque em versão precária, que terão como alvos os estudantes e famílias com propinas em atraso. Através do exercício desta nobre função, ficamos por este anúncio a saber que estarão a “promover a aquisição de competências, através da formação hands-on” no dominio da “cobrança coerciva de dívidas e regularização de reembolsos” – sendo que este “hands-on” se torna especialmente irónico, ou preocupante, quando temos em conta o conteúdo da função. Decididamente, a Universidade de Coimbra já terá tido momentos menos rasteiros nos seus 700 anos de história…

Mas se este caso é especialmente pusilânime e insólito, o motivo por que o trago esta semana para esta coluna consiste no seu significado mais amplo – no facto de condensar alguns dos piores aspectos das transformações por que Portugal tem passado nos últimos anos.

A montante deste anúncio, estão vinte e cinco anos de aumentos graduais dos montantes das propinas do ensino superior, através dos quais as famílias têm sido chamadas a um cada vez maior co-pagamento daquilo que deveria ser um investimento público, de todos, no futuro da nossa sociedade – contribuindo para que muitas destas famílias, que têm mais dificuldades em pagar, acumulem dívidas ou vejam os seus filhos abandonarem os cursos a meio.

A montante deste anúncio, estão os últimos anos de ferro de desinvestimento no ensino superior, no contexto dos quais o governo tem vindo a externalizar para as próprias universidades a função odiosa de fixar as propinas nos montantes máximos e de proceder à sua cobrança coerciva, sob pena de não disporem dos meios necessários para assegurarem o seu funcionamento mínimo.

A montante deste anúncio, está também um sistema generalizado de trabalho precário na ciência e tecnologia, no contexto do qual muitos dos portugueses e portuguesas mais qualificados e bem preparados de sempre trabalham durante anos a fio ao abrigo de contratos que, como este anúncio se limita a exemplificar, não geram nem titulam relações jurídico-laborais.

São largos milhares pelo país fora que fazem investigação, desenvolvem soluções técnicas e científicas, publicam artigos e em muitos casos ainda dão aulas aos estudantes do ensino superior, mas que não têm direito a subsídio de desemprego, 13º mês, apoio na doença ou a fazer greve – porque, lá está, o seu contrato não titula uma relação jurídico-laboral. Os postos de trabalho referidos neste anúncio em particular não visam verdadeiramente fazer ciência, mas o modelo contratual proposto tira partido da precariedade institucionalizada que se generalizou neste domínio ao longo dos anos.

Finalmente, e de forma mais ampla, a montante deste anúncio está um sistema perverso de generalização do trabalho precário para todo o tipo de fins – inclusive fins não permitidos por lei, o que não impede que os organismos do Estado se encontrem entre os prevaricadores. São centenas de milhares de pessoas que passam recibos verdes em Portugal e que, em muitos casos, não são verdadeiros trabalhadores independentes, mas trabalhadores dependentes forçados à precariedade. São, na maior parte dos casos, pessoas que auferem escassas centenas de euros por mês, mas cuja carga fiscal (entre IVA e IRS) e contribuições para a Segurança Social são várias vezes superiores às de quem realiza mais-valias bolsistas de milhares ou milhões.

No fundo, este anúncio não é mais do que um ex-líbris do admirável Portugal novo em que o nosso país tem vindo a transformar-se a cada vaga sucessiva de “reformas estruturais”, do co-financiamento do ensino superior à precarização do mercado de trabalho. São reformas que têm autores – pessoas e partidos, com destaque para os que se encontram no governo, que têm estado sempre na vanguarda destas transformações e que não hesitarão em continuar a fazê-lo, desbravando novas fronteiras da barbárie em áreas como a saúde e a segurança social.

Já a quem acha que este país merece melhor, cabe no próximo dia 4 impedi-los de fazê-lo, votando em quem está e tem estado do outro lado da barricada.

O manto diáfano do emprego

(Nicolau Santos, in Expresso, 29/08/2015)

Nicolau Santos

    Nicolau Santos

O país tem assistido com alívio à descida da taxa de desemprego, que se cifrou em 11,9% no segundo trimestre de 2015, quando há doze meses estava em 13,9% e em 2013 tinha batido nos 16,2%. A maioria tem assinalado com entusiasmo esta tendência, enquanto a oposição a tenta desvalorizar, sustentando que entre desencorajados, pessoas que emigraram e milhares de outras que estão a frequentar cursos de formação, a verdadeira taxa de desemprego é bem superior. Não foi, contudo, este Governo que definiu as regras como se mede o desemprego. Por isso, há que aceitá-las e olhá-las à lupa para compreender que tipo de emprego está a ser criado e qual o modelo que está a emergir em Portugal após quatro anos de austeridade.

Ora recorrendo à Pordata constata-se que desde o início do século a população empregada reduziu-se em quase 600 mil pessoas (591,8 mil). Com efeito, enquanto em 2000, havia mais de 5 milhões de pessoas empregadas (5.041,3 milhares), atualmente esse número caiu para 4.449,5 milhares. A diminuição fez-se sobretudo sentir nas pessoas empregadas a tempo inteiro (menos 576,7 mil, fixando-se agora em 3.910,8 milhares), ganhando peso as pessoas empregadas a tempo parcial (mais 34,9 mil, atingindo 588,7 mil).

Como se qualifica um modelo assente em baixos salários, precariedade e reduzida proteção ao desemprego?

Olhando depois para os trabalhadores abrangidos pela retribuição mínima mensal garantida (505 euros desde novembro de 2014), constata-se que quase 20% se encontram nesta situação, o que é verdadeiramente surpreendente pois em abril de 2014 esta percentagem era de 13,2% e pulou em seis meses para 19,6% (!), quando entre 2011 e 2013 oscilou entre 11,3% e 12% (boletim do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério de Economia).

Se olharmos entretanto para a remuneração média para o conjunto da população empregada constata-se que ela é atualmente inferior em 24,5 euros (971,5 euros em outubro de 2011, 947 euros em outubro de 2014). Outro dado interessante tem a ver com o facto de das 620,4 mil pessoas desempregadas no segundo trimestre de 2015, apenas 268.141 (43,2%) estarem a beneficiar do subsídio de desemprego ou de outro tipo de apoio social — o que quer dizer que mais de 352 mil pessoas (56,8%!) desempregadas não recebem qualquer apoio público.

Conclusão: a economia está a criar mais emprego. Mas esse emprego é mais precário e muito barato, enquanto diminuem os apoios públicos aos desempregados. Ora como se qualifica um modelo económico assente em baixos salários, precariedade e reduzida proteção ao desemprego? Vêm-me vários nomes à cabeça e nenhum deles cola com uma economia moderna, dinâmica e inovadora.

E não é por falta de formação: em 2013 houve 17.339 empresas que realizaram ações de formação com a duração média de 33 horas, envolvendo 854.394 trabalhadores (!) e com o custo por trabalhador de 354 euros. Pode não ter resultado. Mas foi um grande negócio.


A Portucel e a Renova

A Portucel é uma das melhores empresas mundiais produtoras pasta de papel, pellets e de papel para escritório. A Renova é uma das mais inovadoras empresas na produção de papel tissue (papel higiénico, lenços, guardanapos, papel de cozinha). São empresas industriais de relevo na fileira da pasta de papel em Portugal e que ainda se encontram em mãos nacionais. Até agora estas empresas eram complementares. Mas este ano a Portucel quebrou o statu quo, ao comprar a AMS — Star Paper, produtora de papel de tissue de Vila Velha de Ródão, e o seu presidente-executivo, Diogo da Silveira, diz que “a questão não é se vamos ultrapassar a Renova, é quando”. Sendo a Portucel privada, entra nos negócios que quer e define os objetivos que entende. Mas parece bastante redutor que a Portucel queira ser maior do que a Renova. Seria bem mais interessante que quisesse ser a maior empresa europeia ou mesmo mundial. Assim, o que uma ganhar perde a outra e o país não beneficia nada.


A lição do dr. Osório

Com regularidade, António Horta Osório desagua na pátria para nos dar conselhos. Desta vez, foi na universidade de verão do PSD, onde sublinhou que “já estamos a viver dentro das nossas posses”. Este é um tema muito caro ao presidente do Lloyds. Compreende-se. Para quem recebeu €15,6 milhões em 2014, mais 50% que no ano anterior, Horta Osório tem a maior autoridade para nos dizer que estávamos a viver acima das nossas posses. Falta-lhe é um bocadinho de bom senso. Ou de pudor.


Negócios que correm bem

Há negócios que correm bem. Um deles é o da Science4You, que produz brinquedos científicos e que acaba de investir um milhão de euros numa nova fábrica, que lhe permitirá duplicar a produção. Liderada por Miguel Pina Martins, que detém 30% da Science4You, a empresa tem também como acionista a Portugal Ventures, capital de risco do Estado, com 49%. A Portugal Ventures, sob a liderança de José Epifâneo da Franca, apoiou várias startups que estão a demonstrar ser histórias de sucesso. Como prémio e apesar de ter larga experiência empresarial, tendo sido o fundador da Chipidea e de mais de 200 personalidades terem subscrito uma carta a pedir que cumprisse mais um mandato, foi substituído no cargo por Marco Fernandes, da DNA Cascais, uma empresa daquela autarquia. Epifâneo da Franca é independente mas não é de esquerda. Como é que se estabelece o primado da meritocracia neste país se exemplos destes se sucedem com regularidade, qualquer que seja a cor dos governos?


aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

são borboletas canários verde mar

onde mergulho a medo o meu olhar

são promessas que sei sem cobertura

de uma viagem pelo interior natura

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

são às dezenas às centenas ao milhar

a desenharem nos passeios pombas brancas

nascem nos pés e vão até às ancas

por um caminho que é bom de passear

aquelas pernas ali a dar a dar

dos homens levam os olhos ao passar

uma claras são outras morenas

umas marias outras manuelas

umas maiores outras mais pequenas

mas as tuas são melhores que todas elas

as tuas pernas aí a dar a dar

que já nem posso este poema terminar

(Manuel Alberto Valente, in ‘Chiado’, in “Poesia reunida — o pouco que sobrou de quase nada”, Quetzal 2015)