Eu e o PS

(Carlos Esperança, in Facebook, 24/05/2025), Revisão da Estátua)

E no fim da noite só se salvou Évora….

(Este texto está escrito na primeira pessoa pelo meu amigo Carlos Esperança, pelo que isso reforça a asserção de que as opiniões políticas nele expressas só a ele responsabilizam. A Estátua não faz propaganda partidária, nem contra o PS nem a seu favor, mas não pode ignorar que há uma “falha” – ideológica e não tectónica -, que divide a esquerda da direita – para usar uma classificação discutível, à falta de melhor -, que passa pelo interior dp PS. Isso fica claro no texto e o autor realiza um debate analítico que muitos simpatizantes e militantes do PS deveriam fazer.

Pela frontalidade sincera das posições expendidas, num exercício de separação ideológica das águas, resolvi publicá-lo.

Estátua de Sal, 25/05/2025)


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Agora que a urgência exige que o PS rapidamente tenha um novo líder, congratulo-me por ver José Luís Carneiro à frente do partido e desejo-lhe as maiores felicidades. É um político decente, sem ser de esquerda.

Não direi mal do PS, para isso bastam os militantes, os que preferem o poder sem cuidar da ideologia, os que estão prontos a denegrir o líder que perde, a favor de qualquer outro que os leve ao poder, os que aceitam que os seus líderes sejam acusados de radicais de esquerda pelos reacionários. Nunca o PS teve um líder radical de esquerda.

Foi assim que renunciaram à herança de Guterres, Sócrates e António Costa e deixaram que os adversários a denegrissem. Falei também de José Sócrates, o PM que a crise das dívidas soberanas destruiu, inovador e corajoso, cujos governos mereciam a defesa dos que querem uma governação entre a social-democracia e a democracia- cristã, devendo saber distinguir entre os problemas judiciais e a qualidade da sua governação.

Antes de José Luís Carneiro ser alvo de investigação preventiva e acusado de radical de esquerda, ele que é de direita, igual a Rui Rio, referência ética do PSD que Marcelo, Montenegro, Aguiar Branco e Ventura, este então no PSD, substituíram por homens de negócios sem visão para o País, continuarei a defender os meus ideais, a democracia liberal e a justiça social de que o IL é inimigo pior do que o Chega.

Assisti ao abandono de Ferro Rodrigues, infamado por um juiz de instrução narcisista e inculto, até ver agora os militantes que a direita mais à direita desejava à frente do PS, sem aí votar, a denegrirem o primeiro governo de António Costa, que os devia honrar, e a afastarem-se de Pedro Nuno dos Santos, imolado em golpes urdidos pelos empresários de Espinho, Montenegro e Hugo Soares.

Até o golpista de Belém, o do parágrafo, o adversário da despenalização do aborto, da regionalização e da decência, o que preferiu à estabilidade, às contas-certas e a Centeno a explosão do partido fascista e a entrega do poder ao bando atual, já foi perdoado.

Os que agora e há um ano invocavam o perigo do Chega para o PS viabilizar o governo reacionário e incompetente de Montenegro, jamais se oporão à aliança do PSD com o Chega, que Cavaco, Moedas e Miguel Relvas defendem. O “não é não”, é não enquanto convier!

A Europa assiste de novo, um século depois, ao advento do fascismo. Caíram primeiro os partidos comunistas, depois os sociais-democratas, enquanto a direita do pós-guerra, que lutou contra o fascismo, se tornou neoliberal e os sociais-democratas se deixaram seduzir pelo triunfo do capitalismo e se confundiram com a direita.

Agora, com a social-democracia afastada através de sucessivas eleições que culminaram golpes palacianos urdidos pelos órgãos que juraram fidelidade à Constituição, só resta a luta entre a direita moderada e a fascista enquanto o PS, como sucedeu em França, Grécia e outros países, se arrisca a desaparecer.

No dia 28 de maio, ironia da data, 99 anos depois, apuram-se os votos da emigração e o Chega passa a maior partido da oposição. No PS a capitulação ganha força. É a vida… 

Eu estarei onde sempre estive. É a vida…

O discurso da infâmia

(Nuno Morna, in Facebook, 19/05/2025), Revisão da Estátua)


[Num domingo à noite, febril, deitado de lado, com o coração aos gritos e a televisão ligada no volume errado].


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Ontem à noite, o país sentou-se a ver o circo. Um circo de uma só figura, de um homem só, de um espetáculo monológico onde o palhaço também era domador, diretor, macaco amestrado, leão faminto e criança perdida que grita da plateia para que olhem para ele, só para ele, sempre para ele.

André Ventura falou. Falou como quem cospe. Falou como quem bate. Falou como quem quer ser amado mas só sabe odiar. E parte do país, a parte do país fatigada de esperar por Deus, ouviu. Ouviu como se ouve o padre numa missa a que se vai por obrigação, como se ouve a mulher que já não se ama ou o pai que já não se respeita. Ouviu com raiva, com cansaço, com culpa.

Disse que acabara o bipartidarismo. Disse-o como quem anuncia a queda de Roma, o fim dos tempos, a libertação do povo escolhido. E ali estava ele, o Moisés do populismo, de microfone à frente e a azia no bolso como quem esconde a vergonha, prometendo terra prometida a quem nunca teve jardim. Disse que a história tinha mudado, que agora o país era outro, um país dele, feito por ele, para ele, com ele ao leme e os outros calados, de joelhos, em silêncio. Ventura quer o país em silêncio. O país de joelhos. O país em medo. Ventura não quer governar. Ventura quer mandar. E o que há de mais grave é que há quem deseje ser mandado. Há quem precise.

O Chega não é um partido. É uma carência. Um sintoma. É o vómito do país que nunca curou a sua tristeza. Que finge que é alegre no São João, no Santo António, nas bifanas do domingo, nos copos do sábado, nas sardinhas do Junho. Mas que sangra por dentro. Que odeia por dentro. Que tem raiva de si, de tudo, de todos.

Ventura oferece isso: um inimigo. Um sentido. Um alvo. Se há um culpado, já não sou eu. Já não é o meu fracasso, o meu salário, a minha solidão. É o cigano, o negro, o comunista, o assistente social, o jornalista, o juiz, o reformado, o artista, o pobre, o estranho. Ventura dá um nome à frustração. E isso consola. E isso vicia. E isso mata.

O seu discurso foi uma lista de cadáveres simbólicos. “Matei o partido de Álvaro Cunhal”, disse, como se estivesse a caçar fantasmas no sótão. “Varreram o Bloco de Esquerda do mapa”, gritou, com o orgulho de quem limpa sangue do chão, e chama a isso arrumação.

Para Ventura, política é isso: uma limpeza. Uma desinfeção. Uma purga. Como se o país estivesse sujo e só ele, com a sua verdade puríssima, o pudesse lavar. E lavar com quê? Com insultos. Com medo. Com castigos. Com prisões perpétuas. Com castrações químicas. Com multas. Com violência.

E depois, claro, o momento cómico, se a comédia ainda tivesse graça. Atacou as sondagens. Sempre as sondagens. Sempre o mesmo coro: que o queriam calar, que o queriam derrubar, que lhe mentem, que lhe fazem armadilhas. Ventura não percebe que as pessoas votaram no seu partido com vergonha de o fazer, de o dizer às sondagens.

 Ventura é o miúdo que jogava mal à bola e que ninguém quis na equipa e passou o resto da vida a sonhar ser capitão. E agora que lhe deram um apito, anda a expulsar todos os que correram mais depressa do que ele. Ventura não acredita em instituições. Acredita em si. Ventura não acredita em regras. Acredita no seu instinto. Ventura não acredita no país. Acredita no seu espelho.

E depois aquela frase. Aquela frase que soa a taverna com vinho barato e gritaria ao fundo. “A mama vai mesmo acabar”. Disse-o com o orgulho de quem faz justiça, mas com o tom de quem está habituado a mentir e a justificar-se com o cansaço. A mama vai acabar. A mama, quer dizer, o Estado. Os apoios. Os direitos. A solidariedade. Os serviços. A dignidade.

Ventura quer um país onde só os fortes sobrevivem. Onde quem não consegue, morre. Onde quem chora, se cala. Onde quem precisa, se esconde. Porque, para ele, a vida é uma luta de cães. E ele é o dono da trela.

Mas Ventura não quer que a mama acabe. Ventura quer ser ele a mamar. Quer o lugar do outro. Quer mandar nos subsídios. Quer mandar na televisão. Quer mandar na escola. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. Ventura quer mandar. E o país, esse país magoado, esse país velho que já não acredita em ninguém, esse país que se esqueceu como é que se luta, esse país votou nele como quem diz: “Toma, faz tu melhor”. E ele fará. Mas não será melhor. Será só mais triste. Mais cruel. Mais pequeno.

O que me espanta não é Ventura. Ventura é uma personagem de novela das seis: previsível, mal escrita, exagerada. O que me espanta é o silêncio. O silêncio dos outros. O silêncio dos bons. O silêncio dos sérios. Dos que deviam estar ali, naquele exato momento, a dizer: basta. Mas estavam calados. Com medo de perder votos. Com medo de serem insultados. Com medo de não parecerem “populares”. E assim se mata uma democracia: não com balas. Com medos. Com cobardias. Com silêncios.

Este discurso, o de 18 de maio, de ontem, não foi um discurso. Foi uma bofetada. Foi uma noite de gritos num quarto fechado. Foi o início de qualquer coisa escura. E se não gritarmos agora, se não dissermos agora, alto e claro, que isto não é normal, que isto não é aceitável, que isto não é o país que queremos, amanhã já não poderemos falar.

 E depois? Depois virá o silêncio. O grande silêncio. O silêncio dos cemitérios. E Ventura sorrirá. Porque não há nada mais cómodo para quem quer mandar do que um povo sem voz. E nós estamos perigosamente perto disso. Perto de calar. Perto de baixar a cabeça. Perto de desistir.

E quando isso acontecer, será tarde. Será sempre tarde.


Post scriptum: Estarei sempre do outro lado da barricada. Com todos os que são, efetivamente, pessoas de bem, não os que se dizem, mas os que o demonstram, com os que amam a liberdade sem adjetivos e a democracia sem asteriscos. No combate a todos os radicalismos, venham eles mascarados de justiça ou de ordem, de povo ou de nação.

No combate aos que aparecem para dividir, para semear o ódio, para apagar a pluralidade, para transformar o medo em política. No combate, sempre, à intolerância, a intolerância dos gritos e a dos silêncios cúmplices. Quero viver com a noção de que “Combati o bom combate“, (2 Timóteo 4:7). Da minha parte, não esperem outra coisa. Nem agora, nem nunca.

Eleições legislativas 2025 – 19 de maio de 2025

(Carlos Esperança, in Facebook, 20/05/2025), Revisão da Estátua)


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No rescaldo de eleições provocadas por um Primeiro-ministro que quis branquear a conduta ética com a ida às urnas, é natural que falte discernimento aos perdedores, entre os quais me conto. Ainda assim, arrisco discorrer sobre a hecatombe eleitoral e o que nos trouxe aqui, para além de termos como árbitro do regime um jogador pérfido e calculista que durante cinquenta anos se opôs às maiores conquistas democráticas.

O país esqueceu que Marcelo se opôs à criação do SNS e à despenalização da IVG, que obstruiu a lei da eutanásia e, então líder do PSD, censurou um programa de humor de Herman José no canal público e levou ao seu afastamento ao jeito do Estado Novo.

A direita teve cúmplices. Ainda ontem militantes do PS exultaram com o ocaso do BE e o fracasso do PCP, afirmando de viva voz o desejo da exclusão eleitoral de ambos. Nem o PCP, que sofreu prisões, tortura e morte dos seus militantes na luta contra o fascismo, mereceu respeito! Nem a clamorosa derrota do seu partido os entristeceu! E foi o apoio do PS ao PSD que deixou à solta, a fazer oposição, os partidos extremistas Chega e IL.

A campanha eleitoral do PSD com temas do Chega só podia ter como epílogo o reforço da direita. O voto no Chega não é apenas um voto de protesto, é a afirmação do racismo, da xenofobia e da homofobia do nacional-catolicismo que suportaram a ditadura.

Acresce que o eleitorado de esquerda é mais exigente na ética do que a direita. Bastava a vitória na Madeira, que encorajou Montenegro, para confirmar que a Tecnoforma foi irrelevante, para o prestígio de Passos Coelho, o caso dos submarinos idem para Paulo Portas ou a casa da Coelha e as ações do BPN para Cavaco.

Nem a acusação de crime de morte a um ex-líder parlamentar do PSD, por assassínio a tiro de uma portuguesa no Brasil, belisca o partido ou interessa aos portugueses. Duarte Lima há de morrer na cama sem ser julgado.

A Spinumviva não é caso político, é um caso de polícia não encerrado. As eleições não absolvem delitos; o PM não passou a respeitável por se apresentar ontem com todos os administradores da empresa de fuga ao fisco, ele, mulher e filhos a comemorar a vitória.

A deslocação brutal do eleitorado para a direita não é apenas fruto de golpes do Presidente da República, mas da fuga do PS na mesma direção, à semelhança do PSD, com a oposição interna a Pedro Nuno a obrigá-lo a suportar o governo de Montenegro. Tal como em França, estamos em risco de ver implodir os partidos do centro.

Ontem saíram feridas a democracia e a ética. Um partido regional, ao arrepio da Constituição, entrou na AR, o Chega passou a maior partido da oposição, o PS, já demasiado à direita, ficou refém da ala direita e neoliberal e até o bom governo de António Costa, com apoio parlamentar do PCP e BE, foi denegrido e acoimado de extremista depois de ter valido a maioria absoluta a que Marcelo e a PGR puseram termo.

Com a folga orçamental esgotada, os partidos extremistas em crescimento e um perigoso ministro das Finanças, o apoio previsível do PS à AD é a receita para o fim do regime. É a vida