É mau, mas quem é que quer saber?

(José Pacheco Pereira, in Público, 26/09/2015)

Pacheco Pereira

           Pacheco Pereira

Portas, que desonra o honesto capacete de aço dos trabalhadores dos estaleiros, fez, antes de sair de Viana, uma prece a Santa Luzia para que ilumine os eleitores para que votem no PaF.


Eu acho que a comunicação social devia mostrar muito mais Portas e Passos e a coligação colocá-los no centro de todos os cartazes. Mais Portas até do que Passos. Mas parece que não o vai fazer, com medo que as caras assustem os eleitores e lhes lembrem que é o PSD e o CDS que estão por detrás da coligação.

Os símbolos dos partidos também estão envergonhadamente escondidos, como se o PaF fosse uma coisa nova e lustral. Mas, quem é que quer saber?

Na rua, é o engano habitual, de pessoas que não podem aparecer em público sob pena de serem insultadas. Admito que outros partidos façam o mesmo, para disfarçar fraquezas, embora a CDU seja o único que não o faz de todo. Tem gente suficiente para enquadrar os candidatos e não é recebida com hostilidade em lado nenhum. O logro, aliás mais uma mentira numa política de mentiras tão habitual como o ar que se respira, é tão evidente que não percebo que os órgãos de comunicação social, em particular a televisão, aceitem enganar objectivamente os seus espectadores apresentando-lhes “passeios de rua eleitorais” completamente artificiais, em que Passos e Portas aparecem rodeados por guarda-costas e “jotas” (que no PSD são habitualmente pagos para acompanharem as caravanas). Aliás, a campanha do PaF nada em dinheiro e muito tempo depois iremos saber que os custos de campanha, foram “por acaso” ultrapassados para o dobro. Mas, quem é que quer saber?

Porém, dos actos eleitorais da coligação aquele que mais suscita do meu ponto de vista uma reacção mais dura foi a visita de Paulo Portas aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo. Como está tudo adormecido e ninguém reage a nada, aceitou-se este acto como mais um acto normal de campanha, quando ele na realidade devia infundir muita e muita preocupação e indignação. Mas quem é que quer saber?

Preocupação, porque revela uma arrogância desenvolta de quem acha que pode tudo e pode fazer tudo. Mesmo humilhar os outros, que é a essência do que aconteceu nos Estaleiros, onde muitos trabalhadores foram usados para servir de paisagem ao “sucesso” do governo, sem poderem, sob pena de perderem o seu emprego, exprimir-se livremente. Portas visitou-os com os patrões ao lado e grande cópia de jornalistas e câmaras, com o habitual chapéu de função, desta vez um capacete, batendo com os pés no chão de metal, como se fosse um general dum exército de ocupação. Mas quem é que quer saber?

Portas repetiu os mesmos números que Passos Coelho referiu numa outra visita aos mesmos Estaleiros, quando falou do “erro do passado” que “acabou em bem”. Os patrões da Martifer, por seu lado, acham que o governo pode usar as instalações de que são concessionários para a propaganda política da coligação, sem um átomo de hesitação. Por muito que se possa criticar homens como Belmiro de Azevedo ou Alexandre Soares dos Santos, duvido que aceitassem patrocinar uma sessão de propaganda do governo nos seus supermercados.

E, no entanto, nada há de mais revelador, não só dos interesses que apoiam este governo, como das suas ideias sobre a sociedade e o papel dos trabalhadores, do que esta visita imperial num dos raros sítios onde ainda há trabalhadores. Na realidade não são os mesmos trabalhadores de antes, não tem os mesmos direitos e não ganhem os mesmos salários. Mas quem é que quer saber?

É natural que a empresa que ficou com a subconcessão dos Estaleiros, a West Sea da Martifer, não perca oportunidades em receber os governantes a quem muito deve. Seja Aguiar Branco, seja Passos Coelho, seja agora Paulo Portas. Em Maio deste ano, Passos Coelho visitou os Estaleiros e anunciou “que vai entregar à West Sea a construção de dois Navios Patrulha Oceânicos”, por ajuste directo, ou seja, sem concurso. A encomenda por ajuste directo no valor de 77 milhões, foi justificada pela “urgência”, depois da Marinha ter sido impedida de os contratar aos Estaleiros quando estes eram públicos. Mas quem é que quer saber?

Portas passa por cima destas minudências e atira os números do “sucesso” sem hesitar, como se espera de um propagandista, Passos pelo contrário, entaramelou-se. Quando da sua visita aos Estaleiros, seguiu-se uma complicada, como é costume, explicação sobre o que é que tinha acontecido aos trabalhadores dos Estaleiros: havia 520 a trabalhar, 200 contratados, 320 subcontratados. Dos contratados, aqueles pelos quais a Martifer tinha responsabilidades, apenas 160 tinham vindo dos antigos estaleiros (que tinham 609 trabalhadores à data da privatização). Claro que, muito naturalmente, porque a vida é difícil, houve trabalhadores que pediram a rescisão do contrato e o estado pagou as respectivas indemnizações, subsídios de desemprego e reformas. Em inícios de 2014, a empresa pública em vésperas de privatização, previa para “limpar” estes trabalhadores cerca de 30 milhões de euros. À data da concessão, a Martifer prometia contratar 400 dos 609, coisa que não fez. Agora promete dobrar o número de trabalhadores, dos 200 para os 400, “nos próximos tempos, tendo em conta que o Primeiro-Ministro acaba de anunciar que vai entregar à West Sea a construção de dois Navios Patrulha Oceânicos”. O Almirante Melo Gomes, que foi Chefe do Estado-maior da Armada, não deixou de comentar, com ironia, a “superioridade da gestão privada quando esta é financiada pelo erário público”. Mas quem é que quer saber?

Onde Portas se gaba de ter “salvo” os Estaleiros, na realidade ele quer dizer que os domou, como Pires de Lima falava das empresas de transporte quando há greves, para prometer que quando as privatizar ou concessionar, “acabam” as greves. O discurso sobre o “público” e o “privado” não é apenas sobre a eventual superioridade da gestão privada sobre a pública, é sobre como, em períodos de elevado desemprego, a privatização ajuda não só a baixar os salários como em por na ordem trabalhadores e sindicatos. Mas quem é que quer saber?

Claro que é melhor haver estaleiros a funcionar em Viana do Castelo, haver trabalhadores empregados, haver empresas a crescer com a ajuda do estado e mérito próprio, claro que tudo isso é melhor do que o seu contrário. Mas o seu contrário está longe de ser provado que iria acontecer ou poderia acontecer. Escolhas diferentes dariam resultados diferentes e, em muitos casos, bastante melhores.

Ficar desarmado porque as coisas aconteceram assim e daí inferir que não poderiam ser de outra maneira, é hoje uma maneira de pensar muito comum, mas mostra apenas interiorização e subjugação pelo poder. Depois quando correm mal, já é tarde. E há muitas destas coisas a correr mal, o melhor exemplo das quais é o Novo Banco, sobre o qual se tem seguido todo este tipo de raciocínio pela “realidade”. Mas quem é que quer saber?

O argumento é o de que foi assim, porque tinha que ser assim. Mas na verdade, não tinha que ser assim, foi assim porque se foi negligente (no Citius), se perdeu o controlo (no Novo Banco) e se fizeram asneiras (no “ir para além da troika”) ou, como no caso dos Estaleiros, porque se quis que fosse assim. Os prejuízos enormes a montante a jusante de muitas das decisões negligentes, impreparadas, imponderadas deste governo, para servir interesses e amigos, por ideologia, ou pior ainda, não podem ser justificadas pelas situações de facto que foram criadas. Algumas foram travadas pelo Tribunal Constitucional ou por outros Tribunais, outras porque o protesto teve força, outras porque estavam tão mal feitas que não passaram do papel. Mas, para mal de Portugal e dos portugueses passaram coisas demais. Mas quem é que quer saber?

Não há-de ser por mim, como aliás por muitos social-democratas que ainda sabem o que designa essa classificação política, que o PaF vai ganhar. Contrariamente à pequena intriga de muitos gnomos dedicados ao dedo twitteiro e facebookiano da coligação, uns amadores, outros profissionais, todos a mostrar serviço, que se saiba ninguém mudou de partido, ninguém faz parte das listas de deputados do PS e ninguém espera cargos e lugares caso o PS ganhe as eleições. Mas são sensíveis à vergonha interior que muitos trabalhadores dos Estaleiros de Viana devem ter tido, ao ver Portas a usá-los.

Portas, que desonra o honesto capacete de aço dos trabalhadores dos estaleiros, fez, antes de sair de Viana, uma prece a Santa Luzia para que ilumine os eleitores para que votem no PaF. Pobre Santa Luzia que nunca deve ter sido invocada para causa tão ruim!

VIDA DE POLÍTICO

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 26/09/2015)

Clara Ferreira Alves

                         Clara Ferreira Alves

O político a tempo inteiro não age, reage. Reage aos media, reage aos rumores, reage às notícias, reage às frases, reage às definições e, por grosso, reage à realidade

Não sei muito bem qual a vida de um político. Um político de um grande partido. Sei que não é fácil estar num palco 24 em 24 horas. Faz perder de vista a realidade. Um político vive rodeado de uma corte, que serve simultaneamente de barreira contra o mundo real e de filtro da realidade. Os cortesãos e conselheiros vão mediando a relação com os outros e com os factos e vão-lhe dizendo como se comportar perante este ou aquele acontecimento ou pessoa. O político a tempo inteiro não age, reage. Reage aos media, reage aos rumores, reage às notícias, reage às frases, reage às definições e, por grosso, reage à realidade. A reação é o resultado da ação, não a sua, a que os cortesãos lhe aconselharam. Além dos cortesãos existem os corpos políticos nacionais e internacionais que rodeiam o político. No caso do político no governo, os ministros e os secretários e subsecretários e a legião de burocratas que os acompanham mais os respetivos cortesãos e conselheiros. Toda esta massa, que podia ser massa crítica, silenciosa ou não, reage entre si como substâncias químicas. Dadas as relações de interdependência, tendem a reagir corporativamente. A lealdade ao partido sobrepõe-se a todas as lealdades, e a lealdade ao primeiro-ministro sobrepõe-se às veleidades de um pensamento próprio. O acesso aos cargos de topo é condicionado pelo exercício desta lealdade. Os irreverentes, rebeldes e independentes são mal tolerados na hierarquia e perdem acesso.

No caso do político na oposição, a vida não é muito diferente, com a diferença de que os gabinetes substituem os ministérios e a vida partidária sobrepõe-se, com a sua estratificação de lealdades, à vida governamental. O acesso é novamente condicionado, embora mais aberto do que no caso do governo. Apesar de o acesso ser mais livre, a querela intrapartidária obriga à formação de grupos de ação e reação que tendem a anular-se uns aos outros em segredo e aos quais os jornalistas gostam de chamar nomes terminados em istas. Costistas, seguristas, socratistas, soaristas, guterristas, etc. Os istas do contra vão-se diluindo com o tempo no poder.

A tarefa principal do político na oposição é reagir ao político no governo, que tem o privilégio e a desvantagem da ação política. O político do governo fez, o da oposição diz que vai fazer. Exige crença suplementar. A de que fará melhor do que o adversário. A articulação deste futuro indicativo, torpedeado pelos adversários e pelos comentadores, é hoje decidida pelos tecnocratas. Mais do que a crença, que está fora de uso, o que beneficia o político da oposição é a oposição popular. Aqui se encontra a única margem de manipulação política. Hoje ganham-se eleições porque outros as perdem. O que quer dizer que a ação e a reação devem ser voltadas para o discurso negativo e não para o positivo. Não é tanto o que vou fazer como aquilo que o outro não fez ou fez mal. Os articulados exigiriam subtilezas que, novamente, são abolidas ou filtradas pelas legiões de profissionais e políticos que rodeiam o político e pelos media ávidos de título e soundbite. No news is bad news para a informação. As legiões substituem a convicção pelo efeito. Não diga o que ele faz mal, diga o que as pessoas acham que ele faz mal mesmo que ache que faz bem.

O político do governo está manietado pela continuação da ação. Se mudar de ação, será acusado de fraqueza. Se não mudar de ação, pode ser punido com a derrota. Introduzir neste círculo vicioso da política mediada um elemento de verdade é impossível. Todo o sistema de ação e reação assenta na previsibilidade. Tanto mais que o jornalismo, que se tornou perito em prever e aconselhar em vez de noticiar, é tão previsível como a política. Os segredos e as verdades são para serem camuflados pela diplomacia e a hipocrisia de interesses e cumplicidades. Eu sei que tu sabes que eu sei.

Não admira que a campanha eleitoral pareça — e não passa de aparência — uma abertura, uma brecha no muro. Os pássaros saem da gaiola. Não podem dizer o que querem, mas podem sair do carro oficial, do círculo de cortesãos e conselheiros, sair da rota entre a casa e a sede, entre o gabinete e o gabinete, entre o avião e a reunião. Podem comer um pastel de bacalhau com o povo. Não são as inaugurações e as feiras, as Ovibejas e as fábricas, são instantes de vida quase normal. Tomam uma bica no café da vila, cumprimentam os velhos, ouvem as queixas das mulheres, pisam a rua. São vaiados e ovacionados com alguma sinceridade, apesar da camioneta que o partido manda “para compor a coisa, senhor doutor”. Podem dizer uma graça da sua cabeça, podem engasgar-se, podem chorar, podem rir. E podem divertir-se se fizerem parte do grupo de políticos que aprecia o banho de multidão e as imperiais ao balcão.

As campanhas eleitorais são dias de folga. Tirando isto, não sei para que servem.

De medo em medo

(Daniel Oliveira, in Expresso, 26/09/2015)

         Daniel Oliveira

                     Daniel Oliveira

A comunicação social tende a sobrevalorizar a sua própria importância nas escolhas dos eleitores. É natural que assim seja. Todos gostamos de nos sentir importantes. Mas a verdade é que a maioria decide o seu voto com base na sua experiência pessoal: o desemprego, a perda de rendimentos, os filhos que emigraram, os apoios sociais perdidos. Ou nas expectativas que têm sobre o futuro. Aquilo a que normalmente chamamos de indecisos são, na realidade, uma minoria. Uma minoria que acaba, muitas vezes, na abstenção. Mas pode ser ela, geralmente menos informada, a decidir eleições. Muitas vezes, o que determina o resultado são os abstencionistas intermitentes. Por isso, a campanha serve sobretudo para desmoralizar ou moralizar o eleitorado de um determinado espaço político e que é potencialmente abstencionista.

Naquilo em que a comunicação social conta muito é na construção da narrativa dominante sobre uma campanha e no processo de dramatização de que ela própria depende para vender o seu peixe. E o que marca a narrativa dos media são sobretudo as sondagens — algumas delas, como a da RTP, são tracking polls com base nessa cada vez mais rara arqueologia que são os eleitores que usam telefone fixo. Mesmo depois dos monumentais falhanços no Reino Unido, na Grécia e nas eleições legislativas de 2011, em que um empate técnico era afinal uma diferença de 10%. Esta dramatização beneficia a bipolarização e trava, eleição após eleição, a renovação do sistema político. Sobretudo quando a comunicação social cumpre o papel de guardiã do que existe e, com a ajuda de sondagens inúteis na aferição dos votos potenciais em pequenas candidaturas, relega para a obscuridade o que é novo e tem reais possibilidades de mudar o panorama partidário. Como se viu nas europeias, com o MPT e o Livre, ou nas eleições regionais da Madeira, com o JPP, os jornalistas são incapazes de reagir à novidade antes dela se ter consumado. Chegam à notícia quando já não é notícia.

A bipolarização, forçada pela dramatização e pela ocultação do que é novo, reduz drasticamente a escolha dos eleitores. E, com isso, a sua própria exigência. Saltam de voto útil em voto útil até, por nunca terem votado em quem realmente os pudesse representar, passarem do voto útil para voto nenhum. Votaram em Sócrates porque tinham medo que Santana ganhasse. Votaram em Passos porque tinham medo que Sócrates ganhasse. O ambiente de medo, que chantageia os eleitores para não votarem em quem concordam ou confiam, penaliza sobretudo os que estão, porque são recentes ou porque não querem governar, fora da alternância: PCP, BE e Livre/Tempo de Avançar. Aliás, a crónica indisponibilidade dos dois primeiros para soluções de governo é uma das maiores aliadas do discurso do voto útil.

Mas este tempo de crise tem sido, como sabemos, repleto de surpresas políticas. A 4 de outubro veremos se a memória do que foi o PS a governar com rédea solta e do que foi a tragédia social dos últimos quatro anos pesa mais do que a dramatização de última hora. Como temos visto noutros países europeus, há um momento em que, para muita gente, se quebra a rotina. É nessa altura que os sistemas políticos mudam e com eles muda realmente alguma coisa.