Todo mundo quer pegar carona no Expresso BRICS

(Pepe Escobar, in Brasil247.com, 06/11/2022)

Comecemos com o que é de fato um conto sobre o comércio do Sul Global entre dois membros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Em seu cerne está o já notório drone Shahed-136 – ou Geranium-2, em sua denominação russa: o AK-47 da guerra aérea pós-moderna. 

Os Estados Unidos, em mais um característico ataque histérico transbordando de ironia, acusou Teerã de armar as Forças Armadas Russas. Tanto para Teerã quanto para Moscou, o drone superstar, de ótimo custo-benefício e terrivelmente eficiente, usado no campo de batalha ucraniano, é um segredo de estado: seu uso desencadeou uma  tempestade de negativas de ambos os lados. Se esses drones são made in Iran, ou se o projeto foi comprado e a fabricação tem lugar na Rússia (a opção mais realista) não faz a menor importância.

Os registros mostram que os Estados Unidos armam até o pescoço a Ucrânia contra a Rússia. O Império, na verdade, é um combatente na guerra, por intermédio de um bando de “consultores”, conselheiros, treinadores, mercenários, armamento pesado, munições, inteligência via satélite e guerra eletrônica.  E, no entanto, os funcionários imperiais juram que não participam da guerra. Eles, mais uma vez, mentem.

Bem-vindos a mais um exemplo explícito da “ordem mundial baseada em regras” em operação. É sempre o Hegêmona quem decide quais regras aplicar, e quando. Qualquer um que se contraponha a ele é um inimigo da “liberdade” e da “democracia”, ou qualquer outro chavão, deverá ser – o que mais seria? – punido com sanções arbitrárias. 

No caso do Irã, há décadas sancionado até a exaustão, o resultado foi, como seria de se esperar, uma outra rodada de sanções. O que é irrelevante. O que importa é que, segundo o Corpo de Guarda Revolucionário Islâmico do Irã, nada menos que 22 países – lista que vem crescendo – estão  fazendo fila para pegar o bonde do Shahed.

Até mesmo o líder da Revolução Islâmica, o Aiatolá  Ali Khamenei, alegremente entrou na onda, comentando que o Shahed-136 não precisa photoshop.

A corrida rumo ao BRICS+

O que o novo pacote de sanções contra o Irã realmente “conseguiu” foi desfechar mais um golpe na cada vez mais problemática assinatura do ressuscitado acordo nuclear em Viena. Mais petróleo iraniano no mercado, na verdade, seria um alívio para as dificuldades de Washington após a recente e épica esnobada da OPEC+.

No entanto, um imperativo categórico continua existindo. A iranofobia – da mesma forma que a russofobia – sempre fala mais alto para os defensores da guerra straussianos-neocons que comandam a política externa americana e para seus vassalos europeus.

Então, aqui temos mais uma escalada hostil nas relações do Irã tanto com os Estados Unidos quanto com a União Europeia, uma vez que a junta não-eleita de Bruxelas também sancionou três generais iranianos. 

Compare-se isso com o destino do drone turco  Bayraktar TB2 – que, diferentemente das “flores no céu” (os gerânios russos) mostrou um péssimo desempenho em campo de batalha.

Kiev tentou convencer os turcos a usarem uma fábrica de armamentos da  Motor Sich na Ucrânia ou abrirem uma nova empresa na Transcarpátia/Lviv para construir  Bayraktars. O oligarca presidente da Motor Sich, Vyacheslav Boguslayev, de 84 anos de idade, foi acusado de traição por suas ligações com a Rússia, e talvez seja trocado por prisioneiros de guerra ucranianos.

Ao final, a negociação fracassou em razão do excepcional entusiasmo mostrado por Ancara em trabalhar para a construção de um novo centro de produção de gás na Turquia – uma sugestão pessoal do Presidente russo Vladimir Putin a seu colega turco Recep Tayyip Erdogan.

O que nos leva à interconexão cada vez maior entre os BRICS e os nove membros da OCX – à qual essa instância russa-iraniana de comércio militar está inextricavelmente ligada.

A OCX, liderada pela China e pela Rússia, é uma instituição paneurasiana cujo foco original era o combate ao terrorismo, mas que agora se volta cada vez mais para a cooperação geoeconômica – e geopolítica.  Os BRICS, liderados pela tríade Rússia, Índia, e China, superpõem-se à agenda da OCX em termos geoeconômicos e geopolíticos, expandindo essa agenda para a  África, América Latina e mais além: esse é o conceito do BRICS+, analisado em detalhe em um recente relatório do Clube Valdai , e plenamente abraçado pela parceria estratégica Rússia-China.

O relatório pesa os prós e contras de três cenários relacionados a possíveis candidatos ao BRICS+ no futuro próximo:

Primeiro, os países que foram convidados por Pequim para fazer parte da cúpula do BRICS de 2017 (Egito, Quênia, México, Tailândia, Tajiquistão).

Segundo, os países que fizeram parte do encontro de chanceleres do  BRICS, em maio do corrente ano (Argentina, Egito, Indonésia, Cazaquistão, Nigéria, UEA, Arábia Saudita, Senegal, Tailândia).

Terceiro, as principais economias do G20 (Argentina, Indonésia, México, Arábia Saudita, Turquia).

E há também o Irã, que já demonstrou interesse em se juntar aos BRICS.

O Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, confirmou recentemente que “diversos países”  estão morrendo de vontade de ingressar nos BRICS. Entre eles, um importantíssimo ator do Oeste Asiático: a Arábia Saudita.

O que é ainda mais surpreendente é que, há apenas três anos, no governo do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, o Príncipe Muhammad bin Salman (MbS) – o verdadeiro governante do país – estava resolvido a se juntar a uma espécie de  OTAN árabe, na condição de aliado privilegiado do Império.

Fontes diplomáticas confirmam que no dia seguinte à retirada das tropas americanas do Afeganistão, os enviados de  MbS começaram a negociar seriamente com Moscou e Pequim. 

Supondo-se que o BRICS alcancem o consenso necessário para a aprovação da candidatura de Riad em 2023, mal se pode imaginar as  consequências avassaladoras dessa decisão para o petrodólar. Ao mesmo tempo, é importante não subestimar a capacidade dos controladores de criarem o caos.   

A única razão pela qual Washington tolera  o regime de Riad é o petrodólar. Não se pode permitir que os sauditas persigam uma política externa independente e verdadeiramente soberana. Se isso acontecer, o realinhamento geopolítico não irá afetar apenas a Arábia Saudita, mas também todo o Golfo Pérsico.

Mas é cada vez mais provável que isso aconteça, depois de a OPEC+ ter de fato escolhido o caminho BRICS/OCX liderado pela Rússia e pela China – no que pode ser interpretado como um preâmbulo brando para o fim do petrodólar. 

A tríade Riad-Teerã-Ancara 

O Irã comunicou seu interesse em ingressar nos BRICS antes mesmo da Arábia Saudita. Segundo fontes diplomáticas do Golfo Pérsico, eles já estão engajados em um canal algo confidencial com a mediação do Iraque, na tentativa de se organizarem para tal. A Turquia virá em seguida – no BRICS, certamente, e possivelmente na OCX, onde Ancara hoje tem o status de observador extremamente interessado.

Agora, imaginem essa tríade – Riad, Teerã, Ancara – estreitamente ligadas a Rússia, Índia e China (o verdadeiro cerne dos BRICS), e futuramente na OCX, onde o Irã é, até agora, o único país do Oeste Asiático aceito como membro pleno.  

O golpe estratégico desferido contra o Império quebrou todos os récordes. As discussões que levam ao  BRICS+ focam o desafiador caminho rumo a uma moeda global lastreada em commodities capaz de superar a primazia do dólar.

Diversos passos interligados apontam para uma simbiose cada vez maior entre os BRICS+ e a SCO. Os estados-membros desta última já chegaram a um acordo quanto a um roteiro para o aumento gradual do comércio em moedas nacionais com base em acordos mútuos. 

O Banco Estatal da Índia – o maior emprestador do país – vem abrindo contas especiais em rúpias para o comércio relacionado com a Rússia. 

O gás natural russo enviado à Turquia será pago 25% em liras turcas, com um desconto de 25% que Erdogan pediu pessoalmente a Putin.

O banco russo VTB lançou transferências para a China em yuans, contornando o SWIFT, enquanto o  Sberbank começou a emprestar dinheiro na moeda chinesa. A gigante de energia russa Gazprom combinou com a China que os pagamentos por fornecimento de gás devem mudar para rublos e yuans, meio a meio. 

O Irã e a Rússia estão unificando seus sistemas bancários para conduzir comércio em rublos/rials.

O Banco Central do Egito está tomando providências para estabelecer um índice para  a libra egípcia – usando um grupo de moedas e o ouro – com o objetivo de afastar a moeda nacional do dólar.

E, também, há a saga do TurkStream. .

O presente do centro de gás 

Ancara, há anos, vem tentando se posicionar como um centro privilegiado de gás Oriente-Ocidente.  Após a sabotagem dos Nord Streams, Putin entregou de bandeja à Turquia a possibilidade de aumentar o fornecimento de gás para a União Europeia usando esse centro. O Ministério da Energia turco afirmou que Ancara e Moscou, em princípio, já chegaram a um acordo.

Na prática, isso significa que a Turquia irá controlar o fluxo de gás não apenas da Rússia, mas também do Azerbaijão e de grande parte do Oeste Asiático, talvez incluindo até mesmo o Irã e a Líbia, no nordeste da África.  Terminais de GNL no Egito, na Grécia e na própria Turquia irão completar a rede.

O gás russo se desloca através dos gasodutos TurkStream e Blue Stream. A capacidade total dos gasodutos russos é de 39 bilhões de metros cúbicos ao ano.

O TurkStream foi inicialmente projetado como um gasoduto de quatro linhas, com uma capacidade nominal de 63 bilhões de metros cúbicos ao ano. Nas atuais circunstâncias, apenas duas linhas – com capacidade total de 31,5 bilhões de metros cúbicos – foram construídas.

Portanto, uma extensão, em tese, é mais praticável – com a totalidade dos equipamentos de fabricação russa. O problema, mais uma vez, é a instalação dos dutos. Os navios a serem usados pertencem ao Allseas Group – e a Suíça faz parte da demência das sanções. No Mar Báltico, embarcações russas foram usadas para concluir a construção do Nord Stream 2. Mas, para uma extensão do TurkStream, seria necessária operar em profundidade oceânica muito maior. 

O TurkStream não seria capaz de substituir completamente o Nord Stream, pois ele comporta volumes muito menores.  A boa notícia para a Rússia é não ser alijada do mercado europeu. É evidente que a Gazprom só assumiria o significativo investimento necessário para a construção de uma extensão se houver garantias férreas quanto a sua segurança. A desvantagem é que a extensão também transportaria gás dos concorrentes da Rússia.  

Aconteça o que acontecer, resta o fato de que o combo Estados Unidos-Reino Unido ainda exerce uma forte influência sobre a Turquia – e a BP, a Exxon Mobil e a Shell, por exemplo, participam de praticamente todos os projetos de extração de petróleo em todo o Oeste Asiático. Eles, portanto, certamente iriam interferir na operação dos centros de gás turcos, como também na determinação do preço do gás. Moscou tem que pesar todas essas variáveis antes de se comprometer com o projeto. 

A OTAN,  é claro, ficará lívida de ódio. Mas nunca subestimem o Sultão Erdogan, especialista em minimizar riscos. Sua história de amor tanto com os BRICS quanto com a OCX está apenas começando. 


Fonte aqui.


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Nasce um novo sistema de pagamentos no Sul Global

(Pepe Escobar, in Resistir, 01/12/2022)

A União Económica da Eurásia ( EAEU, na sigla em inglês) está a acelerar a sua concepção de um sistema de pagamentos comum, o qual tem sido discutido em pormenor há quase um ano com os chineses sob a direção de Sergei Glazyev, o ministro da EAEU responsável pela Integração e Macroeconomia.


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O desastre energético da Europa é provocado por Berlim e Bruxelas, não por Moscovo

(F. William Engdahl, in Resistir, 13/09/2022)

Em 22 de agosto, o preço de mercado negociado em bolsa para o gás natural no hub alemão THE (Trading Hub Europe) estava a ser negociado a mais de 1000% acima do que há um ano atrás. A maioria dos cidadãos é informada pelo regime de Scholz que o motivo seria a guerra de Putin e da Rússia na Ucrânia. A verdade é bem diferente. Políticos da UE e grandes interesses financeiros estão a usar a Rússia para encobrir o que é uma crise energética Made in Germany e de Bruxelas. As consequências não são acidentais.

Não é porque políticos como Scholz ou o ministro alemão da Economia Verde, Robert Habeck, nem o vice-presidente de Energia Verde da Comissão Europeia, Frans Timmermans, sejam estúpidos ou ignorantes. Corruptos e desonestos, talvez sim. Eles sabem exatamente o que fazem. Eles estão a seguir um roteiro. Tudo faz parte do plano da UE para desindustrializar uma das concentrações industriais mais eficientes em termos energéticos do planeta. Trata-se da Agenda Verde da ONU 2030, também conhecida como Grande Reinicialização de Klaus Schwab.

Mercado de gás da UE desregulamentado

O que a Comissão da UE e os ministros do governo na Alemanha e por toda a UE estão a esconder cuidadosamente é a transformação que eles criaram na forma como o preço do gás natural é hoje determinado. Por quase duas décadas, a Comissão da UE, apoiada por mega bancos como JP MorganChase ou grandes fundos especulativos de hedge, começou a lançar as bases para o que é hoje uma desregulamentação completa do mercado de gás natural. Foi promovido como a “liberalização” do mercado de gás natural da União Europeia. O que agora permite é a negociação não regulamentada no mercado livre em tempo real para fixar preços em vez de contratos de longo prazo.

A partir de 2010, a UE começou a promover uma mudança radical nas regras de estabelecimento de preço do gás natural. Anteriormente, a maioria dos preços do gás era estabelecido em contratos fixos de longo prazo para entrega por gasoduto. O maior fornecedor, a russa Gazprom, forneceu gás à UE, principalmente à Alemanha, em contratos de longo prazo indexados ao preço do petróleo. Até os últimos anos quase nenhum gás foi importado por navios de gás liquefeito (GNL). Com uma mudança nas leis dos EUA para permitir a exportação do GNL proveniente da enorme produção de gás de xisto em 2016, os produtores de gás dos EUA iniciaram uma grande expansão da construção de terminais de exportação de GNL. Os terminais levam de três a cinco anos para serem construídos. Ao mesmo tempo, Polónia, Holanda e outros países da UE começaram a construir terminais de importação de GNL a fim de recebê-lo do exterior.

Ao emergirem da Segunda Guerra Mundial como principal fornecedor mundial de petróleo, as gigantes petrolíferas anglo-americanas, então chamadas de Sete Irmãs, criaram um monopólio global do preço do petróleo. Como observou Henry Kissinger durante os choques do petróleo da década de 1970:   “Controle o petróleo e você controlará nações inteiras”. Desde a década de 1980, os bancos da Wall Street, liderados pelo Goldman Sachs, criaram um novo mercado de “petróleo de papel”, ou negociação de futuros e derivativos de futuros barris de petróleo. Criou um enorme casino de lucros especulativos que era controlado por um punhado de bancos gigantes em Nova York e na City de Londres.

Esses mesmos poderosos interesses financeiros vêm trabalhando há anos para criar um mercado globalizado semelhante de “gás de papel” em futuros que eles pudessem controlar. A Comissão da UE e sua agenda do Green Deal para “descarbonizar” a economia até 2050, eliminando os combustíveis de petróleo, gás e carvão, forneceram a armadilha ideal que levou ao aumento explosivo dos preços do gás na UE desde 2021. Para criar esse mercado “único” de controle, a UE foi pressionada pelos interesses globalistas para impor mudanças de regras draconianas e ilegais de facto à Gazprom a fim de forçar o proprietário russo de redes de gasodutos de transporte de gás na UE a abri-los ao gás concorrente.

Os grandes bancos e interesses energéticos que controlam a política da UE em Bruxelas criaram um novo sistema de preços independente paralelo aos preços estáveis ​​e de longo prazo do gás de gasoduto russo que não controlavam.

Em 2019, uma série de diretivas burocráticas de energia da Comissão Europeia de Bruxelas permitiu que o comércio num mercado de gás totalmente desregulado definisse de facto os preços do gás natural na UE, apesar do facto de a Rússia ainda ser de longe a maior fonte de importação de gás. Uma série de “hubs” comerciais virtuais foram estabelecidos para negociar contratos futuros de gás em vários países da UE. Em 2020, o TTF holandês (Title Transfer Facility) era o centro comercial dominante para o gás da UE, o chamado benchmark (preço de referência) de gás da UE [NR]. Notavelmente, o TTF é uma plataforma virtual de negociações em contratos futuros de gás entre bancos e outros investidores financeiros, “Over-The-Counter” (“ao balcão”). Isso significa que é de facto não regulamentado, fora de qualquer troca regulamentada. Isto é fundamental para entender o jogo que hoje está a ser executado na UE.

Em 2021, apenas 20% de todas as importações de gás natural para a UE foram de GNL, com preços em grande parte determinados por negociações de futuros no hub TTF, a referência de gás de facto da UE, de propriedade do governo holandês, o mesmo governo que destroi suas explorações agrícolas com uma alegação fraudulenta de poluição por nitrogênio. A maior parcela de importação de gás europeu veio da Gazprom da Rússia, fornecendo mais de 40% das importações da UE em 2021. Esse gás foi entregue por gasodutos mediante contratos de longo prazo, cujo preço era muito inferior ao preço especulativo da TTF de hoje. Em 2021, os estados da UE pagaram uma multa estimada em cerca de US$30 mil milhões a mais pelo gás natural em 2021 do que se tivessem mantido os preços de indexação do petróleo da Gazprom. Os bancos adoraram. A indústria dos EUA e os consumidores não.Somente destruindo o mercado de gás russo na UE poderiam os interesses financeiros e os defensores do Green Deal criar seu controle do mercado de GNL.

Encerramento do gasoduto da UE

Com total apoio da UE para o novo mercado grossista de gás, Bruxelas, Alemanha e NATO começaram sistematicamente a encerrar o gás vindo para a UE através de gasodutos, de modo estável e com condições de longo prazo.

Depois de romper os laços diplomáticos com o Marrocos em agosto de 2021 sobre territórios disputados, a Argélia anunciou que o gasoduto Maghreb-Europa (MGE), lançado em 1996, deixaria de operar em 31 de outubro de 2021, quando o acordo relevante expirou.

Em setembro de 2021, a Gazprom concluiu seu gasoduto submarino multimilionário Nord Stream 2 através do Mar Báltico, da Rússia até o norte da Alemanha. Duplicaria a capacidade do Nord Stream 1 para 110 mil milhões de metros cúbicos/ano, permitindo que a Gazprom fosse independente de interferências nas entregas de gás através de seu gasoduto Soyuz que passa pela Ucrânia. A Comissão da UE, apoiada pelo governo Biden, bloqueou a abertura do gasoduto com sabotagem burocrática e finalmente, em 22 de fevereiro, o chanceler alemão Scholz impôs uma sanção ao gasoduto devido ao reconhecimento russo da República Popular de Donetsk e da República Popular de Lugansk. Com a crescente crise do gás desde então, o governo alemão recusou-se a abrir o Nord Stream 2, apesar de estar concluído.

Então, em 12 de maio de 2022, embora as entregas da Gazprom pelo gasoduto Soyuz através da Ucrânia tenham sido ininterruptas durante quase três meses de conflito, apesar das operações militares da Rússia na Ucrânia, o regime de Zelenskyy controlado pela NATO em Kiev fechou um grande gasoduto russo através de Lugansk, que entregava gás russo tanto para a Ucrânia quanto para os estados da UE, declarando que permaneceria fechado até Kiev obter o controle total de seu sistema de gasodutos que atravessa as duas repúblicas do Donbass. Essa secção da linha Soyuz da Ucrânia cortou um terço do gás via Soyuz para a UE. Certamente não ajudou a economia da UE no momento em que Kiev implorava por mais armas desses mesmos países da NATO. A Soyuz fora inaugurada em 1980, no tempo da União Soviética, transportando o gás do campo de Orenburg.

Em seguida veio o gasoduto Yamal russo através da Bielorrússia e da Polánia até a Alemanha. Em dezembro de 2021, dois meses antes do conflito na Ucrânia, o governo polaco fechou a parte do gasoduto que passava pelo seu território, impedindo a entrega de gás da Gazprom a preços baixos para a Alemanha e a Polónia. Em vez disso, as empresas de gás polacas compraram gás russo no armazenamento de empresas de gás alemãs, através da secção polaco-alemã do gasoduto Yamal, a um preço mais elevado num fluxo inverso. As empresas de gás alemãs obtiveram seu gás russo por meio de um contrato de longo prazo por um preço de contrato muito baixo e revenderam-no à Polónia com um lucro enorme. Essa insanidade foi deliberadamente minimizada pelo ministro da Economia Verde Habeck e pelo chanceler Scholz e pelos media alemães, embora tenha forçado os preços do gás alemão a subirem ainda mais e piorado a crise do gás alemã. O governo polaco recusou-se a renovar seu contrato de gás com a Rússia e, ao invés, compra gás no mercado livre por preços muito mais altos. Como resultado, não está fluindo mais gás russo para a Alemanha através do Yamal.

Finalmente, o fornecimento de gás através do gasoduto submarino Nord Stream 1 foi interrompido devido à reparação necessária de uma turbina a fabricada pela Siemens. A turbina foi enviada para uma instalação especial da Siemens no Canadá, onde o regime anti-russo de Trudeau a reteve por meses antes de finalmente liberá-la a pedido do governo alemão. No entanto, eles deliberadamente recusaram-se a conceder a entrega ao seu proprietário russo, mas à Siemens Alemanha, onde fica, já que os governos alemão e canadiano recusam-se a conceder uma isenção de sanções juridicamente vinculativa para a transferência para a Rússia. Desta forma, o gás da Gazprom através do Nord Stream 1 também é drasticamente Yamal reduzido para 20% do normal.

Em janeiro de 2020, a Gazprom começou a enviar gás do seu gasoduto TurkStream, através da Turquia, para a Bulgária e a Hungria. Em março de 2022, a Bulgária unilateralmente, com o apoio da NATO, cortou o fornecimento de gás do TurkStream. O húngaro Viktor Orban, por outro lado, garantiu a continuação do fornecimento do TurkStream. Em consequência, hoje a Hungria não tem crise energética e importa gás do gasoduto russo aos baixos preços fixos do seu contrato.

Ao sancionar ou encerrar sistematicamente as entregas de gás através gasodutos com contratos a longo prazo e de baixo custo para a UE, os especuladores de gás através do TTP holandês conseguiram usar todos os tropeços ou choques de energia do mundo, seja uma seca recorde na China ou o conflito na Ucrânia, para restrições de exportação nos EUA, para licitar os preços grossistas do gás da UE através de todos os limites. Em meados de agosto, o preço futuro na TTP estava 1.000% mais alto do que um ano atrás e subindo diariamente.

A loucura do preço alemão mais alto

A sabotagem deliberada dos preços da energia e da eletricidade torna-se ainda mais absurda. Em 28 de agosto, o ministro das Finanças alemão, Christian Lindner, único membro do gabinete do Partido Liberal (FDP), revelou que, sob os termos opacos das complexas medidas da Reforma do Mercado de Eletricidade da UE, os produtores de eletricidade a partir de energia solar ou eólica recebem o mesmo preço pela sua eletricidade “renovável” que vendem a distribuidoras de energia para a rede pelo custo mais elevado, ou seja, o do gás natural!

Lindner pediu uma mudança “urgente” na lei de energia alemã a fim de dissociar os diferentes mercados. O fanático ministro da Economia Verde, Robert Habeck , respondeu imediatamente:  “Estamos trabalhando arduamente para encontrar um novo modelo de mercado”, mas alertando que o governo deve estar atento para não intervir demasiado: “Precisamos de mercados funcionais e, ao mesmo tempo, precisamos definir as regras certas para que as posições no mercado não sejam abusadas”.

Habeck, de facto, está fazendo todo o possível para construir a Agenda Verde e eliminar o gás, o petróleo e a energia nuclear, as únicas fontes de energia confiáveis ​​no momento. Ele se recusa a considerar a reabertura de três centrais nucleares fechadas há um ano ou a reconsiderar o fechamento das três restantes em dezembro. Ao declarar numa entrevista à Bloomberg que “não abordarei essa questão ideologicamente”, declarou a seguir:  “A energia nuclear não é a solução, é o problema”. Habeck e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declararam repetidamente que mais investimento nas nãos confiáveis energias eólica e solar ​​é a resposta para uma crise dos preços do gás que suas políticas criaram deliberadamente. Em todos os aspectos, a crise energética suicida em curso na Europa foi “Made in Germany”, não da responsabilidade russa.


[NR] A Península Ibérica é uma exceção dentro da UE, pois nela os preços são estabelecidos na bolsa do MIBGÁS.

Ver também:
Norway ‘skeptical’ about EU’s gas price cap – PM

[*] Consultor de risco estratégico, autor de best-sellers sobre petróleo e geopolítica.

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/europe-energy-armageddon-from-berlin-brussels-not-moscow/5792005


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