ECONOMISTAS CIENTISTAS

(In Blog O Jumento, 09/11/2017)
galbraith
Por mais que tenha aprendido de economia – que não tendo sido grande coisa poderá ter sido o suficiente para não dizer grandes asneiras -, por mais modelos econométricos com equações simultâneas, equações quadráticas ou equações em Rn que tenha estudado, faz-me uma grande confusão quando em 2017 se fazem previsões do crescimento económico com o rigor de décimas. Fico com a impressão de que a economia não é coisa de seres humanos, podendo ser tratada como uma ciência exacta.
Mas a verdade é que o ser humano já consegue enviar uma sonda para Plutão fazendo-a chegar ao Polo deste agora despromovido planeta, com um rigor de milímetros e de segundos, mas não consegue prever qual vai ser o crescimento no próximo mês de dezembro. Ainda bem que assim é, senão seria uma grande monotonia vivermos “geridos” pelo Mário Centeno, isso para não recordar que se fosse no tempo do Gaspar teríamos direito a tatuagem com número de rato de laboratório.
Não faço parte dos muitos que há alguns anos estavam convencidos de que a economia iria crescer graças à boa disposição nacional porque o Benfica ia ser campeão; também não estou convencido que os modelos econométricos do governo passem a contemplar uma equação quadrática para fazer considerar os beijinhos e abraços do Marcelo na taxa do crescimento económico.
Mas, a verdade é que se as regras de gestão fossem aplicadas com rigor, não existiria um self made man e que se as previsões dos economistas estivessem sempre certas e se adotássemos todas as reformas que as Teodoras sugerem estaríamos ricos, mas ainda teríamos de andar de alpargatas, a bem do crescimento da economia. Um dos primeiros temas dos cursos de economia é discutir se a economia é ou não uma ciência; todos os professores gostam que a sua arte seja ciência, daí que hoje tudo seja muito científico, um pouco à semelhança do socialismo do PCP, o único comprovado laboratorialmente.
Mas a mesma Universidade de Chicago de Milton Friedman, que pouca consideração tinha pelo lado humano da economia, deu ao mundo Richard H. Thaler, o professor que ganhou o Nobel em 2017, por ter estudado a importância da psicologia na economia, pondo fim ao desprezo pelo ser humano evidenciados por alguns economistas, como os três artistas que ainda ontem ouvi numa das televisões.
Talvez faça sentido perguntar se um primeiro-ministro deve ser muito otimista ou moderadamente otimista, se um Presidente deve estimular o sucesso promovendo o otimismo e as boas soluções ou deve ir a todos funerais, velórios e missas do sétimo dia. De certeza que o crescimento nos próximos anos vai ser de 2% como diz Centeno, tendo em conta a envolvente externa e revelando um total desprezo pelos indígenas e pelos seus sentimentos e humores?
Parece-me que os nossos economistas deviam voltar às universidades para voltarem a ser humanizados e socializados, aprendendo a ser motivadores de homens, a preocuparem-se mais com os sentimentos e motivações dos agentes económicos do que a reduzir a sua existência a cardumes com comportamentos condicionados e previsíveis.

Portugal quase no top ten da ciência europeia

(Carlos Fiolhais, in Público, 05/04/2017)

fiolhais

Este artigo e esta temática são uma bofetada sem luva no paspalho do Dijsselbloem. Andamos nos copos, como ele diz, e ainda conseguimos estar à frente da Alemanha e da França no ranking da ciência, a nível europeu. É obra. É o lado positivo da notícia. Só resta perguntar em que lugar estaríamos se entre 2011 e 2015 o governo de Passos não tivesse empreendido uma política de destruição da ciência nacional, como provam as estatísticas, sobretudo impulsionando os mais jovens e promissores cientistas a emigrar. Qualquer que seja o dossier que analisemos, constata-se que a governação pafiosa foi o maior desastre que aconteceu ao país, atrevo-me a dizer, desde os tempos de D. Afonso Henriques. Nem o terramoto de 1755 foi tão pernicioso.

Estátua de Sal, 05/04/2017


 

A notícia dada recentemente pelo PÚBLICO de que Portugal estava no 11.º lugar no ranking europeu dos países com maior número de publicações científicas por habitante só nos pode orgulhar a todos. Em duas décadas deixámos de ser um país na cauda da Europa e, colocados entre a Inglaterra e a Alemanha, chegámos perto do grupo da frente. Ultrapassámos não só a Alemanha, mas também a Espanha, a Itália e a França. Tal deveu-se não apenas ao esforço dos cientistas mas, acima de tudo, a uma política que visava sair da posição lastimável em que nos encontrávamos. O seu principal protagonista foi José Mariano Gago, que infelizmente já não está entre nós para verificar mais este seu sucesso. Ele mobilizou governo e sociedade para que uma geração de jovens pudesse mostrar os seus talentos numa área que é hoje decisiva para o progresso das nações.

Uma questão interessante é saber se a política adoptada por Passos Coelho de contenção da ciência, entre 2011 e 2015, teve um impacto negativo no crescimento da produção científica que se estava a verificar desde há algum tempo, isto é, se a subida não podia ter sido ainda maior. A resposta é clara: o crescimento abrandou mesmo, pois caiu de 69%, no período entre 2005 a 2010, para 50%, no período entre 2010 e 2015. Olhando para os números, contabilizamos, disciplina a disciplina, os estragos que o anterior governo fez à ciência. A Física baixou de 1448 artigos em 2012 para 1371 em 2015. A Química desceu de 1372 artigos em 2013 para 1331 em 2015. E a Matemática desceu de 666 artigos em 2011 para 651 em 2015. Também as Ciências Biológicas, as Engenharias Civil e Química e as Nanotecnologias conheceram retrocessos. Nas Ciências Sociais e Humanidades (embora não estejam bem representadas na base de dados usada), o panorama é semelhante: a Economia e Gestão, as Ciências da Educação, a Sociologia, a História e as Artes minguaram.

Todos estão lembrados da “avaliação”, encomendada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) para “podar” metade dos centros nacionais. Essa manobra, feita em muitos casos por não especialistas, penalizou alguns dos centros mais produtivos do país. Felizmente que o ministro Manuel Heitor, co-autor do Livro Negro da Avaliação da Ciência em Portugal, interrompeu o despautério. Hoje há consenso de que o caminho é para a frente e não para trás. Por isso, qual não foi o meu espanto ao ler no Expresso de 1/4/2017 (não, não era mentira!), na mesma altura em que eram divulgadas as referidas estatísticas, um artigo de António Coutinho, ex-“dono disto tudo” da ciência em Portugal e curador da Fundação Champalimaud, a criticar aquilo a que chama o “novo rumo” da ciência. Preto no branco, ele quer voltar à sua ideia de “poda”, concretizada pela deriva ideológica, para não dizer mesmo politiquice sectária, do governo anterior. Crato nunca embarcou no barco da ciência e Coutinho achava que a navegação seria melhor se mandasse borda fora metade dos cientistas, escolhidos um pouco ao acaso. Os resultados estão hoje à vista e só poderão ser negados por alguém, como Trump, que queira trocar os factos por factos alternativos. A anterior gestão da FCT, que nunca foi alvo de uma auditoria, não almejava a excelência mas sim zelar pelos interesses particulares de alguns.

Não quer isto dizer que a ciência esteja perfeita entre nós, muito longe disso. Está simplesmente melhor do que quando Coutinho a deixou. Agora respira-se. Mas o ministro tem pouco dinheiro no orçamento e deixa escapar frases infelizes (como a última, quando disse que os investigadores deviam ser mais reivindicativos e ele ia reivindicar com eles). Manuel Heitor endossa, por exemplo, para as escolas superiores responsabilidades que são principalmente suas de renovação dos quadros de professores e investigadores, uma renovação que urge para dar lugar à nova geração. Como mostra a rede GPS (gps.pt), há uma multidão de cientistas portugueses que tiveram de emigrar e ainda não vêem hipóteses de regressar ao seu país. Por que não são atraídos? Se queremos aspirar a um lugar na primeira linha da Europa, a nossa ambição mede-se pelas oportunidades que soubermos criar em Portugal para manter e atrair talento.


Professor universitário (tcarlos@uc.pt)

A condição pós-humana

(António Guerreiro, in Público, 24/03/2017)

Autor

António Guerreiro

Há poucos dias, demos pela vinda do pós-humano, quando lemos a notícia de que se realizou com sucesso a primeira implantação, no nosso país, de um coração artificial. Poucos dias depois dessa transformação parcial de um indivíduo humano em cyborg, no Hospital de Santa Maria, pudemos ler, num artigo publicado neste jornal, assinado por Hugo Torres, que “o próximo estado evolutivo dos computadores pode precisar de ADN”. Informava o autor do artigo que vêm aí os computadores quânticos. Os computadores biologizados e o corpo humano computadorizado: eis a prodigiosa reversibilidade que até agora só os utopistas e futurólogos se tinham entretido a imaginar, quando os computadores, mais agarrados à terra do que à cloud, eram ainda máquinas colossais que não cabiam em nenhum escritório. Mas não parece que nós, ainda tão afeiçoados a um humanismo tradicional e aos seus preceitos morais, estéticos e educativos, estejamos preparados para uma antropologia do artificial, capaz de retirar as devidas consequências de uma versão do corpo humano em que os órgão biológicos são substituídos por peças nanorobóticas. Ainda achamos delirante que uma companhia tenha nomeado um computador para um dos seus órgãos directivos (conta o escritor belga Paul Jorion num livro de 2016, intitulado Le dernier qui s’en va éteint la lumière. Essai sur l’extinction de l’ humanité).

No campo filosófico, estas questões que fixaram conceitos como os de pós-humano e trans-humano tiveram o seu momento de emergência mais visível por ocasião da publicação de um livro do filósofo alemão Peter Sloterdijk, em 1999. Chama-se esse livro Regras para Um Parque Humano e é uma resposta à Carta Sobre o Humanismo, que Heidegger escreveu em 1946. Ao defender que o homem é, desde sempre, o resultado de uma antropotécnica que procede por selecção e domesticação do homem pelo homem, Sloterdijk punha fim ao discurso do humanismo e interrogava a condição que nele desempenha o saber filosófico, a literatura e as artes. Mais tarde, numa entrevista, ao falar do “cibernético-biotécnico”, isto é, da convergência do organismo — “o que nasceu” — e da máquina — “o que é fabricado” -, Sloterdijk acrescentou uma outra humilhação sofrida pela humanidade, ao longo da sua história, às três que Freud tinha enumerado: a humilhação infligida por Copérnico, ao revelar que a Terra não é o centro do universo; a humilhação provocada por Darwin, ao revelar a ascendência animal do homem; e a humilhação, da qual Freud se reclamava o autor, infligida pela psicanálise, ao descobrir que o homem é determinado por forças inconscientes que não controla. Essa quarta humilhação acrescentada por Sloterdijk consiste em mais uma etapa na “substituição das descontinuidades metafísicas por continuidades pós-metafísicas”. Traduzindo isto por outra linguagem: a “barreira metafísica” que parecia separar o homem da natureza (primeiro), do animal (a seguir) e da máquina (por último) foi quebrada, dando origem a um ser que resulta da hibridação do orgânico com o cibernético. O que torna obrigatória uma pergunta que um especialista francês das novas tecnologias, Jean-Michel Besnier, colocou no subtítulo de um dos seus livros: “O futuro terá ainda necessidade de nós?”.

O que ainda mal começou a ser pensado é o modo como estas transformações abalam as regras da política e perturbam a própria ideia de democracia. Depois de se ter fixado a ideia de “pós-democracia”, é tempo de nos irmos habituando ao conceito de “transdemocracia”, para pensar a relação mais do que tumultuosa entre a tecnologia e a política.