Algo de novo está a acontecer

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 26/02/2013)

bb1

Baptista Bastos

A luta de classes parece entusiasmar uma nova geração que tem pegado na flâmula de seus pais e continuado uma batalha sem fim.


O Reino Unido permanece, até ver, na União Europeia, com um “estatuto especial”. Não se sabe muito bem em que consiste esse “estatuto especial”, mas entende-se que o Reino Unido levou a melhor aos “donos” da Europa, após demoradas, delicadas e complexas negociações. Cameron disse que “defendera os interesses dos ingleses” e que pátria é pátria. Impôs-se o poder e um pouco de chantagem política de um grande país, ao contrário do que aconteceu com a Grécia e o Syriza, esmagados pelo espírito de vingança da Alemanha e pela subserviência besunta do que resta do orgulho europeu.

A União Europeia é uma falácia que se desmorona com celeridade porque as bases em que assenta nada têm que ver com a generosa e solidária ideia com que foi sonhada. A Alemanha e a alta finança tomaram conta do assunto quando verificaram no grande negócio que representava um mercado de 600 milhões. Seguiu-se a servidão de uma França que se julgava detentora de alguma coisa, quando nada tinha para oferecer, e a sofreguidão de um capitalismo sem freio e arfante de gula.

Nenhum dos outros países é mais feliz com esta “União” rebocada. Os partidos habituais no mando surgem como serventuários do império, e os seus dirigentes aparentam lacaios de uma imperatriz testuda e dominadora. Recordo, há anos, Merkel quando visitou um dos seus estimados, Pedro Passos Coelho. Tomou uma bica com ele, não chegou a estar duas horas em Lisboa e regressou a Berlim. Parecia uma mandante, em visita ao recanto do império, e Passos, um sicário sem grandeza nem personalidade.

Os partidos tradicionais, em estado de servidão, não contestam, nem recalcitram este poder discricionário. Ainda agora se viu, aqui ao lado, o PSOE mancomunar-se com o Ciudadanos, organização emanada do Partido Popular, para dar continuidade ao estado das coisas que estão. O Podemos, como o Syriza, tentam fender a muralha de interesses e de hegemonias registadas logo após a queda do Muro. O que seria um sinal de liberdade e de democracia transformou-se numa mascarada com as repercussões avassaladoras.

Começar de novo é empolgante, mas tudo se torna fatigante e moroso. Em Portugal, as coisas complicam-se. Porém, a luta de classes parece entusiasmar uma nova geração que tem pegado na flâmula de seus pais e continuado uma batalha sem fim. Há dias, um pobre homem, que trepou a deputado europeu pelo PSD, bolçou umas injúrias contra o Governo português. O tal é produto típico de uma amorfia que encontrou encosto nesta política de facilitismo e subserviência, sem a qual seria difícil aos sicários singrar na vida.

A verdade é que movimentos de intransigência moral e de combate político estão a surgir pela Europa e até nos Estados Unidos. Não se trata de epifenómenos, mas de organizações fundadas num grande entusiasmo e numa percepção nova da ideologia. A comunicação social portuguesa raramente noticia e poucas vezes analisa a natureza profunda destas inquietações. No entanto, algo de novo está a acontecer.

 

O desmantelamento da União, em pequenos passos e a várias velocidades

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 23/02/2016)

Autor

                            Daniel Oliveira

Durante décadas imperou a ideia de que a melhor forma de construir a União Europeia seria através de pequenos passos. Com Schengen e o euro esses pequenos passos passaram a ser grandes e apenas para os que os queriam dar, numa Europa construída a várias velocidades. O euro, já o escrevi vezes sem conta, foi o passo fatal. Previsivelmente fatal. Não se cria uma moeda comum, dependente de um mesmo banco central, sem políticas fiscais, orçamentais e até sociais comuns. Uma moeda comum sem instrumentos democráticos comuns passa a ser um perigo real para as democracias. Não se faz uma união cambial sem uma união política. Mas fez-se e os que ficaram de fora do euro suspiram hoje de alívio pela sensata decisão que tomaram. Só que ficaram em carruagens que não estão presas à mesma composição puxada pela locomotiva do euro. Estão, sorte a deles, livres de um comboio que corre a alta velocidade para o abismo.

Preleções morais ao Reino Unido sobre a sangrenta história de uma Europa dividida são, nesta altura, risíveis. Esse projeto generoso, se alguma vez realmente existiu fora da cabeça dos mais voluntaristas, morreu em Maastricht, teve o seu cadáver profano no Tratado de Lisboa e a sua memória é diariamente insultada desde que começou a crise financeira de 2008. O projeto europeu é hoje uma forma de contornar os mecanismos democráticos e impor uma agenda económica e política não sufragada. É um elemento de crispação, não de paz, de degradação das democracias, não do seu fortalecimento.

Não simpatizo com as exigências britânicas. Elas correspondem, na realidade, às mesmas inclinações políticas que liquidaram o projeto europeu. Mas numa União onde reina a arbitrariedade e os direitos e deveres dos Estados estão totalmente dependentes do poder político e económico de cada um, é difícil censurar David Cameron. Fez o que achava que devia fazer numa União onde a única regra é as regras serem diferentes conforme o poder de cada um.

O que o Reino Unido terá conseguido é ficar fora da União e manter os mercados europeus escancarados para as suas empresas. Conseguiu um regime de exceção numa Europa que anda a massacrar os países mais pobres com o “respeito por regras que são iguais para todos”. Um discurso que vai sendo repetido pelos tontinhos nacionais.

Não faço ideia o que cada Estado terá exigido para não vetar esta aberração. Espero que muito, todos eles. Que cada um tenha pedido a exceção que mais lhe convém. Ou há justiça ou comem todos. Não sei se Cameron conseguiu, com o regime excecional que terá conquistado para o Reino Unido, manter o país na União Europeia. Espero que não. Porque este acordo é mais um passo para uma Europa disfuncional. E porque uma saída do Reino Unido seria mais clarificadora e talvez obrigasse os Estados da União a prepararem um desmantelamento ordenado deste abarracamento cada vez mais absurdo.

Em Portugal, a saída do Reino Unido seria muito útil para tornar o debate sobre a Europa um pouco menos encriptado. Há, neste momento, quatro tipos de correntes políticas no debate sobre a Europa:

Uns são europeístas por conveniência. Representando interesses ou correntes ideológicas (ou as duas coisas) que não encontrariam no eleitorado base de apoio para as suas posições, buscam nas imposições europeias o respaldo para o seu programa político. São os defensores da TINA (“There Is No Alternative”) que têm encontrado nas instituições não eleitas da União um instrumento de chantagem muitíssimo eficaz.

Alguns são europeístas utópicos. A Europa solidária que desejam é uma ideia extraordinária, nos antípodas deste projeto de União. E estão dispostos a ver todas as conquistas sociais do século passado e até as democracias nacionais serem dizimadas enquanto esperam que essa ideia. São o mais próximo que hoje existe do que foi o vanguardismo revolucionário. Todas as tragédias são aceitáveis em nome de uma bela utopia.

Outros são os eurocéticos vanguardistas. Tendo a posição correta sobre esta má-formação institucional, pretendem acelerar a História, não tendo em conta a inexistência de condições políticas, económicas e financeiras para sair do euro (o que seria hoje, na prática, sinónimo de sair da União). Estão mais errados no ritmo do que na substância. E tendem a desprezar a importância da construção de maiorias sociais e políticas para passos tão significativos.

Por fim, há os eurocéticos pragmáticos. A muitos deles o europeísmo até já lhes pareceu uma excelente ideia. Hoje, acompanham este desmantelamento da União com a esperança que ele se faça da forma mais ordenada possível, dando o menor espaço aos radicalismos nacionalistas e protegendo os interesses dos países periféricos, com menor capacidade negocial. Não estão disponíveis para alimentar ilusões perigosas, mas sabem que não depende apenas de nós a escolha do momento em que finalmente nos livraremos deste monstro. É, como se percebe pela tolerância com que trato esta quarta corrente, o lugar onde me situo.

Haverá uma pequeníssima minoria de verdadeiros europeístas, tão utópicos (mas não tão generosos) como os defensores de uma democracia à escala global. De resto, o suposto fosso entre europeístas e eurocéticos, que tanto alimenta o debate político nacional, é um mero jogo de retórica. Tirando uns alienados que passeiam pelos corredores das instituições europeias e algumas pessoas que desistiram de participar nos combates políticos que contam, já ninguém acredita realmente no futuro deste projeto. Estão todos a ver o que ainda conseguem sacar dele.

É isso que o Reino Unido está a tentar: sair da União ficando apenas com o que lhe interessa. Poderá sair através desta farsa ou pela vontade popular dos britânicos. A bem da clareza democrática, espero que seja a segunda hipótese. Este gesto dos britânicos é apenas mais um momento da desconstrução da União, com passos curtos e a várias velocidades. Ao contrário do que fizemos no caminho inverso, devemos participar, de forma pragmática e construtiva, no fim ordenado do projeto europeu.