Você é do sistema?

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 15/01/2021)

Clara Ferreira Alves

(Desde que desapareceu do Eixo do Mal, ausente em parte incerta – estará a penar com o COVID? Se sim os meus votos de rápida recuperação -, a dona Clara tem aprimorado o capricho da pena. Um fiel retrato de muitos de nós, nem ricos nem pobres, mas heróis na luta diária pela sobrevivência e por uma vida decente.

Comentário da Estátua, 15/01/2021)


Parece que andam por aí umas pessoas zangadas e dadas à bronca que foram traídas pelo “sistema” e que temos de apaparicar. O que é o sistema? Ninguém sabe bem. Você é do sistema?

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Você aí, estou a falar consigo, que se levanta de madrugada para ir para o emprego chato e mediano, menos que medianamente pago, com um patrão medianamente chato, você que chega ao fim do mês sem pecúnia, que paga os impostos a horas e quando não paga leva com os juros e as moras e o diabo em cima, que é perseguido pelas polícias à cata da multa de estacionamento, você que treme de terror quando recebe na caixa do correio o postal das Finanças, você que tem os pais velhos e a precisarem de ajuda e nem sequer tem tempo para o filho pequeno à noite quando chega a casa cansado depois das filas de trânsito e o miúdo diz que odeia álgebra, você que mora nos subúrbios da cidade porque não tem, nunca terá, dinheiro para viver no centro da cidade, reduto de turistas, chineses doirados, fundos imobiliários de platina, milionários vários e demais artistas do andar a um milhão de euros base, basezinha, com vista de rio são dois milhões e meio, o rio é caro, não é nosso, é dos tipos com dinheiro para “a vista de rio” ou a “vista parcial de rio”, de qualquer modo, o rio não é para si, vá lá para as suas três assoalhadas com humidade e paredes cor de burro quando foge, poupe na eletricidade porque com este frio a conta sobe em flecha, ponham mantas, sacos de água quente, não trabalho para gastar tudo na luz, e quem deixou esta lâmpada acesa, pensam que sou rico?, você que almoça uma sandes de fiambre de pé no café da esquina, aquecendo as mãos na bica e mirando a televisão de lado quando é futebol, a alegria é o clube e o Ronaldo vencedor, o Ronaldo que tem tudo o que a si lhe falta mas que você não inveja e que admira porque afinal de contas é uma pessoa bem formada e sabe que o rapaz veio dos pobres como você e se fartou de trabalhar para chegar ali e tem direito a oferecer Ferraris à mãe dele que se está nas tintas para os Ferraris porque como todas as mães o que ela quer é que o filho seja feliz e marque golos, você que passa todos os dias por gente que vive melhor que você e que não o vê, nunca o verá, a mediania é invisível, e mesmo assim não fica chateado, você que vota nas eleições e que de um modo geral cumpre os deveres que o Estado lhe atribui, e sujeita-se aos castigos do Estado quando falta aos deveres, você que se arruinou com um seguro de saúde para a família porque acha que o SNS, o sistema, o famoso sistema, está tão sobrecarregado que mais vale pagar mais e ter uma consulta que não demore nove meses a acontecer, você que faz as contas a tudo todos os dias, tanto para os cafés, tanto para a gasolina, tanto para a prestação do carro, tanto para a hipoteca da casa húmida suburbana, o banco não perdoa, temos de meter o miúdo na escola pública porque com o seguro de saúde não dá para tudo, você que sempre conclui que não chega, faltam-me aqui mais 700 euros, vou ao Totoloto e são 160 milhões, caramba, você que tem direito a férias na praia porque arrenda um apartamentozeco num esconso algarvio a meias com os cunhados, e as férias às vezes correm mal porque se irritam uns com os outros, este meu cunhado é uma besta quadrada, e doutro clube, você que desconta para a segurança social e a reforma e que está a ver que a reforma só vai chegar aos 70 anos, você que sabe que se perder o emprego mediano não arranja outro porque não tem qualificações por aí além e subiu a pulso, os pais eram pobres, não dava para universidades, você que passa os fins de semana no hipermercado ou no centro comercial, ao menos não está frio e sempre se compra qualquer coisinha, você que acredita nas vacinas e acredita naquilo que lhe dizem e não vê conspirações em lado nenhum, pelo contrário, até acredita no que dizem os telejornais, você que tem como luxo uma televisão LCD de muitas polegadas e o computador do miúdo, o miúdo tem de ter um computador e uns ténis novos, é a prenda de Natal, você que passaria fome para dar aos seus filhos um futuro embora só tenha um filho porque dois filhos é uma despesa que os salários somados do casal não cobrem, e sobra o problema dos pais, reformas pequeninas, os lares são caríssimos, quem vai cuidar deles, ou, para pôr o problema como é realmente, quem vai pagar aos profissionais que cuidam deles, esperemos que a mãe aguente mais que o pai porque a velhota é rija e sempre vai tomando conta do pai agora que veio o Alzheimer, e tenho que os visitar mais, você que compra bife do lombo uma vez por mês e segue os conselhos da mulher que segue os conselhos dos programas da manhã que mandam comer vegetais e sobretudo cenouras e lentilhas, no meu tempo não havia lentilhas comiam-se salsichas de lata e era um banquete, você que chega ao fim do dia derreado mas ainda tem tempo para ouvir os comentadores políticos e concordar ou discordar civicamente com eles, você que é um cidadão inteiro e cumpridor e não sabe porque ninguém lhe dá valor, você que é um herói e não sabe porque ninguém quer saber da sua anónima mediania ou das vidas de todos os dias, as vidas cor de burro quando foge das pessoas que não querem fazer mal a ninguém e que são capazes de se atirar ao rio para salvar um cão, o miúdo quer um cão mas não há dinheiro para grandes bichos, leva um porquinho da índia,

você que é um herói, repita-se aqui e alto, você que é um herói, não vai a correr votar num candidato que odeia os pretos e os ciganos e que acha que os pobres do rendimento mínimo não querem trabalhar, que acha que os inválidos e os velhos não servem para nada. Você, o herói, dá esmolas. E tem compaixão dos que têm menos e pelos quais passa todos os dias. Só os ricos não reparam nos pobres, ou passam por eles separados por vidros fumados.

E este candidato presidencial que é um produto quimicamente puro do sistema, fazendo uma carreira estelar dentro do sistema, fundando um partido político para ser do sistema, mostrando o currículo com a educação superior e estrangeirada do sistema como um emblema de supremacia de classe e que lhe diz que o ódio é a solução e que o país está dominado por pedófilos, e que é preciso invadir parlamentos e semear a anarquia, acha que vai votar nele? E naquele fato engomado de fascista com botões de punho com uma suástica disfarçada de espiral da vida? Acha que o argumento político pindérico é a marca de água do ser contra o sistema? Acha que os bandidos e primitivos armados que invadiram o Capitólio e o Reichstag são contra o sistema? E que defendem os que foram traídos pelo sistema? Que o defendem a si? Tenha juízo. Eles são, na ausência de escrúpulos e de ideologia, na ausência de humanidade e de compaixão, na sede ignorante de poder e dominação, no amor da política absoluta e da violência criminosa, o subproduto do sistema. A espuma negra do sistema, o resíduo tóxico e radioativo que deve ser incinerado e disposto longe. Se for enterrado, envenena a terra. E lá se envenenam as cenouras e as lentilhas da vida saudável.


Classe média, a camuflagem de ricos e desafogados

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 21/09/2016)

Autor

                         Daniel Oliveira

Estava eu a falar com uma amiga quando ela me diz, a propósito de uma possível mudança de escalões do IRS que não ponha no mesmo barco remediados e desafogados, que nós, eu e ela, éramos um excelente exemplo do que é a classe média em Portugal. Empalideci. Talvez tenha uma vantagem sobre a minha amiga: eu venho da verdadeira classe média nacional, que contava escudos ao fim do mês e a quem, apesar de não faltar o essencial (o que nos afastava da pobreza), faltavam escudos e sobrava mês. Sei bem que hoje, não sendo rico, não sou o melhor exemplo do que é a classe média portuguesa.

O que intuía confirmam os números. Verificada a coisa, pertenço, sem fortuna nem nada que se pareça, aos 2% mais ricos, olhando exclusivamente para o rendimento sujeito a IRS. E pertenço porque vivo num país pobre. Num país pobre, a classe média vive com dificuldades e os pobres vivem abaixo dessas dificuldades. Para além de ser pobre, Portugal é um dos países mais desiguais na distribuição de rendimento. Os impostos são quase exclusivamente cobrados aos rendimentos do trabalho. E como os os trabalhadores são pobres, cobra-se sempre aos mesmos.

Mostrando a sua má-fé, vários colunistas e jornalistas inventaram que Mariana Mortágua tinha defendido que se fosse buscar dinheiro à poupança. Qualquer pessoa intelectualmente honesta ouve declarações completas e faz por compreender o que a pessoa que falou realmente disse. E como Mariana Mortágua passou toda a intervenção a falar da desigualdade e dos 1% mais ricos, toda a gente que estava na sala percebeu que quando ela se referiu aos que acumulam dinheiro era desses 1% e não dos que poupavam que se referiu na famosa citação. Até porque se fosse da poupança, toda a sua intervenção se tornava desconexa. O que Mariana Mortágua disse, e não o que a propaganda implantada na imprensa nacional resolveu interpretar do que disse, ignorando todo o sentido da sua intervenção, é a mais elementar posição de um social-democrata (que ela não é): se vivemos num país brutalmente desigual, onde os mais pobres ganham tão pouco que não pagam impostos e a classe média paga quase sozinha o Estado, é aos mais ricos que temos de ir buscar mais recursos.

Só que, e voltamos à conversa da minha amiga, ainda aí uma grande confusão sobre o que é a classe média. A essa confusão não é alheio o facto de grande parte dos que comentam, nas suas profissões e no próprio comentário (estou incluído), terem rendimentos muito superiores aos da verdadeira classe média e quererem mobilizá-la em defesa dos seus próprios interesses. E os debates que tomaram conta dos media nos últimos tempos demonstram isto mesmo.

A redução de escalões de IRS foi péssima para a verdadeira classe média e o seu aumento será bom para ela. A tributação de património imobiliário que tenha o valor patrimonial superior a um milhão (o que atira para valores de mercado três ou quatro vezes superiores a isto) já foi garantida pelo governo anterior, tendo Passos dito que era uma medida “social-democrata”, vai apenas ser alterada, não belisca a classe média e pretende corrigir um problema que todos identificamos no nosso sistema (que se agravou com o fim do imposto sucessório) mas que, quando se tenta corrigir, embate com os interesses de quem mais tem e menos quer pagar: é fundamental transferir os encargos fiscais que se concentram quase exclusivamente nos rendimentos do trabalho para rendimentos que dele não dependem.

Se assumirmos como classe média os critérios determinados pelo estudo do Credit Suisse citado recentemente aqui no Expresso, baseado na riqueza (e não apenas no rendimento do trabalho), e colocarmos 44,6% dos portugueses na classe média, 2,7% na classe alta e 52,7% na classe baixa, teremos de concluir que quase tudo o que por aí aparece como um ataque à classe média se refere uma pequeníssima percentagem destas pessoas.

O termo “classe média” tem servido para defender qualquer tentativa de maior justiça fiscal, de combate à desigualdade e de alargamento do esforço fiscal a rendimentos que não resultem do trabalho. Na realidade, ricos e desafogados usam a classe média como camuflagem para defenderem os seus próprios interesses, prejudicando uma classe média sem voz na comunicação social.

A quase totalidade da classe média não é afetada quando se taxa património de um, dois e três milhões de euros. A quase totalidade da classe média não afetada (é beneficiada) quando se aumentam os escalões do IRS para diferenciar o que é diferente. A quase totalidade da classe média não é afetada quando se quer cobrar mais aos 1% mais ricos. Podem dizer, e essa é uma posição politicamente legítima (apesar de moralmente questionável), que precisamos dos ricos e que por isso não os devemos incomodar com mais impostos e devemos manter um sistema fiscal injusto, baseado quase exclusivamente nos rendimentos do trabalho e no esforço de trabalhadores por conta de outrem com rendimentos próximos da média nacional. Só não pretendam que as dores de muito poucos sejam sentidas por todos.