Estamos todos em perigo!

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 12/02/2016)

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Baptista Bastos

Nem mesmo Francisco Sá Carneiro, porque demasiado autoritário, seria social-democrata genuíno. Quando muito, demoliberal.


 

O dr. Pedro Passos Coelho declarou, à puridade, ser social-democrata, ideologia que nunca praticou nos quatro anos e tal em que governou o país. Temo, aliás, que, dos fundadores do PSD, apenas dois, Francisco Pinto Balsemão e Magalhães Mota, possuíam noções do que era, ou seria, a social-democracia. Nem mesmo Francisco Sá Carneiro, porque demasiado autoritário, seria social-democrata genuíno. Quando muito, demoliberal. Estava-lhe no sangue, na cultura e no ambiente em que vivera e, de certa forma, o moldara.

O PSD foi estruturado numa mistura insólita de proveniências. Nele se acolheram republicanos sossegados, fascistas à procura de telhado, dissidentes do salazarismo à espreita de melhor futuro e desempregados da política. Esta “mixurucada” era uma confusão de tal ordem que o próprio Sá Carneiro com ela não se entendia. E disse-o a quem o quis ouvir. Afastou-se, foi a Londres, adoeceu ou não, e, depois, impôs o seu estilo e ânimo a um partido que, rigorosamente, não existia. O partido era Sá Carneiro, tal como ele concebia a sociedade e o mando. De social-democracia, nem o cheiro. Aliás, não é de estranhar: poucos sabiam o que a definição queria dizer. E nunca mais nenhum curou de saber. Os discursos e as notas políticas de Sá, reunidos em volumes, nada adiantam, e, pior, não esclarecem o seu pensamento. Não é grave; simplesmente, é o que é.

Os sucessivos primeiros-ministros que lhe sucederam não contribuíram para o esclarecimento da coisa. Repito: apenas Balsemão, por temperamento, espírito democrático e algumas leituras, e, também, por se aperceber dos novos ventos da História, queria pertencer a outro tempo. Sei muito bem do que falo. E muito mais.

Pedro Passos Coelho disse por dizer aquelas frases sobre a social-democracia. Ele percebe não possuir foças suficientes para mudar o rumo, ancilosado, de um partido que nunca poderá ser social-democrata, até pelas origens da sua fundação e porque não faz sentido algum. Alguns “companheiros” irritaram-se, mansamente embora, pela deriva e assunção direitista claramente assumidas por Passos Coelho, na obediência tola aos ditames alemães. Só isso, e nada mais.

Espancou o país, note-se: os mais pobres e desfavorecidos, e ganhou as eleições. Não é totalmente surpreendente. Com um PS como este, cheio de armadilhas e ciladas, mais propenso ao remanso do que à luta, declaradamente conservador e plácido (exemplos: Seguro, Beleza e Assis, entre outros) nada é improvável. Acresce a comunicação social, um molusco desacreditante, e aí estão as causas das coisas.

O Bloco de Esquerda, que empurrou o PCP para uma situação insólita, aproveitou o vazio e impôs a vivacidade de uma linguagem, e a força de quatro ou cinco mulheres, preparadas e combativas, num tempo de grandes mudanças. Claro que dito assim, tudo é rudimentar. Mas a verdade é que tem sido assim que as mudanças se efectuam.

Tudo está a alterar-se, a ser alterado, e os dirigentes políticos, os nossos e os europeus, parece que não estão a tempo. O “sistema” criou uma série quase infinita de ociosos que vivem à custa dos outros, e fomentou o “facilitismo”, a pior de todas as indolências que destrói, lentamente, as sociedades, como acontece na nossa e em outras. É preciso dizer que estamos todos em perigo.

A ignomínia europeia

 

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 05/02/2016)

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Baptista Bastos

 

A “União” Europeia é uma fraude, diariamente provada, e a última prova tem sido o êxodo de milhares e milhares de refugiados.


 

A Comissão Europeia tem feito tudo o que há de mais sórdido para dificultar a vida ao Governo português. Há dias, na SIC Notícias, o comentador do programa Opinião Pública, da manhã, revelou o que o sorridente preopinante de economia nunca o fez: denunciou a “cilada” e as “armadilhas” (expressões usadas) que aquela Comissão estendera a António Costa, para o derrubar e ao seu legítimo Governo. Sabe-se que quem domina a “União” Europeia é uma casta de Direita, cujas decisões implicam, de imediato, a imposição de uma linha doutrinária assente no mais atroz capitalismo. O cerco e o esmagamento feitos ao Syriza, na Grécia, e a claudicação do Governo saído daquela experiência política, é um dos mais repugnantes aspectos da orientação imposta pelos dirigentes da “União”.

O Partido Popular Europeu reúne organizações de Direita, as mais extremadas e da “extrema” pura e dura. A esse agrupamento político, extremamente influente, pertence Pedro Passos Coelho, que tem sido apoiado, por vezes sem discrição nem pudor, por quem, na realidade, dirige esta Europa iníqua, e que me parece sem arranjo político nem moral.

A pouca-vergonha das “ciladas” e “armadilhas” colocadas no projecto político de António Costa atingiu a sua expressão mais imunda por estes dias, com a delonga do Orçamento do Estado. Costa e Centeno têm conseguido “driblar”, com grande astúcia política, as manobras daqueles senhores, que não são mais do que “factotuns” do “sistema”, o qual possui como sentinela vigilante a senhora Merkel e o sinistro Wolfgang Schäuble.

Para quem não estiver dentro das baias, eles são implacáveis. Apesar das torpes ameaças, pequenas plataformas de resistência e de desafio têm surgido, um pouco por todo o lado. As pessoas, milhões e milhões, já não suportam o peso esmagador desta fase do capitalismo, e demonstram a sua indignação das maneiras e com os processos mais diversos. A “União” Europeia é uma fraude, diariamente provada, e a última prova tem sido o êxodo de milhares e milhares de refugiados. E a forma com que esta Europa os acolhe e trata. A Europa é alemã, na expressão mais belicosa que o nacionalismo possa envolver. Não ganhou nos campos de batalha, legou um cortejo de mortes e de indignidades, e, com a cumplicidade de muitos dirigentes políticos europeus, parece estar a vencer nas manigâncias. Digo “parece” porque as resistências surgem, e de que maneira!, até nos Estados Unidos, criando novas barricadas com um “sistema” que tende a destruir o nosso modo civilizacional de viver.

A comunicação social portuguesa queda-se em pequenos jogos de “economês” (de que a SIC é monumento), sem explicar a natureza do que está a acontecer. Ocasionalmente, como aconteceu na última quarta-feira, no Opinião Pública, lá aparece um colaborador que vai esclarecendo a massa ignara das manobras ocorridas nos bastidores. Ocasionalmente.

Entretanto, vamos vivendo neste lodaçal de cumplicidades e de conivências: a Europa dissolve-se em uma miséria ética e de princípios onde os valores são esvaziados com displicente indiferença. O que se pretende fazer com o Governo de António Costa é inominável. Aqui fica o registo da ignomínia.

 

O homem que as televisões criaram

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 22/01/2016)

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Baptista Bastos

Que sabemos de Marcelo fora do que a televisão nos queira dar? As omissões chegam a ser afrontosas.

Se as eleições presidenciais derem a vitória a Marcelo Rebelo de Sousa, mais uma vez ficarão provados os malefícios da televisão, quando usada como o tem sido no nosso país. Quais os méritos do candidato, para exercer um cargo tão importante como o de Presidente? É um homem afável e sorridente, mas isso não chega. É bom professor, também não chega. Chega o quê? Depois de Cavaco, nem tudo basta. Cavaco foi, certamente, o pior Presidente depois de Abril. Aliás, ele nunca demonstrou grande simpatia pela Revolução e quase sempre tripudiou sobre a Constituição da República. Como primeiro-ministro, foi o que se viu. E a afabilidade cúmplice que mostrou por Passos Coelho e os seus é sintomática do unilateralismo ideológico que o impulsiona. Marcelo provém dessa linha: o respeitinho é muito bonito; reverência a tudo o que vem da ordem e da formatura.

Que sabemos de Marcelo fora do que a televisão nos queira dar? As omissões chegam a ser afrontosas. Têm-no filmado a mexer em livros; a mergulhar nas águas do Tejo; a dizer que lhe chegam quatro horas de sono; a cultivar uma convivência estudada; a falar dos netos, pouco mais. Sabemos que foi amigo de peito de Paulo Portas; que chamou lélé-da-cuca a Francisco Balsemão; que apresentou um romance de José Saramago; que passa o Verão numa praia algarvia, onde vai toda a gente que deseja ser tomada como importante e fotografada na Caras.

É pouco?, é muito?, é suficiente? Nenhuma das qualificações justifica a apetência do homem pela Presidência. Dizem-me, agora, que teria prometido ao pai vir a ocupar Belém. Sendo assim, promessas são para cumprir. Mas ele não pode, em nome da consciência social, tapar as cartas a Salazar, recuperadas por Freire Antunes, tidas como devaneios juvenis, enquanto outros jovens, da mesma idade, eram presos e torturados por serem “do contra”. Ninguém está ligado ao seu passado, eu sei, mas se no episódio falo, é porque desejaria que nisso falasse como pedido, não de desculpas, mas de compreensão.

Nós sabemos como as estações de televisão, uma delas mais do que as outras, é certo, têm “puxado” por Marcelo, porém, essa tendência cobrará juros, mais cedo do que se pensa. Chegámos a um ponto crucial em que os portugueses têm de escolher entre a continuidade de um propósito ideológico e a caminhada para outro futuro.

O candidato da Direita afirma que o não é, e chegou a asseverar ser “a Esquerda da Direita”, numa daquelas embrulhadas de retórica em que é consumado. Devo dizer que nada tenho de pessoal contra ele, de quem, alias, tenho recebido demonstrações de estima. Isso não chega para o querer como Presidente.

O Marcelo que aparece, agora, nas televisões, nada tem a ver com o outro, o autêntico que julgamos conhecer. O carácter dúplice de Marcelo Rebelo de Sousa é uma característica que, de quando em vez, salta da máscara. Podemos eleger um indivíduo como ele para tudo, ou nem isso, nunca para Presidente da República. Bem o espero!