O orgulhoso sionista e o seu governador colonial — Herodes o Grande

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 26/07/2024)


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Na visita de Netanyahu a Washington, nos mimos trocados entre este e Joe Biden, o primeiro-ministro de Israel recordou a defesa do sionismo que Biden faz desde o início da sua carreira, há 50 anos, e o conhecimento de todos os primeiros-ministros de Israel desde Golda Meir e Biden respondeu que é um orgulhoso sionista.

As visitas de estado e afirmações têm traduções para o mundo. Esta é uma visita de um governador colonial ao imperador metropolitano e o sionismo é uma ideologia racista e colonialista.

Enquanto ideologia o sionismo começou por ser um movimento do tipo milenarista surgido no final do século dezanove e, como acontece com os movimentos milenaristas, num contexto político de incerteza que iria desembocar na Grande Guerra. Era um movimento do tipo do sebastianismo ou da busca do El Dorado. Era e é um movimento a-histórico, que inventa uma história a partir de efabulações e fantasias. Nunca existiu um Estado Judaico. A primeira referência à Palestina é de Hérodoto de 450 anos AC, segue-se a Palestina dos Selêucidas (175AC) que são derrotados pelos romanos e a Palestina é integrada no seu império, as elites locais integram a cultura helénica, e vivem sob o império de Roma até três séculos depois de Cristo, quando passam ao domínio de Bizâncio. Três séculos depois, (630) ocorre a conquista árabe, os cruzados cristãos europeus chegam em 1099, o império otomano (turco) instala-se na Palestina em 1500 e é substituído pelo império inglês após a I Grande Guerra, sendo então governada num regime de mandato da Sociedade das Nações.

O sionismo, de movimento milenarista passa a integrar o movimento do colonialismo dentro do mesmo princípio que presidiu à ocupação de África pelas potências europeias na Conferência de Berlim, no final do século dezanove e no âmbito da revolução industrial. A Palestina é a chave que controla todo o Médio Oriente, e este é a região mais rica e de mais barata exploração de uma matéria-prima essencial para as potências europeias, o petróleo. É, foi, a posse de matérias-primas essenciais aos europeus que se encontra na base do colonialismo e das suas obras.

O sionismo passou de uma bizarria de uns lunáticos nacionalistas a movimento utilizável para as potências industrializadas rentabilizarem os seus investimentos, dos quais os mais importantes são o Canal do Suez, os portos na entrada e saída no Mediterrâneo e no Mar Vermelho, e os caminho-de-ferro (todos investimentos europeus) e o acesso garantido, seguro e barato das suas companhias petrolíferas.

O sionismo que dá origem a Israel, é, geneticamente, uma justificação de superioridade rácica para um grupo ocupar um território e dele extrair as riquezas, sujeitando os nativos. É uma doutrina colonialista, como a do apartheid. Israel é uma colónia que começa por ser inglesa e que passa para o domínio dos Estados Unidos na transferência de poder que ocorreu após a Segunda Guerra Mundial. Num processo nubloso como é comum nas relações do Reino Unido e que acabou nas mãos das Nações Unidas, por sua vez nas mãos do Reino Unido e dos Estados Unidos e com a conivência da União Soviética. A colónia de Israel convinha a todos os envolvidos na Segunda Guerra e os palestinianos não contavam — até podiam ser acusados de colaboracionistas com os nazis.

O colonialismo foi considerado como uma doutrina contrária aos Direitos Humanos pela Declaração adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas na sua resolução 1514 (XV), de 14 de dezembro de 1960.

DECLARAÇÃO SOBRE A CONCESSÃO DE INDEPENDÊNCIA AOS PAÍSES E POVOS COLONIAIS

A Assembleia Geral, que afirma entre outras proclamações: “ Reconhecendo que os povos do mundo desejam ardentemente o fim do colonialismo em todas as suas manifestações, Convencida de que a manutenção do colonialismo impede o desenvolvimento da cooperação económica internacional, entrava o desenvolvimento social, cultural e económico dos povos dependentes e milita contra o ideal de paz universal das Nações Unidas, Afirmando que os povos podem, para os seus próprios fins, dispor livremente das suas riquezas e recursos naturais, sem prejuízo de quaisquer obrigações decorrentes da cooperação económica internacional, com base no princípio do benefício mútuo, e do direito internacional e acreditando que o processo de libertação é irresistível e irreversível e que, para evitar graves crises, deverá pôr-se fim ao colonialismo e a todas as práticas de segregação e discriminação a ele associadas […] Convencida de que todos os povos têm o direito inalienável à liberdade plena, ao exercício da sua soberania e à integridade do seu território nacional, Proclama solenemente a necessidade de pôr fim ao colonialismo, sob todas as suas formas e manifestações, de forma rápida e incondicional.

O Estado de Israel foi uma construção feita à medida dos interesses de estados estrangeiros, que, no caso do Reino Unido, administravam a Palestina sob mandato internacional e esse mandato não incluía a autorização, nem a delegação de competências em qualquer instituição para a criação de um estado no território de povos que milenarmente o ocupavam, o que não era o caso da vaga de estrangeiros que invocavam uma religião comum, o que era aplicável aos muçulmanos e a cristãos e um direito divino atribuído pelo Deus que haviam criado a terem aquela como a terra prometida e de onde antepassados seus, como antepassados de romanos, de semitas, de egípcios de persas e árabes haviam saído.

Afirmar-se um orgulhoso sionista é afirmar-se um orgulhoso racista — o sionismo assenta na crença da superioridade do povo eleito — e um orgulhoso colonialista: a ocupação da Palestina por colonos que defendem na colónia os interesses da metrópole. E esta é a política do imperador e do império, à margem e em oposição à Carta das Nações Unidas, reafirmada por Joe Biden. Por isso Gaza e os palestinianos estão a ser eliminados e arrasados, como os povos índios foram.

O facto de o sionismo ser um fenómeno político assente no racismo e no colonialismo não anula as vantagens que a existência de Israel como colónia tem para o Ocidente Global. Israel é útil para controlar os preços do petróleo, e de todas as mercadorias vindas da Ásia. É útil como campo de experiências de alta tecnologia militar e de controlo do espaço na região e como fator de desestabilização utilizável quando conveniente. Funciona como um lacrau que o Ocidente ali tem debaixo de uma pedra e que solta quando lhe interessa.

Mas a utilidade de Israel não anula as duas bases da sua existência, a do racismo e a do colonialismo. Que o velho imperador tenha confessado os seus princípios no momento em que o despedem é um ato que tanto pode ser interpretado como de dignidade, como de perversidade, quem o substitui não pode ser menos sionista que ele, e menos desrespeitador das convenções internacionais que ele se quer manter a útil colónia no Médio Oriente.

As acusações de criminoso a Netanyahu são contra a natureza das coisas: jamais um governador colonial foi demitido por excesso de dureza na imposição do poder imperial, mas sim por fraqueza na ação de domínio.

Os dois Herodes, pai e filho, o Grande e o Antipas, que governaram a Palestina em nome dos romanos são um exemplo, o violento pai, Herodes o Grande, foi um fiel servidor dos romanos e o filho Antipas, que já não conseguiu manter a ordem na Palestina foi substituído. Netanyahu conhece a História e daí o seu ar confiante e sorridente.

O monstro do genocídio desiste e apoia a sua colega monstra do genocídio

(Caitlin Johnstone, 22/07/2024, Trad. Estátua de Sal)

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O presidente Biden cedeu à pressão crescente para abandonar a corrida presidencial devido a preocupações generalizadas sobre o seu óbvio declínio neurológico, renunciando e endossando o seu clone ideológico perfeito, Kamala Harris. Aparentemente, o consenso é que ele está demente demais para concorrer à presidência, mas não está demente demais para ser presidente nos próximos seis meses.

E, no fundo, tanto faz, meus caros. Tal não significa nada nem muda nada, a não ser, talvez, diminuir um pouco a probabilidade de um gestor do império republicano ser empossado como presidente, na Casa Branca, em Janeiro. Harris difere de Biden apenas na voz e na aparência, e tem sido uma defensora entusiástica das atrocidades genocidas de Biden em Gaza, nos últimos nove meses e meio.

Harris, presumindo que ela ganhe a nomeação, fará campanha com a promessa de continuar a incineração de Gaza apoiada por Biden, continuar o apoio “firme” de Biden a Israel, continuar a guerra por procuração de Biden na Ucrânia, continuar as escaladas de Biden contra a Rússia e a China, continuar a expansão da máquina de guerra, promovida por Biden nos EUA , continuar a facilitação do capitalismo ecocida de Biden e continuar as políticas desumanizantes de exploração mundial e extração imperialista de Biden. Se ela entrar na Casa Branca, a face deste projeto mudará, mas o projeto, em si, não.

E o mesmo acontecerá se Trump entrar.

De tempos em tempos, o império dos EUA realiza este pequeno e estranho festival onde finge que o governo está a mudar de mãos e que agora começará a operar de uma forma significativamente diferente da forma como operava antes. Mas, depois a exploração continua, a injustiça continua, o ecocídio continua, as guerras continuam, o militarismo continua, o imperialismo continua, a doutrinação da propaganda continua, o autoritarismo e a opressão continuam.

O comportamento do império não muda com a contratação de um novo presidente, assim como uma corporação não muda com a contratação de um novo secretário na recepção de seu escritório principal.

Muito será dito sobre a raça e o gênero de Kamala Harris. Muito será dito sobre o fato de ela não ser Donald Trump. Muita emoção envolverá a sua campanha. E então, quer ela ganhe ou perca, nada mudará. Não será possível concluir isso, olhando apenas para a maquinaria do império que assumirá o poder em janeiro. Mas o seu comportamento permanecerá o mesmo.

Nada de real está a acontecer ao nível da política eleitoral na América. Os protestos são reais. O ativismo é real. Os esforços para combater a máquina de propaganda imperial, e despertar as pessoas da sua doutrinação são reais. Os esforços para dar origem a um verdadeiro zeitgeist revolucionário são reais. Mas as próprias eleições são um ritual performativo, realizado para ajudar as pessoas a sentirem-se bem consigo mesmas, como um sacramento religioso ministrado por um padre.

Um monstro genocida retirou-se e empossou outro monstro genocida. Esse é o resumo da história da desistência de Biden. Estes são, pois, os comentários e a atenção que ela merece.

Fonte aqui.


EUA: Duplo golpe de estado no Partido Democrático – recordações dos tempos da URSS

(Zé-António Pimenta da França, in Facebook, 24/07/2024)


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Os mais velhos dentre nós lembrar-se-ão dos momentos de sucessão na falecida URSS: o Politburo do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) nomeava o candidato selecionado para ascender a secretário-geral do PCUS, o dirigente supremo da URSS. Horas depois, o Comité Central do PCUS emitia um comunicado em que anunciava que o candidato nomeado tinha sido eleito “por unanimidade”. E logo todas as esferas superiores, intermédias e organizações de base do PCUS demonstravam júbilo pela sábia eleição e nomeação do escolhido. O Politburo nunca falhava, sabia sempre interpretar os anseios dos militantes do PCUS.

O mesmo se passou nesta sucessão verificada no Partido Democrático dos EUA. Biden renuncia à presidência, logo a seguir é nomeada Kamala Harris como a escolhida para se candidatar à presidência dos EUA. E nas horas seguintes é o desfile de notáveis do Partido Democrático a manifestar-se em demonstração de unanimidade no apoio total à escolhida.

Não há, no Partido Democrático dos EUA, nenhum Politburo que possa escolher à porta fechada o candidato e o nomeie. Não está previsto nos estatutos nem na orgânica do partido.

O que está previsto é que isso seja feito em congresso partidário. Há uma série de candidaturas que se vão apresentando e, depois de uma campanha eleitoral interna e de vários debates da campanha, os militantes escolhem o candidato em congresso.

No caso presente argumenta-se que não havia tempo para isso, embora haja muitos que defendam que havia. O que se passou é que um grupo de pessoas (sabe-se lá quem), sem qualquer cabimento na estrutura oficial do partido, substituiu-se ao congresso e ter-se-á reunido para nomear Kamala Harris. Ao menos, na URSS, toda a gente sabia quem eram os membros do Politburo, a sua constituição era pública, era oficial. No Partido Democrático não. Serão os financiadores (quem paga, manda!) a gente com mais poder dentro da estrutura partidária? Não se sabe. Sabe-se que os Clintons, os Obamas e a Nancy Pelosi (determinantes na queda de Biden) não queriam esta candidata. Mas os poderes ocultos escolheram. Reuniram-se e escolheram, nomearam e pronto, já está.

E aparece toda a gente a apoiar, uns atrás dos outros, as manifestações de júbilo são gerais, todos concordam que é a candidata certa. Até já há sondagens a mostrar que ela já vai à frente do Trump…

Não podemos negar que o processo de escolha e nomeação acaba por ser bem-parecido com o da falecida URSS.

Dois dias, dois golpes no Partido Democrático: no primeiro, reuniram-se e decidiram deitar abaixo Biden (ver o meu texto de ontem sobre a queda do Biden, aqui). Fizeram-no de forma simples e expedita: congelaram-lhe o dinheiro para a campanha eleitoral. Foi como se apertassem o pescoço ao Biden até não mais poder. O homem, que queria a toda a força continuar na corrida, não teve outro remédio senão renunciar.

Um dia depois escolheram a sucessora à porta fechada. Foi anunciada e logo choveram os milhões em apoio à mulher providencial, já não falta dinheiro à candidatura.

Num partido cheio de fações muito diversas, que não se podem ver umas às outras, não deixa de ser estranho que a unidade tenha surgido num ápice para combater a ameaça trumpista. Nem uma voz a contestar. Os que pediam um congresso aberto, onde os militantes escolheriam entre os candidatos que lá se apresentassem, calaram-se todos. milagre!…

Que se lixe o congresso aberto. É assim a democracia americana: o dinheiro é que manda, põe e dispõe, escolhe e rejeita. Qual democracia de base, qual quê? Quem tem dinheiro manda. Os outros obedecem e nem piam…

Dois dias, dois golpes que de democráticos nada têm … Tudo congeminado no segredo, bem longe dos holofotes. Poderes ocultos, são eles que mandam. Neste caso puderam mais que gente tão poderosa como os casais Clinton, Obama e Nancy Pelosi que derrubaram o presidente em exercício.

O dinheiro fala muito alto e o poder funciona da mesma forma em todo o lado…