Um medo alemão

(Francisco Louçã, in Expresso, 13/07/2019)

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À quarta é de vez? A administração do Deutsche Bank (DB) promete o sucesso do plano de reestruturação, com 18 mil despedimentos e a redução da unidade de investimentos, passando a concentrar-se no retalho. As razões da emergência são os €2,8 mil milhões de prejuízo no último trimestre, com o valor das ações no nível mais baixo em 149 anos. Mas o icebergue é mais fundo, não bastou uma recapitalização recente de €30 mil milhões e um primeiro ‘banco mau’. O medo está, por isso, a instalar-se nos circuitos financeiros. O FMI não usa meias-palavras, considera o DB como o maior dos bancos que é um risco sistémico.

AS BOAS NOTÍCIAS SÃO MÁS

O Governo alemão trata o caso como um perigo soberano, mas é duvidoso que tenha os meios para salvar o banco se o pânico se instalar. Falhou tudo o que tentou, como conduzir o banco a uma fusão com um concorrente, o Commerzbank. Entretanto, dois grandes bancos, a suíça UBS e o holandês ING, indicaram que poderiam propor uma fusão, que na verdade seria comprar os restos do DB depois de desfeito — a questão é que alguém tem de pagar a conta.

A dimensão do problema não é sequer fácil de medir. O DB tem 24 milhões de clientes, um banco postal e o maior gestor de ativos da Alemanha. Teve a ambição de ser o poder alemão na globalização, salvou-se sempre e quem se lembra do resgate da Grécia sabe do que se trata. Só que tem uma dívida tóxica colossal. Por causa disso, quer criar um novo ‘banco mau’ com 74 mil milhões de euros em ativos, mais do que se supunha há poucas semanas. O caso é que a exposição real a ativos de risco será pelo menos de €288 mil milhões (o valor nacional dos seus derivados é 12 vezes maior, o triplo do PIB europeu, mas isso diz pouco sobre o valor real).

E AS MÁS SÃO PÉSSIMAS

É importante perceber como é que o banco chegou a estes valores astronómicos. Talvez o mecanismo mais importante tenha sido especializar-se em investimento especulativo com uma avalancha de liquidez em dólares, que ainda é a moeda de referência para dois terços das trocas mundiais, usando para isso vários instrumentos cada vez mais arriscados. Um deles são os produtos derivados, como os swaps cambiais: o DB assina com um outro banco um contrato para lhe assegurar o câmbio de euros por dólares a um preço fixo a longo prazo. E este banco empresta em dólares, que não tem nos seus cofres, sabendo que os pode ir buscar ao DB sempre que precisar, usando este contrato. A pirâmide vai crescendo entretanto, muitos agentes financeiros e bancos usam o mesmo procedimento e, assim, a expansão financeira e a liquidez das últimas décadas apoiou-se nesta ficção. O DB quis ser o maior banco europeu para competir com os norte-americanos jogando em câmbios e montanhas de dívida.

O banco tornou-se deste modo o epicentro de tal negócio. E chegou desta forma aos €288 mil milhões. Por isso mesmo, o banco tem tentado na última década limpar esta conta, mas não o vai conseguir. Ao colocar no ‘banco mau’ uma parte do risco, quer vender esses contratos a preço de saldo, mas o truque de prestidigitação não evita ter que registar nas suas contas o prejuízo, sabendo ainda que o Governo, mesmo que o quisesse, não pode cobrir a parada, pois o buraco pode chegar a trinta anos do gigantesco superavit atual da Alemanha. É grande demais e é por isso que muita gente se lembra do Lehman Brothers. Talvez este abismo seja maior.


O caso Bonifácio

Depois de uma semana de celeuma sobre o artigo de Fátima Bonifácio que postula que “os ciganos são inassimiláveis” e “os africanos são abertamente racistas”, percebe-se que o caso em si é quase banal, a não ser pela curiosidade de Ventura ser ali enunciado em modo mais troglodita. Daniel Oliveira, Marta Mucznik ou Francisca Van Dunem, entre outros, arrumaram o assunto com elegância.

A fantasiosa reconstrução de uma história mágica (“as mulheres partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade”) ou o simplismo discriminatório (“isto não se aplica a africanos nem a ciganos”, pois não “descendem dos Direitos Universais do Homem decretados pela Grande Revolução Francesa de 1789”) são só a triste repetição de teses racistas que marcaram a meia-noite do século XX.

Mas, como Bonifácio faz parte de uma rede de gente fina que exibe a sua deriva extremista como se fosse o superior enunciado do senso comum, a tribo, mesmo que meio envergonhada, levantou-se em sua defesa, alegando, à falta de melhor, que o direito de opinião estava em risco se o racismo não fosse tolerado. Ela própria calou-se. Falaram por ela Helena Matos (“Não interessa se concordo ou discordo (…), o que interessa, o que é grave [é que] a ditadura das causas triunfou”) e Rui Ramos, que despejou os insultos em que é tão prolixo (“repugnou-me a canalhice das calúnias e das ameaças (…) e a inspiração de um dos mais asquerosos projetos políticos do nosso tempo (…) e porque a má-fé e a estupidez dominam este debate”). Como a pessoa mais inocente compreende, se tudo é tão superlativo é porque o navio já naufragou. Ora, a senhora professora há décadas que passeia a prosápia como se fosse um modo de vida e escreve tudo o que lhe apetece, sem qualquer restrição ao seu direito de opinião.

Resumindo, o caso Bonifácio só tem um motivo de curiosidade. Revela como o nosso tempo repete a tragédia dos anos 30, com a rendição de liberais ao totalitarismo, agora fascinados por Trump e Bolsonaro ou Salvini e Orbán. A “Cristandade” como referencial político, a raça como valor civilizacional, a superioridade branca como moral… já vimos isto tudo. É esta banalidade que é perigosa. Acrescente-se um Protocolo dos Sábios do Sião e teremos o que precisamos para um frémito de orgulho guerreiro que desce dos salões até aos arruaceiros da nova direita.


Casos triviais de pilhagem de dados

Episódio um. A carta do Santander aos clientes começa assim: “Os bancos são atualmente obrigados a recolher um conjunto de informações muito vasto sobre os seus clientes, respeitantes à sua identificação e conhecimentos (disse mesmo “conhecimentos”?), com a finalidade de permitir a adequação dos produtos e serviços prestados, no respeito da legislação aplicável e de procedimentos internos definidos para o efeito”. Aqui tem um monumento de falsidade. A legislação é exigente sobre a informação que os bancos devem ter sobre os clientes, mas não para “permitir a adequação dos produtos e serviços prestados”. Trata-se de uma invocação de autoridade para assustar o cliente.

Prossegue a carta: atualize o seu “comprovativo de morada” e, de seguida, o “comprovativo da entidade patronal/profissão”, o que já é excessivo (uma carta da entidade patronal é condição para ter uma conta bancária?). Mas chega-se então ao essencial, o cliente é intimado a “entregar” uma “declaração de património” e uma “comprovação de património”. Ora, esta carta é enviada a clientes de conta corrente e sem qualquer crédito em curso. Aliás, é assinada por Carla Santos, da Direção de Coordenação de Marketing. Ou seja, quer estabelecer uma base de dados para o marketing do banco. Mas não ficamos por aqui. Se o cliente não enviar imediatamente a dita comprovação de património, haverá “consequências especialmente gravosas, incluindo o encerramento de contas bancárias”.

Dois meses depois, nova carta. Se o cliente não enviou os tais dados, haverá “o encerramento de contas bancárias”. Portanto, a direção de marketing do banco, querendo “adequar” a sua oferta financeira, decide assustar os clientes para obter informação sobre o seu património e “conhecimentos”. O procedimento é abusivo, a ameaça é ilegal, a base de dados é clandestina. É tudo errado.

Episódio dois. Vai renovar o cartão do passe social? No impresso, é “obrigatório” declarar o e-mail e o telemóvel. Mesmo que depois assinale os campos de rejeição de publicidade da empresa e outros spams, lá está, para ter o passe social é “obrigatório” dar à empresa aqueles dados. Mais uma vez, é uma base de dados ilegal.

Dir-me-ão que são histórias triviais do nosso tempo. São mesmo. E há uma sabedoria ancestral que diz que, se quer conhecer o vilão, basta pôr-lhe um bastão na mão. Estas empresas ameaçam com o seu bastão e pensam que ninguém repara. Chama-se pilhagem de dados.

Ein Zug de Chelas

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 28/10/2016)

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O ministro das Finanças da Alemanha voltou a atacar o Governo: “Portugal estava a ir bem até chegar este Governo”.


Temos sorte em Schäuble não ter vindo dizer que o Deutsche Bank está como está desde que chegou o Governo de Costa. Schäuble tem mesmo uma obsessão connosco. Uma embirração que eu não sei se não terá a ver com a calçada portuguesa.

Diz o ministro das Finanças alemão que este Governo não está a cumprir as promessas que o anterior fez. É exactamente por isso, shor Schäuble, que existe este Governo. Primeiro, porque as promessas que o anterior Governo lhe fez eram diferentes das que o anterior Governo nos tinha feito, antes de vencer as eleições. Segundo, porque como as promessas que esse Governo lhe fez não prometiam nada de bom, na primeira oportunidade, mudámos para outro. Chama-se alternância. É próprio da democracia e tenho o palpite que, em breve, o senhor Schäuble vai sentir isso na pele. Alguém sabe como é que se diz “ide marrar com o comboio de Chelas” em alemão?

Provavelmente, o amigo alemão tem medo de que, com um aumento de dez euros nas pensões, os pensionistas portugueses venham a adquirir metade das acções do Deutsche Bank.

Schäuble faz lembrar um “sketch” do Big Train, onde, de cada vez que os empregados vão falar com o patrão sobre os ordenados em atraso e a situação da empresa, ele abre uma gaveta e começa a distraí-los com cãezinhos fofos ou números de circo com bolas.

O ministro das Finanças alemão tem o Godzilla do Deutsche Bank a entrar pela porta da frente do condomínio, mas o que lhe tira o sono é o ladrar do caniche do sujeito do quintal do lado. Se o nosso ministro das Finanças dissesse (ainda que fosse naquele tom ligeiramente de anúncio de Calcitrin que ele tem) que está muito preocupado com o rumo do DB e com o que este Governo alemão está a fazer para o evitar, havia de ser bonito. Tenho quase a certeza que, de cada vez que Schäuble fala na dita “Geringonça”, afina os eixos e reforça as porcas.

O mais curioso, neste ataque ao Governo actual, e defesa do anterior, é que se por acaso Schäuble se lembra de ligar agora a televisão, do bunker onde mora, no nosso Canal Parlamento e vê Passos e Cristas a pedirem para este Governo aumentar as pensões mais baixas, vai ter uma surpresa e só não tem um ataque cardíaco por ausência do órgão.

Segundo as minhas recordações, para a troika schaubliana da austeridade, as pensões eram para ficar todas congeladas até ao fim do século ou, numa hipótese mais remota, até a GNR conseguir apanhar o Piloto. Em relação a este último assunto, eu desconfio que a PSP e a GNR ainda não apanharam o fugitivo de Aguiar da Beira de propósito, porque o Estado, este ano, espera obter uma maior receita fiscal com imposto sobre cartuchos. 


Top5 Se fosses chatear o Goethe
 1. “Trump põe a hipótese de não aceitar o resultado das eleições.” – Nada que nos surpreenda. Já percebemos que, para Trump, muitas vezes, um ‘não’ significa um ‘sim’, à força.

2. Passos Coelho: “PSD fará, desta vez, propostas para o Orçamento.” – Mas todas inconstitucionais.

3. “PJ está convencida de que o Piloto tem um plano de fuga.” – Piloto está convencido de que PJ não tem um plano de captura.

4. “Sexta-feira vai ser votada no Parlamento a isenção de IVA para os produtos homeopáticos” – Mas continua a haver IVA numa garrafa de água.

5. Esquadra russa navega a 200 km de Aveiro – Busca, Tridente! Busca, Arpão! Kssss. ksss. Busca!

Um Banco cheio de zeros

(Dieter Dillinger, in Facebook, 25/10/2016)

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Vício do compadrio, ganância, provincianismo, devassidão, enchente de complexos, imaturidade, sobrestimação, falsidade, incompetência, fraqueza, arrogância, falhanço, decadência, bonomia e ingenuidade. Quem procurar um motivo para a queda do “Deutsche Bank” pode servir-se deste acervo de palavras que todas servem e com evidência.

Assim iniciou a revista alemã “Der Spiegel” desta semana um artigo de 12 páginas sobre o maior banco alemão, presente em 70 países com 101.104 funcionários em 2.790 sucursais e mais lesados que habitantes de Portugal, além de 561.559 acionistas perdedores com 1,38 mil milhões de ações a valerem 13 euros cada na passada quinta-feira depois de caírem mais de 50% em 12 meses. O DB vale hoje 17,94 mil milhões de euros depois de perder nas bolsas sensivelmente o mesmo valor, estando sujeito a pagar uma multa nos EUA no valor de 12 mil milhões de euros num só processo e outro tanto da parte dos milhões de lesados que adquiriram os seus fundos hipotecários praticamente sem fundo ou muito rotos.
O “Deutsche Bank” com 132 anos de existência começou por ser um banco normal para se tornar num banco de investimento na Alemanha, onde os seus principais dirigentes tinham assento em mais de 400 Conselhos de Administração e Conselhos Fiscais. Mas, a dada altura, os seus administradores fartaram-se das pequenas cidades alemãs onde estava a VW, a Daimler-Benz, a Bayer, entre muitas outras empresas, e quiseram conquistar o Mundo. Trabalhar entre Nova Iorque, Singapura e Tóquio e entre a Cidade do Cabo e Stockolm, etc..
De todos os grandes bancos, o DB seria o terceiro ou quarto maior no Mundo em 2008, mas só o DB não se importou com a crise financeira e, tal como o BES, continuou a sua atividade de vendedor de fundos com fraca liquidez, derivados, futuros de aposta na evolução de preços de muitas matérias primas, Hedgefonds (fundos ditos garantidos), etc. Até nas transações cambiais, o “software” do DB conseguia roubar aos clientes qualquer coisa que na maior parte das vezes nem davam conta disso, mas que no total são milhares de milhões ao longo dos anos.
Tudo para fazer o cliente perder dinheiro porque a administração estava apenas preocupada em saber quem iria substituir quem nos conselhos de administração e fiscal e quantos milhões se ganhava na venda de papéis de pouco valor por bastante dinheiro.
O cliente depositante passou a ser apenas uma pessoa para ser convencida a comprar alguns desses ditos produtos financeiros que deram juros “fabulosos” na passado e assim seria no futuro. Pouco interessavam mesmo os depósitos nem o capital que de vez em quando era fagocitado pelo banco, isto é, as ações eram compradas pelos diversos centros de negócios e trituradas, reduzindo o capital, fazendo aumentar os lucros percentuais que chegavam aos 30% ou mais do verdadeiro capital do DB que chegou a ser de apenas 9% dos capitais do grupo.
O principal centro de negócios do DB denominava-se “Global Markets” e lucrou em dez anos mais de 25 mil milhões de euros.
O artigo do“Der Spiegel” é demolidor para o DB, colocando de rasto todos os seus CEOs desde há duas décadas ou mais.
Para todos que nem eram alemães há muito tempo, o termo “Deutsche” criava uma auréola de confiança que levava os clientes a comprarem aquilo que um CEO chegou a dizer: “nós damos-lhes porcaria e eles dão-nos ouro”. Os seus gestores compravam tudo o que podiam desde que não valesse nada, colocavam lá umas ações da Daimler, da MAN ou da BASF entre outras empresas e o pessoal convencia-se que era acionista da grande e lucrativa indústria alemã quando tinha apenas umas migalhas nos seus fundos.
Entre 1994 e 2015, o pessoal do DB aumentou em 30%, mas os bónus e ordenados subiram em mais de 200%. Ganhava-se muito no DB, principalmente os administradores e os gestores que chefiavam equipes que vendiam muito papel. Claro, também o gestor de cliente com êxito era muito bem pago.
O DB deixou há anos de ser um verdadeiro banco alemão, sendo mais anglo-americano em que a língua inglesa era a utilizada em quase todas as reuniões e durante vinte anos os seus presidentes foram sempre estrangeiros, desde o suíço Ackermann ao indiano Jain e ao atual britânico Cryan. O indiano Jain consta que ganhou no DB para cima de 400 mil milhões de dólares no tempo que dirigiu o “Global Markets” e depois todo o grupo bancário.
Para enfrentar a avalanche de processos, o DB tem provisionado 5 mil milhões de dólares que não vão chegar e não se está a ver que alguém venha a comprar uma parte de um banco tão grande e tão complexo em que os Conselhos de Administração não conseguem saber tudo o que se passa. O seu habitual relatório de contas é um grosso volume de mais de 500 páginas, nas quais nenhum acionista consegue descortinar a verdadeira situação do banco.
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Foto com a palavra alemã Gier que se traduz por Ganância e as caras dos figurões que dirigiram o DB, enchendo-se com contas de centenas de milhões de euros.