Dupla de artistas deixa PàF descalço

(J Nascimento Rodrigues, in Facebook, 24/02/2017)

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A crítica ruidosa de que a dupla Costa & Centeno são ainda mais austeristas do que os PàFs pois consolidaram ao ponto de fazerem descer o défice orçamental para 2,1% do PIB, ‘surpreendendo’ Bruxelas e FMI, não tem o efeito desejado no gajo da rua que não gosta de vermelho nem de rosa.

Pelo contrário, para aquele pessoal de ‘centro’ que sempre olhou a geringonça como o diabo que iria mergulhar o orçamento no despesismo «socratista» e o país à beira de um segundo pedido de resgate no meio de um cataclismo económico, a performance artística da dupla até que não deixa de ser o menor (melhor?) dos males.

Também estas gentes do ‘centro’ ficaram surpreendidas e entre um pássaro na mão (as concessões aqui e ali que poderão obter e a ‘paz social’ sem a CGTP todos os dias na rua e em alguns sectores sempre a chatear) e dois passarocos retóricos a voar, está bem de ver qual a opção «pragmática», e «útil».

Os que ficaram ainda mais surpreendidos foram os que, habituados à mama da teta dos contratos da Administração Pública, tenham ou não mérito no que vendem ou sejam ou não necessários os seus ‘serviços’, viram que o aperto da consolidação socialista lhes estragou a faturação. Esses, então, estão mesmo, mesmo, mesmo danados com essa coisa da dupla Costa & Centeno querer dar um ar de respeitadores das «regras europeias».

Centeno (e Costa como comandante em chefe) apanha(m) os louros – mesmo que atribuídos a contragosto pela ala mais radical do Eurogrupo e pelos técnicos do FMI, os últimos, sempre, a corrigir os parágrafos de previsões. Louros merecidos com uns quantos truques de gestão orçamental e uma prenda caída dos céus que foi só aproveitar (o turismo), finalizando com o cansaço dos empresários de verdade com a política de megafone dos «patrões» das confederações (que não passam de uma espécie de políticos mascarados fora do parlamento).

Os empresários de verdade tomaram a decisão sensatamente inevitável de, aos poucos, recomeçar a investir (ao que parece até em maquinaria) e continuar a explorar o mundo – antes que venha aí alguma grande tormenta mundial. É a janela de oportunidade, estúpido!

É claro que os truques de gestão orçamental têm o seu limite – o relatório do FMI apontou-o com clareza, e com precisão cirúrgica (discorde-se ou não dos pressupostos e objetivos). Costa & Centeno sabem-no bem. A coisa está nos manuais de escola. Os dois não são nenhuns patetas alegres.

A ideia de António (e que Mário reza todos os dias à noite antes de se deitar) é que, enquanto o pau vai e vem, e não há uma hecatombe na zona euro – esperança mesmo é que não haja – e um protecionismo caótico na cena mundial, pode ser que a economia aqui portuga melhore a performance (e suba mais, no futuro, do que os 1,4% deste ano) e crie a cama para mais uma corrida de consolidação (para um défice claramente abaixo de 2% do PIB) este ano e no próximo. Aí, seria o gozo supremo, e o esvaziar do PàFismo e o calar, definitivo, do Eurogrupo e do FMI.

E, claro, se a coisa até correr mesmo assim benzito – e sem surpresas drásticas nas eleições por essa Europa – até que mais uma série de reivindicações dos aliados poderão ser satisfeitas sem stresses.

Pelo meio, naturalmente, Costa & Centeno fizeram o que era mais do que óbvio que tinham que fazer em 2016 – o «despesismo» necessário que acabou por não contrair a consolidação. Repuseram o que foi roubado nominalmente a grandes parcelas da classe média e transmitiram-lhe a ideia de que a consolidação para agradar Bruxelas e Berlim (e o FMI) pode ser soft. A classe média, o grande ‘eleitor’ hoje tem a geringonça – toda ela – como seu padrinho. O pessoal aqui no corner agradece naturalmente (nem preciso de explicar porquê).

O pior, o pior, mesmo o diabo, é se Trump descamba já em 2017 (e não só em 2018) e se os eleitores por essa zona euro fora resolvem pregar uma partida de março a setembro. Aí, está o caldo entornado — mas, mesmo, no caos, há sempre oportunidades.

Uma economia em aceleração

(João Galamba, in Expresso Diário, 20/02/2017)

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Mais uma dor de cabeça para Passos Coelho. O raio do diabo parece que ensandeceu de vez. Só dá boas notícias ao governo e enxaquecas à oposição tremendista e amante do apocalipse. Caro Coelho, está na hora de mandares vir um exorcista para expulsar o demo do país. Mandaste-o vir e, por esta hora, já estás arrependido. Os portugueses são tramados: enquanto tu fazes figas,  e queres que eles empobreçam, eles lá vão trabalhando, levando o país para frente, e afastando dessa forma as tuas profecias da desgraça. 

Estátua de Sal, 20/02/2016


 A economia portuguesa fechou o ano a crescer acima da média da Zona Euro e da UE, algo que não acontecia desde o segundo trimestre de 2015. Tendo em conta a dinâmica ao longo de 2016 e os dados já conhecidos de 2017, podemos afirmar que estamos, finalmente, a assistir a uma retoma sustentável da economia e do emprego, com o consumo privado a acompanhar o crescimento do emprego e do rendimento disponível das famílias, com o investimento público e privado a aumentar e com um crescimento robusto das exportações.

A economia portuguesa começou a ter taxas de crescimento positivas no 4º trimestre de 2013, quando a economia cresceu 1,9%. Depois disso, em 2014, ao invés de acelerar, como aconteceu com Espanha, a economia estagnou em tornou do 1%, acabando o ano a crescer apenas 0,7%.

Espanha começou 2014 a crescer 0,6%, mas acabou o ano a crescer 2%, quase o triplo de Portugal. A aceleração da economia espanhola continuou em 2015: começou com a economia a crescer 2,7% e acabou com 3,5% de crescimento, o maior da zona euro. Portugal teve o comportamento oposto: começou a crescer 1,7% e acabou o ano em desaceleração, crescendo apenas 1,4%.

Em 2016, pela primeira vez desde que Portugal saiu da recessão de 2011-3, a economia acelerou ao longo do ano. Tal não aconteceu em 2014 nem em 2015, só em 2016. Depois de um primeiro semestre que prolongou o arrefecimento que vinha do segundo semestre de 2015, a economia acelerou de 0,9% para 1,6% no terceiro trimestre e para 1,9% no quarto. A economia espanhola teve o comportamento oposto: desacelerou ao longo do ano. De acordo com todos os indicadores de confiança de Janeiro, publicados pelo INE, o crescimento do segundo semestre de 2016 ter-se-à consolidado e reforçado no início deste ano, o que abre boas perspectivas para, no início de 2017, Portugal crescer acima dos 2%. Seria o melhor crescimento económico desde 2007.

Depois de uma forte desaceleração ao longo de 2015, que se prolongou durante o primeiro semestre de 2016, as exportações aceleraram e terminaram o ano a crescer aproximadamente 10%. A produção automóvel aumentou mais de 50% em Janeiro, o que mostra que 2017, também nas exportações, será um ano de reforço dos resultados de 2016. Não esquecer que a Auto Europa, um dos nossos maiores exportadores, teve uma redução significativa da sua actividade ao longo do ano de 2016 e vai produzir e exportar um novo modelo em 2017. Tal não deixará de ter impacto nas exportações portuguesas. De acordo o com o Inquérito sobre Perspectivas de Exportação de Bens (IPEB), realizado em novembro de

2016 pelo INE, as empresas portuguesas de bens perspectivam um crescimento nominal das exportações de 5,3% em 2017, o que representa uma aceleração de 1,3% em relação a 2016.

O investimento estagnou no segundo semestre de 2015 e caiu, em termos homólogos no início de 2016, mas melhorou nos segundo e terceiro trimestres e teve uma forte recuperação no final do ano, como refere o INE. O comportamento negativo do investimento ao longo de grande parte de 2016 deve-se exclusivamente à construção e ao investimento público co-financiado por fundos europeus, uma vez que o investimento empresarial teve um crescimento superior a 6%, em forte aceleração face a 2015. A recuperação do investimento no final de 2016, que se vai reforçar ao longo de 2017, deve-se à recuperação da construção e de uma aceleração na execução dos fundos europeus. Quer os indicadores de confiança na construção do final de 2016 e do início de 2017, quer as vendas de cimento – que foram negativas nos três primeiros trimestres de 2016, marginalmente positivas no quarto trimestre, e cresceram 28,5% em Janeiro – mostram que a construção, que representa mais de metade de todo o investimento feito no país, está em recuperação. O mesmo se passa com o investimento público que, depois de uma queda em 2016, deve crescer mais de 20% em 2017.

O consumo privado, ao contrário do que aconteceu em 2013-5, não foi feito à custa da taxa de poupança, o que reforça a dimensão de sustentabilidade do crescimento de 2016, bem como a adequação da estratégia de aumento de rendimento das famílias preconizada pela actual maioria. Com cerca de 100 mil novos empregos em 2016 e com o aumento dos salários, incluindo o salário mínimo, com descongelamento e aumento das pensões e de outras prestações sociais, como o abono de família, o CSI ou o RSI, com o alargamento a mais de 800 mil famílias da tarifa social de electricidade, o rendimento disponível das famílias teve um forte aumento, o que permitiu que o consumo cresça, de forma sustentável, acima dos 2%. A manutenção a aprofundamento das actual estratégia, que consta do orçamento do Estado para este ano, é, pois, essencial para que o crescimento do consumo se mantenha sustentável.

O facto de tudo isto ter acontecido com um défice orçamental que bateu mesmo as expectativas mais optimistas, ficando abaixo dos 2,1%, e com o reforço do saldo da balança de bens e serviços, mostra que, contrariamente ao que alguns afirmavam ser inevitável, a actual estratégia económica e orçamental não só é sustentável como tem melhores resultados que a anterior, quer na frente económica, quer na frente orçamental, quer na frente social.

Mau nos dribles

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 18/02/2017)

Autor

                                Daniel Oliveira

Nem sempre, mas o que corre mal na comunicação social costuma ter alguma relação com a realidade. É o caso da novela da administração da Caixa: houve meias-verdades, meias-mentiras e, ao que parece, compromissos informais nunca assumidos. Se Mário Centeno não mentiu, enganou. Cairia se não fosse o resto da realidade: o défice mais baixo desde o 25 de Abril e, no último trimestre do ano passado, o melhor crescimento desde 2013. Isto, além de andar a limpar o lixo bancário que a troika e Albuquerque varreram para debaixo do tapete para garantir a saída limpa. Uma mentira bem mais dispendiosa. Neste contexto, era impensável demitir o ministro das Finanças. Os resultados económicos e financeiros não são mais reais do que os disparates na Caixa. Mas são mais relevantes.

Qual é o segredo de uma boa oposição perante um governo bem sucedido no que mais interessa às pessoas? Que o ambiente mediático não reflita essa parte da realidade, escondendo-a em camadas de ruído e confusão. Quando os números económicos e financeiros foram conhecidos estava no palco, há dois meses e com sucesso de bilheteira, a novela da Caixa. Uma novela que está a fazer Centeno em picadinho. Ao ponto de ter sido obrigado a ir pedir a bênção a Marcelo. Para se safar das suas próprias responsabilidades, o Presidente explicou porque não demitia um ministro que a ele não tem de responder e mandou-o fazer uma conferência de imprensa no pior momento possível. A oposição, contando com um deslize da geringonça, tentou esticar a corda: queria que a comissão de inquérito criada para investigar anos de gestão da CGD, e que não está a correr muito bem ao PSD, tivesse acesso aos SMS do ministro. O comportamento de Centeno é a todos os títulos reprovável, mas não devemos perder o sentido das proporções. Mesmo perante histeria hiperbólica da oposição, que quer prolongar o espetáculo o máximo de tempo possível. Um órgão de soberania aceder aos SMS de um ministro tem implicações tais que só poderia acontecer numa situação extrema e numa comissão de inquérito criada para investigar este caso. Felizmente, BE e PCP travaram um perigoso precedente que corresponderia ao início de mais um plano inclinado na política. Já todos percebemos que não havia acordo assinado, mas havia compromisso informal e que o ministro fica fragilizado por não o ter assumido. Não precisávamos de vasculhar SMS para isso. Agora, o objetivo é apenas prolongar um folhetim.

Não vale a pena os socialistas queixarem-se da estratégia do PSD e do CDS. Se, como eles, se estivessem a afundar nas sondagens fariam o mesmo. Não vale a pena queixarem-se de Marques Mendes. Se uma televisão lhes desse direito a tão solitário e exposto tempo de antena também o aproveitariam. Não vale a pena queixarem-se de Marcelo. Foi Costa que lhe ofereceu o cordeiro. Têm de se queixar de Mário Centeno, por ter negociado o que não devia, ter escondido o que era óbvio e ter andado dois meses a brincar com as palavras.

A política também é a arte de vencer este jogo entre o que é relevante e o que passa na televisão. E um político que oferece de bandeja, aos seus opositores, todo o poder sobre a agenda mediática só se pode queixar de si mesmo. É o mal de escolher técnicos para cargos políticos. Podem saber onde está a baliza mas perdem-se nos dribles.