É preciso que nos não esqueçamos

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 06/11/2015)

Baptista Bastos

Baptista Bastos

Quando o pobre Francisco Assis decide dissentir, os argumentos usados são retirados da poeira da guerra fria. O pessoal já não vai nisso. O Assis e os Assis têm de procurar outras alamedas de justificação.


Chega a ser comovente, por néscio e calamitoso, a gesticulação da direita e da direitinha, em vista de um governo de esquerda. Os preopinantes que, em pelo menos dois diários, choramingam a sua superior ignorância, fazem dó. Atribuem à esquerda todos os malefícios do mundo, desconhecendo (não fingem desconhecer: desconhecem mesmo) o percurso da História e as batalhas estabelecidas pelos homens para que a felicidade seja possível.

São aqueles que um velho jornalista de O Século chamava os “apedeutas”, escarmentando, com essa palavra antiga, aqueles que, sem saberem coisa alguma, punham-se sempre ao lado dos poderosos. Mas não vale a pena estrebuchar: as coisas vão mudar, porque as coisas mudam naturalmente em ciclos que nenhuma obstrução consegue evitar. Não sei se tudo vai melhorar; mas muita coisa vai ser outra.

Nesta união aparentemente espúria, entre o PS, o PCP e o Bloco de Esquerda, o facto em si só o é porque António Costa, inopinadamente, decidiu interromper as derivas do seu partido, que sempre obedecera às cambiantes da política de apoio ao capitalismo, aliando-se umas vezes ao PSD, outras ao CDS. Há uma fatia larga das questões sociais que é comum àqueles partidos, embora no PS, essa fatia larga, chamada “socialismo” fora colocada na gaveta e esta zelosamente fechada à chave. Tão simples quanto isso. Quando o pobre Francisco Assis decide dissentir, os argumentos usados são retirados da poeira da guerra fria. O pessoal já não vai nisso. O Assis e os Assis têm de procurar outras alamedas de justificação.

É evidente que esta união não é vista com olhos amenos entre muitos militantes comunistas e socialistas. A cultura ideológica entre uns e outros tem sido sempre de hostilidade, animada, estimulada e tantas vezes provocada pelos próprios dirigentes dos dois partidos. Lançar gasolina para a fogueira nunca deu bom resultado. Mas também é evidente que esta situação de agressividade e, até, de desprezo pelo outro, não podia durar eternamente. A própria circunstância de o Muro de Berlim ter sido destruído e a União Soviética ter implodido explicam, talvez, o esmaecimento dos partidos obedientes àquela linha. Penso que a ideia difusa de “fortaleza cercada” e “inamovível” está historicamente ultrapassada. Na batalha dos dois sistemas, o capitalismo venceu, mas nada, em História tem carácter permanente. O que está a acontecer, em Portugal, como em outros países, é significante. Pode a direita e seus sequazes e estipendiados guinchar de susto e desespero, que nada evitará o desenrolar dos acontecimentos. Claro que este avanço das coisas, o chamado “processo histórico”, não será nunca linear e os obstáculos no caminho também pertencem à natureza dos factos. Mas foi aberta uma ruptura, com as decorrentes euforias e as consequentes traições e dissidências. Tudo está previsto.

O PS tem sido uma espécie de respaldo da direita. Os lugares são equilibradamente distribuídos. A “alternância” nunca foi “alternativa” e tudo corria no melhor dos mundos, tanto mais que, com o “socialismo na gaveta”, o caminho estava facilitado. Uns iam para lugares bem remunerados, na administração ou no privado; outros eram chutados para Bruxelas, quando o maná foi aberto; outros, ainda, entravam na “diplomacia”, enfim, o forrobadó. Nem tudo será arredado e a casa nunca ficará totalmente asseada. As raízes da miséria moral são fundas e estão bem regadas, e o silêncio cúmplice é, habitualmente, bem remunerado. No entanto, continuo a crer que a esperança tem muitas vezes razão, e que, neste sentimento, não estou sozinho: milhões e milhões de homens e mulheres caminham a meu lado.

Temos uma larga experiência do sofrimento, da dor e da repressão. E temos, igualmente, um conhecimento largo da luta e da resistência. O nosso património moral, cultural e intelectual é infinitamente superior ao “deles.” É preciso que nos não esqueçamos.

Nove razões por que será bom ter um governo de esquerda

(José Vítor Malheiros, in Público, 03/11/2015)

José Vítor Malheiros

    José Vítor Malheiros

A primeira razão é mesmo aquela que o PSD e o CDS já adivinharam e vieram denunciar nos debates televisivos em tom inflamado, como se fosse razão para uma pessoa honesta ter vergonha.

A primeira razão por que será bom ter um governo de esquerda é mesmo (confesso, confesso) não ter de continuar a ver e ouvir Pedro Passos Coelho nove vezes em cada noticiário, primeiro como primeiro-ministro, depois como presidente do PSD, depois como candidato às eleições, depois como representante de Portugal (vá-se lá saber porquê) num Conselho Europeu, depois como conferencista numa conferência, depois como entrante numa feira agrícola, depois como sainte de uma audiência com Cavaco, depois como visitante daquilo e comentador da outra coisa. Isso, só por si, é um alívio.

Não é que seja pessoal, que não é. Não é só porque os seus lábios eternamente crispados e a escassez do seu léxico me arrepelam a vesícula. Não é só porque a sua cerviz curvada e as suas mãos postas frente a Angela Merkel me encanzinam. É mais político. Mas pôr fim à sua ubiquidade será uma bênção.

A segunda, mais séria, é porque poderemos ter um governo que, para equilibrar as contas, vai recorrer a outras medidas que não sejam rapar os rendimentos do trabalho, confiscar subsídios, aumentar o IRS, criar prestações extraordinárias sobre os salários, cortar pensões, reduzir prestações sociais, cortar serviços públicos, vender empresas públicas estratégicas fundamentais para a economia e vai (espero) encontrar meios de aumentar a receita fiscal olhando também para o património e para os rendimentos do capital e, principalmente, reduzindo a “fuga legal” aos impostos das grandes empresas e das grandes fortunas. Poderemos ter um governo que não acha que os trabalhadores são mimados, que os desempregados são preguiçosos, que os beneficiários de subsídios são parasitas, que os emigrantes são piegas. Poderemos ter um governo que olha para nós não como contribuintes mas como pessoas e cidadãos.

A terceira razão é porque o novo governo vai (espero) defender os interesses nacionais em Bruxelas e noutros fóruns internacionais, o que é uma novidade bem-vinda (quase que nos esquecemos como é que é, mas é possível) e discutir com os parceiros da União Europeia como se fossem parceiros em vez de sermos empregados deles apanhados em falta.

A quarta razão é porque o novo governo vai tentar fazer crescer a economia, o investimento, o emprego e o rendimento disponível dos portugueses, apostando na educação, que garante o reforço das competências; na investigação, que produz o conhecimento que é a matéria-prima mais importante que há; na inovação, que transforma o conhecimento em riqueza; na sustentabilidade social e ambiental, que garante que as próximas gerações não encontrarão um país delapidado e que criará novos mercados; no financiamento das PME, que representam a maioria da economia nacional.

A quinta razão é porque acabou o ilegal, ilegítimo, inconstitucional, imoral e estúpido cordão sanitário que impedia que os partidos à esquerda do PS se aproximassem do poder (veja-se como Cavaco reage à ideia de PCP e BE possam apoiar o futuro governo!) e que desperdiçava assim uma imensa quantidade de ideias e de capacidade de intervenção e afastava milhões da política ao certificá-la como um jogo viciado à partida, onde só a direita e a esquerda light podiam actuar.

A sexta razão é porque vamos enfim ter bancadas parlamentares que apoiarão o governo mas que não serão apenas a voz do dono, exemplos vergonhosos de submissão, de obediência e de subserviência mas que farão o seu dever como representantes do povo, apoiando quando necessário mas também discutindo e propondo alterações.
A sétima razão é porque teremos um governo que não confunde o Estado Social com a sopa dos pobres – como a pobre, pobre Isabel Jonet – e que sabe que o Estado Social é de todos para todos porque só assim se garante a justiça e a equidade e só assim se garante a qualidade e a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, da escola pública, da Segurança Social, dos programas sociais.

A oitava razão é porque vamos ter um governo que sabe o que é a Cultura e que não a confunde com a decoração de interiores, que sabe que a cultura é um factor de progresso social e individual, de bem-estar social e individual, algo essencial para a vida intelectual de cada um de nós e, por isso, para a nossa vida em sociedade, para o estímulo do conhecimento, da criatividade, do prazer da fruição, do sentido crítico e do sentido de humor sem os quais não se consegue inventar uma sociedade onde seja bom viver.

A nona razão é porque poderemos ter enfim uma governação e uma acção política que não é apenas obediência (à Comissão Europeia, ao Banco Central Europeu, ao FMI, ao Eurogrupo, à Alemanha, aos mercados, à Goldman Sachs, aos tratados existentes e a existir, aos poderes estrangeiros em geral) mas que pode ser invenção, imaginação, participação, debate e criação. A nossa invenção. Como numa democracia!

O que Passos Coelho uniu

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 22/10/2015)

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         Daniel Oliveira

                        Daniel Oliveira

Anda tudo muito concentrado nas posições de alguns deputados – claramente minoritários no seu grupo parlamentar – e de socialistas como Francisco Assis e Sérgio Sousa Pinto. A decisão de Sousa Pinto não comparecer à Comissão Política foi tratada como um alívio para António Costa. Cheira-me que será mais o oposto: Sousa Pinto não terá de se confrontar com o reduzido peso que a sua posição tem no partido. Do que sei, por via de muitos socialistas com que vou falando, o PS não está a viver tempos de guerra interna. Parece ser claramente maioritária a posição que está a ser defendida por António Costa. Quem conhece as dinâmicas destes partidos consegue pressenti-lo com facilidade. Fosse outra a divisão, seriam figuras de outro peso a dar voz à insatisfação e a desafiar a liderança de Costa. Sem desprimor para os próprios, o facto de ter sido Sousa Pinto a bater com a porta e Assis a liderar a suposta revolta interna deixa claro que a situação, na base, estará relativamente pacificada.

Não quero, nestes tempos de grandes mudanças repentinas, fazer qualquer prognóstico. Mas o sonho de ver um grupo de deputados viabilizar o governo de Passos Coelho não me parece ser, por agora, mais do que isso: um sonho. Para um conjunto de deputados furar a disciplina de voto numa moção de rejeição, caso em que consensualmente essa disciplina sempre foi aceite em todos os partidos, era preciso ter uma larguíssima base de apoio na militância do PS e, a liderá-lo, pessoas de um peso pelo menos comparável ao de António Costa. Não é decididamente o caso. Tal opção seria, por isso, um extraordinário caso de suicídio político. Se essa cisão existisse, os orçamentos e os programas passariam a ter de ser negociados com os 230 deputados. É uma possibilidade que provavelmente obrigaria à mudança do sistema eleitoral.

De todos os relatos que me chegam – que podem estar sempre marcados pela vontade dos mensageiros –, há, em torno desta negociação, um apoio claríssimo da maioria dos militantes do PS. Ou seja, o PS está tão unido como consegue estar em torno desta solução. Ao contrário do que possam imaginar, essa unidade é também bastante evidente no Bloco de Esquerda e no PCP. Mesmo que entre alguns dirigentes exista apenas uma aceitação contrariada de uma inevitabilidade, as bases militantes parecem estar satisfeitas com esta solução. Quanto aos eleitores dos três partidos, não ficarei no papel de interpretador de votos que são sempre contraditórios. Uma coisa é certa: a única sondagem conhecida deixa o PS com a mesmíssima votação que teve nas eleições. Não é aí que a coligação iria buscar mais votos, que continuariam a não lhe dar maioria para governar. A ser assim, quem votou no PS não se zangou com esta solução. Certo é que a comunicação social está longíssimo de refletir os equilíbrios de posições existentes na sociedade. Não encontro, aliás, quase nenhum jornalista que não o reconheça. Mas sobre isso já escrevi e voltarei a escrever, em separado, noutros textos.

A pergunta que resta fazer é esta: como foi possível que militantes, dirigentes e, na minha opinião, a maioria de eleitores do PS, BE e PCP conseguissem vencer divisões de décadas em tão pouco tempo? A explicação não é difícil de encontrar: foi Pedro Passos Coelho que os uniu. Os últimos quatro anos foram de uma tal violência ideológica e social que a fratura política que se deu tornou-se intransponível.

É verdade que PSD e CDS conseguiram reconquistar, no fim da corrida, o seu voto mais fiel (tiveram um dos resultados mais baixos da direita desde o 25 de Abril). Mas quem votou PS, BE e PCP não quer Passos no poder nem mais um dia. Dirão que se trata de um voto negativo. É verdade. Mas ele é de tal forma sentido que os partidos de esquerda se viram obrigados a transformá-lo num voto positivo.

Alguns dos comentadores e jornalistas menos apetrechados para a análise política resumem tudo a análises de personalidade. Acham que o que está em causa é a sede de poder de Costa. Confesso que é um tipo de debate que me interessa pouco. Mas mesmo que assim fosse, não faltaram políticos com sede de poder. E, no entanto, nunca nenhum, à esquerda, conseguiu fazer o que Costa está a fazer. Porque as condições são totalmente novas. António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa ouviram, na campanha, a mesma coisa dos seus eleitores: “entendam-se!” Os seus militantes, que são cidadãos com os problemas dos demais, entram-lhes nas sedes para lhes dizer o mesmo: “entendam-se!” Porquê? Pela mudança a que estamos a assistir, e que terá efeitos profundos e duradouros no sistema político-partidário, a direita só deve agradecer ao radicalismo político do líder do seu maior partido. Não há ação sem reação. Esta capacidade de entendimento é fruto de um sentimento comum ao chamado “povo de esquerda”. E esse sentimento é a reação ao que foram os últimos quatro anos.