Reparem: Estas criaturas apresentam-se como “professores” na área das relações internacionais.
Ora, um Professor, para o ser de facto, TEM de ser um analista isento à semelhança do Professor Tiago André Lopes. Ou seja, tem de relatar as causas profundas, reais e incontornáveis, que levam a determinada situação no panorama político global.
Assim sendo, pergunto:
Alguma vez, uma que seja, ouviram estas criaturas fazer referência às causas profundas, reais e incontornáveis que motivaram a operação militar desencadeada por Putin na Ucrânia?
Causas como, por exemplo, a expansão da NATO para as fronteiras da Federação Russa, algo que os ditos ocidentais haviam prometido nunca acontecer?
Ou ainda a farsa destinada a ganhar tempo para armar a Ucrânia, que foram os acordos de Minsk?
Ou, por último, o genocídio tentado às populações russófilas do Donbass, que culminou com o assassinato de muitos ucranianos russófilos por carbonização?
Pois não.
O que ouvem da boca destas criaturas é uma total e completa limpeza de todas as REAIS causas para a guerra, chegando mesmo, como ainda hoje ouvi da boca da liliputiana Senica, a proclamar uma “invasão russa ilegal e não provocada”.
Infelizmente, os ditos “professores” contorcionistas da verdade por soldo, lugar ou miserável notoriedade, é algo muitíssimo frequente na Academia. Algo que bem conheço e profundamente desprezo.
Os comentadores mostram, mesmo se não têm consciência disso, o estado de exasperação do discurso político. São convocados por um vazio que lhes coube, em jeito de missão, preencher.
Os debates na televisão entre os vários candidatos à Presidência da República seguem um modelo que se aproxima do stand-up. Mesmo que os candidatos nada façam para cumprirem os protocolos e as exigências desta forma de espectáculo, eles são coercivamente enquadrados nele e avaliados pelo grau de competência demonstrado na performance por um júri que representa o papel da opinião pública e encena uma versão abreviada daquilo que desde o Iluminismo se chama “espaço público”. O júri é composto por um conjunto de pessoas designadas como “comentadores” cuja tarefa é encerrar o espectáculo com os seus juízos críticos e apreciações quantificadas.
Neste modelo de debate procura-se um ganhador e um perdedor. E ganha sempre quem revela mais destreza na eloquência, quem consegue ter alguma habilidade para argumentar e um certo sentido da dialéctica (qualidades, aliás, cada vez mais escassas) naquele ambiente muito pouco favorável a tais realizações. Ali, muito embora pareça que se trata de política, a despolitização é a regra.
O júri cumpre um papel essencial: é ele que, em última instância, dá sentido às performances. Sem ele, o espectáculo da contenda ficaria incompleto e seria muito mais desinteressante. É preciso sublinhar o clash, promovê-lo, encontrar no discurso político um sentido agónico. As polarizações que caracterizam o ambiente político em que vivemos, os tropismos que fazem emergir os extremos, têm os seus utensílios retóricos reconhecidos e valorizados. São eles os mais valorizados e a eles recorrem com frequência os participantes nestes debates porque têm uma eficácia táctica. Esses instrumentos tácticos dominam os debates e asseguram a vitória a quem melhor se servir deles. E a táctica é o que os comentadores observam com mais facilidade, logo, o que garante nota alta.
Na época em que a crítica literária e da arte tinha adquirido uma enorme pujança, impôs-se a ideia de que os juízos sobre a poesia têm mais valor do que a própria poesia (e poesia vale aqui pela arte em geral). Hegel, nas suas lições de Estética, explica porquê: porque a obra de arte deixou de satisfazer as necessidades “espirituais” que nela tinham encontrado as épocas precedentes; e, por isso, na sua “suprema destinação”, a arte chegou ao seu fim. Assim é hoje com a política e o debate político: manifestações de um final de festa.
Em tempos de despolitização, o que tem algum valor e suscita o interesse da audiência são os juízos sobre os debates e as performances dos seus protagonistas. Os comentadores mostram, mesmo se não têm consciência disso, o estado de exasperação do discurso político. São convocados por um vazio que lhes coube em jeito de missão preencher. E são afectados pelo demónio da reversibilidade: eles comentam o discurso dos candidatos ou estes calculam o seu discurso para resultar num comentário? Quando a noção de época correspondia a um tempo histórico muito mais longo e a um “espírito” que a autonomizava e lhe conferia sedimentação, instituiu-se a ideia de que há períodos de decadência; e a proliferação do comentário seria a marca mais conspícua desses períodos (refiro-me, evidentemente, a um género de comentários cuja manifestação é uma literatura e uma filosofia secundárias). O barroco trans-histórico e os finais de século serviram com alguma verosimilhança essa ideia de decadência.
A desvalorização da linguagem política é o sintoma de uma doença, um mal-estar da democracia.
O conceito de pós-democracia, como sabemos, fez o seu caminho com alguma indefinição, mas, ainda assim, de maneira útil. Já estamos habituados a que, sempre que o prefixo “pós” se impõe como declinação de algo novo, mas que resulta de uma profunda inflexão do antigo, a certa altura se comece a pensar em modo “des”. É o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).
A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário.
(Manuel Augusto Araújo, in Facebook, 09/11/2025, Revisão da Estátua)
Sergei Lavrov, o ressusscitado…
Na CNN Portugal replicando notícias dos mais bem informados órgãos de comunicação social do mundo ocidental:
Em 7 de Novembro às 17h28 um longo texto intitulado «Ausência de Lavrov em reunião com Putin faz soar os alarmes em Moscovo»
Em 9 de Novembro às 9h16, avançam com uma outra notícia «Sergei Lavrov afirma estar pronto para se reunir com Rubio»
As diferenças: enquanto o primeiro texto explica detalhadamente como Lavrov está a cair em desgraça, dando praticamente por garantido que Putin o afastou, que o antes poderoso Ministro dos Negócios Estrangeiros está talvez mesmo correndo o perigo de ser defenestrado no Kremlin. A primeira notícia foi mesmo objeto de comentários dos muitos opinadores da CNN Portugal com a clarividência que a esmagadora maioria deles ostenta e que a realidade obstinadamente os desmente e até os ridiculariza, a segunda é quase uma nota de rodapé o que não deixa de ser notável porque na prática assinala a reentrada do ressuscitado Lavrov na cena política internacional, curiosa mas não inesperadamente ecoando no ruidoso silêncio desses mesmo anotadores, uns verdadeiros comediantes.
Entre estas duas notícias, o estardalhaço que uma provocou e a mudez em que embrulharam a outra, o que se deve sublinhar é elas anteciparem e corresponderem aos desígnios da nova organização da UE que, segundo o Guardian, se intitulará Centro de Resiliência Democrática, iniciativa atribuída à Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen, que está prevista para 12 de novembro, certamente com o aplauso e ativo apoio de António Costa, Kaja Kallas e demais burocratas das estruturas da UE.
Vai esse Centro lutar contra a influência na Europa das notícias que coloquem em causa toda a panóplia de propaganda do jardim da civilização ocidental, que pela amostra inicial é uma cornucópia de notícias enviesadas, deturpadas ou mesmo falsas que uma vasta orquestra comunicacional diariamente toca a mando desses canhestros maestros estacionados em Bruxelas, vassalos e bobos na corte dos grandes interesses económicos que os contratam.
Não consideram suficiente o estado atual pelo que estão a preparar as ferramentas para imporem uma férrea censura que farisaicamente dizem ser inicialmente voluntária para os estados membros da UE e para os estados candidatos à adesão à União.
O Reino Unido também terá a oportunidade de se juntar ao projeto como um parceiro com ideias semelhantes. Já todos percebemos qual o tipo de voluntariado forçado que está em gestação.
Razão tinha Georges Orwell quando escreveu que «A linguagem política, destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez (…) Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre.».
É este o futuro que a União Europeia nos promete, com que nos ameaça. Há que lutar contra esta Europa connosco!