O Problema da Habitação — uma questão bíblica e um revelador da ideologia dominante

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 24/09/2023)


Lusa 29 Jan 2020: O número de pessoas em situação sem-abrigo aumentou nos últimos anos em mais de um terço dos 35 países da Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), incluindo Portugal. De acordo com o relatório, a taxa de sem-abrigo (medida como uma parcela da população total) aumentou na Austrália, no Chile, em Inglaterra, França, Islândia, Irlanda, Letónia, Luxemburgo, Países Baixos, Nova Zelândia, Portugal, Escócia, Estados Unidos e País de Gales.

O problema da Habitação em Portugal é exatamente igual ao problema da Habitação dos outros países europeus. E tem a mesma raiz que o problema da Saúde, o problema da Educação, o problema da Segurança Social, o problema da precariedade do trabalho e da desigualdade salarial. E vai resolver-se com a mesma solução dos Estados Unidos, a potência líder da nossa civilização e modelo político: milhões de sem abrigo, sem domicílio fixo, a viver na rua ou em autocaravanas!

O problema é o capitalismo — um problema que Adam Smith, o seu pai fundador, logo levantara ao alertar para as formas de desumanização que a competição entre os mais fortes e os mais fracos produziria e que apenas seriam resolvidas pela moral. Adam Smith era profundamente religioso e a moral é um valor de ocasião!

O atual problema da Habitação é um revelador da instabilidade estratégica resultante da emergência de novos poderes que obrigam os Estados Unidos a impor o seu modelo civilizacional aos estados vassalos. O Estado Social Europeu é muito caro e os recursos são necessários para os aparelhos militares. Entre os canhões e manteiga a escolha são os canhões e a inflação para os pagar.

O final da II Guerra Mundial gerou a partilha do mundo pelas superpotências vencedoras e uma das medidas tomadas pelos Estados Unidos para manterem as grandes massas em oposição ao socialismo e ao comunismo foi a utilização de partidos sociais, os partidos sociais-democratas e democratas cristãos que receberam parte dos fundos destinados aos sistemas repressivos para serem utilizados em políticas sociais de educação, habitação, de saúde, de segurança social. Os partidos sociais-democratas e democratas cristãos são um produto do capitalismo e da estratégia dos EUA para a Europa Ocidental. Não foi por existir uma política pública de apoio social que os bens sociais deixaram de ser um produto no mercado e no arsenal da guerra fria. O estado de bem-estar é uma mercadoria eleitoral que vale enquanto rende submissão voluntária e ilusão de liberdade.

Entre os bens sociais, a habitação esteve sempre entregue na totalidade ao sistema financeiro, ao coração do capitalismo, à banca, ao longo do seu ciclo de produção — do terreno, ao empréstimo para a empresa construtora, ao empréstimo ao promitente comprador. O europeu médio, satisfeito pelas benesses de uma reforma, de um tratamento da doença tendencialmente gratuito, com férias, com escola grátis, esqueceu-se que para habitar ficava endividado até ao resto dos seus dias, democraticamente dominado pelos banqueiros, votasse em quem votasse, lesse o que lesse, dissesse o que dissesse!

O fim da ameaça do comunismo tornou desnecessário continuar a pagar aos europeus para eles não aderirem ao comunismo — ao socialismo sob qualquer graduação. As crises que afetam agora todos os serviços públicos — julgados até agora direitos europeus — são frutos do fim da URSS.

A União Europeia, a partir da implosão da URSS, tem sido o veículo de transição da Europa para a economia liberal pura e dura . O BCE é um dos instrumentos principais para conduzir esse processo restauracionista e fazer o enterro da ilusão de liberdade e bem-estar. Para a imposição do regime neoliberal em vigor desde sempre nos EUA.

A recuperação da Rússia como superpotência militar e cada vez mais como superpotência económica, com grande superfície, baixa densidade populacional, grande riqueza de matérias-primas, a emergência da China, da Índia ameaçaram a supremacia americana e obrigaram a um cerrar de fileiras a todo o custo, a começar pelo desmantelamento do estado social europeu. A guerra quente na Ucrânia, a guerra fria com a China, as disputas regionais pela conquista da fidelidade da Índia (ou da não hostilidade) e as guerras regionais em África são nós da mesma rede.

Os problemas da Habitação têm causas conhecidas e estudadas. Alguns números portugueses:

– 22,7% das famílias vive em casa arrendada.

– Das 77,3% famílias que habitam casa própria, 31,2% tem encargos bancários. — 46,8% das 77,3% famílias proprietárias não paga encargos. As razões são várias — ou são mais velhas e já pagaram, ou são as proprietárias maioritárias de habitações tipo vivenda e não de apartamento em propriedade horizontal, ou são empresários que as colocam como imóvel da empresa, ou estão registadas numa praça offshore.

– Um outro vetor do problema da Habitação é o seu custo, que subiu 9,9 % no ano 2020 relativamente ao ano anterior, muito acima da inflação: basicamente custo do terreno, custo dos materiais e custo do dinheiro. Além da especulação.

O governo, qualquer governo europeu, poderia atacar o problema da Habitação por várias frentes, entre outras:

– Impondo limites aos lucros dos bancos. Limites de juros, de comissões. Esses limites teriam reflexos nas prestações mensais e também no preço das habitações, pois diminuiriam os encargos dos construtores! Mas seria atacar o coração do sistema: os bancos. A começar pelo neoliberal BCE da senhora Lagarde que é uma senhora por conta dos grandes poderes, que esteve no FMI, onde se senta agora uma senhora búlgara! Todas por conta do domínio do dólar como moeda de troca mundial e de um sistema social de baixo custo, conseguido pelo individualismo e pelo desprezo dos direitos dos seres mais fracos, de uma percentagem oficialmente admissível para as sociedades ditas desenvolvidas de 30 a 40% de elementos abaixo dos limites da pobreza! Não há governo europeu que se atreva a ir contra o patrão americano! Os sem-abrigo não votam!

– Impondo limites às Câmaras Municipais para urbanizar em terrenos de reserva e, principalmente, abandonar a transferência orçamental automática de acordo com as licenças de construção emitidas. Impedir ou limitar a construção não habitacional! Mas isso seria alienar a cumplicidade das autarquias e perder os cabos eleitorais que os autarcas também são. Não se ganham eleições com essa gente contra! Essa gente, como afirma o Isaltino — quer obra!

– Impedindo a compra de casas de habitação a não residentes permanentes (uma proposta sensata do BE! Logo deturpada pela comunicação social), mas isso seria afrontar os grandes fundos de investimento cotados nas grandes Bolsas. Quem se atreve?

Resta então, fazer de conta que se ataca o problema indo ao escalpe dos proprietários nacionais — a classe média com algum património — que detém as habitações onde vivem 22,7% dos arrendatários, que, numa percentagem significativa pagam rendas irrisórias que não dão para manter as casas. Aos inquilinos dá-se-lhe o placebo de uma moratória nos juros, mas terão de pagar os empréstimos aos bancos até ao último centavo!

De fora da resolução ficam os detentores dos grandes meios do capitalismo:

– o sistema financeiro, que controla os preços através do estabelecimento das taxas de juro que afetam o preço dos terrenos, da construção e das rendas;

– o poder dos grandes fundos internacionais, para quem os prédios são um investimento cego e sem fins sociais;

– o poder dos autarcas, que vivem dos Planos Diretores Municipais e das licenças de construção;

– os compradores estrangeiros com fundos em offshore e que nem aqui pagam impostos;

É este o sistema e são estes os bloqueios na habitação. Com a mesma raiz dos problemas na saúde pública, o SNS, sob fogo das estruturas sindicais como tropa de choque das empresas de saúde privadas, associadas às companhias de seguros; dos problemas da educação, atacado pelos interesses do ensino privado do pré-escolar ao universitário através dos mais de 10 sindicatos que por ali se movem.

Para efeitos de propaganda o problema da Habitação vai receber tratamento paliativo à custa dos tais proprietários de médios rendimentos que fornecem o serviço privado a 22,7% dos portugueses.

No restante não se toca, porque ameaça o coração do sistema.

Há que promover os sem abrigo para resolver o problema da Habitação em Portugal e na Europa! Esse é o verdadeiro programa, o que resolve em termos capitalísticos o problema! Há que deixar 30 a 40% de população sem SNS e sem seguro privado para resolver o problema da saúde.

Ninguém se lembrou (não se quis lembrar!) que a alimentação também é um problema e que se morre mais depressa de fome do que de falta de um teto e nenhum governo se atreveu a decretar uma lei travão às grandes cadeias de distribuição. Isso seria ofender os grandes capitalistas! A SONAE, a Jerónimo Martins (que paga impostos na Holanda), a Auchan, entre outros. Gigantes que nenhum governo afronta, até porque dominam a comunicação social! Há que multiplicar o estado assistencial: Bancos alimentares, sopas do sidónio.

E os preços da Saúde, também terão lei travão? Nem pensar. Os Amorins, os chineses do conglomerado Luz, a Cuf, não podem ser incomodados!

É este o sistema global que o programa da Habitação revela. Se algum político disser que o vai resolver está a mentir ou quer-se suicidar!

Afinal, segundo a Sagrada Bíblia, Deus colocou Adão e Eva na situação de sem abrigo. Adão e Eva foram os primeiros sem abrigo. Cresceram e multiplicaram-se. O problema da habitação começou aí! Justiça Divina.

Declaração de interesses: sou proprietário de 50% do apartamento em propriedade horizontal em que habito e que está integralmente pago.


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Armas hipersónicas – o elefante na sala

(André Campos, in comentários na Estátua de Sal, 10/06/2023)

É estranho ninguém falar do elefante na sala, revelado por esta história da Ucrânia: as armas hipersónicas que mudam absolutamente TUDO, até mesmo a dissuasão nuclear (que é provavelmente a razão pela qual ninguém no Ocidente está a falar sobre isso, mesmo os meios de comunicação dissidentes…).

E explicam também porque é que os russos investiram e continuam a investir muito pouco na sua marinha: de que serve ter uma grande marinha quando se enfrentam armas hipersónicas (mísseis e torpedos)? Não faz sentido nenhum. Com estas armas, os russos (e, aparentemente, outros como a China, a Coreia do Norte e até o Irão, que acabam de anunciar planos neste domínio) têm atualmente o que é preciso para contrariar eficazmente (ou, realisticamente, aniquilar) os Estados Unidos, cujo poder militar deriva da sua Marinha.

Para além disso, os russos têm o melhor poder de fogo antiaéreo do mundo, pelo que também não precisam de uma força aérea planadora (especialmente porque não querem bombardear o Reino Unido como os EUA fizeram em todo o lado nas suas guerras do lado do Bem).

Os drones baratos (ou os caros, como o Bayraktar) só são úteis quando se trata de um adversário fraco, não numa guerra de alta intensidade contra um país forte. Atualmente, os russos podem utilizar drones baratos na Ucrânia precisamente porque o equilíbrio de forças está largamente a seu favor.

Basicamente, os russos fizeram algo que o egocêntrico Ocidente é incapaz de fazer: identificar o adversário (o que não foi difícil de fazer depois das sanções de 2014), pensar nos seus pontos fortes e investir nas armas certas para o contrariar.

Na Europa, como sempre, estão a fazer um pouco de relações públicas patéticas. Os Estados Unidos não os têm – os seus testes falham uma vez em cada duas, atualmente – mas provavelmente acabarão por tê-los dentro de alguns anos.

O problema é que não há pensamento estratégico (ou não há pensamento de todo), pelo que não se vai a lado nenhum. O Ocidente já não é capaz de produzir nada para além de dívida (mas isso não chega para produzir coisas, é preciso fábricas, pessoal, matérias-primas e energia!), corrupção e bolhas narrativas. (veja-se o caso do F35, que é um ferro-velho que explodiu orçamentos enquanto tinha componentes chineses no interior – nada mau para quem quer fazer guerra ao seu principal fornecedor).

Os mísseis hipersónicos podem ver o seu alvo no terminal? A estas velocidades, forma-se plasma à volta do míssil, bloqueando o radar das Índias, o que lhes permite atingir estas velocidades, eliminando a fricção do ar: até Mach 27 para o planador Avangard, ou da água: 500 km/h debaixo de água com o torpedo Chkval. Além disso, os radares não os detetam.

Quanto a saber como apontam para o alvo, não faço ideia e não sei se os nossos especialistas também sabem, porque, pelo que sei, esse é um dos desafios destas armas, pelo menos em termos de atingir um alvo em movimento como um porta-aviões.

Mas o que sabemos (desde o início, quando Putin revelou o programa russo) é que estes mísseis são supostamente extremamente manobráveis e podem tomar trajetórias bastante improváveis, tornando-se impossível intersectá-los (ao contrário de uma trajetória balística normal que podemos antecipar). Portanto, parece haver um sistema de orientação…

Depois, há provavelmente mísseis que têm velocidades hipersónicas mas trajetórias que permanecem mais ou menos balísticas e os “verdadeiros” mísseis hipersónicos que combinam velocidade e manobrabilidade…

E todos os países que trabalham neste domínio não estão provavelmente na mesma fase de progresso. E também no que diz respeito às velocidades atingidas. Por exemplo, em 2022, os EUA estavam a testar um míssil desenvolvido pela Lockheed Martin, o AGM-183A, que só atingia Mach 5, mas que deveria atingir Mach 20 no fim do programa. No final, a Lockheed Martin e a Força Aérea dos EUA abandonaram o projeto…

Não estamos realmente a lidar com uma tecnologia trivial e, para além dos russos, que já provaram que a têm, o resto do mundo está provavelmente a fazer bluff, especialmente o mundo ocidental: além disso, se derem uma vista de olhos, vejo uma infografia na Europa que está “muito avançada” no seu programa hipersónico.

Por que é que o Presidente da União Europeia, o Presidente da França, o Presidente da Comissão Europeia e o Presidente da Ucrânia precisaram dos serviços de uma empresa de consultoria americana pouco antes do início da operação especial russa? A McKinsey é conhecida como “a empresa”…

Então o Reino Unido está a mostrar moderação? Talvez o nosso amigo Vladimir Vladimirovitch tenha sido persuasivo com o Rishi Sunak… Por outro lado, o Papa Scholz fez um discurso anti-russo digno do seu tio Adolf…

Pobre mundo e pobres tempos…

A Europa, sob a sua influência (ocupada), está a criar o terreno fértil para futuras guerras, sempre sofridas pelos povos, mas sempre provocadas por aqueles que as declaram depois, mas que nunca as travam de facto… Por outras palavras, travam a guerra deles através dos outros. A Ucrânia é um exemplo perfeito disso, o mesmo modus operandi apesar dos séculos.

Nunca esquecer a Shoah, mas esquecer o período soviético? É uma curiosa forma de pensar a duas velocidades, imposta pelos mesmos bandidos…

Em suma, uma guerra “globalizada”. Para já!


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Sobre a guerra que está para vir. Manifeste-se agora.

(John Pilger, in Resistir, 02/05/2023)

Em 1935, o Congresso de Escritores Americanos foi realizado na cidade de Nova York, seguido por outro dois anos depois. Eles convocaram “as centenas de poetas, romancistas, dramaturgos, críticos, roteiristas e jornalistas” a discutir o “rápido desmoronamento do capitalismo” e o anunciar de uma outra guerra. Foram eventos eletrizantes que, segundo um relato, contaram com a presença de 3.500 membros do público, com mais de mil recusados.

Arthur Miller, Myra Page, Lillian Hellman e Dashiell Hammett advertiram que o fascismo estava em ascensão, muitas vezes disfarçado, e a responsabilidade de se manifestar era dos escritores e jornalistas. Telegramas de apoio de Thomas Mann, John Steinbeck, Ernest Hemingway, C Day Lewis, Upton Sinclair e Albert Einstein foram lidos.

A jornalista e romancista Martha Gellhorn defendeu os sem-teto e os desempregados e “todos nós sob a sombra de um grande poder violento”.

Martha, que se tornou uma amiga próxima, disse-me mais tarde, tomando seu habitual copo do Famous Grouse com água soda: “A responsabilidade que sentia como jornalista era imensa. Eu havia testemunhado as injustiças e o sofrimento causados ​​pela Depressão e sabia, todos nós sabíamos, o que aconteceria se os silêncios não fossem rompidos”.

As suas palavras ecoam nos silêncios de hoje: são silêncios preenchidos por um consenso de propaganda que contamina quase tudo o que lemos, vemos e ouvimos. Deixe-me dar um exemplo:

Em 7 de março, os dois jornais mais antigos da Austrália, o Sydney Morning Herald e The Age, publicaram várias páginas sobre “a ameaça iminente” da China. Eles coloriram o Oceano Pacífico de vermelho. Os olhos chineses eram marciais, em marcha e ameaçadores. O Perigo Amarelo estava prestes a despenhar-se como se pelo peso da gravidade.

Nenhuma razão lógica foi dada para um ataque da China à Austrália. Um “painel de peritos” não apresentou qualquer evidência confiável: um deles é um ex-diretor do Australian Strategic Policy Institute, uma fachada do Departamento de Defesa em Canberra, do Pentágono em Washington, dos governos da Grã-Bretanha, Japão e Taiwan e da indústria de guerra do Ocidente.

“Pequim pode atacar dentro de três anos”, advertiram eles. “Não estamos prontos”. Milhares de milhões de dólares serão gastos em submarinos nucleares americanos, mas isso, ao que parece, não é suficiente. “As férias australianas da história estão acabadas”: o que quer que isso signifique.

Não existe ameaça para a Austrália, nenhuma. O distante país “perfeito” não tem inimigos, muito menos a China, seu maior parceiro comercial. No entanto, criticar a China, que se baseia na longa história de racismo da Austrália em relação à Ásia, tornou-se uma espécie de desporto para os auto-denominados “peritos”. O que os chineses-australianos acham disso? Muitos estão confusos e com medo.

Os autores desta grotesca peça de mau gosto e subserviência ao poder americano são Peter Hartcher e Matthew Knott, “repórteres de segurança nacional”, acho que são assim chamados. Lembro-me de Hartcher de seus passeios pagos pelo governo israelense. O outro, Knott, é um porta-voz dos engravatados em Canberra. Nenhum dos dois jamais viu uma zona de guerra e seus extremos de degradação e sofrimento humano.

“Como se chegou a isto?” diria Martha Gellhorn se estivesse aqui. “Onde diabos estão as vozes a dizerem não? Onde está a camaradagem?”

As vozes são ouvidas no samizdat deste sítio web e de outros. Na literatura, nomes como John Steinbeck, Carson McCullers, George Orwell estão obsoletos. O pós-modernismo agora está no comando. O liberalismo subiu sua escada política. Outrora uma sonolenta social-democracia, a Austrália, promulgou uma teia de novas leis protegendo o poder secreto e autoritário e impedindo o direito de saber. Denunciantes são foras da lei, a serem julgados em segredo. Uma lei especialmente sinistra proíbe a “interferência estrangeira” daqueles que trabalham para empresas estrangeiras. O que significa isto? A democracia agora é fictícia agora; existe a elite todo-poderosa das corporações fundida com o estado e as exigências de “identidade”. Os almirantes americanos recebem milhares de dólares por dia do contribuinte australiano para “aconselhamento”. Em todo o Ocidente, nossa imaginação política foi pacificada por relações públicas e distraída pelas intrigas de políticos corruptos e ordinários: um Johnson ou um Trump ou um Sonolento Joe ou um Zelensky.

Em 2023 nenhum congresso de escritores se preocupa com o “capitalismo em ruínas” e as provocações letais de “nossos” líderes. O mais infame deles, Blair, um criminoso prima facie sob o Padrão de Nuremberg, é livre e rico. Julian Assange, que desafiou os jornalistas a provarem o que seus leitores tinham o direito de saber, está na sua segunda década de encarceramento.

A ascensão do fascismo na Europa é incontroversa. Ou “neonazismo” ou “nacionalismo extremo”, como preferir. A Ucrânia, como colmeia fascista da Europa moderna, viu o ressurgimento do culto a Stepan Bandera , o apaixonado anti-semita e assassino em massa que elogiou a “política judaica” de Hitler, que massacrou 1,5 milhão de judeus ucranianos. “Colocaremos suas cabeças aos pés de Hitler”, proclamava um panfleto banderista aos judeus ucranianos.

Hoje, Bandera é venerado como herói na Ucrânia ocidental e dezenas de estátuas dele e de seus companheiros fascistas foram pagas pela UE e pelos EUA, substituindo as de gigantes culturais russos e outros que libertaram a Ucrânia dos nazistas originais.

Em 2014, neonazis desempenharam um papel fundamental num golpe financiado pelos americanos contra o presidente eleito, Viktor Yanukovych, acusado de ser “pró-Moscovo”. O regime golpista incluía proeminentes “nacionalistas extremistas” – nazis em tudo, exceto no nome.

A princípio, isso era amplamente noticiado pela BBC e pelos media europeus e americanos. Em 2019, a revista Time apresentou as ” milícias supremacistas brancas ” ativas na Ucrânia. A NBC News informava que, “o problema nazi da Ucrânia é real”. A imolação de sindicalistas em Odessa foi filmada e documentada.

Liderados pelo regimento Azov, cuja insígnia, o “Wolfsangel”, tornou-se infame pelas SS alemãs, os militares da Ucrânia invadiram a região oriental do Donbass, onde se fala russo. De acordo com as Nações Unidas, 14.000 foram mortos no leste. Sete anos depois, com as conferências de paz de Minsk sabotadas pelo Ocidente, como confessou  Angela Merkel, o Exército Vermelho invadiu.

Esta versão dos eventos não foi relatada no Ocidente. Dizer isto é suficiente para ser denunciado como um “apologista de Putin”, independentemente de o escritor (como eu) ter condenado a invasão russa. Compreender a extrema provocação que uma fronteira armada pela NATO, a Ucrânia, a mesma fronteira pela qual Hitler invadiu, apresenta a Moscovo, é um anátema.

Jornalistas que viajaram para o Donbass foram silenciados ou até perseguidos no seu próprio país. O jornalista alemão Patrik Baab perdeu o emprego e uma jovem repórter freelance alemã, Alina Lipp, teve sua conta bancária bloqueada. 

Na Grã-Bretanha, o silêncio da intelectualidade liberal é o silêncio da intimidação. Questões patrocinadas pelo Estado, como Ucrânia e Israel, devem ser evitadas se você quiser manter um emprego no campus ou um cargo de professor. O que aconteceu com Jeremy Corbyn em 2019 é repetido nos campi onde os oponentes do apartheid de Israel são displicentemente tachados de antissemitas.

O professor David Miller, ironicamente a principal autoridade do país em propaganda moderna, foi demitido pela Universidade de Bristol por sugerir publicamente que os “ativos” de Israel na Grã-Bretanha e seu lobby político exerceram uma influência desproporcional em todo o mundo – um facto para o qual a evidência é volumosa.

A universidade contratou um QC importante para investigar o caso de forma independente. Seu relatório exonerou Miller sobre a “importante questão da liberdade de expressão académica” e concluiu que “os comentários do professor Miller não constituíam discurso ilegal”. No entanto, a Universidade de Bristol o demitiu. A mensagem é clara: não importa o ultraje perpetrado, Israel tem imunidade e seus críticos devem ser punidos.

Alguns anos atrás, Terry Eagleton, então professor de literatura inglesa na Universidade de Manchester, afirmou que “pela primeira vez em dois séculos, não há nenhum poeta, dramaturgo ou romancista britânico eminente preparado para questionar os fundamentos do modo de vida ocidental”.

Nenhum Shelley falou pelos pobres, nenhum Blake por sonhos utópicos, nenhum Byron condenou a corrupção da classe dominante, nenhum Thomas Carlyle e John Ruskin revelaram o desastre moral do capitalismo. William Morris, Oscar Wilde, HG Wells, George Bernard Shaw não tinham equivalentes hoje. Harold Pinter estava vivo na época, “o último a levantar a voz”, escreveu Eagleton.

De onde veio o pós-modernismo – a rejeição da política real e a dissidência autêntica? A publicação em 1970 do best-seller de Charles Reich, The Greening of America , oferece uma pista. A América estava então em estado de convulsão; Nixon estava na Casa Branca, uma resistência civil, conhecida como “o movimento”, irrompeu das margens da sociedade em meio a uma guerra que atingiu quase todos. Em aliança com o movimento dos direitos civis, apresentou o mais sério desafio ao poder de Washington em um século.

Na capa do livro de Reich estavam estas palavras: “Há uma revolução chegando. Não será como as revoluções do passado. Terá origem no indivíduo”. 

Na época, eu era correspondente nos Estados Unidos e lembro-me da elevação, do dia para a noite, de Reich, um jovem académico de Yale, ao status de guru. O New Yorker havia serializado sensacionalmente seu livro, cuja mensagem era que a “ação política e a verdade” da década de 1960 haviam falhado e apenas “cultura e introspecção” mudariam o mundo. Parecia que a ideologia hippie estava reivindicando as classes consumidoras. E em certo sentido estava.

Dentro de alguns anos, o culto do “eu-ismo” havia quase subjugado o senso de ação conjunta de muitas pessoas, de justiça social e internacionalismo. Classe, género e raça foram separados. O pessoal era o político e os media eram a mensagem. Ganhe dinheiro, dizia.

Quanto ao “movimento”, suas esperanças e canções, os anos de Ronald Reagan e Bill Clinton acabaram com tudo isso. A polícia estava agora em guerra aberta com os negros; Os notórios projetos de bem-estar de Clinton quebraram recordes mundiais no número de negros enviados para a prisão.

Quando aconteceu o 11 de setembro, a fabricação de novas “ameaças” na “fronteira da América” (como o Projeto para um Novo Século Americano chamou o mundo) completou a desorientação política daqueles que, 20 anos antes, teriam formado uma oposição veemente. 

Nos anos seguintes, a América entrou em guerra com o mundo.

De acordo com um relatório amplamente ignorado pelos Médicos pela Responsabilidade Social, Médicos pela Sobrevivência Global e pelos Médicos Internacionais vencedores do Prémio Nobel pela Prevenção da Guerra Nuclear, o número de mortos na “guerra contra o terror” dos Estados Unidos foi de “pelo menos” 1,3 milhão no Afeganistão, Iraque e Paquistão.

Este número não inclui os mortos das guerras lideradas e alimentadas pelos EUA no Iémen, Líbia, Síria, Somália e além. O número real, disse o relatório, “pode muito bem ser superior a 2 milhões [ou] aproximadamente 10 vezes maior do que o público, especialistas e decisores têm conhecimento e [é] propagado pelos media e pelas principais ONGs”. 

“Pelo menos” um milhão foram mortos no Iraque, dizem os médicos, ou cinco por cento da população. 

A enormidade dessa violência e sofrimento parece não ter lugar na consciência ocidental. “Ninguém sabe quantos” é o refrão dos media. Blair e George W. Bush – e Straw e Cheney e Powell e Rumsfeld e outros  – nunca correram o risco de serem processados. O maestro da propaganda de Blair, Alistair Campbell, é celebrado como uma “personalidade dos media”.

Em 2003, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, o aclamado jornalista investigador. Discutimos a invasão do Iraque alguns meses antes. Perguntei-lhe: “E se os media constitucionalmente mais livres do mundo tivessem desafiado seriamente George W. Bush e Donald Rumsfeld e investigado suas alegações, ao invés de espalhar o que acabou sendo propaganda grosseira?”

Ele respondeu. “Se nós, jornalistas, tivéssemos feito nosso trabalho, haveria uma possibilidade muito boa de não termos ido à guerra no Iraque.”

Fiz a mesma pergunta a Dan Rather, o famoso âncora da CBS, que me deu a mesma resposta. David Rose, do Observer, que havia promovido a “ameaça” de Saddam Hussein , e Rageh Omaar, então correspondente da BBC no Iraque, me deram a mesma resposta. A admirável contrição de Rose por ter sido “enganada” falou por muitos repórteres desprovidos de coragem para dizê-lo.

Vale a pena repetir o ponto deles. Se os jornalistas tivessem feito seu trabalho, tivessem questionado e investigado a propaganda em vez de ampliá-la, um milhão de homens, mulheres e crianças iraquianos poderiam estar vivos hoje; milhões poderiam não ter fugido das suas casas; a guerra sectária entre sunitas e xiitas poderia não ter começado e o Estado Islâmico poderia não ter existido. 

Essa verdade das guerras predatórias iniciadas desde 1945 pelos Estados Unidos e seus “aliados” e leva a uma conclusão de tirar o fôlego. Isso já foi levantado nas escolas de jornalismo? 

Hoje, a guerra dos media é uma tarefa fundamental do chamado jornalismo tradicional, reminiscente daquele descrito por um promotor de Nuremberg em 1945: “Antes de cada grande agressão, com algumas poucas exceções baseadas na conveniência, eles iniciaram uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer seu vítimas e para preparar psicologicamente o povo alemão… No sistema de propaganda… era a imprensa diária e o rádio que eram as armas mais importantes.”

Uma das vertentes persistentes na vida política americana é o extremismo fanático que se aproxima do fascismo. Embora Trump tenha sido creditado com isso, foi durante os dois mandatos de Obama que a política externa americana cortejou seriamente o fascismo. Isso quase nunca foi relatado.

“Acredito no excepcionalismo americano com cada fibra do meu ser”, disse Obama, que expandiu um passatempo presidencial favorito, bombardeios e esquadrões da morte conhecidos como “operações especiais” como nenhum outro presidente havia feito desde a primeira Guerra Fria.

De acordo com uma pesquisa do Conselho de Relações Exteriores, em 2016 Obama lançou 26.171 bombas. São 72 bombas a cada dia. Ele bombardeou as pessoas mais pobres e negras: no Afeganistão, Líbia, Iemen, Somália, Síria, Iraque, Paquistão.

Todas as terças-feiras – informou o New York Times – ele selecionava pessoalmente aqueles que seriam assassinados por mísseis Hellfire disparados de drones. Casamentos, funerais, pastores foram atacados, junto com aqueles que tentavam coletar as partes que enfeitavam o “alvo terrorista”.

Um importante senador republicano, Lindsey Graham , estimou, com aprovação, que os drones de Obama mataram 4.700 pessoas. “Às vezes você bate em pessoas inocentes e odeio isso”, disse ele, mas eliminamos alguns membros muito importantes da Al Qaeda.

Em 2011, Obama disse aos media que o presidente líbio Muammar Gaddafi planeva um “genocídio” contra seu próprio povo.

“Sabíamos…”, disse ele, “que se esperássemos mais um dia, Benghazi, uma cidade do tamanho de Charlotte [Carolina do Norte], poderia sofrer um massacre que teria repercutido por toda a região e manchado a consciência do mundo. “

Isso era uma mentira. A única “ameaça” era a iminente derrota dos fanáticos islâmicos pelas forças do governo líbio. Com seus planos de reviver o pan-africanismo independente, um banco africano e uma moeda africana, tudo financiado pelo petróleo líbio, Gaddafi foi lançado como inimigo do colonialismo ocidental no continente no qual a Líbia era o segundo estado mais moderno.

Destruir a “ameaça” de Gaddafi e seu estado moderno era o objetivo.  Apoiada pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, a NATO lançou 9.700 ataques contra a Líbia. Um terço visava infraestrutura e alvos civis, informou a ONU. Ogivas de urânio foram utilizadas; as cidades de Misurata e Sirte foram bombardeadas. A Cruz Vermelha identificou valas comuns e a Unicef ​​relatou que “a maioria [das crianças mortas] tinha menos de dez anos”.

Quando Hillary Clinton, secretária de Estado de Obama, soube que Gaddafi havia sido capturado pelos rebeldes e sodomizado com uma faca, ela riu e disse para a câmara: “Viemos, vimos, ele morreu!”

No dia 14 de setembro de 2016, o Comité de Relações Exteriores da Câmara dos Comuns em Londres informou a conclusão de um estudo de um ano sobre o ataque da NATO à Líbia, que descreveu como uma “série de mentiras” – incluindo a história do massacre de Benghazi.

O bombardeamento da NATO mergulhou a Líbia num desastre humanitário, matando milhares de pessoas e deslocando centenas de milhares mais, transformando a Líbia do país africano com o mais alto padrão de vida num estado falido devastado pela guerra.

Sob Obama, os EUA estenderam as operações secretas das “forças especiais” a 138 países, ou 70% da população mundial. O primeiro presidente afro-americano lançou o que equivalia a uma invasão em grande escala da África. 

Lembrando a disputa pela África no século XIX, o Comando Africano dos EUA (Africom) desde então construiu uma rede de pedintes entre regimes africanos colaborativos ávidos por subornos e armamentos americanos. A doutrina de “soldado para soldado” do Africom incorpora oficiais dos EUA em todos os níveis de comando, do general ao subtenente. Só capacetes de miolo estão faltando.

É como se a orgulhosa história de libertação da África, de Patrice Lumumba a Nelson Mandela, tivesse sido relegada ao esquecimento pela elite colonial negra de um novo senhor branco. A “missão histórica” dessa elite, alertou o sábio Frantz Fanon, é a promoção de “um capitalismo desenfreado, embora camuflado”.

No ano em que a NATO invadiu a Líbia, 2011, Obama anunciou o que ficou conhecido como o “pivô para a Ásia”. Quase dois terços das forças navais dos EUA seriam transferidos para a Ásia-Pacífico para “enfrentar a ameaça da China”, nas palavras de seu secretário de Defesa. 

Não havia ameaça da China; houve uma ameaça à China dos Estados Unidos; cerca de 400 bases militares americanas formaram um arco ao longo da orla do centro industrial da China, que um funcionário do Pentágono descreveu aprovadoramente como um “laço”.

Ao mesmo tempo, Obama colocou mísseis na Europa Oriental voltados para a Rússia. Foi o beatificado ganhador do Prémio Nobel da Paz que elevou os gastos com ogivas nucleares a um nível superior ao de qualquer governo dos EUA desde a Guerra Fria – tendo prometido, num discurso emocionado no centro de Praga em 2009, “ajudar o mundo a livrar-se das armas nucleares”.

Obama e o seu governo sabiam muito bem que o golpe que sua secretária de Estado assistente, Patricia Nuland, enviada em 2014 para supervisionar o governo da Ucrânia, provocaria uma resposta russa e provavelmente levaria à guerra. E assim foi. 

Escrevo em 30 de abril, aniversário do último dia da mais longa guerra do século XX, no Vietname, que denunciei. Eu era muito jovem quando cheguei a Saigon e aprendi muito. Aprendi a reconhecer o zumbido característico dos motores dos gigantescos B-52, que lançavam a sua carnificina acima das nuvens e não poupavam nada nem ninguém; Aprendi a não me virar quando me deparo com uma árvore carbonizada enfeitada com partes humanas; Aprendi a valorizar a gentileza como nunca antes; Aprendi que Joseph Heller estava certo em seu magistral Catch-22  aquela guerra não era adequada para pessoas sãs; e fiquei sabendo da “nossa” propaganda.

Durante toda aquela guerra, a propaganda dizia que um Vietname vitorioso espalharia sua doença comunista para o resto da Ásia, permitindo que o Grande Perigo Amarelo ao norte se espalhasse. Os países cairiam como “dominós”.

O Vietname de Ho Chi Minh foi vitorioso e nada disso aconteceu. Em vez disso, a civilização vietnamita floresceu, notavelmente, apesar do preço que pagaram: três milhões de mortos. Os mutilados, os deformados, os viciados, os envenenados, os perdidos.

Se os atuais propagandistas conseguirem sua guerra com a China, isso será uma fração do que está para vir. Fale alto.

[*] Jornalista, realizador documentarista, www.johnpilger.com

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/john-pilger-coming-war-speak-up-now/5817726


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