Notícias boas, notícias manhosas e notícias preocupantes

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 18/02/2017)

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                                    Miguel Sousa Tavares

1 As boas notícias: vamos fechar as contas de 2016 com o défice ainda abaixo dos 2,3% anunciados por António Costa; com o PIB a crescer mais do que os 1,4% previstos, graças ao salto de 0,6% no último trimestre; com o desemprego a descer até próximo da barreira psicológica dos 10% e, mais importante, com a criação efectiva de 90 mil postos de trabalho; e vamos para 2017 com as exportações relançadas e o regresso do investimento, embora tímido. Mário Centeno cumpriu todas e cada uma das suas previsões e, contra todas as expectativas (em parte, incluindo as minhas) deu uma tremenda bofetada de luva branca em todos os catastrofistas e, em particular, nos arautos do desastre da Comissão Europeia e nos que internamente previam orçamentos rectificativos e a vinda do Diabo à conta da “reversão” das nefastas medidas do governo Passos/Portas. Afinal, havia alternativa. E até o comissário europeu da Economia, Pierre Moscovici, forçado a reconhecer o falhanço das previsões europeias, chegou ao ponto de ter de conceder que, contas feitas, a subida do salário mínimo e o aumento do consumo interno tiveram um efeito positivo sobre o desempenho global da economia. É claro que nada do que é estrutural está ultrapassado, para mais num cenário envolvente em que a volatilidade é a regra nº 1 da economia. E é evidente que os nossos problemas mais preocupantes permanecem frente a nós, como uma montanha intransponível: o brutal endividamento, público e privado; a derrocada do sistema bancário; e a pouca produtividade e capacidade de investimento. Mas, num mundo em que a política se preocupasse com a seriedade intelectual, a oposição estaria agora a reconhecer os factos positivos e a louvar o ministro das Finanças pelo seu desempenho.

2 Em vez disso, o que traz a oposição (do PSD, sobretudo, mas também do CDS) ocupada e entusiasmada é a interminável novela da falhada contratação de António Domingues e da sua equipa para gerir a Caixa Geral de Depósitos. Note-se que eles nunca se pronunciaram sobre o mérito daquilo que estava em causa: saber se a invocada necessidade de contratar gestores competentes para o banco público justificava ou não que o Governo lhes atribuísse um estatuto em tudo semelhante aos dos administradores bancários do sector privado. Preferiram antes concentrar-se apenas no processo seguido pelo Governo para chegar a esse resultado, mas sem nunca dizerem se eram a favor ou contra tal estatuto de excepção (sendo óbvio que, se fossem Governo, teriam feito o mesmo).

À conta do “affair Domingues”, todas as questões importantes que é preciso esclarecer sobre a Caixa passam para secundaríssimo plano

Depois de três meses desta novela imbecil, a mim parece-me evidente que já toda a gente percebeu o que se passou: a) António Domingues e os restantes, muito legítima e compreensivelmente, queriam garantir que a sua aceitação de gerir a Caixa não implicasse que tivessem de oferecer à devassa pública o conhecimento da sua situação patrimonial — e disso fizeram condição; b) O governo concordou e, juntamente com os advogados de Domingues (o que não me parece de boa prática), cozinharam um decreto-lei ad hoc que servisse as suas pretensões; c) Porém, tanto os advogados de Domingues, como os do Estado, como Marques Mendes, que soltou a lebre, esqueceram-se de que tal decreto-lei não bastava para isentar os administradores da Caixa da sua obrigação de apresentarem as declarações de rendimentos, que outro decreto de 1983 exigia; d) Detectado o problema pelo Tribunal Constitucional, Marcelo alinhou-se com o tribunal e não restou ao Governo outra saída senão fazer o mesmo, deixando cair Domingues e a sua equipa e embrulhando-se então em explicações trapalhonas e “erros de percepção”, que PSD e CDS têm explorado incansavelmente. A grande questão agora parece ser saber se António Domingues mentiu ou não na Comissão de Inquérito Parlamentar à Caixa (cujo objecto fixado é outro, completamente diferente). É provável que tenha mentido, ao menos por omissão. E então, é crime de lesa-majestade? Depende do respeito que se tenha pela majestade. Eu, pelas CPI, tenho muito pouco.

3 Na ansiosa busca pela prova da mentira do ministro entraram agora em cena os e-mails e os SMS trocados entre ele e António Domingues. Peço desculpa se estou a ver mal todo este filme, mas, tanto quanto sei, e-mails e SMS são correspondência privada, mesmo que tratem de assuntos de governação. E, que me tenha dado conta, nem a Constituição nem o Código Penal foram alterados para que a privacidade da correspondência deixasse de ser um direito e a sua violação, sem autorização de um juiz, um crime. Manifesto assim a minha perplexidade pelas notícias que dão conta de que António Lobo Xavier, uma pessoa inteligente e bem formada (e, para mais, advogado) tenha levado ao Presidente da República os SMS que o seu cliente ou amigo António Domingues terá recebido do ministro das Finanças. E mais perplexo ainda fico por saber que Marcelo Rebelo de Sousa, outra pessoa inteligente e bem formada (e, para mais, Professor de Direito Constitucional), os tenha solicitado, os tenha lido e, com base nessa leitura, tenha feito um comunicado e enunciado uma nova opinião, fundada na violação de correspondência privada.

Oxalá, repito, eu esteja a ver mal todo este filme ou esteja baseado em falsas informações, porque mal seria que, nestes tempos onde a violação da privacidade se tornou uma banalidade por todos cultivada, fosse o próprio Presidente da República a dar o mau exemplo.

4 À conta do “affair Domingues”, não só a CPI à Caixa se desvia e esquece do seu objecto, como todas as questões importantes que é preciso esclarecer passam para secundaríssimo plano: como se chegou à situação em que a Caixa precisa de ser recapitalizada em cerca de cinco mil milhões de euros? Que negócios ruinosos, como o de Vale do Lobo, foram feitos, porquê e por quem, que conduziram a tal situação? Quem são os privilegiados que vão ter as suas dívidas à Caixa pagas pelos contribuintes? O que levou o anterior governo a nada fazer enquanto a Caixa acumulava prejuízos, ano após ano? Como vai ser paga a capitalização da Caixa — com mais impostos ou com mais dívida? E que garantias nos dão de que daqui a uns anos não vai ser preciso acorrer outra vez à Caixa?

5 Eis uma situação no mínimo insólita: o PSD e o CDS, que governaram quatro anos tendo como objectivo principal a contenção do défice público abaixo de 3% (o que nunca conseguiram), ficam calados ou preferem ocupar-se de questões laterais quando o Governo de que são oposição o reduz para perto de 2%, o mais baixo dos últimos 45 anos; e os parceiros do Governo, BE e PCP, em lugar de cavalgarem o êxito, protestam porque… não havia necessidade de ter baixado tanto o défice! É a política, estúpido!

6 E eis as notícias preocupantes: o ministro Eduardo Cabrita, que foi um dos grandes derrotados do referendo à regionalização, agora que se apanhou no poder e com a pasta do território, lançou um projecto de descentralização bem-vindo, mas que, nas suas entrelinhas não se dispensou de tentar abrir uma primeira porta para ganhar pela secretaria o que perdera pela democracia. A eleição dos presidentes das CCR, frustrada à última hora — mas que fatalmente regressará — é um passo em direcção à malfadada regionalização, criando um novo patamar de poder político dotado de legitimidade própria. O qual será fatalmente ocupado por alguns caciques regionais e respectivas cortes partidárias, tornando o Estado maior, mais caro e mais ingovernável.

E o ministro do Ambiente, que parece um navio à deriva sempre à procura de ventos favoráveis, prepara-se para entregar aos autarcas a gestão dos Parques Naturais e zonas protegidas, com a habitual justificação das “vantagens da proximidade”. É como pôr o ouro à guarda do bandido com a justificação de que ele conhece o cofre melhor do que ninguém.

Défice de 2,1%: o grande silêncio

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/02/2017)

nicolau

De repente, o ministro das Finanças anuncia que o défice em 2016 ficou não em 2,8%, 2,5%, 2,4% mas em 2,1% e o grande debate é em torno dos sms trocados entre Mário Centeno e o ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos, António Domingues. De repente, sabe-se que o défice passou de 3,1% em 2015 para 2,1% no ano passado e o que se discute acaloradamente é se haverá ou não uma nova comissão parlamentar de inquérito, desta vez incidindo especificamente nas trocas de mensagens entre Centeno e Domingues. De repente, devíamos estar a falar de coisas importantes para o país mas os noticiários e os comentários são dominados por uma troca de sms entre duas pessoas.

Sim, claro que é importantíssimo saber o que Centeno disse a Domingues. Claro que é óbvio que Domingues pôs como condição não apresentar, nem ele nem a sua equipa, as declarações de rendimentos e património. Claro que o ministro ou alguém por ele aceitou essa exigência. Claro que a decisão de alterar o estatuto de gestor público para responder a isso foi uma péssima e canhestra ideia. Claro que quem bichanou ao ouvido de Marques Mendes a publicação do diploma foi o Presidente da República. Claro que a partir daí, Centeno, que nunca quis mentir, se enredou em explicações cada vez mais sofridas e menos credíveis, até terminar com o famoso “erro de percepção” em que terá induzido Domingues. E agora? Pois, e agora?

Nunca nenhum político mentiu no parlamento? Nunca nenhum político mentiu numa comissão parlamentar de inquérito? Não vamos mais longe: no Governo anterior foi tudo de uma enorme lisura e verdade? O que Pedro Passos Coelho disse na campanha eleitoral foi o que fez depois quando chegou ao poder? Maria Luís Albuquerque nunca torceu a verdade no caso dos swaps? Cavaco Silva, no livro que ontem lançou, conta exactamente o que se passou aquando do famoso caso das escutas ao Palácio de Belém?

A direita tem desenvolvido nos últimos anos campanhas sistemáticas para denegrir os dirigentes de esquerda. Acusá-los de serem mentirosos é o primeiro passo. Já aconteceu com António Costa (vide as recentes acusações de Assunção Cristas no parlamento ao primeiro-ministro, quando se conhece o historial de Paulo Portas na sua relação com a verdade). Mas quando não chega vai-se mais longe. O lamaçal que foi lançado sobre vários dirigentes do PS durante o caso Casa Pia foi das manobras mais sujas que a democracia portuguesa conheceu.

Nada disso justifica as contradições de Centeno, nem que tenha aceite as exigências de Domingues, nem que tenha permitido que uma sociedade de advogados elaborasse ela própria o diploma. Tudo erros, tudo asneiras. Mas o Presidente da República deu sibilinamente o caso por encerrado e o primeiro-ministro mantém a confiança em Centeno.

Na verdade, o que a direita não suporta é que Centeno tenha provado que era possível trilhar outro caminho económico, com menos sacrifícios para os portugueses, e mesmo assim conseguir reduzir o défice para valores historicamente baixos, o mais baixo em 42 anos de democracia, coisa que a direita nunca conseguiu até agora. O que a direita não perdoa a Centeno é que tenha conseguido fazer isto colocando a economia a crescer um pouco mais do que se esperava, com o regresso do investimento, a subida das exportações, a melhoria do clima económico e do indicador de confiança.

É por isso que a direita quer abater Centeno. O homem tem um belo cartão de visitas para apresentar cá dentro e lá fora, junto dos seus parceiros do Eurogrupo. E o que importa ao país não são seguramente os sms que trocou com Domingues mas os resultados económicos das suas políticas. Para já, os segundos estão a ganhar por 10-0 aos primeiros.

É por isso que a direita quer abater Centeno. O homem tem um belo cartão de visitas para apresentar cá dentro e lá fora, junto dos seus parceiros do Eurogrupo. E o que importa ao país não são seguramente os sms que trocou com Domingues mas os resultados económicos das suas políticas. Para já, os segundos estão a ganhar por 10-0 aos primeiros

O DR. ANTÓNIO COSTA É UM SANTO

(João Mendes Fagundes, in Facebook, 15/02/2017)

costa_santo

Veio o Dr. Centeno à babugem, de estadão, trazendo a equipa toda atrás (tudo altos crâneos), para anunciar aos videntes a Boa-Nova. O défice é o mais baixo de toda a nossa história democrática, e a ele se deve o milagre. Comovente, e até me fez lembrar o saudoso Dr. Salazar, que tinha um ponto de vista semelhante. Mas eu nessas coisas não me meto, que de finanças não pesco boi. E se o genial Centeno o diz (sim, porque já aparece por aqui quem o apode de génio) é porque se trata provavelmente de qualquer coisa aproximadamente verdadeira (que as verdades do Mário são para ser tomadas à colher de chá). Adiante.
Ora há sempre gente despeitada a querer estragar a festa, caso do defunto Passos Coelho ou do seu empregado, o atirador furtivo Marcantónio. Mas a estes falta-lhes substracto, são criaturas que não dão nem para a caixa das esmolas. Adiante pois.
Quem tem substracto, na verdade, é a menina Mortágua, que se meteu nas suas tamanquinhas e veio pôr os pontos nos ii. Diz a piquena que não senhor, que isto do défice não lhe interessa. Que muito mais porreiro seria se o Centeno Mário não fosse um unhas de fome, e, ao invés, tivesse gasto o graveto todo a dar milho aos pombos.
Não concordo com a senhorita. A gente sabe muito bem que, aos portugueses, dá-se-lhes o pé e eles agarram logo a mão. Além de que têm o terrível vício de gastar tudo o que se lhes dá na taberna. Andou, pois, muito bem o Centeno, porque no poupar é que está o ganho.
E assim me vejo remetido para uma sentença célebre do deputado João Oliveira, cuja foi, mutatis mutandis: anda o Centeno a juntar com o bico para vir a Marianinha espalhar com as patas (salvo seja).


Pois não desejava eu, nem ao meu pior inimigo, ser prior de uma freguesia destas. Nem ao Dr. António Costa o pesado fardo de ter de carregar esta cruz pela Rua de São Bento acima (ou abaixo, para quem vem do Rato).