Entre a irrelevância e a palhaçada

(António José Teixeira, in Expresso Diário, 14/01/2016)

António José Teixeira

1. A campanha presidencial arrasta-se sem novidade. Demasiadas vezes não vai além do fait divers quotidiano. Uma ida de Marcelo Rebelo de Sousa à farmácia, com um batalhão de jornalistas atrás, para comprar toalhetes de álcool, é um dos pontos altos desta paródia. É assim em muitas campanhas. É assim para televisão mostrar. É assim porque se querem esconder arestas. É assim porque se quer matar a política. A campanha tornou-se uma espécie de Big Brother em que dez vaidosos (uns mais do que outros) cumprem diariamente um enredo que suscite um sorriso, mesmo que amarelo.

A campanha tornou-se uma espécie de Big Brother em que dez vaidosos (uns mais do que outros) cumprem diariamente um enredo que suscite um sorriso, mesmo que amarelo

Goste-se, ou não, uns mais pobres do que outros, os debates e entrevistas (nunca foram tantos e tantas) constituíram a única montra aceitável para os 10 candidatos dizerem ao que vêm. De resto, esta campanha ficará para a história como uma das mais confrangedoras e apalhaçadas de sempre. Marcelo deu um grande contributo para que assim seja. Apostou numa corrida de popularidade e em cativar o eleitorado de esquerda. Tornou-se, imaginem, o maior aliado do Governo de António Costa. Distribui simpatia “à esquerda da direita”, metida no bolso que julga estar a sua direita. Não se sabe, e essa é a grande incógnita, se a direita quererá ficar no bolso de Marcelo, se não se sente desprezada, ela que se viu apeada pelos que agora Marcelo tenta seduzir. Com tanto cheque em branco ao Governo, com tanta palhaçada diária, muitos poderão ficar em casa. Se Marcelo não quis saber deles porque é que eles quererão apoiar Marcelo?

A possibilidade de uma segunda volta depende da tolerância da direita e do empenho do eleitorado de esquerda. Apesar das sondagens, talvez a notícia prematura da vitória de Marcelo à primeira volta tenha sido exagerada. Marcelo precisa de fazer mais por isso. Se ficar pela poncha e pelas artes marciais enquanto se afirma árbitro com enfado porá em causa a corrida de popularidade.

Os debates com Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém correram-lhe mal. Foi sobranceiro e irritadiço. Deu alento a um e a outro, sobretudo a Nóvoa, que ainda o pode surpreender. Consigam os candidatos do PCP e do BE fixar eleitorado e Marcelo ainda pode ter uma grande surpresa.

Já agora, quando é que as administrações dos hospitais e dos centros de saúde acabam com as visitas eleitorais? Há muitos anos, vemos doentes expostos à propaganda e às câmaras de televisão. Não faz nenhum sentido. É um desrespeito absoluto pelos que se encontram diminuídos nas suas capacidades. Os doentes não deveriam ser cenário eleitoral.

2. “A Queda de Wall Street” é um filme de Adam Mckay, que regressa à crise financeira de 2008. Depois de “Inside Job”, voltamos à história de uma derrocada gigantesca a que quase todos fecharam os olhos. Estupidez, ganância e fraude minaram o capitalismo financeiro, como nunca tinha acontecido. Nem por isso se curou. Mesmo depois de terem sido os contribuintes chamados a pagar a fatura. Por cá, não faltam exemplos de desvario e impunidade. Um filme que ajuda a abrir os olhos.

Campanha eleitoral, o Matrix da política

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 01/10/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

Há um guião que está escrito para todas as campanhas eleitorais. Começam geralmente em torno de um tema. Um qualquer. O que for embaraçoso para o outro lado. Ou que pegue bem na comunicação social. Idealmente, mas não tem de ser, que tenha algum interesse para eleitores indecisos. A sua relevância para o país é meramente acidental. Este ano, valha a verdade, tivemos sorte: a sustentabilidade da segurança social e as brincadeiras que PSD (plafonamento) e PS (mexidas na TSU) querem fazer com o dinheiro das nossas contribuições são temas relevantes.

O tema rapidamente se desconcentra do essencial porque uma regra que preside a todas as outras em campanha eleitoral é esta: não discutir política. Não discutir divergências ideológicas, diferentes mundividências, horizontes, modelos de sociedade. No debate do bloco central, que é o debate que determina a forma de pensar dos jornalistas e por isso o que determina tudo o que se pode discutir numa campanha, tudo acaba por se resumir a técnica. E a partir daí passamos sempre para o episódio “é fazer as contas” de António Guterres. Como se fosse importante, para governar um país, saber de cor o PIB. Desta vez foi com números da proposta do PS para a segurança social e das confusões de Passos sobre um reembolso de obrigações e não ao FMI. A ideia não é o conteúdo do engano, é enxovalhar o adversário. Garantir que ninguém percebe as verdadeiras divergências que estão em causa. Porque se dirigem ao “centro”, onde habitam pessoas que não gostam de divergências. Pessoas que acham que as coisas são como são e serão sempre assim até que fiquem diferentes e elas voltem a achar que são assim mesmo e não podiam ser de forma diferente.

Nessa primeira semana, às vezes, antes, há um candidato surpresa fora da luta entre os dois. Que por ter surpreendido em algum momento passa a ter o papel de surpreender sempre. Todos repetem que surpreendeu e a coisa mais banal passa a ser surpreendente. É uma personagem essencial, porque quebra a rotina. Como para tudo o resto, o conteúdo do que diga e da surpresa não é relevante. As campanhas não tratam disso. Tratam da performance.

Passada essa primeira fase esperam-se as sondagens de meio da campanha. Geralmente costumavam vir ao fim de semana. Agora vêm todos os dias. Uma agitação eleitoral que dá ao país a estranha ideia de que, todos os dias, centenas de milhares de pessoas estão coladas ao televisor e mudam de opinião. Ainda havemos de ter sondagens hora a hora. Esta foi uma alteração ao guião habitual. Deu mais ritmo a uma trama sem história. E acabou por soterrar a campanha.

Seja como for, é mais ou menos no fim de semana a meio da campanha que PS e PSD (às vezes com o CDS atrelado) começam a pedir maioria absoluta. Neste momento acontecem geralmente enchentes devidamente preparadas para que os jornalistas digam, como disseram na eleição anterior, e na anterior, e na anterior, que a campanha deu a volta. Tudo excitadíssimo enquanto a esmagadora maioria dos eleitores continua no mesmíssimo lugar onde estava.

Mas não se julgue que isto é totalmente virtual. Sentados no sofá os eleitores acreditam que, apesar de estarem parados, as coisas estão mesmo a mover-se. Não sabem como se enche uma sala com muitas mesas, como se juntam muitas pessoas à volta de um candidato, como se afugentam os protestos ou se organizam os protestos. Sabem os jornalistas. Que sabendo deviam fugir da encenação. Mas disso falo noutro dia. Agora estou a falar do guião, não do exibidor.

Na última semana de campanha entramos na dramatização final. O partido que perdeu o jogo de fim de semana começa a acusar nervoso. Os jornalistas, que cheiram ao longe um cadáver e temem de perto o poder, caem em cima dele como abutres. E confirmam o guião mostrando as imagens que o ilustrem. Os comentadores decretam a derrota. Por mais que se esforce na representação, o que no guião aparece como derrotado tem de continuar a aparecer como derrotado. O vencedor tem imagens apoteóticas. Os mais pequenos desaparecem do filme e os intermédios cumprem um papel de apanha bolas: ficar com os descontentes. O PS pede o voto útil. Sempre sem nunca falhar.

Depois acaba o circo. Há o dia de reflexão. E as eleições. Umas vezes confirma-se a história que se contou na campanha. Outras vezes desmente-se e os jornalistas contam uma nova história como se anterior nada tivesse a ver com o que andaram a fazer durante 15 dias. É nesse dia, depois das eleições, que se volta a falar de política.

A campanha, onde o debate é totalmente impossível, nada tem a ver com política. É, cada vez mais, entretenimento televisivo. E um espetáculo que tem como principal função fazer com que as pessoas se esqueçam do passado e não pensem no futuro. Diz que decide muito do voto. Talvez decida. Mas é uma espécie de Matrix, uma realidade virtual para nos facilitar a decisão de não fazer escolhas difíceis. Os candidatos sabem disso, representam o papel que lhes cai no guião, tentando fugir da personagem que perde. A política regressa depois. Para mim, que me interesso por política, isto é um intervalo. Nunca influenciou, o mais remotamente que fosse, o meu voto.

Há mais mentira para além do déficit

(Estátua de Sal, 29/09/2015)

PAF_AST

Este governo chegou ao poder com base nas falsas promessas, que sabia falsas, e com base na crítica aos supostos desvarios do governo anterior na gestão das contas públicas, pretendendo vender uma imagem de probidade e rigor na gestão do Estado.

Pois bem, hoje veio a saber-se que afinal, manipula as contas públicas de forma a que o deficit tenha melhor aspeto, de forma a enganar os portugueses, e a própria Comissão Europeia, podendo assim vangloriar-se de louros que não tem e de méritos que as políticas de desastre que seguiu manifestamente não possuem. Afinal, contrariamente ao que Passos badala por aí, nesse aspeto, Portugal é como a Grécia.

Parece que não é só Ricardo Salgado que falsifica contabilidades, e a Volkswagen que falseia testes aos motores. Passos e Maria Luís, também falseiam dados das empresas públicas para embelezarem os efeitos das suas políticas de devastação.

Vem isto a propósito de se ter hoje sabido que existiram indicações da Ministra das Finanças à Parvalorem – empresa que gere o ativos tóxicos do defunto BPN -, para que não transparecessem nas suas contas, em 2012, o real nível de tal toxicidade, continuando a contabilizar como ativos saudáveis, créditos sobre terceiros que nunca irá ter possibilidade de receber. Ou seja, desviando do deficit e ocultando do país a real dimensão dos prejuízos que o BPN trouxe aos contribuintes.

Mas, o mais cínico e caricato, é Passos Coelho e comandita, continuarem a usar o caso da intervenção do Estado no BPN como arma de arremesso contra o governo de Sócrates, quando é mais que sabido que o BPN era o “Banco do PSD” e para o PSD, tendo beneficiado as luminárias do PSD da maior parte dos créditos agora dados como incobráveis e por isso tóxicos. Antigos ministros e secretários de estado do PSD enxameavam as cúpulas e a lista dos beneficiários do BPN: Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Arlindo de Carvalho, e Duarte Lima – só para citar os mais mediáticos. E tal disseminação laranja ocorreu sempre com a cobertura dessa eminência parda que é Cavaco Silva, a quem o BPN também “deu esmola” em negócios de ações nunca cabalmente explicados. Se Sócrates é criticado por ter um amigo que lhe emprestava dinheiro, o que não dizer de Cavaco cuja amizade com Oliveira e Costa lhe rendeu milhares de euros, não emprestados, mas dados limpinhos e sem osso?

Também se soube hoje que a taxa de desemprego subiu em Agosto, relativamente ao mês de Julho. Ora, sendo Agosto um mês em que se criam empregos de caráter sazonal, mormente no setor do turismo, mais uma vez a narrativa do país pintado a cor de rosa que a coligação quer vender, começa a abrir brechas.

Esta coligação da direita é perita na mentira e na manipulação. Ele são os números do desemprego, artificialmente reduzidos com falsos estágios e cursos de formação. Ele são os números da dívida, ele são os números do deficit, ele são os números das sondagens que compram e distribuem por aí para manipular os eleitores, ele é tudo o mais que ainda hoje não sabemos e que é escondido com todo o zelo e afinco por baixo do tapete.

Compreende-se agora, a convicção de Passos e Maria Luís, quando continuam a dizer, contra todas as previsões das organizações estatísticas nacionais e internacionais que Portugal irá atingir em 2015 o deficit de 2,7%. Já devem ter pago a uma qualquer multinacional de consultoria o dossier que lhes vai permitir ocultar dívida pública, de forma a atingir o objetivo.

Perante este cenário, eu continuo só a ter uma esperança. É que os portugueses, em 4 de Outubro, para lá dos programas políticos, para lá dos casos de campanha, para lá da intoxicação que toda a comunicação social amestrada que temos vai disseminando com insídia, para lá das clivagens direita/esquerda, votem na seriedade.

E um cidadão que vote na seriedade, e com seriedade, jamais poderá votar PAF. Porque, seriedade, e palavra honrada é tudo aquilo que a coligação de direita não tem.

Estátua de Sal, 29/09/2015