Campanha eleitoral, o Matrix da política

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 01/10/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

Há um guião que está escrito para todas as campanhas eleitorais. Começam geralmente em torno de um tema. Um qualquer. O que for embaraçoso para o outro lado. Ou que pegue bem na comunicação social. Idealmente, mas não tem de ser, que tenha algum interesse para eleitores indecisos. A sua relevância para o país é meramente acidental. Este ano, valha a verdade, tivemos sorte: a sustentabilidade da segurança social e as brincadeiras que PSD (plafonamento) e PS (mexidas na TSU) querem fazer com o dinheiro das nossas contribuições são temas relevantes.

O tema rapidamente se desconcentra do essencial porque uma regra que preside a todas as outras em campanha eleitoral é esta: não discutir política. Não discutir divergências ideológicas, diferentes mundividências, horizontes, modelos de sociedade. No debate do bloco central, que é o debate que determina a forma de pensar dos jornalistas e por isso o que determina tudo o que se pode discutir numa campanha, tudo acaba por se resumir a técnica. E a partir daí passamos sempre para o episódio “é fazer as contas” de António Guterres. Como se fosse importante, para governar um país, saber de cor o PIB. Desta vez foi com números da proposta do PS para a segurança social e das confusões de Passos sobre um reembolso de obrigações e não ao FMI. A ideia não é o conteúdo do engano, é enxovalhar o adversário. Garantir que ninguém percebe as verdadeiras divergências que estão em causa. Porque se dirigem ao “centro”, onde habitam pessoas que não gostam de divergências. Pessoas que acham que as coisas são como são e serão sempre assim até que fiquem diferentes e elas voltem a achar que são assim mesmo e não podiam ser de forma diferente.

Nessa primeira semana, às vezes, antes, há um candidato surpresa fora da luta entre os dois. Que por ter surpreendido em algum momento passa a ter o papel de surpreender sempre. Todos repetem que surpreendeu e a coisa mais banal passa a ser surpreendente. É uma personagem essencial, porque quebra a rotina. Como para tudo o resto, o conteúdo do que diga e da surpresa não é relevante. As campanhas não tratam disso. Tratam da performance.

Passada essa primeira fase esperam-se as sondagens de meio da campanha. Geralmente costumavam vir ao fim de semana. Agora vêm todos os dias. Uma agitação eleitoral que dá ao país a estranha ideia de que, todos os dias, centenas de milhares de pessoas estão coladas ao televisor e mudam de opinião. Ainda havemos de ter sondagens hora a hora. Esta foi uma alteração ao guião habitual. Deu mais ritmo a uma trama sem história. E acabou por soterrar a campanha.

Seja como for, é mais ou menos no fim de semana a meio da campanha que PS e PSD (às vezes com o CDS atrelado) começam a pedir maioria absoluta. Neste momento acontecem geralmente enchentes devidamente preparadas para que os jornalistas digam, como disseram na eleição anterior, e na anterior, e na anterior, que a campanha deu a volta. Tudo excitadíssimo enquanto a esmagadora maioria dos eleitores continua no mesmíssimo lugar onde estava.

Mas não se julgue que isto é totalmente virtual. Sentados no sofá os eleitores acreditam que, apesar de estarem parados, as coisas estão mesmo a mover-se. Não sabem como se enche uma sala com muitas mesas, como se juntam muitas pessoas à volta de um candidato, como se afugentam os protestos ou se organizam os protestos. Sabem os jornalistas. Que sabendo deviam fugir da encenação. Mas disso falo noutro dia. Agora estou a falar do guião, não do exibidor.

Na última semana de campanha entramos na dramatização final. O partido que perdeu o jogo de fim de semana começa a acusar nervoso. Os jornalistas, que cheiram ao longe um cadáver e temem de perto o poder, caem em cima dele como abutres. E confirmam o guião mostrando as imagens que o ilustrem. Os comentadores decretam a derrota. Por mais que se esforce na representação, o que no guião aparece como derrotado tem de continuar a aparecer como derrotado. O vencedor tem imagens apoteóticas. Os mais pequenos desaparecem do filme e os intermédios cumprem um papel de apanha bolas: ficar com os descontentes. O PS pede o voto útil. Sempre sem nunca falhar.

Depois acaba o circo. Há o dia de reflexão. E as eleições. Umas vezes confirma-se a história que se contou na campanha. Outras vezes desmente-se e os jornalistas contam uma nova história como se anterior nada tivesse a ver com o que andaram a fazer durante 15 dias. É nesse dia, depois das eleições, que se volta a falar de política.

A campanha, onde o debate é totalmente impossível, nada tem a ver com política. É, cada vez mais, entretenimento televisivo. E um espetáculo que tem como principal função fazer com que as pessoas se esqueçam do passado e não pensem no futuro. Diz que decide muito do voto. Talvez decida. Mas é uma espécie de Matrix, uma realidade virtual para nos facilitar a decisão de não fazer escolhas difíceis. Os candidatos sabem disso, representam o papel que lhes cai no guião, tentando fugir da personagem que perde. A política regressa depois. Para mim, que me interesso por política, isto é um intervalo. Nunca influenciou, o mais remotamente que fosse, o meu voto.

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