No sótão da presidência

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 10/09/2016)

AUTOR

                                     Miguel Sousa Tavares

Do sótão da Presidência de Cavaco Silva emergiu um livro da autoria do seu ex-assessor para a imprensa, campanhas eleitorais e assuntos afins, que confirma aquilo que seria de esperar: de um autor menor nunca sairá uma história maior. A história das frustrações longamente recalcadas de Fernando Lima — pelo que por aí tem vindo citado e referente às únicas coisas que justificarão a curiosidade pela pequena história — é apenas um relato pessoal, parcial e por vezes assumidamente vingativo do seu autor. Se alguma coisa ilustra, por osmose e pelo exemplo em causa, é a miséria ética e política de uma Presidência que acabou com um descrédito e um desprezo geral nunca antes alcançado por aquelas bandas. No sumo e no sangue não vai além do registo das miudezas da relação entre dois homens sem dimensão, cada um à sua maneira, cada um na sua função: Cavaco Silva, como primeiro-ministro e Presidente, e Lima, naquele triste papel de ex-jornalista que se recicla em cortesão do poder. Durante longos vinte anos (com excepção dos últimos seis, vividos em confessado desterro no sótão de Belém), o assessor imaginou-se influente na tarefa de aconselhar o homem que nunca se enganava, raramente tinha dúvidas e, presumidamente, não precisava de qualquer conselho. Já que se decidiu a escrever as suas memórias destes vinte anos perdidos ou mal gastos, teria sido interessante que o ex-jornalista se tivesse concentrado na descrição do personagem que serviu, além da máscara, que nos falasse da formação do seu pensamento político, se é que algum, do seu processo de tomada de decisões, da sua relação com amigos e inimigos. Que nos tivesse contado, por exemplo, alguma coisa de novo sobre aqueles dez anos determinantes no palácio de São Bento, em que Cavaco Silva dispôs de uma oportunidade histórica e irrepetível de mudar de cima a baixo o país, a sua forma de pensar, de agir e de crescer, e preferiu antes gastar as montanhas de dinheiro vindas da Europa a construir estradas, centros de congressos e rotundas, a aumentar a dimensão do Estado até ao ponto de insustentabilidade e a financiar o abandono de todas as actividades produtivas. Como e porquê se seguiu por esse caminho? Quem foram os conselheiros de Cavaco, então? Que discussões houve sobre o caminho a seguir e o destino a dar àqueles preciosos biliões? Que reflexão política foi feita sobre o futuro do país, se é que alguma?

É para isso que servem os livros de memórias dos Sir Humphreys que servem os poderosos. Mas não este: o livro de Fernando Lima não vai além dos arrufos de comadres, dos estiletes de ocasional veneno distribuídos por não nomeados (ou, ainda a medo, pelo chefe), da descrição de alguns lances de baixa e baixíssima política, das mais bacocas banalidades apresentadas como informações importantíssimas e das paranóias conspirativas e securitárias em que tanto o autor do livro como o seu amo do Palácio sempre gostaram de se consumir e de se imaginar alvo. Tudo convergindo para o único episódio que, bem espremidas as 400 páginas, era, como se adivinhava, o fim principal do autor: contar a sua versão do triste e célebre caso das “escutas a Belém” que José Sócrates teria mandado instalar.

Vale a pena recordar a história, até pelo que ela teve de insólito e de inimaginável nas relações institucionais entre o Presidente da República e o primeiro-ministro. No dia 18 de Agosto de 2009, no final do primeiro governo Sócrates, o jornal “Público” fazia manchete desta notícia estrondosa: “Presidência suspeita estar a ser vigiada pelo Governo”. Ao longo do texto, todo feito de insinuações e suspeitas de fonte não nomeada, vendia-se a ideia de que “Belém” tinha fortes indícios de que estaria a ser escutada, vigiada, espiada por São Bento, e, nomeadamente, através de um assessor de Sócrates que, entre outras ocasiões, se teria aproximado demasiadamente de pessoal do Presidente, durante uma visita à Madeira, com o fim evidente de escutar o que diziam. A “notícia” só não morreu de imediato de um ridículo atroz porque havia ali um dado que, esse sim, era evidente e grave: com fundamento ou sem ele, Belém desconfiava do Governo, o PR desconfiava do PM, e queria que se soubesse. E se Sócrates tratou logo de desmentir a parte que lhe dizia respeito, Cavaco manteve-se num sibilino silêncio, a pretexto de não interferir com o ambiente político, numa altura em que se avançava para eleições legislativas. Obviamente que o silêncio foi lido como confirmação das suspeitas de Belém, e obviamente que interferiu com a campanha, permitindo ao PSD afixar cartazes onde anunciava que a liberdade estava em perigo. Não foi uma jogada de mestre, foi uma jogada típica de Cavaco Silva: nem que sim nem que não, atira a pedra e esconde a mão.

O assessor imaginou-se influente, na tarefa de aconselhar o homem que nunca se enganava, raramente tinha dúvidas e, presumidamente, não precisava qualquer conselho

A 18 de Setembro, o “Diário de Notícias” divulga a verdadeira bomba: toda a história tinha sido congeminada entre Belém, através de Fernando Lima, e a direcção do “Público”, chegando-se ao ponto de orquestrar a forma e o conteúdo da notícia inicial, conforme resultava claro da correspondência electrónica entre dois jornalistas do “Público”, divulgada pelo “DN”. Jamais, que me lembre, assisti a tamanha manipulação da imprensa, a tamanha promiscuidade entre o poder político e o jornalismo. (Mas, para que a vergonha fosse ainda maior, a entidade que julgou a actuação jornalística absolveu o “Público” e condenou o “DN” por divulgação de “fonte” alheia!). Com isto sabido e passadas as eleições, Cavaco Silva decide, enfim, prestar esclarecimentos ao país. Fê-lo numa comunicação televisiva que ficará para a história da hipocrisia e da cobardia política. Sobre o assunto em si mesmo, sobre o fundamento das tais suspeitas ou ausência dele, Sª Exª disse nada. Em vez disso, informou o país de que, tendo nesse mesmo dia chamado uns “técnicos”, estes lhe haviam revelado que até o seu computador podia ser infiltrado. E, já agora, um tal de Fernando Lima era descartado das suas funções, mas mantendo-se ao serviço — no tal sótão, a ler jornais até ao fim dos tempos. Típico de Cavaco: não se atreve a despedir o homem com medo das represálias, mas também não se atreve a não fazer nada, com medo da reacção política. Não se atreve a confirmar as suspeitas levantadas pela sua Casa Civil, mas também não se digna a negá-las.

O desterrado conta agora, seis anos volvidos, que Cavaco levou o seu descarte ainda mais longe, ao ponto de fingir que não viu o seu antigo assessor quando com ele se cruzou em público. E, tendo-o reconduzido nas funções de sótão para o seu segundo mandato, nunca mais lhe quis pôr a vista em cima.

Magoado, “chocado”, Lima seguiu em silêncio o seu “caminho das pedras”, cinco anos fechado no seu sótão a ruminar esta pífia vingança. 400 e tal páginas em que deixa sem resposta as únicas perguntas que interessavam: quem, afinal, congeminou a tal conspiração das escutas — foi ele, foi Cavaco, foram ambos ou foi outrem? E Cavaco sabia, consentiu, aprovou, acompanhou? E, enfim, a pergunta que qualquer ser decente se fará ao ler esta longa recriminação: por que razão alguém, assim distratado e publicamente humilhado por quem serviu tantos anos, se mantém em funções, em lugar de se demitir imediatamente?


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

4 pensamentos sobre “No sótão da presidência

  1. Porquê ? porque o dinheirinho é sempre pouco e a avareza está-lhes na massa do sangue.
    É como o juiz que trabalha aos Sábados para compôr o ordenado … !
    NOTA: não posso deixar de sublinhar a incongruência do tal juiz ! Não se percebe … vive tão espartanamente, trabalha tanto (ganha bem, ordenado de juiz quem nos dera !!!) e ainda precisa de fazer horas aos Sábados porque … tem dívidas !!! Dívidas porquê , como ? e depois o outro é que é estroina e vive nos luxos ? Porra, havia de haver alguém que o obrigasse a explicar isto muito explicadinho … ou então a deixar cair a máscara da hipocrisia !

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  2. O problema do Cavaco é que não arranja amigos fixes que lhe “emprestem” dinheiro para viver no luxo de Paris. Nem precisava de frequentar a Universidade para ser Doutor pois já é. Quanto aos escrevalhos talvez fosse bom investigar porque dizem tão bem de quem faz vida de lord com o dinheiro que diz não ter. A elasticidade da massa também chega a eles?

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