Os Idiotas úteis de estúdio e a subserviência em prime time

(Luis Rocha, in Facebook, 08/01/2026)


Se há coisa verdadeiramente notável neste episódio do rapto de Maduro não é a ilegalidade da operação norte-americana, essa é evidente para qualquer pessoa, mesmo que não tenha passado os olhos por um manual básico de direito internacional, mas sim o espectáculo deprimente protagonizado pelos comentadores portugueses do costume, essa fauna residente de estúdio que surge sempre que Washington estala os dedos.

São os mesmos de sempre. As mesmas caras. As mesmas opiniões. Mudam os cenários, trocam os grafismos, mas o discurso é rigorosamente idêntico ao do século passado, com o mesmo brilho servil no olhar. Quando os Estados Unidos invadem, raptam ou bombardeiam, não é agressão, é “liderança”. Não é ilegalidade, é “determinação”. Não é crime, é “ordem internacional baseada em regras”, desde que as regras sejam escritas em inglês e aplicadas selectivamente.

Enquanto o Departamento de Justiça dos EUA recua discretamente na acusação de que Maduro liderava um cartel de droga estruturado, desmontando o pretexto central da operação, cá por casa os comentadores continuam firmes, como se nada tivesse acontecido. Ignoram o detalhe inconveniente. Passam por cima como quem pisa um tapete. Para eles, a realidade não corrige a narrativa, a narrativa corrige a realidade.

É quase enternecedor vê-los explicar, com ar professoral, que isto é “inevitável”, “necessário” ou “infelizmente indispensável”. Infelizmente para quem? Para o direito internacional, certamente. Para a soberania dos Estados, sem dúvida. Mas não para estes especialistas do saloismo ideológico, cuja função principal é normalizar o inaceitável e embrulhar a brutalidade em linguagem tecnocrática.

E depois temos ainda o tom moralista. Esse nunca falha. De repente, figuras que nunca se indignaram com Guantánamo, Abu Ghraib ou as dezenas de invasões baseadas em mentiras descobrem uma súbita paixão pelos “direitos humanos”. Claro que não explicam como é que esses direitos são promovidos através de raptos, prisões arbitrárias e violações flagrantes da Carta das Nações Unidas. Detalhes. Pormenores. Coisas menores que atrapalham a opinião formatada.

O mais patético é que muitos destes comentadores se apresentam como “realistas”. Realistas de microfone aberto, claro. Porque o verdadeiro realismo dir-lhes-ia que este filme já foi visto demasiadas vezes. Noriega, Saddam, Kadafi, sempre o mesmo guião, sempre a mesma propaganda, sempre os mesmos aplausos. E sempre, invariavelmente, o mesmo desfecho caótico que depois fingem não ter apoiado.

Mas o idiota útil português tem uma particularidade no seu ADN. A subserviência com pedigree histórico. Há ali qualquer coisa de herança mental do Estado Novo, aquela ideia entranhada de que Portugal é pequeno demais para pensar por si próprio e que o melhor é alinhar, obedecer e agradecer. Ontem era Londres, hoje é Washington. Muda o dono, mantém-se a trela.

Quando Trump manda, eles acenam. Quando os EUA recuam na acusação, fingem que não ouviram. Quando o direito internacional é atropelado, fazem de conta que é um passeio pela natureza. Tudo para não desafinar do coro atlântico, tudo para não perder o convite para o próximo painel televisivo.

E assim se constrói o consenso artificial. Não com debate sério, mas com repetição exaustiva. Não com pensamento crítico, mas com frases feitas. Não com jornalismo, mas com catequese geopolítica.

No fim, estes comentadores não informam, domesticam. Não analisam, legitimam. Não esclarecem, adestram a audiência para aceitar que há países soberanos e há territórios disponíveis, há líderes julgáveis e há líderes intocáveis, há crimes condenáveis e há crimes estratégicos.

O rapto de Maduro não é apenas um atentado ao direito internacional. É também um reflexo desconfortável da mediocridade intelectual instalada em grande parte do comentário político português. Um comentário que não questiona o poder, mas que o serve. Que não incomoda, mas tranquiliza. Que não pensa, mas repete.

E enquanto os idiotas úteis de estúdio aplaudem mais um acto de força como se fosse virtude, o mundo desliza, passo a passo, para um estado em que a lei é opcional e a soberania é negociável. Depois, quando a barbárie bater à porta errada, perguntarão, com ar genuinamente espantado, como foi possível chegar aqui.

A resposta, claro, estava todos os dias na televisão.

Beijinhos e até à próxima…

Referências consultadas:

https://www.reuters.com/world/americas

https://www.bbc.com/news/world

https://www.icrc.org/…/what-international-humanitarian-law

https://www.un.org/en/about-us/un-charter

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4 pensamentos sobre “Os Idiotas úteis de estúdio e a subserviência em prime time

  1. A mulher cozida a tiro na cara por uma besta do ICE chamava se Renee Nicole Good e não Smith.
    As vidas humanas ceifadas importam e os nomes também.
    E não estava a fugir mas a afastar do local em marcha atrás depois de intimada por aquelas bestas a afastar se do local de uma fiscalização.
    Foi denegrida como terrorista doméstica pelo cerdo assassino e ladrão.
    Só a verdade pode libertar nos e aqui fica a correção.
    O ICE já abateu cinco pessoas em plena rua e no último ano morreram 35 pessoas sob a sua custódia.
    Todos tinham nomes, vidas e sonhos.
    Mais uma vez pensem se e esta brutalidade que queremos para o nosso país.
    Fascismo nunca mais.

  2. Ultimamente não tenho visto os horropilantes painéis dos canais de “infotainment” para saber como páram as moda, mas vi no outro dia o Bruno Carvalho num da CNN, e foi interessante, falou sem hesitar e foi muito conciso.
    De resto, concordo com o artigo, confirma-se que os spin doctors ainda são o que eram, mas cada vez mais comprometidos com quem os escolhe e “inventivos” nos tablóides que intrepretam. De vez em quando, até passam de um para outro, o que significa que ou estão a fazer render o peixe, ou foram negociados no mercado de transferências. Desde que digam o que convém, até na 2.ª divisão dos canais por cabo têm lugar, nem que seja para fazer a rotação do elenco, ou fiel escudeiro da vedeta de cartaz.
    Assim se encanta uns quantos pategos…

  3. E outra anedota do dia, essa que felizmente só vai afectar os Estados Unidos, embora eu não duvide que noutros lados vai haver muita gente a achar lógico só porque veio dos Estados Unidos, e a nova pirâmide alimentar proposta por lá.
    Que basicamente consiste na malta se encher de carne vermelha, lacticínios gordos e vegetais crus. Carboidratos e leguminosas poucos.
    Se alguém quiserem virar uma baleia, andar cheio de prisão de ventre e sair deste vale de lágrimas uns bons anos mais cedo do que poderia não perde nada em tentar.
    Puta da loucura.

  4. As acusações que caem ou não caem não interessam pois que o Império tratara de se certificar que o homem não sai vivo da masmorra ou sai quando estiver todo podre.
    Todas as acusações são absurdas, do início ao fim e este rapto mostra que os Estados Unidos estão a acelerar na sua vocação de nação predadora do mundo.
    O homem está a ser o bombo da festa de tudo quanto e fascista e talvez a anedota do dia seja a besta do Milei a pedir a extradição do homem para a Argentina para aí ser julgado por crimes contra a humanidade.
    Daria vontade de rir um traste que conseguiu duplicar a pobreza no seu país sem que este sofra sanções ou bloqueios, que disse que os velhos mereciam passar fome pelo estado em que teriam deixado o país, que reduziu salários e pensões, que promoveu o ódio a mulheres e minorias sexuais fazendo explodir a taxa de homicídios, que lançou a polícia com balas de borracha contra manifestantes idosos causando pelo menos uma morte ter a pouca vergonha de acusar o presidente de um país bloqueado de toda a maneira e feitio de crimes contra a humanidade.
    Já que se acha tão macho porque e que não desafia Maduro para um combate corpo a corpo enquanto o homem não está emaciado pela prisão? Que festim de barbatanas de baleia azul naquele focinho de demente cruel.
    Estes bandalhos comentadeiros diriam o mesmo mesmo que o homem fosse acusado de canibalismo e beber sangue por muito absurdo que isso fosse.
    Porque e para isso que sao pagos.
    Para nós convencer da justiça dos crimes do Império por muito hediondos que eles sejam.
    Nada de surpreendente portanto pois que sempre foi assim.
    De Saddam a Kadhafi dissesse sentido e de Putin ate se disse que tomava banho em sangue de animais para manter a potência sexual. E não terem dito que era com sangue de crianças que matava com as próprias maos já o homem teve sorte.
    Dizem coisas destas e nem lhes nascem aftas na língua.
    As aleivosias a que tanta gente se sujeita para viver sem trabalhar.
    Vao ver se o mar da megalodonte.
    Morte ao imperialismo americano. Cadeia para todos os vassalos.

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