Não havia necessidade

(Por Estátua de Sal, 10/10/2016)

“O Presidente da República homenageou hoje o seu antecessor no cargo, sublinhando a “sensibilidade social” demonstrada por Cavaco Silva há dez anos, quando elegeu a inclusão como uma prioridade política.” Ver notícia complete em:

http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/marcelo-homenageia-cavaco-e-sublinha-sensibilidade-social-do-seu-antecessor#_swa_cname=sapo24_share&_swa_cmedium=web&_swa_csource=facebook


marcelho

Meu caro Marcelo. Se Cavaco tinha essa sensibilidade toda, qual a razão para que tivesse saído de cena com a popularidade mais baixa de que há memória num Presidente da República cessante?

Como pode ter sensibilidade alguém que veio dizer que a reforma não lhe dava para sequer para os lanches, quando a pobreza e a miséria aumentavam de forma galopante no país?
Achas tu também que a sensibilidade é dar uma sopinha de água lavada aos pobres para que não feneçam à míngua? Não será sensibilidade, isso sim, lutar para que haja empregos dignos e salários justos que se evitem situações de pobreza extrema?
Mas essa sensibilidade, Cavaco não teve, e parece que tu teimas em ir pelo mesmo caminho. Como devoto seguidor do pior do catolicismo, aceitas que a pobreza e a indigência fazem parte do estado natural do mundo e das coisas, que nada se pode mudar, e que bastam umas sopinhas da D. Jonet para que a tua “boa consciência” fique pacificada e te absolvam os pecados.
É pena que, lá no fundo, não passes de um cristão de aviário. Olha para os discursos do Papa, a quem foste beijar o anel mal subiste à Presidência, e deves fazer de imediato “mea culpa”.
Devias ter vergonha. O Francisco dá-te lições, pregando contra a desigualdade, a corrupção, o sistema financeiro, pregando contra a soberba dos 1% mais ricos e tu, em vez de ouvir o teu pastor, vais elogiar um tipo que sempre esteve ao lado daqueles que o próprio Papa critica.
Se pensas como o Cavaco não te auguro grande futuro, mesmo com todas as encenações em que és mestre. Sabes, como diz a bíblia, a verdade é como o azeite: vem sempre ao de cima.
E se não passas de um lobo com pele de cordeiro, um fariseu disfarçado de bom samaritano, os portugueses, pode demorar, mas irão descobri-lo. E quando o descobrirem não irão ter qualquer compaixão por ti e vão punir as tuas farsas de ilusionista da palavra.

Se não pensas como o Cavaco, não percebo porque te prestas a tanto salamaleque perante figura tão execrável. Até aceito que queiras ser ecuménico e unir os portugueses num amplo desígnio nacional.
Mas há limites para tudo. É que, por este andar, um dia destes ainda vais condecorar os PIDES que ainda estão vivos e os que já morreram a título póstumo, para reeditares uma espécie de União Nacional do século XXI.

Sinceramente, não havia necessidade, como dizia o Diácono dos Remédios.

No sótão da presidência

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/09/2016)

AUTOR

                                     Miguel Sousa Tavares

Do sótão da Presidência de Cavaco Silva emergiu um livro da autoria do seu ex-assessor para a imprensa, campanhas eleitorais e assuntos afins, que confirma aquilo que seria de esperar: de um autor menor nunca sairá uma história maior. A história das frustrações longamente recalcadas de Fernando Lima — pelo que por aí tem vindo citado e referente às únicas coisas que justificarão a curiosidade pela pequena história — é apenas um relato pessoal, parcial e por vezes assumidamente vingativo do seu autor. Se alguma coisa ilustra, por osmose e pelo exemplo em causa, é a miséria ética e política de uma Presidência que acabou com um descrédito e um desprezo geral nunca antes alcançado por aquelas bandas. No sumo e no sangue não vai além do registo das miudezas da relação entre dois homens sem dimensão, cada um à sua maneira, cada um na sua função: Cavaco Silva, como primeiro-ministro e Presidente, e Lima, naquele triste papel de ex-jornalista que se recicla em cortesão do poder. Durante longos vinte anos (com excepção dos últimos seis, vividos em confessado desterro no sótão de Belém), o assessor imaginou-se influente na tarefa de aconselhar o homem que nunca se enganava, raramente tinha dúvidas e, presumidamente, não precisava de qualquer conselho. Já que se decidiu a escrever as suas memórias destes vinte anos perdidos ou mal gastos, teria sido interessante que o ex-jornalista se tivesse concentrado na descrição do personagem que serviu, além da máscara, que nos falasse da formação do seu pensamento político, se é que algum, do seu processo de tomada de decisões, da sua relação com amigos e inimigos. Que nos tivesse contado, por exemplo, alguma coisa de novo sobre aqueles dez anos determinantes no palácio de São Bento, em que Cavaco Silva dispôs de uma oportunidade histórica e irrepetível de mudar de cima a baixo o país, a sua forma de pensar, de agir e de crescer, e preferiu antes gastar as montanhas de dinheiro vindas da Europa a construir estradas, centros de congressos e rotundas, a aumentar a dimensão do Estado até ao ponto de insustentabilidade e a financiar o abandono de todas as actividades produtivas. Como e porquê se seguiu por esse caminho? Quem foram os conselheiros de Cavaco, então? Que discussões houve sobre o caminho a seguir e o destino a dar àqueles preciosos biliões? Que reflexão política foi feita sobre o futuro do país, se é que alguma?

É para isso que servem os livros de memórias dos Sir Humphreys que servem os poderosos. Mas não este: o livro de Fernando Lima não vai além dos arrufos de comadres, dos estiletes de ocasional veneno distribuídos por não nomeados (ou, ainda a medo, pelo chefe), da descrição de alguns lances de baixa e baixíssima política, das mais bacocas banalidades apresentadas como informações importantíssimas e das paranóias conspirativas e securitárias em que tanto o autor do livro como o seu amo do Palácio sempre gostaram de se consumir e de se imaginar alvo. Tudo convergindo para o único episódio que, bem espremidas as 400 páginas, era, como se adivinhava, o fim principal do autor: contar a sua versão do triste e célebre caso das “escutas a Belém” que José Sócrates teria mandado instalar.

Vale a pena recordar a história, até pelo que ela teve de insólito e de inimaginável nas relações institucionais entre o Presidente da República e o primeiro-ministro. No dia 18 de Agosto de 2009, no final do primeiro governo Sócrates, o jornal “Público” fazia manchete desta notícia estrondosa: “Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo”. Ao longo do texto, todo feito de insinuações e suspeitas de fonte não nomeada, vendia-se a ideia de que “Belém” tinha fortes indícios de que estaria a ser escutada, vigiada, espiada por São Bento, e, nomeadamente, através de um assessor de Sócrates que, entre outras ocasiões, se teria aproximado demasiadamente de pessoal do Presidente, durante uma visita à Madeira, com o fim evidente de escutar o que diziam. A “notícia” só não morreu de imediato de um ridículo atroz porque havia ali um dado que, esse sim, era evidente e grave: com fundamento ou sem ele, Belém desconfiava do Governo, o PR desconfiava do PM, e queria que se soubesse. E se Sócrates tratou logo de desmentir a parte que lhe dizia respeito, Cavaco manteve-se num sibilino silêncio, a pretexto de não interferir com o ambiente político, numa altura em que se avançava para eleições legislativas. Obviamente que o silêncio foi lido como confirmação das suspeitas de Belém, e obviamente que interferiu com a campanha, permitindo ao PSD afixar cartazes onde anunciava que a liberdade estava em perigo. Não foi uma jogada de mestre, foi uma jogada típica de Cavaco Silva: nem que sim nem que não, atira a pedra e esconde a mão.

O assessor imaginou-se influente, na tarefa de aconselhar o homem que nunca se enganava, raramente tinha dúvidas e, presumidamente, não precisava qualquer conselho

A 18 de Setembro, o “Diário de Notícias” divulga a verdadeira bomba: toda a história tinha sido congeminada entre Belém, através de Fernando Lima, e a direcção do “Público”, chegando-se ao ponto de orquestrar a forma e o conteúdo da notícia inicial, conforme resultava claro da correspondência electrónica entre dois jornalistas do “Público”, divulgada pelo “DN”. Jamais, que me lembre, assisti a tamanha manipulação da imprensa, a tamanha promiscuidade entre o poder político e o jornalismo. (Mas, para que a vergonha fosse ainda maior, a entidade que julgou a actuação jornalística absolveu o “Público” e condenou o “DN” por divulgação de “fonte” alheia!). Com isto sabido e passadas as eleições, Cavaco Silva decide, enfim, prestar esclarecimentos ao país. Fê-lo numa comunicação televisiva que ficará para a história da hipocrisia e da cobardia política. Sobre o assunto em si mesmo, sobre o fundamento das tais suspeitas ou ausência dele, Sª Exª disse nada. Em vez disso, informou o país de que, tendo nesse mesmo dia chamado uns “técnicos”, estes lhe haviam revelado que até o seu computador podia ser infiltrado. E, já agora, um tal de Fernando Lima era descartado das suas funções, mas mantendo-se ao serviço — no tal sótão, a ler jornais até ao fim dos tempos. Típico de Cavaco: não se atreve a despedir o homem com medo das represálias, mas também não se atreve a não fazer nada, com medo da reacção política. Não se atreve a confirmar as suspeitas levantadas pela sua Casa Civil, mas também não se digna a negá-las.

O desterrado conta agora, seis anos volvidos, que Cavaco levou o seu descarte ainda mais longe, ao ponto de fingir que não viu o seu antigo assessor quando com ele se cruzou em público. E, tendo-o reconduzido nas funções de sótão para o seu segundo mandato, nunca mais lhe quis pôr a vista em cima.

Magoado, “chocado”, Lima seguiu em silêncio o seu “caminho das pedras”, cinco anos fechado no seu sótão a ruminar esta pífia vingança. 400 e tal páginas em que deixa sem resposta as únicas perguntas que interessavam: quem, afinal, congeminou a tal conspiração das escutas — foi ele, foi Cavaco, foram ambos ou foi outrem? E Cavaco sabia, consentiu, aprovou, acompanhou? E, enfim, a pergunta que qualquer ser decente se fará ao ler esta longa recriminação: por que razão alguém, assim distratado e publicamente humilhado por quem serviu tantos anos, se mantém em funções, em lugar de se demitir imediatamente?


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Sousa season

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 02/09/2016)
quadros

 João Quadros

Foi uma “silly season” olímpica, marcada por chamas e medalhas. A grande figura foi Marcelo Rebelo de Sousa. A “silly season” é o “habitat” natural do nosso PR. Digo isto sem desprimor, mais ainda, sabendo que os dias que eram a cara do nosso ex-Presidente era o dia de finados e a Sexta-feira Santa, quando calhava num dia 13.

Marcelo esteve em todo o lado, abraçou e beijou toda a gente e nem um herpes labial apanhou. Acho que, desde aquele mergulho no Tejo, o nosso Presidente ficou com um sistema imunitário que lhe permite ir fazer uma presidência aberta a Chernobyl e vir de lá apenas bronzeado. Esta omnipresença de Marcelo mais facilmente nos desgasta a nós do que a ele.

A diferença para Cavaco é abismal: as pessoas gostam do Presidente da República – mas a principal diferença é que é recíproco. Até a visita às Selvagens foi diferente. Havia cagarras escondidas em fendas rochosas desde a visita de Aníbal que vieram espreitar a chegada de Marcelo. Claro que o nosso Presidente não iria ficar nas Selvagens por muito tempo, porque só tinha duas pessoas para abraçar.
Pode ser mania minha, mas acho que há semelhanças físicas, de rosto, e até de tiques, entre o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o Mister Fernando Santos. Uma forma de falar, um estilo, um tom que tenta acalmar e convencer que está tudo bem mesmo quando nos parece que agora é que vai dar bronca. Vivem os dois muito da comparação com os antecessores. Paulo Bento e Cavaco Silva parecem ter sido feitos no mesmo torno.

Marcelo recebeu os jogadores de futebol campeões europeus, os atletas olímpicos, os campeões europeus de atletismo. Nunca houve tanta testosterona naquela sala, excepto daquela vez em que Cavaco lambeu a mão à princesa Letizia.

Nesta “silly season”, Marcelo distribuiu mais medalhas num mês que o comité olímpico. Eu ainda não recebi, mas tenho tido o telemóvel desligado nas férias, por isso não sei se já tenho uma torre e espada lá em baixo na caixa de correio.

Na verdade, acho que estas medalhas, finalmente, foram atribuídas a pessoas que, não temos dúvidas, fizeram alguma coisa pela nação. Prefiro ver Marcelo condecorar atletas do que vê-lo atribuir uma Grã-Cruz da Ordem Militar a pessoas com o pé chato. E já foram muitas.

Do meu ponto de vista, é diferente dar uma medalha ao Zeinal Bava e, passado uns meses, descobrir que andou a assaltar a PT e dar uma medalha ao Ederzito. Sinto que, desta vez, não fomos aldrabados, a não ser que viéssemos a descobrir que o Eder estava a ser pago pelos franceses e que, na realidade, tentou um autogolo mas saiu-lhe mal.

TOP 5“Silly season”1. Horrível mês de Agosto, o vídeo que parodia Costa e diverte o PSD – Fixe foi a Universidade de Verão, o Pontal, o Barroso no Goldman e as sondagens.

2. Embaixador do Iraque enviou flores ao jovem agredido em Ponte de Sor – São cravos amarelos, significam desdém e mau querer.

3. Guterres vence terceira votação para secretário-geral da ONU – Só faltam 23.550.

4. Polícia Marítima apreende e destrói 210 bolas de Berlim – Não seriam bolas de Marrocos?

5. Assunção Cristas acusa Governo de “cegueira ideológica” por querer cobrar IMI à Igreja – A líder do PP é uma estrábica com cegueira religiosa.

.